Ler um sintoma

Ler um sintoma

Pizarnik-Solo las palabras Artista: Alejandra Korek

“Pizarnik-Solo las palabras”. Artista: Alejandra Korek

Jacques-Alain Miller (Paris)

 

Tenho que lhes revelar o título do próximo congresso da NLS, para justificá-lo e apresentar sobre o assunto algumas reflexões que poderão servir-lhes como referência para a redação dos trabalhos clínicos que ele convoca. Esse título, escolhi a partir de duas indicações que recebi de sua presidente, Anne Lysy. A primeira é que o Conselho da NLS gostaria que o próximo congresso falasse sobre o sintoma; a segunda é que o lugar do congresso seria em Tel-Aviv. A questão era então determinar qual acento, qual inflexão, qual impulsão dar ao tema do sintoma. Pesei isso em função de meu curso, que acontece em Paris, semanalmente, onde me explico com Lacan e a prática da psicanálise hoje, essa prática que já não é exatamente, talvez não seja de modo algum aquela de Freud. E em segundo lugar, pesei o acento a dar ao tema do sintoma em função do lugar, Israel. E então, tudo suficientemente ponderado, escolhi o seguinte título: “ler um sintoma”, to read a symptom.

Saber ler

Aqueles que leem Lacan, sem dúvida reconheceram aqui uma ressonância do que propõe em seu escrito “Radiofonia”, que vocês encontram na coletânea dos Outros escritos, na página 427. Ali ele destaca que o judeu é aquele que sabe ler.1 É esse saber ler que se tratará de questionar em Israel, o saber ler na prática da psicanálise. Eu diria de pronto que o saber ler, como o entendo, completa o bem-dizer, que se tornou um slogan entre nós. Eu sustentaria de bom grado que o bem-dizer na psicanálise não é nada sem o saber ler, que o bem-dizer próprio à psicanálise se funda em saber ler. Se alguém dá muito crédito ao bem-dizer, só alcança a metade do que se trata. Bem-dizer e saber ler estão do lado do analista, é seu apanágio, mas ao longo da experiência, trata-se de que o bem-dizer e o saber ler se transfiram para o analisante. De certo modo, que ele aprenda, fora de qualquer pedagogia, a bem-dizer e a saber ler. A arte de bem-dizer é a definição dessa disciplina tradicional que se chama retórica. Certamente, a psicanálise participa da retórica, mas não se reduz a ela. Parece-me que é o saber ler que faz a diferença. A psicanálise não é só questão de escuta, listening; ela é também questão de leitura, Reading. No campo da linguagem, sem dúvida a psicanálise se inicia com a função da fala, mas ela se refere à escrita. Há uma distância entre falar e escrever, speaking and writing. É nessa distância que a psicanálise opera, é essa diferença que a psicanálise explora.

Eu acrescentaria um toque mais pessoal à escolha desse título: “Ler um sintoma”, uma vez que foi o ‘saber ler’ que Lacan imputou a mim. Vocês encontram isto na epígrafe de seu escrito “Televisão”, na página 508 da coletânea Outros escritos, onde eu lhe fazia certo número de perguntas em nome da televisão e ele destacou do texto que reproduz com algumas mudanças o que havia dito então “Aquele que me interroga também sabe me ler”2. Portanto, Lacan me fixou ao saber ler, pelo menos saber ler Lacan. É um certificado que ele me atribuiu em razão das anotações com as quais escandi seu discurso na margem, dentre as quais muitas fazem referência às suas fórmulas chamadas de matemas. Então, a questão de saber ler tem todos os motivos para me enlevar.

O segredo da ontologia

Depois desta introdução, vou agora evocar o ponto em que estou no meu curso deste ano e que conduz precisamente a esse assunto de leitura e de leitura do sintoma. Por estes dias estou em vias de articular a oposição conceitual entre ser e existência. E este é um passo no caminho em que entendo distinguir e opor o ser e o real, being and the real.

