Psicanálise e Universidade… ainda

Psicanálise e Universidade… ainda

Sérgio Laia1* (EBP-AMP)

 

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Mónica Biaggio. EOL- AMP. Título- De flor en flor. Óleo sobre tela 120 cm x 90 cm. 2011. De la exposición Natural realizada en el Centro Cultural Borges.

A criação da Rede Universitária Americana (RUA) no âmbito da Fundação Americana de Psicanálise de Orientação Lacaniana (FAPOL) convida-nos a renovar as conexões e disjunções entre Psicanálise e Universidade. Afinal, se nos pautarmos por dados biográficos de Freud e mesmo pelo que nos lega, por exemplo, no texto “Contribuição à história do movimento psicanalítico”2, constatamos que, apesar de alguma expectativa inicial, ele próprio, por um lado, não encontrou um grande lugar na carreira universitária. Por outro lado, no Novo Mundo, a acolhida da psicanálise aconteceu, a princípio, no ambiente universitário norte-americano3. Sem dúvida, sabemos que foi também nesse Novo Mundo que as concepções freudianas tomaram mais fortemente o desvio designado como “Psicologia do Ego”. Ainda assim, esse desvio, assim como o kleinismo (menos marcado pelo espaço universitário), não deixaram de contribuir para extensão da psicanálise que faz da descoberta freudiana uma espécie de patrimônio mundial ou mesmo produto cultural. Nesse contexto expansionista, para a qual o ambiente universitário presta uma importante contribuição, o ensino de Lacan nos permite localizar, enfrentar e mesmo resolver as problematizações clínico-conceituais que tal extensão da psicanálise implica para a própria psicanálise.

Um exemplo recente e popular me parece situar essa faceta da psicanálise como patrimônio mundial ou produto cultural: em nossa atualidade, ainda como desde os primórdios da psicanálise, esta continua sendo criticada, mas é Freud que é escolhido como um dos breaks, ou seja, um dos “intervalos”, que, segundo o comercial do chocolate Kit-Kat, “mudaram o mundo”4. Nessa persistência, mesmo que polêmica, do nome e da descoberta freudiana em contextos bem diversos da clínica e, mais ainda, da experiência psicanalítica, localizo a força da psicanálise, embora saiba, graças à orientação lacaniana, que ela se perde consideravelmente se não cuidarmos da intensão que nos permite aceder ao que é um analista como produto de uma análise.

A criação de RUA, por sua vez, se vale tanto do fato de que há “praticantes da psicanálise em diversas cátedras das Universidades americanas” quanto da Universidade como “um lugar central e estratégico para impulsionar o crescimento da psicanálise na América”5. Entretanto se, entre esses “praticantes da psicanálise”, a própria FAPOL reconhece que há “um grande número de membros da AMP [Associação Mundial de Psicanálise]”6e esta nossa Associação já tem todo interesse em sustentar a psicanálise como uma experiência viva e com incidências no mundo, o que RUA pode implicar de novo? Esta pergunta também tem seu lugar se considerarmos que, no âmbito específico da Universidade, pelo menos no Brasil, praticantes da psicanálise que são membros da AMP ou fazem parte de sua “comunidade de interesse”, já se encontram em congressos e seminários acadêmico-científicos, bancas de defesa de dissertação de mestrado ou de tese de doutorado, grupos de pesquisa, etc.

