A cartelização IUFI, vale de paixões

A cartelização IUFI, vale de paixões

Sergio de Campos. Gráfico do desejo. II

Sergio de Campos. Gráfico do desejo. II

Gerardo Arenas

Dizer que a orientação lacaniana é apaixonante não constitui juízo de valor, mas a constatação de um fato, pois a estrutura do laço que ela estabelece entre os analistas e a direção que imprime nas análises formam um nó com a ética do respeito pelo singular; e o singular é o nome genérico da paixão em que consiste, para cada um, o núcleo do seu ser. Por outro lado, esse caráter apaixonante pode se contagiar por canais tal como a análise do analista, a supervisão de sua experiência, o passe acolhido e testemunhado na Escola, e o cartel, além dos ensinamentos que possam ter lugar nos institutos analíticos e no âmbito universitário. O paradoxo desse contágio é que ele não massifica mediante a transmissão de algo que se torna comum a todos os afetados, já que, pelo contrário, dignifica neles a sua diferença absoluta.

Como opera esse contágio no dispositivo de Escola denominado cartel? Um pequeno número de integrantes (idealmente quatro) estabelecem critérios para elaborar questões sobre certos interrogantes que admitem uma égide comum. Por exemplo, um participante quer saber como se dá a entrada na análise de um sujeito psicótico; outo se pergunta que tipos de intervenções a fazer nas psicoses; um terceiro o interroga a inércia libidinal de um paciente melancólico; e o quarto gostaria de escrever algo sobre um caso de erotomania transferencial para umas jornadas hospitalares. Visto que todas estas inquietudes se inscrevem naturalmente no campo da clínica das psicoses, costuma-se dar curso a tal comunidade de afãs convidando a alguém conhecedor do tema que possa, então, instruí-los a respeito. Mas, assim não se cria um cartel, e sim um grupo de estudos; e quem aceita esta convocatória torna-se docente, não mais-um.

A função do mais-um

E o que ocorre se, em vez de aceitar essa convocatória, o convidado opta por fazer dessa demanda a ocasião para forjar um cartel? Neste caso, sua primeira tarefa será descobrir a paixão singular que está na base das perguntas de cada integrante. Por exemplo, com aquele interessado em saber sobre como será a entrada na análise de um sujeito psicótico, falará para descobrir quais problemas clínicos concretos o levaram a inclinar-se sobre esse tema; talvez, disso surja uma proposta acerca do modo no qual desvela o uso da interpretação pelo equívoco nos significantes mestres de um delírio paranoico e, após esse cuidado, uma predileção por captar no detalhe o modo como as palavras incidem no corpo. Em outros termos, o mais-um se dedicará a pescar a paixão que o levou a questionar-se sobre essas perguntas; com o seu consentimento, procurara nomeá-la de maneira precisa – efeitos da interpretação pelo equívoco na paranoia, digamos –, e este nome constituirá o traço deste integrante no cartel. O mesmo será feito com os demais membros, e, por sua vez, compartilhará com eles os enigmas cruciais que para ele mesmo continuam não resolvidos e cuja pesquisa tem em curso ou bem esperavam a ocasião favorável para empreendê-la. Por último, em vez de achar o marco comum no qual caibam as paixões singulares dos cinco (quatro, mais um), o convidado buscará criar um fio qualquer que as una como contas de um colar, e esse fio será o “tema” do cartel. Isto basta para poder inscrever o cartel em uma Escola, pois assim, terá cumprido com a função do mais-um.

Em cada reunião do cartel, o mais-um poderá orientar a busca dos integrantes, discutir seus avanços, sugerir uma bibliografia adequada aos seus interesses, etc.; no entanto, seu objetivo não será ensinar um saber constituído, mas localizar suas paixões (que costumam deslocar-se à medida em que eles fazem seu caminho), assim como o fez no momento de formar o cartel. Na ocasião das jornadas de cartéis da Escola em que o seu tenha sido inscrito, se pedirá aos integrantes para apresentar os avanços do seu trabalho, a fim de que seja possível discuti-lo com um público mais amplo. Desse modo, o cartel se torna uma via de aceso à Escola, tal como Lacan pretendia.

Encaminhar a causa

Este é o motivo pelo qual, para favorecer a extensão da psicanálise de orientação lacaniana na América Latina, a Iniciativa Universitária de Formação e Pesquisa (IUFI) decidiu criar o laço entre os seus participantes e as Escolas americanas (EBP, EOL, NEL) através da cartelização dos seus integrantes com a única condição de que o mais-um de cada cartel fosse membro de alguma delas. Assim sendo, aqueles que, ainda tinham inscrição universitária e múltiplos laços transferenciais com esta orientação se viam impedidos de participar da Rede Universitária Americana (RUA) por não ser membro nem associado a nenhuma Escola, ainda que tivessem realizado parte da sua formação em uma instituição (ou nos diversos institutos do Campo Freudiano, ou em pós-graduações universitárias afins) ou ser o apoio de importantes bastiões da orientação lacaniana, inclusive em contextos universitários adversos. De agora em diante, não há mais a necessidade de fazer parte de um desses cartéis para se inscrever na IUFI e, assim, essas pessoas podem associar-se com as Escolas que promovem o evento.

Se cada cartel é um veículo para orientar as paixões que causam aos seus integrantes, a cartelização IUFI constitui o vale onde elas convergem, desembocam e se somam. Dito de outro modo, na América latina essa cartelização torna-se, assim, um privilegiado “vale de paixões” capaz de encaminhar a causa da orientação lacaniana em direção as suas Escolas.

Tradução Lenita Bentes

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