Trata-se, para mim, de valorizar os limites da ontologia, da doutrina do ser. Foram os gregos que inventaram a ontologia. Mas também eles perceberam seus limites, uma vez que alguns desenvolveram um discurso que incidia diretamente sobre um ‘para além’ do ser, beyong being. Nesse ‘para além’ do ser, em relação ao qual é preciso admitir que sentiram necessidade de fazer isto; eles colocaram o Um, the one. Em particular aquele que desenvolveu o culto do Um como um além do ser, o que se chamava Plotino. E ele extraiu isto de uma leitura de Platão, alguns séculos depois dele, precisamente do Parmênides de Platão. Portanto, ele extraiu um certo saber ler Platão. E aquém de Platão há Pitágoras, matemático, mas místico-matemático. Foi Pitágoras quem divinizou o número, em particular o Um, e não fazia uma ontologia, mas o que, em termos técnicos a partir do grego, ele chama de henologia, isto é, uma doutrina do Um. Minha tese é que o campo do ser exige, necessita um ‘para além’ do ser.

Os gregos que desenvolveram uma ontologia sentiram necessidade de um ponto de apoio, de um fundamento inabalável que justamente o ser não lhes dava. O ser não propicia um fundamento inabalável à experiência e ao pensamento, precisamente porque há uma dialética do ser. Situar o ser é ao mesmo tempo situar o nada. E colocar que o ser é isto, é ao mesmo tempo dizer que não é aquilo. Portanto, ele é também na qualidade de ser o seu contrário.

Em suma, ao ser falta essencialmente o ser, e não por acidente, mas de modo essencial. A ontologia desemboca sempre em uma dialética do ser. Lacan sabia disso tão bem que precisamente definiu o ser do sujeito do inconsciente como ‘falta-a-ser’ (manque à être). Ele explora aí os recursos dialéticos da ontologia. A tradução da expressão francesa manque à être por want to be acrescenta algo muito precioso, a noção de desejo. Want não é só o ato; em want há o desejo, há a vontade e, precisamente, o desejo de fazer ser o que não é. O desejo faz a mediação entre being and nothingness. Encontramos esse desejo na psicanálise no âmbito do desejo do analista, que anima a operação analítica na medida em que esse desejo visa a conduzir ao ser inconsciente, visa a fazer aparecer o que está recalcado, como dizia Freud.

Evidentemente, o que está recalcado é por excelência um want to be, o que está recalcado não é um ser atual, não é uma palavra efetivamente dita; é um ser virtual em estado de possível, que aparecerá ou não. A operação que conduz ao ser inconsciente não é a operação do Espírito santo; é uma operação de linguagem, aquela que coloca em ação a psicanálise.

A linguagem é essa função que faz ser o que não existe. Foi isto que os lógicos tiveram de constatar; eles se desesperaram pelo fato de que a linguagem seja capaz de fazer ser aquilo que não existe, e então tentaram normalizar seu uso na esperança de que sua linguagem artificial não nomearia o que não existe. Mas, de fato, é preciso reconhecer aí não um defeito de linguagem, mas sua potência. A linguagem é criadora e em particular ela cria o ser. Em suma, o ser do qual os filósofos falam desde sempre, nunca foi senão um ser de linguagem. Este é o segredo da ontologia. Então, há aí uma vertigem.

Um discurso que fosse real

Há nisto, para os próprios filósofos, uma vertigem que é a da dialética. Porque o ser é o oposto da aparência, mas também não é outra coisa senão a aparência, uma certa modalidade da aparência. E é, portanto, essa fragilidade intrínseca ao ser que justifica a invenção de um termo que reúne o ser e a aparência, o termo semblante. O semblante é uma palavra que utilizamos na psicanálise e por meio da qual tentamos cernir o que é ao mesmo tempo ser e aparência, de modo indissociável.

Outrora, eu havia tentado traduzir essa palavra em inglês pela expressão make believe. Efetivamente, se alguém crê nisso (si on y croit), não há diferença entre a aparência e o ser. É uma questão de crença.

Então, minha tese, que é uma tese sobre a filosofia a partir da experiência analítica, é de que os gregos, justamente porque estiveram eminentemente às voltas com essa vertigem, buscaram um ‘para além’ do ser, um ‘para além’ do semblante. O que chamamos de real é esse ‘para além’ do semblante, um ‘para além’ que é problemático. Será que existe um ‘para além’ do semblante? O real seria, se quisermos, um ser, mas não um ser de linguagem. Intocado pelos equívocos da linguagem, indiferente ao make believe.

Esse real, onde os gregos o encontravam? Eles o encontravam nas matemáticas e, inclusive, a partir do momento em que os matemáticos continuaram, assim como continuou a filosofia, eles se dizem ainda platônicos de bom grado, no sentido em que não pensam de modo algum que criam seu objeto, mas para eles o que fazem é soletrar um real que já está aí. E isto faz sonhar, pelo menos fazia Lacan sonhar.

