Editorial – 2016 – Volume 2

Editorial – 2016 – Volume 2

 

Monica Biaggio. “Quisiera ser un cisne”. Eol- AMP

Monica Biaggio. “Quisiera ser un cisne”. Eol- AMP

Flory Kruger

O número um de uma publicação aborda uma necessidade. O número dois, sobre a necessidade da sua persistência. Não se trata apenas de uma continuidade previsível; dois é muito mais do que o dobro de um, e mais do que a série lógica dos números. O diálogo do um que se dirige a outros encontra-se na série com o dois e promete mais seqüência, freqüência do contato, acúmulo e intensificação. Por isso, à celebração do primeiro exemplar se soma à do segundo que, mais do que somar, potencia.

A cultura constrói um luxo do humano; um luxo peculiar porque não se trata de um excesso, mas daquilo que nos constitui como humanos. A condição humana é angústia, conflito e possibilidade de novos ajustes com o real.

Somos falados quando acreditamos falar e sentir. Trabalhar com este discurso que nos é entregue é a nossa alternativa; são nossas marcas; é o que nos ilumina; é o empenho do esforço da Orientação Lacaniana. O luxo da linguagem é o luxo inevitável de uma falta – de uma ausência – de um conflito.

A FAPOL é uma criação auspiciosa por ter uma postura convocadora, pela sua abertura e pelos seus propósitos: difundir, defender e promover o desenvolvimento da Psicanálise na America Latina; ocupar-se da abordagem de temas que afetam a realidade efetiva da nossa época; promover a discussão aberta de problemas com os quais a Psicanálise se depara na atualidade; procurar e tentar encontrar possíveis soluções; buscar o intercâmbio tanto no campo teórico como no da Ação Lacaniana direta.

Jacques Lacan não viveu no século XXI, mas seus textos se adiantaram à época de tal modo que refletem toda sua atualidade. Seu ensinamento permanecerá vivo sempre que o coloquemos em questão à luz dos problemas atuais sustentando uma atitude aberta, interrogativa e examinadora. Se não for assim, a Psicanálise deixará de ser o que é.

Os processos contemporâneos são vertiginosos e, assim, acaba sendo difícil – porém imprescindível – conhecê-los, enfrentá-los, compreendê-los e, finalmente, incorporá-los. Lacan não chegou a ver muitos deles, mas suas teorias os anteviram. Resta-nos – e, não é pouco – não ultrapassá-los. Cada conceito exige ser redefinido, readequado, talvez transformado visando o novo; senão corremos o risco de transformá-lo em um saber morto. Ser um psicanalista lacaniano exige este desafio.

A Orientação Lacaniana enfrenta um acúmulo de novos processos: todo tipo de questões de gênero, e também desejos que não se reprimem mais, sequer nos atos mais íntimos e tampouco na sua exibição no espaço social, mas que, no entanto, afetam as decisões políticas dos Estados.

O interno está fora combatendo preconceitos, sansões morais e, ainda, em alguns casos, circula na contramão dos sistemas policial e jurídico. O interno também está fora nas comunicações excessivas que a tecnologia nos proporciona.

A realidade torna-se cada vez mais diversa e complexa a uma velocidade difícil de acompanhar. Os limites do real e do virtual perderam sua força. O não existente torna-se existente como se fosse verdadeiro. Educa-se a uma criança, mas também a um Pokémon.

LACAN XXI significa repensar cada novidade; todas são significativas. Com o otimismo lacaniano, nem todas são catastróficas; no entanto, dar ouvido a elas é algo mais do que um ato de prudência.

As diferentes tipologias familiares e seus peculiares emaranhados, por assim mencionar um núcleo problemático: o homem cada vez mais subordinado ao objeto de consumo; e a tecnologia que facilita e a que escraviza gerando condutas diferentes das conhecidas tradicionalmente. Nossa publicação virtual que hoje apresenta sua continuidade deverá dar conta destas preocupações.

Para grande parte dessa atualidade a FAPOL reponde com novos projetos e novas iniciativas buscando ações que acompanhem o processo. A Rede Universitária Americana (RUA), da qual participam membros da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), é uma proposta para compartilhar um espaço de reflexão, discussão e extensão da Psicanálise a partir da Universidade. Já os cinco Observatórios se ocupam de temas como a violência de gênero, a medicalização infantil, o autismo, a drogadição, além de questões de legislação relacionadas às mesmas. A Iniciativa Universitária de Formação e Pesquisa (Iniciativa Universitaria de Formación e Investigación – IUFI) é um novo projeto direcionado aos analistas que estão ligados transferencialmente à Orientação Lacaniana e, que por não serem membros da AMP, não podem participar da RUA. A Rede de Psicanálise Aplicada (RPA) está orientada aos membros que fazem sua pratica em lugares assistenciais e que enfrentam diversos problemas institucionais, nos quais é preciso ajustar o perfil da nossa prática. Somado a estes projetos, o trabalho ao redor das três Escolas da América – EOL, NEL e EBP – representa um compromisso de interlocução, estudo e intercâmbio tão valioso quanto necessário.

A realização do ENAPOL no próximo ano, em Buenos Aires, é um marco da FAPOL.

De fato, o VIII Encontro Latino-Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana, e o XX Encontro Internacional do Campo Freudiano, programados para os dias 14 e 15 de setembro de 2017, darão espaço para propostas urgentes.

Intitulado “Assuntos de Família”, seus enredos na Prática, será a ocasião adequada para o estudo dos novos modelos parentais, dos imprevisíveis vínculos familiares e dos conflitos gerados a partir deles.

Sobre o número #2 desta revista, vale destacar a importância e a vigência do seu conteúdo.

Contamos com um texto de Miquel Bassols, Famulus, que expõe dura e certeiramente o sentido da família criada a partir da fantasia de cada um. Bassols, Presidente da AMP, aborda o grave conflito “Se a família tentava ordenar o real do gozo, o real do gozo reordena hoje a família, e isso em formas tão dispares como seus equivalentes entre si”.

Ernesto Sinatra, Presidente do VIII ENAPOL, também escreve sobre o anunciado encontro e as urgentes reflexões que o complexo tema suscita.

O laboratório sobre a infância medicada, cuja representante da NEL é Aliana Santana, apresenta neste número a terceira etapa da sua pesquisa.

Marcelo Veras, quem desenvolve o novo projeto “A Rede da Psicanálise Aplicada”, proposto pela FAPOL, nos oferece neste número parte da sua longa e fértil experiência realizada no Brasil a respeito do tema, além das suas contribuições clínicas e teóricas.

A partir do caráter apaixonante gerado pela Orientação Lacaniana, Gerardo Arenas se questiona sobre o contágio desta paixão no dispositivo do Cartel para mostrar que é a partir do mesmo que o IUFI manterá e sustentará os laços entre seus participantes e as três Escolas da América.

Três analistas – um de cada Escola – foram convidados a comentar um parágrafo de Lacan com o intuito de apreciar a atualidade do seu ensinamento. São eles: Clara Olguín (NEL), Carlos Augusto Nicéas (EBP) e Leonardo Gorostiza (EOL).

Este número traz também os avanços da Enapol e a primavera lacaniana em Buenos Aires nas palavras das suas diretoras Alejandra Glaze e Viviana Mozzi (EOL), e dos correspondentes Maria Josefina Fuentes (EBP) e Renato Andrade (NEL).

Resta-nos desejar que a leitura do número #2 de Lacan XXI lhe seja orientadora e polêmica, e esclarecedora e discutível. E expressar-lhes nossos melhores desejos para a tarefa que nos espera.

Tradução: Lenita Bentes

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