Assuntos de família: o Outro em Um

Assuntos de família: o Outro em Um

VerHalle 1986 - Óleo sobre tela - 170x170 (Primer Premio Salón Nacional de Santa Fe, 1986)

VerHalle 1986 – Óleo sobre tela – 170×170 (Primer Premio Salón Nacional de Santa Fe, 1986)

Ernesto Sinatra – EOL AMP
ENAPOL VIII
Presidente

Família é um nome muito generoso, pois denota conglomerados muito heterogêneos que tem resistido com o passar do tempo; desde o tradicional agrupamento de origem latina definido pelo parentesco em torno de relações de filiação e de casal entre os seres humanos, até as formações taxonômicas que determinam sistemas de relações entre elementos. De nossa parte, nos dedicamos desde a prática da psicanálise aos problemas – e soluções – que apresentam e oferecem à subjetividade os assuntos de família desde a perspectiva das novas configurações familiares.

Ao convocarmos a família e seus assuntos, referimos coisas que nos implicam profundamente, já que cada integrante da família carrega as marcas do Outro, Outro que se declina aos próximos mais íntimos que tenham incidido na vida do sujeito: desde as marcas que tenham recebido até as produzidas no Outro; marcas distribuídas entre laços de sangue e aliança.

A partir desta perspectiva – a do Outro – cada um é a consequência das respostas que tenha dado a essas marcas: as chamamos fantasmas para designar a tela do real com que cada um faz existir uma realidade conforme a uma satisfação particular, tela construída a partir da incidência do Outro em Um. A esse respeito é demasiado familiar como com os fantasmas ( e o gozo que eles extraem do sentido, mas não menos o sentido que extraem do gozo) cada sujeito tenta des-responsabilizar-se das consequências de seus atos. ‘ A culpa sempre é do Outro’, talvez seja o enunciado mais representativo de esta tendência tão humana – quer dizer: tão neurótica*- que parece patrocinar os encontros e desencontros que se tramam em família, a sede privilegiada dos mal entendidos da subjetividade.

*Inclusive vigente na torção dos fantasmas que oferecem uma versão melancólica do mundo, já que quando o sujeito verdadeiramente se acusa de todo o acontecido, é notável até que ponto é realmente o Outro o destinatário do ódio, do lamento.   

Quando Lacan iniciou seu ensino referindo-se às configurações familiares, destacando o valor simbólico da família – o laço social que aglutina (2) – finalizou evidenciando no último tempo de seu ensino sua versão imaginária- e de um modo polido- encarrega à família a transmissão do mal entendido fundamental da linguagem que impõe lalingue em cada um: a crença em que poderíamos ser donos de nossas palavras, quando estamos destinados a reproduzir as de nossa família, que nos fala (3). É a via que o conduzirá em seu Seminário a situar um problema preciso na prática analítica: como fazer que o analisante deixe de falar de sua família (4) para interessar-se por suas próprias condições de satisfação? O ponto que quero destacar e que Jacques-Alain Miller fisgou com precisão é: como passar dos assuntos de família, aos que o Outro constitui a matriz do sentido, do ‘destino’ em que pode refugiar-se o sujeito, ao sinthoma singular que processa o gozo de cada um?

Neste assunto, Miller enaltece a aposta de Lacan e mostra de um modo inflexível os enredos na prática aos quais os analisantes não podem deixar de incorrer, mas não menos os analistas: os assuntos de família encontram seu ‘destino’ em uma brusca redução: separar-se ‘das escórias herdadas do discurso do Outro’ (5). Como atravessar os semblantes que tenham dado consistência ao pai – o freudiano, esse que os analisantes não deixam de recriar em suas crenças religiosas com o dogma de seus fantasmas?

Mas não menos aparentados estão estes fantasmas do pai vociferante (ora interditor, ora gozador) com essa outra boca, a do crocodilo materno, sempre aberta, a que a fez ressoar desde a teoria kleiniana os fantasmas vorazes que reduplicou toda uma geração de analistas nos anos ’70.

“A permissão para gozar não muda em nada a estrutura do gozo”(6) e a prática da psicanálise se sustenta em que há uma “brecha intrínseca do gozo que já não se esconde atrás do pai.”(7) Assim se verifica, uma vez mais, que nem a proibição era um privilégio do pai, nem a suposição de uma satisfação absoluta uma propriedade da mãe.

