Famulus

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Amanda Dupont. “Pensamiento y color" - Acrílico

Amanda Dupont. “Pensamiento y color” – Acrílico

Miquel Bassols 

O próximo VIII ENAPOL nos convida a trabalhar com o tema: “Assuntos de família – seus enredos na prática”. A novela familiar está presente, de fato, desde o início da prática da psicanálise e também no discurso do sujeito contemporâneo; porém, o “assunto” se modificou substancialmente. É que a atualidade das transformações da família propõe novas questões que só podem ser abordadas além da estrutura clássica do Édipo e das suas formas patriarcais.

Entretanto, o sujeito continua sendo igualmente servo da família e do seu discurso: “Pensamos que decidimos o que queremos, mas na verdade é o que os outros quiseram; mais especificamente, a nossa família é quem nos fala (1)”. E este “nos”, destaca Lacan, deve ser entendido como um complemento direto, no sentido de que somos falados pela nossa família nesta trama de discursos que chamamos de destino.

Veja, então, a seguinte referência etimológica que caracteriza as ressonâncias que o termo “família” abarca desde as suas origens. Em latim, famulus significa escravo, servo, servente, submetido. Originalmente, a família era equivalente ao âmbito da posse y da ordem do conjunto do patrimônio, o que englobava tanto os parentes como os servos que se alimentavam na casa do senhor. Assim, a marca do significante amo se faz presente na origem da organização simbólica que conhecemos como família em todas as estruturas do parentesco.

A família: sistema simbólico e aparato de gozo

Os estudos da história e a antropologia da família mostram há tempo que sua estrutura não pode ser definida como uma unidade natural baseada na finalidade da reprodução. A família humana, instituição que registrou sucessivas mudanças ao longo da sua história, é uma estrutura de relações simbólicas que nem sempre se sobrepõe ou coincide com a unidade biológica – unidade com a qual a confundem, às vezes. Quando se sobrepõe a esta, a estrutura simbólica das relações que regem o parentesco e a descendência modifica de forma tão radical a suposta unidade natural da família que se pode dizer perfeitamente que a desnaturalizou por completo. De fato, não há nada natural na família. A semelhança que se observava entre seus membros habituais no Ocidente desde o século XIX – pai, mãe e filhos – com a família biológica é, como logo identificou Lacan (2), uma semelhança absolutamente contingente que o pensamento se vê tentado a considerar como uma comunidade, cuja estrutura está fundamentada diretamente na constância dos instintos.

Assim, em primeiro lugar, devemos entender a família como um sistema simbólico de relações organizadas por um significante mestre que somente de modo contingente se identifica com os seus fins naturais de reprodução e descendência. Atualmente, estas contingências se mostram ainda mais evidentes e variadas pelas incidências que a técnica tem sobre o real do corpo, a ponto de haver modificado a própria organização que o significante mestre comandava sobre a economia do gozo. Hoje em dia é possível encomendar uma família feita sob medida do fantasma de cada um. Seja por meio das novas técnicas de reprodução; através da adoção; pelas novas famílias monoparentais ou com o reconhecimento dos casais homoafetivos: se faz mais evidente se há espaço para a natureza perdida da família biológica.

Assim, em muitos países, mais da metade das famílias não correspondem à estrutura clássica do casamento com filhos. Nas sociedades patriarcais, sustentadas na prevalência do Nome do Pai, o falo como significante amo ordena o intercambio das mulheres entre clãs de acordo com a lei da exogamia. Segundo destacou Lévi-Strauss, os homens eram os que intercambiam as mulheres, não o contrário. A polêmica sobre a universalidade desta lei modifica o sentido ao considerar o que Lacan formalizou sobre a estrutura do Édipo freudiano com a conhecida fórmula da metáfora paterna(3).

Se os homens trocam mulheres entre eles segundo a lei fálica, as mulheres trocam o falo pelo filho introduzindo na lógica das leis do parentesco um elemento singular que não pode ser reduzido agora à pura ação do significante.