Certa vez Lacan fez um seminário que se intitulava “De um discurso que não fosse semblante”3. É uma fórmula que permaneceu misteriosa mesmo depois que o seminário foi publicado porque seu título se apresenta sob uma forma ao mesmo tempo condicional e negativa. Mas com essa forma ele evoca um discurso que fosse real, é o que isto quer dizer. Lacan teve o pudor de não dizer isto da forma como desvelo; ele o disse sob uma forma apenas condicional e negativa: Sobre um discurso que fosse real; um discurso que tomaria como ponto de partida o real, assim como as matemáticas. O sonho de Lacan era colocar a psicanálise no nível das matemáticas. A esse respeito, é preciso dizer que só nas matemáticas o real não varia – ainda que nas margens, ele varia mesmo assim. Na física matemática, que incorpora e no entanto se sustenta com as matemáticas, a noção de real é totalmente escorregadia, pois, ainda assim, ali ela é herdeira da velha ideia de natureza e que, com a mecânica quântica, com as pesquisas do ser ‘para além’ do átomo, pode-se dizer que o real na física se tornou incerto. Na física, há polêmicas entre físicos ainda mais vigorosas do que na psicanálise. O que para um é real, para outro não passa de semblante. Eles fazem propaganda por sua noção do real, pois a partir de certo momento passaram a levar em conta a observação. A partir de então, o complexo composto pelo observador e os instrumentos de observação interfere, e então o real se torna relativo ao sujeito, isto é, deixa de ser absoluto. Pode-se dizer que por essa via o sujeito ofusca o real. Não é este o caso na matemática. Como se chega ao real na matemática, por qual instrumento? Chega-se a ele, à sua materialidade, pela linguagem, sem dúvida, mas uma linguagem que não ofusca o real, uma linguagem que é o real. É uma linguagem reduzida, uma linguagem reduzida à matéria significante, uma linguagem reduzida à letra. Na letra, contrariamente à homofonia, não é o ser, being, que encontramos, in the letter is not being that you find, é the real.

Fulgurância do inconsciente e desejo do analista

É a partir dessas premissas que proponho questionar a psicanálise. Na psicanálise, onde está o real? Esta é uma questão premente, na medida em que um psicanalista não pode não experimentar a vertigem do ser, a partir do momento em que está na sua prática submergido pelas criações, pelas criaturas da fala.

Onde está o real em tudo isto? Será que o inconsciente é real? Não! De todo modo, esta é a resposta mais fácil a dar. O inconsciente é uma hipótese, o que permanece como uma perspectiva fundamental, mesmo que possamos prolongá-la, fazê-la variar. Para Freud, lembrem-se que o inconsciente é o resultado de uma dedução. É o que Lacan traduz mais de perto ao destacar que o sujeito do inconsciente é um sujeito suposto, isto é, hipotético. Portanto não é um real. E nos colocamos até a questão de saber se é um ser. Vocês sabem que Lacan prefere dizer que é um desejo de ser, mais do que um ser. O inconsciente não tem mais ser do que o próprio sujeito. O que Lacan escreve como , é algo que não tem ser, que só tem o ser da falta e que deve advir. E sabemos muito bem disto, basta apenas tirar as consequências. Sabemos muito bem que o inconsciente na psicanálise está submetido a um dever ser. Ele está submetido a um imperativo que representamos como analista. E é neste sentido que Lacan diz que o estatuto do inconsciente é ético. Se o estatuto do inconsciente é ético, ele não é da ordem do real; é o que isto quer dizer. O estatuto do real não é ético. O real, nas suas manifestações, é sobretudo unethical, ele não se mantém pela nossa vontade. Dizer que o estatuto do inconsciente é ético é precisamente dizer que é relativo ao desejo, e primeiramente ao desejo do analista que tenta inspirar o analisante a assumir a tarefa desse desejo.