Da parte da FAPOL, “abrir” RUA “tem [lhe] permitido tomar contato com o panorama dos colegas membros da Associação Mundial de Psicanálise (AMP) que trabalham nas Universidades em toda América Latina e começar a ter uma interlocução com organismos de pesquisa e instituições educativas”7. Nesse contexto, considero que os dados extraídos do questionário elaborado pelos responsáveis de RUA e preenchido, no ano passado, por participantes dessa Rede, traça esse panorama que já pode ser visualizado na página de RUA no site da FAPOL:  http://www.fapol.org/pt/notas/113 . Ainda precisaremos verificar se, de fato, esse Questionário foi preenchido por todos que integram RUA no Brasil e, se for o caso, relançá-lo para novos preenchimentos. Lúcia Grossi que, pela Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), trabalhou com Mariana Gomez (Escuela de Orientación Lacaniana, EOL) e Mario Elkin Ramirez (Nueva Escuela Lacaniana, NEL) para a extração dos dados que compõem tal panorama, pôde me informar que, do Brasil, segundo as respostas recebidas até o momento, temos nove projetos de pesquisa universitária em andamento, distribuídos por Minas Gerais (5), Rio de Janeiro (2) e São Paulo (2): alguns deles investigam espaços institucionais como a própria Universidade ou, ainda, penitenciária de mulheres, ambulatório para adolescentes, escola infantil e Centro do Genoma Humano; outros tomam uma perspectiva mais teórica, mas sempre articulada à clínica psicanalítica, dedicando-se a um texto específico como as lições de Lacan sobre Hamlet no Seminário 6 ou o autismo; um projeto chega mesmo a se apoiar na teoria psicanalítica para analisar um dado sociológico referente à ausência de contraceptivos em população de baixa renda. Dois desses projetos de pesquisa coordenados por brasileiros, segundo me relatou também Lúcia Grossi, já reúnem membros das três Escolas da AMP na América Latina e, acrescento, um dos objetivos de RUA é justamente favorecer o aumento de tais intercâmbios de seus participantes provenientes das Escolas latino-americanas da AMP e/ou de sua “comunidade de interesse”.

No que concerne a esses intercâmbios, me permito ainda destacar uma iniciativa na qual estou particularmente envolvido, juntamente com meus colegas Mariana Gomez e Jorge Assef da EOL e da Universidad Nacional de Córdoba (UNC): em dezembro do ano passado, foi assinado um Convênio Internacional entre essa Universidade argentina e a Universidade FUMEC (Fundação Mineira de Educação e Cultura), da qual sou professor e pesquisador; esse convênio envolve particularmente os cursos de Psicologia de ambas as instituições universitárias, a Maestria de Psicoanálisis da UNC e o Mestrado em Estudos Culturais Contemporâneos da FUMEC, mas pode se estender para outros cursos e programas universitários dessas duas Universidades8.Há interesse, de minha parte e de Fabián Schejtman (EOL e Universidad de Buenos Aires), que um convênio internacional também possa ser firmado entre a Maestria en Psicoanálisis da UBA e o Mestrado em Estudos Culturais Contemporâneos da FUMEC. Sabemos, sobretudo nós que trabalhamos no meio acadêmico-universitário, que convênios desse tipo são frequentes e cada vez mais estimulados pelas políticas de “internacionalização” das universidades, assim como já existem convênios internacionais do qual participam colegas da AMP em diferentes universidades no mundo. O diferencial do convênio UNC-FUMEC é que seu ponto de partida (e mesmo de orientação), além de ter relação direta com a psicanálise de orientação lacaniana, foi favorecido pela abertura de RUA e, assim, visa contribuir para a consolidação dos propósitos dessa Rede.

Para incrementar esses intercâmbios no âmbito das investigações e mesmo da participação em bancas de defesa de dissertações de mestrado ou de teses de doutorado, estimo que possa ser interessante estendermos a tecnologia que tem sido usada, na América Latina, particularmente pela NEL, em algumas de suas atividades que envolvem diferentes sedes e colegas de diferentes Escolas da AMP: a plataforma do tipo Webex, ao permitir conferências online e em “tempo real”, inclusive com participação simultânea de colegas de diversos países, talvez possa ser transposta para as bancas de defesa, reuniões de grupos de pesquisa, etc. Nesse contexto, aprimorar a performance ou mesmo aprender a língua do Outro, seja esta o espanhol ou o português, poderá também ser de grande valia.