O gozo feminino – implícito de múltiplas formas nas siglas DM, que significam naquela fórmula o Desejo da Mãe – finca as raízes desse desejo materno em um campo que está sempre além, ou mais próximo, do gozo fálico. É o campo do gozo feminino, o gozo do Outro, que habita em toda unidade familiar. Dito de outra forma: toda família é um aparato de gozo, um modo de resguardar o segredo do gozo como inominável, inclusive abjeto.

Da família-sintoma à família-sinthome

Digamos então que é neste Outro campo do gozo, mais além ou mais aquém do falo, onde reside o segredo de toda família, seu principal assunto, esteja ele mais ou menos organizado pelas leis clássicas do parentesco. É o segredo do casal seja homossexual ou heterossexual em sua forma manifesta, monoparental ou não, mas velando sempre o Héteros do gozo feminino.

Hoje em dia, nos deparamos com novas formações familiares que se organizam ao redor deste segredo do gozo como Héteros, como heterogêneo a qualquer organização governada pelo significante do Nome do Pai. Por isso há dificuldades para promover a partir da política clássica um “planejamento familiar” que seja harmônica e de acordo com as novas formas de gozo. O verdadeiro servo da família, seu famulus, é, na verdade, o sujeito do gozo, termo que Lacan utilizou uma só vez para marcar o passo que vai desde o sujeito do significante até ao futuro parlêtre que surgirá em primeiro plano na cena final do seu ensino (4). Mas, este “sujeito do gozo” é a antecipação do ser falante que será correlato à noção de sinthome.

Neste sentido, cada ser falante é servo do segredo do gozo familiar – por fim, estranhamente familiar –, o que uma análise ajuda a decifrar. Aos enredos atuais das novas formas de parentesco que configuram o grupo familiar é preciso acrescentar os enredos que as novas formas de gozo introduzem para fazer deste segredo o umbigo do real, ao redor do qual giram as novas formações familiares e todas as suas variações. Hoje, os vínculos familiares se formam e se desfazem segundo as formas cada vez mais singulares do gozo sintomático.

Já aos sintomas clássicos que se organizavam de acordo com o discurso da novela familiar patriarcal faz-se necessário agregar, agora, a dimensão do sinthome, na qual a psicanálise localiza o mais singular e opaco do gozo do sintoma, aquilo que o torna absolutamente incomparável ao outro.

Trata-se então, no nosso estudo dos novos assuntos e enredos da família, de passar de uma clínica do sintoma – como articulação significante do segredo familiar – a uma clínica do sinthome – como forma singular do gozo no ser falante. Cada um é, de fato, fruto do mal-entendido do gozo familiar; mal-entendido do qual Lacan se declarava traumatizado pelo fato de ser falado por ele antes mesmo de chegar a falar dele.

Família e estruturas clínicas

Quando Jacques-Alain Miller apresentou um tema muito similar ao deste VIII ENAPOL (5) o fez tomando como referência o breve texto de Lacan intitulado “Nota sobre a criança (6)”. Trata-se dos dois sucintos e muito conhecidos comentários enviados a Jenny Aubry nos quais Lacan localiza o lugar da criança em relação ao segredo do gozo no casal parental, para além do “fracasso das utopias comunitárias” em que se continua emaranhando o ideal que moldaria o bom grupo familiar.

O segredo do gozo familiar se encarna de modo eminente na criança, cujo sintoma representa muitas vezes o retorno da verdade deste segredo. E isso ocorre sob as três formas assinaladas por Lacan e destacadas por Jacques-Alain Miller, segundo as quais a criança encarna este segredo para “testemunhar a culpa, servir de fetiche ou encarnar uma recusa primordial; estas três versões refletem, a meu ver, a neurose, a perversão e a psicose (7)”. E assim se organizam as três estruturas da nossa clínica clássica: a criança que faz retornar na neurose a culpa reprimida dos pais; a que encarna na perversão a recusa de um gozo fetichista; e a que na psicose devolve a partir do real a recusa primordial de um gozo impossível de simbolizar. Hoje, podemos encontrar múltiplas referencias clínicas para esta divisão de estruturas.

