“Segredos de família”

“Segredos de família”

Amanda Dupont. “No sé”. Oleo

Amanda Dupont. “No sé”. Oleo

Por Renato Andrade – NEL

Em nosso tempo o privado tornou-se público. As fotos, o vídeos, os áudios que circulam pela televisão ou pelas redes sociais, a atividade que fica registrada em nossos dispositivos tecnológicos ou a falta de pudor com que se abordam os outrora temas íntimos, nos podem fazer crer que já não há mais lugar para os “segredos”.

Todavia, dada à relação que cada sujeito tem com seu gozo, verificamos que há temas encobertos pela vergonha e pelo sentimento de culpa que produzem, e que esse empuxo a mostrar tudo tem seus limites. Só graças à transferência um sujeito se consagra a regra fundamental da psicanálise “dizer tudo quanto lhe passa pela cabeça, sem julgar-se…”. Os exemplos vão desde o caso daquele homem que pagava a Freud com as notas lavadas e passadas, ou alguém que tome seu tempo para declarar sua eleição homossexual. Cada um tem seus segredos.

Segredo de família.

Que um “segredo” seja “de família” não quer dizer que devamos localizá-lo no plano do coletivo, já que se trata aí de uma eleição: não falar. Que esse silêncio coincida com um acordo grupal, explícito ou implícito, com um ato de reciprocidade ou lealdade, ou qualquer outro ideal, não apaga a decisão do sujeito. O “segredo de família” não é ignorado, pelo contrário, se conhece, foi manifesto, e nesse sentido é um fato de discurso.

O que se cala? Um dito que melhor correspondeu a outros, e concerne ao sujeito, pois fez acontecimento, tocou seu corpo, ressoou. Guarda relação com o gozo do outro, o gozo de um pai ou de uma mãe: a infidelidade, o incesto, o crime, a psicose, para citar alguns exemplos. Não são raras as demandas de análise que têm a ver com essa sensação de haver calado por demais, com essa necessidade de dizer, de contar, de denunciar o acontecido: um ato do Outro-familiar que rasgou o véu dos semblantes, que foi vivido com horror e destinado à indignação. Trata-se do momento traumático quando no mais familiar se introduz a presença inquietante do Outro gozo, esse real e singular no Outro que produz ódio e separação.

A vergonha não é alheia ao sujeito, ele acredita que isso no Outro fala de si mesmo. Não por estar castrado, mas por seu estatuto de objeto: esse “mal” que habita no outro, habita também em mim. O sujeito torna-se equivalente a esse pedaço de “maldade” no Outro, a esse objeto “mal” que teria que descartar. Deste modo, através deste jogo de imagens, toma forma o que se apresentou para ele como real.

O “segredo de família” condena quem sofre dele a inibição, porque se teme repetir o destino trágico a que se está identificado, ao sentimento de culpa, pelas significações patéticas que adotou na existência, e o isolamento, pela posição de “vítima” que se assume nas relações com os outros, sempre marcadas por suspeitas.

Atos como demandar uma análise, ou sustentá-la, nos mostram a inconformidade do sujeito para com o seu “segredo de família”. Mas, certamente não basta o colocar-se a falar.

O que sempre é “segredo” na família.

A experiência analítica nos faz participante da surpresa do sujeito ao constatar uma “trama” no que ele falou. Este momento determina para ele um antes e um depois na análise e na vida.

Na queixa, no que ele afirma repetir, evitar, no mais cotidiano, o analista mostra – não sem o corpo – o fragmento de sua história que reitera: isto escolhes. Assim cava uma fenda em seu discurso patético, o discurso dos “segredos de família”, que o sujeito poderá começar a preencher com suas associações, voltando a falar da família, mas de outra maneira. Depois de tudo, seguindo a Ernesto Sinatra no argumento para o VIII ENAPOL, os assuntos de família expressam a forma que cada um tem tentado “dar sentido a sua própria existência a partir do Outro”. E nestas voltas que são captadas graças ao desejo do analista, as cenas, as imagens, as frases, que levam o sujeito a reconhecer que é falado (1)[i], que foi falado por sua família, que há para ele uma “trama” um “destino”. “Receber os assuntos de família na prática analítica implica deixar-se envolver – no tempo que seja necessário – pela série de mal-entendidos edípicos em que o sujeito tenha se constituído, para colaborar com o esclarecimento disso no final do percurso”, assinala Sinatra.

O analista vai por tanto mais além dos “segredos de família” vai ao que Freud denominou no caso do Homem dos Ratos de a “pré-história”, e inclusive mais longe. Na análise, antes dos “segredos de família”, se trata de produzir em cada um a surpresa de descobrir o que estava oculto: que se é falado na família, que há uma “trama”, um “destino”.

Porém, Miller nos adverte que não podemos nos conformar com isso, pois é necessário poder “[…] livrar-se […] das marcas herdadas do discurso do Outro” (2)[ii], como o supereu – que não é por acaso a herança do desejo do Outro? Ser falado não é sem as piores consequências.

A família, seus “segredos”, seus assuntos, não podem nos fazer esquecer “ […] a imponderável responsabilidade do Um acompanhado pelo seu sinthoma”, lembra Sinatra. Que um pai, por exemplo, para além do falar, é o que cada sujeito inventa. É o caso de um filho cujo pai não só foi depreciado da pior maneira por sua mulher, adoecendo gravemente em consequência disso, mas que também foi um louco. Descobrir na análise como havia inventado um Pai a partir de um som que fazia seu papai com um instrumento, o levou a uma nova invenção: a de um semblante para fazer frente ao contingente disfrutando a vida. Para o músico Orfeu, Eurídice duas vezes perdida: para este músico, um pai duas vezes inventado.

 Tradução Jussara Jovita

 


(1) LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 23, O Sinthoma. Aula de 16-07-75.
(2) MILLER, Jacques-Alain. O ultimíssimo Lacan.

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