As ficções de família e o gozo órfão

As ficções de família e o gozo órfão

Natalia Monserrat. Proyecto “Aclarescar”. Fotografía experimental.

Natalia Monserrat. Proyecto “Aclarescar”. Fotografía experimental.

Maria Josefina Sota Fuentes

Desde os primórdios da psicanálise, os assuntos de família tomaram conta da cena analítica a ponto de Freud fazer do mito de Édipo um complexo universal instaurado no cerne do desejo humano, berço do trauma e dos laços libidinais onde se jogam as forças antagônicas inconscientes dos sintomas e inibições, fixando os modos de satisfação da pulsão e a trama de um destino. Nesse terreno, onde a castração também joga sua partida, edificam-se as identificações sexuais assegurando formas de socialização baseadas nos semblantes da autoridade patriarcal, que já se encontrava, contudo, em franco declínio.

Essa é a interpretação de Lacan em 1938 ao relativizar o caráter universal do Édipo freudiano, destinado a perder suas forças tanto mais o afrouxamento dos laços de família e o declínio da imago paterna se tornariam uma realidade frente ao avanço das novas formas de socialização na civilização. Com efeito, a “monarquia doméstica”[1] – segundo a expressão luminosa do célebre historiador Philippe Ariès – teria seus dias contados. Fortalecido com o advento dos tempos modernos quando se reforçou o poder patriarcal sobre a esposa e os filhos e a devoção ao pai passou a ser prescrita nos livros de civilidade, o patriarcalismo declina com o enfraquecimento do poder do Rei e da Igreja substituídos pelas relações horizontais que as leis da República exigiriam.

Mas é a “hipermodernidade” que finalmente desconstrói o que por muito tempo foi um fato natural inquestionável, a saber, a família como a instituição baseada no casamento de um homem com uma mulher com a finalidade de criar os filhos. Revela-se por fim o seu caráter ficcional e a separação de duas instituições, a do casamento e a da família[2]. Desconstruídas as categorias homem/mulher, diversificam-se os gêneros e as modalidades do laço matrimonial, quando elas ainda existem. Na sociedade do individualismo onde se multiplicam os celibatários e parceiros virtuais, não tardou a surgir a bizarrice do “casamento consigo mesmo”, ou outras variantes da família monoparental que prescinde dos laços de aliança com um cônjuge para gerar filhos.

O mestre contemporâneo outorga ao saber científico e ao campo jurídico a autoridade paterna perdida, criando novas ficções sobre a criança. O que estará destinado aos filhos da ciência legislados pelo poder jurídico?

A psicanálise, que nasceu da brecha dos efeitos do declínio do poder patriarcal na subjetividade, extravia-se, contudo, a cada vez que adota a política de dissolver a “crise psicológica” [3] à qual Lacan então se referia, restabelecendo tal poder em suas mais variadas versões, como fazem as práticas psicoterapêuticas.

Nascer do mal-entendido

Enquanto a filha, Anna Freud, dedicou-se a educar as pulsões fazendo do Eu e do que entendia ser o “princípio de realidade” os grandes aliados do analista, investigando o que acontecia no entorno familiar na análise com crianças, Freud ficaria com o grande feito da psicanálise: o de “explorar o mal-entendido – como afirma Lacan – com, ao fim, uma revelação que é a fantasia”[4].

Foi na inquietante intimidade familiar dos anos 20 que Freud se deparou com a estranha ficção do Bate-se numa criança, revelada a partir da análise de sua própria filha. O Você me espanca, como mostra Lacan[5], indica a mensagem que o sujeito recebe de forma invertida sob a modalidade do gozo do Outro, ou seja, o suporte da fantasia que só se sustenta a partir da suposição de que o pai – bem distante dos ideais adaptacionistas que sua filha iria teoricamente defender – goze espancando-a.

Ainda que as lembranças da repressão familiar não sejam verdadeiras, seria necessário inventá-las – insiste Lacan em 1973 ao se referir à ordem familiar e ao mito edipiano como ficções que consistem na “tentativa de dar forma épica ao que se opera pela estrutura”[6]. Assim, as figuras do pai e da mãe não correspondem a uma realidade natural biológica, aos genitores, mas ao mito libidinal necessário construído diante do impossível – o buraco do traumatismo do nascimento relativo à origem do falasser.

Certamente a língua que cada um fala é um assunto de família uma vez que o lugar do Outro da linguagem é encarnado por aquele que se ocupa do infans. Por isto, como diz Miller, “a família no inconsciente é primordialmente o lugar onde se aprende a língua materna”[7] – fato que, no entanto, não traduz nenhuma relação de diálogo e complementariedade entre a genitora e a prole. É claro, diz Lacan, “que é pelo modo como a lalíngua foi falada, e também, entendida por fulano ou beltrano, em sua particularidade, que alguma coisa, em seguida, reaparecerá nos sonhos, em todo tipo de tropeço, em todo tipo de formas de dizer”[8]. Mas a lalíngua materna não comunica nada, não constitui um patrimônio, apenas se motérializa[9] como puro acontecimento de corpo como um sintoma sem entregar a chave do mistério da existência do falasser, que já nasce exilado da não-relação entre os S1 sem-sentido, que, entretanto, se chocam com o corpo, batem[10] produzindo gozo.