Que esta clínica estrutural fique hoje subsumida na nova clínica do parlêtre, na qual tratamos o corpo falante afetado pelo gozo de lalíngua, não deveria deixar de lado a investigação sobre a atualidade da lógica dos Nomes do Pai na sua pluralização. A referência ao Complexo de Édipo freudiano continua sendo necessária, aqui, para que se possa entender boa parte dos enredos familiares: “Retirem o Édipo e a psicanálise em extensão (…) se torna totalmente jurisdição do delírio do presidente Schreber” (8). O mapa da clínica estrutural que distingue neurose, psicose e perversão pode ser lido atualmente à luz da clínica do parlêtre para distinguir, em cada estrutura clínica, duas vertentes diferentes: a das identificações familiares e a dos acontecimentos do corpo que funcionam fora da identificação com o Pai. Eric Laurent destacou recentemente as importantes conseqüências desta perspectiva clínica “altamente política” (9). Ainda que o analista não receba nem trate a família como tal, existe, na verdade, uma política do sintoma da família que devemos estudar neste sentido para saber tratá-lo em cada sujeito.

A economia do gozo reorganiza a família

A partir da nova perspectiva da clínica do parlêtre, as relações familiares podem ser consideradas, então, como um vínculo social que existe no lugar da inexistência da relação entre os sexos. É por isso que a família sempre tentou organizar a relação sexual com as identificações masculina e feminina, mais ou menos padronizadas. As identificações familiares dizem ao sujeito o que fazer com um gozo autista que, para começar, não tem um objeto fora do próprio corpo. Sua função simbólica era articular um saber para regular o real do gozo, inclusive para impô-lo. Mas para a psicanálise trata-se exatamente, por assim dizer, de “des-familiarizar” o sujeito na sua relação com o gozo e introduzir-se por essa via em uma clínica além do Édipo. Assim como indicava Jacques-Alain Miller: “Quando a ordem simbólica era concebida como um saber que regula o real e impõe sua lei, a clínica estava dominada pela oposição entre neurose e psicose. Agora, a ordem simbólica é reconhecida como um sistema de semblantes que não impera sobre o real, mas que está subordinado a ele. Um sistema que responde ao real da relação sexual que não existe” (10).

Do mesmo modo, a família como sistema de semblantes, de significantes que tentam ordenar o gozo, se revela atualmente como um artifício subordinado ao real da inexistência da relação entre os sexos. Mais do que nunca, as famílias se reorganizam hoje seguindo as derivas do real, da não relação sexual e de uma economia do gozo que não se subordina a um significante em particular, seja ao do Nome do Pai ou a qualquer outro que quisesse substituí-lo. Porque “na economia do gozo, um significante mestre vale o mesmo que qualquer outro” (11). A instabilidade dos vínculos familiares não segue, hoje, a lógica dos intercâmbios simbólicos, mas a desta equivalência entre significantes mestres que se intercambiam de acordo com as condições do gozo.

Dito de outro modo, os termos se inverteram: se a família tentava ordenar o real do gozo, o real do gozo reordena hoje a família, e isso em formas tão díspares como equivalentes entre si.