Outra iniciativa importante de RUA, já em curso e que nos tomará um tempo para ser efetivada, é a criação de uma revista, compatível com as exigências universitárias internacionais de publicação e que poderá ser um instrumento importante para a validação acadêmico-científica da produção realizada por Membros da AMP e participantes da sua “comunidade de interesse”. Essa iniciativa – amplamente apoiada pelo Bureau da FAPOL (Flory Kruger, Cristina González e Rômulo Ferreira da Silva) – vem sendo empreendida por Vera Lopes Besset (EBP), Mariana Gómez (EOL) e Johnny Gavlovski (NEL), contando com o acompanhamento de Fabián Schejtman (EOL), María Elena Lora (NEL) e o meu como responsáveis por RUA nas três escolas latino-americanas da AMP. Estimamos que, em breve, poderemos dar notícias mais precisas sobre essa revista e, até o final do ano, lançar o seu primeiro número.

Por fim, destaco que daremos prosseguimento, por ocasião do VIII Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana (ENAPOL), em setembro deste ano, à série de Conversações de RUA. Já podemos falar de “série” porque nossa próxima Conversação será a terceira9.Maiores informações sobre o tema dessa Terceira Conversação e seu funcionamento logo serão difundidas, mas, diferente das duas primeiras, almejamos que, com o panorama já apresentado na página web de RUA sobre as investigações acadêmico-científicas de seus participantes, possamos avançar ainda mais com relação à tematização dos desafios a que nos convidam as conexões e disjunções entre Psicanálise e Universidade, sem continuarmos restritos à apresentação do que cada um faz em suas atividades acadêmico-científicas e em seus diferentes países. Nessa direção, de acordo com o que nos propõe Fabián Schejtman, tomaremos como referência, para esta Terceira Conversação de RUA, dois textos de Lacan e que discutem uma iniciativa pioneira da psicanálise lacaniana na Universidade: a criação do Départment de Psychanalyse na Université de Paris VIII. Esses dois textos são: “Talvez em Vincennes” (publicado em: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 316-318) e “Transferência para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes” (publicado em: Correio: revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n. 65, abril de 2010, p. 31-32, mas que deve ser lido também com a Errata publicada no n. 66 dessa mesma revista).

Desses dois textos de Lacan, destaco duas proposições que poderemos retomar em nossa próxima Conversação de RUA e que me parecem fazer diferença nos debates relacionados, dentro e fora de nossa comunidade analítica de trabalho, ao tema “Psicanálise e Universidade”:

No terceiro parágrafo de “Talvez em Vincennes”, Lacan indica que “agora”, ou seja, a partir do Département de Psychanalyse na Université de Paris VIII, “não se trata somente de ajudar o analista com ciências propagadas à moda universitária, mas de que essas ciências encontrem em sua experiência uma oportunidade de se renovar” (p. 316). Considero esta uma indicação preciosa quanto aos propósitos de RUA: para nós, membros da AMP e que trabalhamos também no meio universitário, o desafio da interface Psicanálise-Universidade não é tanto o de contribuir para que praticantes da psicanálise, ou aqueles que por ela se interessam, encontrem uma formação acadêmico-científico de qualidade e importante para seu desempenho profissional, pois essa qualificação já é inerente à missão universitária; trata-se, então, muito mais de dar lugar e averiguar se nossa presença e nossa ação nas Universidades tem sido capazes de renovar as “ciências” que a partir delas se difundem. Em outros termos: temos conseguido modificar o que se ensina nas universidades, inclusive para além da própria psicanálise que elas se dispõem a ensinar? Esse me parece um dos desafios que Lacan quis enfrentar com a criação do Département de Psychanalyse na Université de Paris VIII.