É sob esta perspectiva que Jacques-Alain Miller destaca o esforço de J.Lacan em destituir a ‘psicanálise baseada no Outro’ para ressituar a prática da psicanálise não mais a partir do Outro, senão a partir do Um sozinho.(8)

Podemos acrescentar que passar do Outro da família ao Um sozinho, indica uma resposta que oferecemos a partir de nossa orientação lacaniana ao problema do laço social. O caminho inverso -passar de Um ao Outro- consiste na origem do dito problema, o que tenha sido teorizado com a transposição da libido freudiana do autoerotismo ao narcisismo para determinar finalmente a relação de objeto.

Uma questão que fica: depois do percurso realizado em uma análise, com o sinthoma produzido por cada Um, como voltar ao Outro? Esta pergunta não é banal, nem tautológica, já que os assuntos de família se encontram encarnados no Outro em Um, e uma vez caídas as vestimentas do fantasma, esse Outro já não existiria…Mas de todas maneiras o que continua existindo é a relação com o íntimo e com o semelhante, com os pequenos outros, questão que ainda está por resolver-se. Talvez assim se lance, para cada um e desde cada análise, uma das maiores consequências dos assuntos de família.

Com estas coordenadas tentaremos, a partir do próximo ano, propiciar desde a FAPOL o trabalho de pesquisa em nossas Escolas, incluindo a todos que queiram a ela juntar-se, para desfrutar nosso próximo ENAPOL VIII na primavera lacaniana de Buenos Aires 2017.


(2) LACAN,J. Outros Escritos: “Os complexos familiares na formação do sujeito” Ensaio de análise de uma função em psicologia. Publicado em 1938 na Enciclopédia Francesa; Edit.Paidós; págs.34-35: “Entre os todos grupos humanos, a família desempenha um papel primordial na transmissão da cultura. Se as tradições espirituais, a preservação dos ritos e dos costumes, a conservação das técnicas e do patrimônio lhe são disputadas por outros grupos sociais, a família prevalece na primeira educação,a repressão dos instintos, a aquisição da língua chamada precisamente materna. Deste modo ela rege os processos fundamentais do desenvolvimento psíquico, esta organização das emoções de acordo com tipos condicionados pelo ambiente que é, segundo Shand, a base dos sentimentos;mais amplamente, ela transmite estruturas de comportamento e de representação cujo jogo transpassa os limites da consciência.”
(3)LACAN,J. Seminário XXIII, O Sinthoma;Edit. Paidós;pág.160 ‘Joyce o sintoma” Conferência de 16 de junho de 1975: “As causalidades nos empuxam à direita e esquerda, e com elas construimos nosso destino, porque somos nós quem definimos como tal.Fazemos delas nosso destino porque falamos.Acreditamos que dizemos o que  queremos, mas é o que os outros quiseram, mais especificamente nossa família, que nos fala. Isto se deve entender como um complemento direto. Somos falados e, devido a isso, fazemos das casualidades que nos empuxam, alguma trama.”
(4)LACAN,J. O Seminário. Curso XXIV: L’insu que sait de l’une bévue sáile à mourre.: “Mas o que segue sendo completamente surpreendente, é que os analisantes, eles, não falam senão disso (os parentes). A observação incontestável de que o parentesco tem valores diferentes nas distintas culturas não impede que as bordoadas por parte dos analisantes de suas relações com seus parentes, mais próximos, é um fato que o analista tem que suportar.”
(5)MILLER,J.-A. O ultíssimo Lacan, Curso da Orientação Lacaniana-Paidós, pág.140: “não conformar-se em ser falado por sua família, senão a reconhecer sua identidade sinthomal…ser seu sintoma é livrar-se, depois de tê-las percorrido, das escórias herdadas do discurso do Outro” “a partir do que há de absoluto no sinthoma do Um.”
(6)MILLER,J.-A.:Um esforço de poesia;Curso da orientação lacaniana, Edit.Paidós;Bs.As. 2016;pág.290
(7)Op. Cit. Pág.291
(8)MILLER,J.-A.:idem(5): “que consiste em deslocar a psicanálise para o registro do UM e em repensar sua prática a partir do que há de absoluto no sinthoma do Um”.
Tradução: Maria Cristina Vignoli

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