A família e seu pai congelado

As políticas atuais de “planejamento familiar” respondem ao legítimo direito ao gozo que o sujeito contemporâneo também define como o direito de ter e formar uma família de acordo com as suas condições de gozo. Mas as propostas possíveis seguem inevitavelmente a estrela de um fenômeno que Lacan já havia antecipado no final dos anos 1950 no seu comentário da figura do “pai refrigerado”, ou congelado, tanto no seu sentido figurado como literal (12). Então, a possibilidade introduzida pela tecnociência da gravidez pela inseminação artificial já realizava de modo direto a separação radical entre a função simbólica do “pater” e a função real do “genitor”. Hoje é uma realização – no sentido de torná-lo real – que está na ordem do dia, o que deixa ainda mais espaço para a proliferação das figuras imaginárias do pai que, por outra parte, sempre existiu nos fantasmas mais familiares de cada sujeito. Tratava-se, então, de “uma pequena notícia que [vinha] do mais profundo da América. Após a morte do seu marido, uma mulher, comprometida com ele pelo pacto de um amor eterno, se faz fazer um filho seu a cada dez meses […]. É a ilustração mais acolhedora que podemos dar do que chamo do “x” da paternidade” (13). O comentário de Lacan continua sendo atual. Não só o pai simbólico é o pai morto, como novelava o mito freudiano do pai morto da horda primitiva, o pai assassinado pelos filhos para ter acesso ao gozo. A partir desta possibilidade introduzida pela tecnociência também o pai real é o pai morto, o pai de quem, neste caso, se havia extraído e congelado os espermatozóides. Mas, precisamente, a noção do pai real, assim como já destacava Lacan naquele momento, não se confunde em nenhum caso com a fecundidade.

O real do pai continua sendo até hoje um enigma; um “x” que cada sujeito resolve a seu modo com seu sintoma em primeiro lugar. E para este sintoma não há planejamento possível.

Lacan já antecipava naquele momento a necessidade da reorganização da clínica que concluiu duas décadas depois com a noção de sinthome. “A distinção do imaginário, do simbólico e do real não bastará talvez para traçar os termos deste problema, cuja solução não me parece próxima” (14). De fato, as novas transformações familiares não se resolvem seguindo esta distinção que permitia definir seus lugares a partir do simbólico de modo mais ou menos nítido. As demandas de formar uma “família sob encomenda” e as possibilidades reais de responder a elas continuam hoje inevitavelmente à deriva do sintoma que, para cada sujeito, surge da inexistência da relação sexual.

E é a estas novas derivas, e as suas novas serventias, que a psicanálise de hoje e este próximo VIII ENAPOL deverão saber responder.

Agosto de 2016
Tradução Lenita Bentes

 


([1]) Jacques Lacan, Seminario 23, “El sinthome”, Paidós Buenos Aires 2006, p. 160.
(2) Jacques Lacan, La familia, Barcelona 1978, Editorial Argonauta, p 17.
(3) Jacques Lacan, Escritos, Ed. Siglo XXI, México 1984, p. 539.
(4) Jacques Lacan, “Presentación de la traducción francesa de las Memorias del Presidente Schreber”, en Intervenciones y Textos, Manantial, Buenos Aires, p. 30.
(5) El tema de las XXXV Jornadas de la ECF, “El reverso de las familias. El vínculo familiar en la experiencia analítica”.
(6) Jacques Lacan, “Nota sobre el niño”, en Otros escritos, Paidós, Buenos Aires 2012.
(7) Jacques-Alain Miller, “El revés de la familia”, en Revista Consecuencias nº 8, Abril 2012.
(8) Jaques Lacan, “Proposición del 9 de octubre de 1967. Sobre el psicoanalista de la Escuela”, en Momentos cruciales de la experiencia psicoanalítica, Manantial, Buenos Aires, 1992, p. 21.
(9)Éric Laurent, L’envers de la biopolitique. Une écriturepour la jouissance. Navarin / Le champfreudien, Paris 2016, p. 238.
(10) Jacques-Alain Miller, “El inconsciente y el cuerpo hablante”, en www.wapol.org.
(11) Ibídem.
(12) Jacques Lacan, Seminario 4, “La relación de objeto”, Paidós, Buenos Aires, p. 376-378.
(13) Jacques Lacan, opus cit, p. 376.
(14) Jacques Lacan, ibidem.

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