Primeira conversação de RUA

Primeira conversação de RUA

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“Formas”. Artista: Adolfo.L.R.Londoño

Fabián Naparstek

 

1) Origem: A universidade tem sua origem a partir do discurso do mestre. Com efeito, este discurso queria controlar o manejo do saber. Especialmente assim que havia começado a leitura silenciosa. Segundo Alberto Mangue, logo que se inicia o século X se lia somente em voz alta. Existiam os que eram chamados a fazer leituras públicas e que estas consistiam em que quem sabia ler se postava em um estrado no centro da praça e lia para um auditório. A grande mudança acontece quando aparece a pontuação nos textos. Em seguida à pontuação na escritura tal como conhecemos hoje, se começa a ler em silencio. Supostamente a igreja não estava de acordo com a aparição da pontuação já que acreditava que isso ia acontecer em uma infinidade de diferentes leituras e não só em uma. Não se pode deixar de assinalar, por outro lado, que a leitura nos chega a todos através de um Outro, que nos lê os primeiros contos ou histórias quando ainda não sabemos ler. Assim se vê como esta leitura em voz alta tem sua face estrutural[1]. Certamente, a universidade coloca em destaque aquelas leituras públicas determinadas por um mestre que tenta estabelecer qual é a leitura conveniente, uma vez que cada um estava em condições de fazer sua própria leitura. Esta origem se encontra presente hoje na universidade e o debate de qual é a leitura que em cada âmbito convém à sociedade é central a partir dos diferentes setores de poder que determinam seus currículos. A posição que a psicanálise toma neste debate é crucial para nós e fundamentalmente para se orientar em como participar disso.

2) Formação de analisantes: ainda lembro o impacto que me produziu ler Freud por primeira vez como aluno de psicologia, e ainda hoje me reconheço nisso quando um aluno me consulta dividido pelo que leu de psicanálise. De fato o discurso universitário coloca no lugar da produção o sujeito dividido. (ver artigo Psicanálise e universidade, Murciélago 8. Quer dizer, que o discurso universitário, além de que tenha surgido como um empuxo do mestre para regular o saber, não pôde controlar a divisão subjetiva; alunos que querem saber mais além da universidade, a partir do que leram querem analisar-se, etc. De fato durante muito tempo pensei que meu lugar na universidade se orientava em produzir o sujeito dividido para que a psicanálise prosperasse e também meu consultório. A universidade foi e continua sendo uma grande formadora de analisantes.

3) Formação de analistas. Segundo J.Lacan, o problema não é encontrar novos analisantes, mas a formação de novos analistas. Minha primeira preocupação pela produção de sujeitos divididos passou ao segundo plano com relação com a preocupação com a formação de analistas. De fato, a universidade também se preocupa, na atualidade, cada vez mais, com o saber fazer prático do psicólogo, do engenheiro, do economista, etc. O know how como costuma chamar-se. Já não se preocupa com o saber teórico, mas sim com uma prática que esteja à altura das circunstâncias. Isso se apresenta pela exigência de horas de prática na matéria que se trate. Sem dúvida, Miller distingue muito bem um saber fazer técnico que se ensina, de um saber fazer aí. Esse Savoir et faire, não se ensina já que se trata de algo que escapa e de algo imprevisível (Miller, Teoria do Parceiro). Com efeito, quando nos preocupamos com a formação do analista a coisa muda. O grande desafio que temos hoje na universidade é em não confundir o saber fazer com o saber fazer aí que se obtém na própria análise, na supervisão e na experiência da Escola. Por consequência, fora da universidade.

4) A fortaleza do matema: Nas faculdades de psicologia na Argentina, a psicanálise tem um lugar preponderante. Com efeito, a produção de grande quantidade de analisantes e a presença da psicanálise em nossa sociedade tem parte de sua explicação na dita proeminência da psicanálise. Houve, em uma época, um debate que estava centrado entre as diferentes correntes da psicanálise (Klein, Winnicott, freudiano ortodoxo, etc), mas logo a psicanálise teve que fazer frente a diferentes empuxos das terapias comportamentais e comunitárias. De fato, uma aliança entre psicanalistas de diferentes correntes permitiu fortalecer a posição da psicanálise frente a esses referidos embates. Nesse sentido, a consistência e a lógica do ensino de Lacan foi nossa arma fundamental diante da infinidade de ataques que a psicanálise lacaniana sofreu dentro da universidade defronte às múltiplas propostas que finalmente se mostraram frágeis em seus argumentos teóricos, mais além de suas posições políticas. A consistência do pensamento de Lacan e sua referência à clínica atual frente a propostas, muitas vezes fracas, tem sido nossa grande ferramenta.

5) (2)FORMASArt.AdolfoRuizLondo§oMatema e bem dizer: Sem dúvida, a esta altura dos acontecimentos, não deixa de haver um debate entre os lacanianos mesmos. A orientação lacaniana, a nebulosa, etc. É um debate surdo, não explícito, mas presente. Aí se debate o lugar da Escola, o Passe, a formação do analista. Se debate o lugar de Miller ou não Miller,etc. Neste ponto me oriento pelo bem dizer. Miller argumenta que o bem dizer “é contrário ao matema” (Teoria do parceiro, p.32). É a maneira que um sujeito pode “desembaraçar-se do real com o significante” (ibid). Minha ideia é que há algo deste debate que pode desenvolver-se não tanto na perícia com o saber teórico próprio do universitário –e, certamente, de muitos lacanianos–, mas sim na enunciação de um bem dizer que ressoa nas aulas na universidade. Essa tensão entre a perícia com o matema e o bem dizer, encaminha, a meu ver, nosso desafio da Orientação lacaniana na universidade.

 

 

 

[1] Manguel, A. Una historia de la lectura. Santa Fé de Bogotá. Ed. Norma S.A. 1999.
   Guglielmo, C. Roger, C. Historia de la lectura en el mundo occidental. Madrid. Ed. Taurus. 1998.

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