Em que momento na prática da psicanálise precisamos fazer uma dedução do inconsciente? Simplesmente, por exemplo, quando se vê retornar na fala do analisante lembranças antigas que até então estavam esquecidas. Somos forçados a supor que essas lembranças, no intervalo, residiam em algum lugar, em um certo lugar de ser, um lugar que permanece desconhecido, inacessível ao conhecimento, sobre o qual se diz precisamente que não conhece o tempo. E para mimetizar ainda mais o estatuto ontológico do inconsciente, tomemos o que Lacan denomina suas formações, que valorizam precisamente o estatuto fugitivo do ser. Os sonhos se apagam. São seres que não consistem, dos quais, frequentemente, na análise, só se tem fragmentos. O lapso, o ato falho, o chiste, são seres instantâneos, que fulguram, aos quais damos, na psicanálise, um sentido de verdade, mas que logo se eclipsam.

Confrontações com os restos sintomáticos

Então, entre essas formações do inconsciente, há o sintoma. Por que colocamos o sintoma entre essas formações do inconsciente, a não ser porque o sintoma freudiano também é verdade? Nós lhe damos um sentido de verdade, nós o interpretamos. Mas ele se distingue de todas as outras formações do inconsciente por sua permanência. Existe outra modalidade de ser. Para que haja sintoma no sentido freudiano, sem dúvida é preciso que haja sentido em jogo. É preciso que isso possa ser interpretado. É o que, para Freud, faz a diferença entre sintoma e inibição. A inibição é pura e simplesmente a limitação de uma função. Uma inibição como tal, não tem senso de verdade. Para que haja sintoma, é preciso também que o fenômeno dure. Por exemplo, o sonho muda de estatuto quando se trata de um sonho repetitivo. Quando o sonho é repetitivo, um trauma está implicado. O ato falho, quando se repete, torna-se sintomático, ele pode até invadir todo o comportamento. Nesse momento, o estatuto de sintoma lhe é dado. Nesse sentido o sintoma é o que de mais real a psicanálise nos dá.

É sobre o sintoma que se torna ardente a questão de pensar a correlação, a conjunção entre verdadeiro e real. Nesse sentido, o sintoma é um Jano, ele tem duas faces, uma face de verdade e uma face de real. O que Freud descobriu e que foi sensacional em seu tempo, foi que um sintoma deve ser interpretado como um sonho, deve ser interpretado em função de um desejo e é um efeito de verdade. Mas, como vocês sabem, há um segundo tempo dessa descoberta, a persistência do sintoma depois da interpretação, e Freud descobriu isto como um paradoxo. De fato, é um paradoxo se o sintoma é pura e simplesmente um ser de linguagem. Quando temos de nos haver com seres de linguagem na análise, nós os interpretamos, isto é, nós o reduzimos. Reconduzimos os seres de linguagem ao nada (au rien, au néant). O paradoxo aqui é o do resto. Há um ‘x’ que resta, ‘para além’ da interpretação freudiana. Freud abordou isso de diferentes modos. Ele colocou em jogo a reação terapêutica negativa, a pulsão de morte e alargou a perspectiva até dizer que o final da análise como tal deixa sempre subsistir o que ele chamava de restos sintomáticos. Hoje nossa prática se prolongou para além do ponto freudiano, bem além do ponto em que, para Freud, a análise encontrava seu fim. Justamente, era um fim acerca do qual Freud dizia que há sempre um resto e, portanto, é preciso sempre recomeçar a análise, depois de um tempinho, pelo menos no caso dos analistas. Um tempinho de pausa e depois se recomeça. Era o ritmo stop and go, como se diz em francês agora. Mas esta não é a nossa prática. Nossa prática se prolonga para além do ponto em que Freud considerava que havia fins de análise, ainda que fosse preciso retomar a análise. Nossa prática vai além do ponto que Freud considerava como fim da análise. Em nossa prática, assistimos então à confrontação do sujeito com os restos sintomáticos. Passa-se evidentemente pelo momento da decifração da verdade do sintoma, mas chega-se aos restos sintomáticos e aí não se diz stop. O analista não diz stop e o analisante não diz stop. A análise, nesse período, é feita da confrontação direta do sujeito com o que Freud chamava de restos sintomáticos e aos quais conferimos um estatuto completamente diferente. Sob o nome de restos sintomáticos, Freud esbarrou no real do sintoma, no que do sintoma é fora de sentido.