Wanted or unwanted, nascer como desejado pelo falasser corresponde ao único traumatismo do nascimento e que implica o fracasso de estrutura, um ponto de real relativo à origem subjetiva de nascer de um desejo, de uma linhagem cujos infortúnios derivam do próprio mal-entendido da linguagem.

A versão épica do filho como o falo prometido ao desejo do Outro, cuja significação seria assegurada pelo Nome-do-Pai para a criança que dele pode se servir, encontrando uma razão para o desejo que a engendrou, depara-se contudo, com seu limite. Nem sempre se conta com o véu do amor – ser a única amada pelo pai – para recobrir a fantasia do bate-se. É a contemporaneidade mesma que termina por desvelar o fato de estrutura[11]: a condição do filho como um objeto resto de um desejo, a parte perdida materializada pelo objeto a com a qual cada um se separa do Outro. Como afirma Lacan,

O objeto a é o que são todos vocês, na medida em que estão aqui enfileirados – abortos do que foi, para aqueles que os engendraram, causa do desejo. E é aí que vocês têm que se orientar, a psicanálise lhes ensina isto.[12]

Resta, inexoravelmente, sejam quais forem as ficções que sustentam o desejo que nos deu origem, o ponto de real em cada um como aborto que decai da decifração do desejo do Outro e resiste às construções simbólicas e imaginárias que poderiam responder ao mistério da vida. Dor de existir no império da linguagem frente a qual somente o gozo órfão do falasser lhe assegura o seu singular destino no mundo. É o que finalmente lhe permite responsabilizar-se pelo seu gozo sem atribuir ao Outro parental a culpa do estrago.

Às versões do pai, o equívoco da père-version, acrescentam-se as figuras da mãe que seria responsável pelo estrago subjetivo, como o achado clínico que surpreendeu Freud por sua preponderância nas análises das mulheres:

[…] nesta dependência da mãe, encontra-se o germe da ulterior paranoia da mulher. Parece, com efeito, que este germe radica o temor – surpreendente, mas invariavelmente encontrado – de ser morta (devorada?) pela mãe.[13]

Com efeito, na operação de separação a primeira resposta que a criança dá ao enigma do desejo do Outro parental, cujo objeto é desconhecido, diz Lacan[14], é a sua própria perda e que dá origem ao fantasma do próprio desaparecimento, da morte interpretada como desejo do Outro. Assim, o fato de estrutura – ser aborto de um desejo – é interpretado como má vontade de um Outro maligno que será tanto mais paranoide e persecutório quanto maior o efeito do rechaço da castração.

Orientar-se segundo a ética do bem-dizer em relação à estrutura, ao inconsciente como mal-entendido, pode abrir as vias no dispositivo da análise de localizar a verdadeira causa que nos afeta, a causa ausente[15], o ininterpretável da castração que resta como um limite a toda ficção possível.

Ao incitar as ficções que tomarão corpo na transferência por meio da abertura ao saber inconsciente, o analista, com sua presença e seu dizer, encarnará ele mesmo o objeto ininterpretável, a incurável verdade de que não há relação sexual. Só assim poderá introduzir um objeto privilegiado não disponível no mercado: o objeto separador, causa de desejo. Desde que o analista suporte o paradoxo de seu ato e não se enrede, ele mesmo, nas assuntos de família.

 


[1] Ariès, Philipe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1981, p. 214.
[2] Laurent, Eric. “A análise de crianças e a paixão familiar”. In Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2011, pág. 27-44.
[3] Lacan, Jacques. “Os complexos familiares na formação do indivíduo”. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 67.
[4] Lacan, Jacques. “O mal-entendido”. In Opção lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 72. Edições Eólia, março/2016, p. 10.
[5] Lacan, Jacques. O seminário da Jacques Lacan, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992, pág. 62.
[6] Lacan, Jacques. “Televisão”. In Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, pág. 531.
[7] Miller, Jacques-Alain. “Cosas de familia en el inconsciente”. In Introducción a la clínica lacaniana. Barcelona: ELP, 2007, pág. 343 (traduzido livremente).
[8] Lacan, Jacques. “Conferência em Genebra sobre o sintoma. In Opção lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 23. São Paulo: Eólia, dez/1998, pág. 10.
[9] Segundo o equívoco que Lacan emprega na “Conferência em Genebra sobre o sintoma” (ibid.) que condensa as palavras na língua francesa mot (palavra) e matérialisme (materialismo).
[10] Cf. a leitura de Jacques-Alain Miller sobre a fantasia do bate-se numa criança. In O osso de uma análise. Salvador: Agente (EBP-BA), 1998, pág. 101.
[11] Cf. Laurent, Éric. Hay un final de análisis para los niños. Buenos Aires: Colección Diva, 1999.
[12] Lacan, Jacques. O Seminário da Jacques Lacan, livro 17: O avesso da psicanálise. Op. cit, pág. 170.
[13] Freud, Sigmund. “Sobre la sexualidad feminina”. In Obras completas. 4ª ed. Madrid: Biblioteca Nueva, 1981, tomo III, pág. 3978 (traduzido livremente).
[14] Lacan, Jacques. Le Séminaire de Jacques Lacan, livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse. Paris: Seuil, 1973, p.195.
[15] Lacan, Jacques. Le Séminaire de Jacques Lacan, livre XVI: D’un Autre à l’autre. Paris: Seuil, 2006, p. 347.

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