A gratuidade do Witz

A gratuidade do Witz

Alejandra Koreck. Beckett,” Cómo decir”

Alejandra Koreck. Beckett,” Cómo decir”

Leonardo Gorostiza

Talvez como uma consequência inerente ao fato de que “ensinar Lacan” necessariamente implica “introduzir descontinuidades, distinguir momentos, períodos, paradigmas”(1), fazendo esquecer que esses momentos em realidade se mantém juntos, porque o seminário de Lacan “prosseguiu durante trinta anos sem rupturas, transformando-se em uma espécie de deformação topológica contínua”(2). Uma leitura não advertida pode, às vezes, induzir a ideia de que o “primeiro Lacan” havia concebido a interpretação analítica como fornecedora de sentido.

Muito longe disso, já no incio de seu ensino(3), Lacan indicava de que maneira o analista poderia jogar com o poder do símbolo evocando-o nas ressonâncias semânticas de suas expressões, no que então chamou “uma técnica renovada da interpretação”(4). Ressonância semântica que, ligada à propriedade da palavra de fazer entender o que não disse, jamais poderia reduzir a interpretação analítica a uma explicação, tradução ou decodificação.

E é exatamente neste contexto, em “Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise”, onde encontramos um parágrafo luminoso. Um destes parágrafos em que a assombrosa intuição de Lacan deixa aberta uma porta para o que seriam suas elaborações de seu ultíssimo ensino.

Leiamos este parágrafo, mas advertidos de que considerar em conjunto ou em bloco os ditos de Lacan de modo algum implica sincronizá-los. Ele mesmo indicava aos seus alunos do risco de cair em um efeito de perspectiva, isto é, situar-se em um ponto mais avançado de seu ensino e acreditar, por um efeito retroativo, que o dito neste momento já teria sido dito antes. Assim o indica: “Acontece que nossos alunos possuem a ilusão de encontrar em nossos escritos ‘já ali’ aquilo ao que depois nos levou nosso ensino. Não é suficiente que o que está ali não tenha fechado o caminho?”(5)

Há aqui então uma de estas portas que Lacan deixou abertas em seu primeiro ensino. No contexto imediato de recordar o interesse vigente do texto de Freud, “O chiste e sua relação com o inconsciente”, disse assim:

“… o efeito do inconsciente tem nos demonstrado até os confins de sua preciosidade; e o rosto que nos revela é o mesmo do espírito*(6) na ambiguidade que confere à linguagem, onde a outra cara de seu poder régio é a “agudeza” pela qual sua ordem inteira se deslumbra em um instante – agudeza em efeito onde sua atividade criadora desvela sua gratuidade absoluta, onde sua supremacia sobre o real se expressa no desafio do sem sentido, onde o humor, na graça malvada do espírito livre, simboliza uma verdade que não disse sua última palavra.”(7)

Resulta notável que já neste momento Lacan indique mais que nada que o chiste, o Witz, particularmente a “saída engenhosa”, a agudeza fulgurante, seja o que deslumbra em um instante a ordem inteira da linguagem. Como não ler aí o surgimento da intuição lacaniana de que é a via do Witz a que permite revelar, indicar, fugazmente, a inconsistência do Outro? Inconsistência que, por sua vez, também é aludida quando conclui que o desafio do sem sentido que veicula a “agudeza” é o que simboliza “uma verdade que não diz sua última palavra”, porque – nós acrescentamos – não há “a última palavra”.

Fundamento do que mais tarde o levaria a escrever em sua álgebra o S do Outro barrado; esta caracterização da verdade também foi destacada por Lacan em um texto contemporâneo, “O mito individual do neurótico”. Aí afirmava que na medida em que a experiência analítica não é objetivável, isso… “Implica sempre no bojo de ela mesma a emergência de uma verdade que só pode ser dita, porque o que a constitui é a palavra, e porque seria necessário de algum modo dizer a palavra mesma, que é, falando estritamente, o que não pode ser dito nada mais que palavra”.(8)

Mas o que talvez mais chame a atenção é que junto com isso, Lacan assinale que a atividade criadora da agudeza, do Witz, desvela sua “gratuidade absoluta”.

Acredito não ser um forçamento de leitura supor que essa menção à “gratuidade absoluta” do Witz é a mesma nota que ressoa e que o levou, quase um quarto de século mais tarde, a estabelecer que a prática psicanalítica deveria ser “uma prática sem valor”.

No contexto de tentar caracterizar, uma vez mais, a interpretação analítica, assim o formulava em 1977:

“Primeiro seria extinguir a noção de belo. Nós não temos nada que dizer de belo. Se trata de outro tipo de ressonância que tem que fundamentar-se no chiste. Um chiste não é belo. Só depende de um equívoco, ou como disse Freud, de uma economia. Não há nada mais ambíguo que esta noção de economia. Mas podemos dizer que a economia funda um valor. Pois bem, uma prática sem valor, isto é, para nós, o que se trataria de instituir.“(9)

A gratuidade do Witz constitui assim o fundamento mesmo de uma prática sem valor. Quer dizer, o fundamento de uma prática analítica que continua interrogando-se de quê maneira intervindo com a palavra, com o significante, com o sentido levado ao limite do sem sentido, é possível incidir sobre o corpo, a pulsão, o gozo, ou seja, sobre “o que não serve para nada”.(10)

Esta interrogação, que alguma vez Jacques Alain Miller chamou “o problema de Lacan”, é a que percorre de ponta a ponta seu ensino. E se bem podemos afirmar que o real sobre o qual o desafio do sem sentido da agudeza expressa sua dominação, não era em 1953 o real do gozo do corpo senão, simplesmente, a realidade; por acaso não estaria já presente em sua intuição que Freud havia falado do ganho de prazer, do Lustgewinn, que se obtém da gratuidade, do sem valor, do chiste?

Seja como for, ao menos podemos afirmar, como antes disse, que aí Lacan deixou aberta uma porta para o que logo viria. Não é suficiente que não tenha fechado o caminho?

Tradução: Maria Cristina Vignoli

 


(1) Miller, Jacques-Alain, “En ligne avec Jacques-Alain Miller”, La cause du désir,80, Navarin Éditeur, Paris, 2012, pág 11 e 12.
(2) Ibidem.
(3) Lacan, Jacques, “Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise”(1953), in Escritos1, Siglo XXI editores, Argentina, 2002.
(4) Op. cit. pág. 284.
(5) Lacan, Jacques, “De nuestros antecedentes”, in Escritos1, Siglo XXI editores, Argentina, 2002,
pág75.
(6) * Em nota de rodapé o tradutor espanhol esclarece que em francês a palavra esprit significa “espírito” e “engenho”, “graça”, “chiste”.
(7) Op. cit. em nota 1, pág. 261.
(8) Lacan, Jacques, “El mito individual del neurótico”, in Intervenciones y Textos, Manantial,Argentina, 1985, pág.38.
(9) Lacan, Jacques, Seminário L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre, lição de 17 de abril de 1977, publicada in COLOFON, Boletin de la Federación Internacional de Biblliotecas del Campo Freudiano, Nro. 25, Espanha, janeiro de 2005, pág. 36.
(10) Lacan, Jacques, El Seminário, Libro 20, Aún, Paidós, Espanha, 1981, pág.11.

 

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