O gozo do ser falante

Já em “Inibição, sintoma e angústia”, no segundo capítulo, Freud caracterizava o sintoma a partir do que ele chamava de satisfação pulsional, como “um sinal e um substituto (Anzeichen und Ersatz) de uma satisfação pulsional que permaneceu em estado jacente”.4 Ele explicava isto no terceiro capítulo, a partir da neurose obsessiva e da paranoia, destacando que o sintoma que se apresenta inicialmente como um corpo estranho em relação ao eu, tenta cada vez mais fazer um com o eu, isto é, tende a se incorporar ao eu. Ele via no sintoma o resultado do processo de recalcamento. São evidentemente estes dois capítulos e o conjunto desse livro que devem ser trabalhados na perspectiva do próximo congresso.

Gostaria de destacar isto: será que o gozo em questão é primário? Em certo sentido, sim. Pode-se dizer que o gozo é o próprio corpo como tal, que é um fenômeno de corpo. Nesse sentido, um corpo é o que goza, mas reflexivamente. Um corpo é o que goza de si mesmo, o que Freud chamava de autoerotismo. Mas isto é verdade para todo corpo vivo. Pode-se dizer que gozar de si mesmo é o estatuto do corpo vivo. O que distingue o corpo do ser falante é que seu gozo sofre a incidência da fala. E precisamente um sintoma demonstra que houve um acontecimento que marcou seu gozo no sentido freudiano de Anzeichen e que introduz um Ersatz, um gozo que não deveria, um gozo que perturba o gozo que deveria, isto é, o gozo de sua natureza de corpo.

Portanto, nesse sentido, não, o gozo em questão no sintoma não é primário. Ele é produzido pelo significante. E é precisamente essa incidência significante que faz do gozo do sintoma um acontecimento, não apenas um fenômeno. O gozo do sintoma demonstra que houve um acontecimento, um acontecimento de corpo após o qual o gozo natural entre aspas, que se pode imaginar como sendo o gozo natural do corpo vivo, encontrou-se perturbado e desviado. Esse gozo não é primário, mas é primeiro em relação ao sentido que o sujeito lhe dá, e o faz por meio de seu sintoma como interpretável.

Pode-se recorrer à oposição da metáfora e da metonímia para melhor apreender isto. Há uma metáfora do gozo do corpo, essa metáfora produz um acontecimento, produz esse acontecimento que Freud chama de fixação. Isto supõe a ação do significante como toda metáfora, mas um significante que opera fora do sentido. E depois da metáfora do gozo há a metonímia do gozo, isto é, sua dialética. É nesse momento que ele se dota de significação. Freud fala disso em “Inibição, sintoma e angústia”, ele fala de die symbolische Bedeutung, da significação simbólica que atinge um certo número de objetos.

Da escuta do sentido à leitura do fora de sentido

Pode-se dizer que isto repercute na teoria analítica. Na teoria analítica, durante muito tempo se contou uma pequena história sobre o gozo, uma historinha em que o gozo primordial se encontrava na relação com a mãe, onde a incidência da castração era o fato do pai, e no qual o gozo pulsional encontrava objetos que eram Ersatz que tamponavam a castração. É um aparelho bastante sólido que foi construído, que se adapta aos contornos da operação analítica.

Mas, mesmo assim – vou reforçar o traço –, é uma superestrutura mítica com a qual conseguimos durante um tempo, de fato, suprimir os sintomas interpretando-os no âmbito dessa superestrutura. Mas ao fazê-lo, isto é, ao prolongar o que eu chamava de metonímia do gozo, também inflamos o sintoma ao nutri-lo de sentido. É aí que se inscreve meu “Ler um sintoma”.

Ler um sintoma vai na direção oposta, isto é, consiste em privar o sintoma de sentido. É inclusive por isso que no aparelho de interpretar de Freud – que o próprio Lacan havia formalizado, havia clarificado, isto é, o ternário edipiano – Lacan substituiu por um ternário que não faz sentido, o do Real, do Simbólico e do Imaginário. Mas ao deslocar a interpretação do enquadre edipiano para o enquadre borromeano, é o próprio funcionamento da interpretação que muda e passa da escuta do sentido à leitura do fora de sentido.

Quando se diz que a psicanálise é um assunto de escuta, é preciso entrar em acordo, é o caso de dizer. O que se escuta de fato é sempre o sentido, e o sentido chama sentido. Toda psicoterapia se mantém nesse âmbito. Isto desemboca sempre e definitivamente no fato de que o paciente é quem deve escutar, escutar o terapeuta. Trata-se, pelo contrário, de explorar o que é a psicanálise e o que pode fazer no terreno propriamente dito da leitura, quando se toma distância com a semântica – aqui eu os remeto às preciosas indicações sobre essa leitura no escrito de Lacan que se chama “O aturdito”5 e que vocês encontram nos Outros escritos, página 492 e seguintes, sobre os três pontos: da homofonia, da gramática e da lógica.

Visar o clinâmen do gozo

A leitura, o saber ler, consiste em colocar à distância a fala e o sentido que ela veicula a partir da escrita como fora de sentido, como Anzeichen, como letra, a partir de sua materialidade. Ao passo que a fala é sempre espiritual, se posso dizer, e que a interpretação que se mantém puramente no campo da fala só faz inflar o sentido, a disciplina da leitura visa a materialidade da escrita, isto é, a letra na medida em que ela produz o acontecimento de gozo que determina a formação dos sintomas. O saber ler visa o choque inicial, que é como um clinâmen do gozo – clinâmen é um termo da filosofia dos estoicos.

Para Freud, como ele partia do sentido, isso se apresentava como um resto, mas de fato esse resto é o que está nas origens do sujeito, é de certo modo o acontecimento originário e ao mesmo tempo permanente, isto é, ele reitera sem cessar.

É o que se descobre, é o que desnuda na adição, em “um copo a mais” do qual ouvimos falar há pouco6. A adição é a raiz do sintoma que é feito da reiteração inextinguível do mesmo Um. É o mesmo, isto é, precisamente, isto não se adiciona. Não se tem nunca o “já bebi três copos, então basta”, bebe-se sempre o mesmo copo uma vez mais. É isto a raiz do sintoma. É nesse sentido que Lacan pôde dizer que um sintoma é um et coetera. Isto é, o retorno do mesmo acontecimento. Pode-se fazer muitas coisas com a reiteração do mesmo. Precisamente, pode-se dizer que o sintoma é, neste sentido, como um objeto fractal, pois o objeto fractal mostra que a reiteração do mesmo pelas aplicações sucessivas lhes dá as mais extravagantes formas e até, disseram, as mais complexas que o discurso matemático pôde oferecer.

A interpretação como saber ler visa a reduzir o sintoma à sua fórmula inicial, isto é, ao encontro material de um significante com o corpo, quer dizer, ao choque puro da linguagem sobre o corpo.

Então, certamente, para tratar o sintoma, é preciso passar pela dialética móvel do desejo, mas é preciso também se desprender das miragens da verdade que esse deciframento lhes traz e visar, ‘para além’ da fixidez do gozo, a opacidade do real. Se quisesse fazer falar esse real, eu lhe atribuiria o que o deus de Israel diz na sarça ardente, antes de emitir os mandamentos que são a vestimenta de seu real: “eu sou o que sou”7.

 

 

Tradução: Teresinha N. Meirelles do Prado.

 

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* Texto de apresentação do próximo congresso da NLS. Pronunciado no encerramento do congresso da NLS, que aconteceu em Londres, nos dias 2 e 3/04/11. Publicado em português na revista Opção Lacaniana n° 70, em junho de 2015.
1 Lacan, J. (1970/2003). “Radiofonia”. In Outros escritos. RJ: Zahar, p.427.
2 Lacan, J. (1973/2003). “Televisão”. In Outros escritos. RJ: Zahar, p.508.
3 Lacan, J. (2009 [1970-71]). O Seminário, livro 18: De um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Zahar.
4 Freud, S. (1926/1980). “Inibição, sintoma e angústia”. (J. Salomão, Trad.). In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. (Vol. XX, pp. 107-198). Rio de Janeiro: Imago, p.112.
5 Lacan, J. (1972/2003). “O aturdito”. In Outros Escritos. RJ: Zahar, p.493-495.
6-J.-A. Miller faz referência à apresentação de nossa colega Gabriela van den Hoven, da London Society of the NLS: « The Symptom in an Era of Disposable Ideals », os sintomas na era dos ideais descartáveis.
7 Moisés diz a Deus: “Quando eu for aos filhos de Israel e comunicar: ‘O Deus de vossos pais me enviou até vós’ e me questionarem: ‘Qual é o seu Nome?’ – que deverei dizer?” Então afirmou Deus a Moisés: “Eu Sou o que Sou. – Ehyeh asher Ehyeh (Bíblia, Êxodo 3,13-14a).

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