No primeiro parágrafo de “Transferência para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes” lemos que, embora os quatro discursos – do mestre, histérico, universitário e analítico – se tomem “pela verdade”, é “apenas o discurso analítico que faz exceção” porque, mesmo que se possa querer que ele domine, é “justamente esse discurso” que “exclui a dominação” (p. 31).  Mais adiante, no sexto parágrafo, Lacan vai sustentar que a “antipatia”  (p. 32) dos discursos universitário e analítico não será ultrapassada. Outro desafio, então, me parece poder ser delimitado e estimo que é particularmente a orientação lacaniana que nos permite acolhê-lo, enfrentá-lo. Nesse viés, RUA poderá ser uma iniciativa importante para podermos discutir e aprimorar os efeitos dessa acolhida tanto quanto as estratégias e consequências desse enfrentamento. Ora, a Universidade visa estender cada vez mais suas produções e descobertas e, nessa visada, há uma dominação universitária sobre o mundo e que, hoje em dia, na América Latina, localizamos inclusive na proliferação de cursos universitários de graduação e de pós-graduação, na importância crescente do que, em linguagem universitária, tem sido chamado de “formação continuada”: não só todos são incitados a prosseguirem seus estudos na Universidade, como também a continuá-los em Mestrados, Doutorados e, sobretudo no Brasil, “Pós-Doutorados”. Portanto, se considerarmos que a Universidade é um “lugar central e estratégico” (como se pode ler na própria apresentação de RUA no site da FAPOL), “para impulsionar o crescimento da Psicanálise”, como impulsioná-lo sem comprometermos, nessa interface Psicanálise-Universidade, a exceção do discurso analítico entre os outros discursos com relação à dominação? Em outros termos, como viabilizar, contando inclusive com tal interface, a extensão da Psicanálise sem fazer do discurso analítico um discurso comprometido com a dominação? Sabemos que, no âmbito específico da Escola, Lacan nos dá essa saída de que, “no próprio horizonte da psicanálise em extensão”, ata-se “o círculo interior que traçamos como hiância da psicanálise em intensão”10. Sem dúvida, essa saída não tem qualquer lugar no ambiente universitário porque, para tomarmos um exemplo bem banal, um psi- pode se formar em qualquer Universidade do mundo e passar a clinicar sem ter tido qualquer experiência, como “paciente”, de um tratamento – psi qualquer. Porém, ao mesmo tempo, pelo menos no Brasil, afirmar que a formação do analista acontece na Escola ou em outras instituições analíticas, isto é, em espaços institucionais diferentes da Universidade, não resolve completamente um problema que, me parece, já tem alguma expressividade. Afinal, embora tal afirmação sobre a especificidade da formação de analistas seja sustentada geralmente por qualquer psicanalista que também é professor e pesquisador na Universidade, verifico que, a partir dessa inserção universitária, há aqueles que estabelecem o que eu chamaria de “feudos de filiação”. Estes, a partir da prática e da produção próprias à Universidade (orientações de pesquisa, Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado), acabam estendendo seus domínios para além da Universidade, à medida em que passam a se fazer presentes na “vida profissional” de praticantes da psicanálise. Sem dúvida, não caberá à RUA resolver propriamente o problema que esses “feudos” implicam, a meu ver, para a formação analítica, porém tampouco me parece possível que ela os desconheça porque eles, mesmo que sob denegação, acabam tendo uma função de autorizar a prática clínico-profissional de seus participantes.

Conjugando essas duas proposições derivadas dos dois textos de Lacan que vão nortear a Terceira Conversação de RUA, um desafio se apresenta: se a antipatia entre os discursos analítico e universitário é inultrapassável, e a orientação lacaniana se propõe a sustentá-la tal e qual (mas sem transformá-la em um pesadelo para a existência da psicanálise no mundo), trata-se de apresentar como nossas frentes de trabalho na Universidade dão provas dessa antipatia e, ao mesmo tempo, renovam o que se ensina, pesquisa e propaga nos ambientes universitários para fazer valer, inclusive no âmbito da pretensão ao universal, o que não se universaliza.

1 * Psicanalista; Analista Membro da Escola (AME) pela Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e pela Associação Mundial de Psicanálise (AMP); Professor Titular IV do Curso de Psicologia da Universidade FUMEC (Fundação Mineira de Educação e Cultura); Pesquisador com projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e pelo Programa de Pesquisa e Iniciação Científica (ProPIC) da Universidade FUMEC.
2 Para a saga inicial de Freud em busca de um reconhecimento no meio universitário e para suas conferências na Universidade, ver: GAY, Peter (1988/1989). Freud: uma vida para nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, p. 138-140, 339-340. Ver, também: FREUD, Sigmund (1914/2012). Obras completas, vol. 11: Totem e tabu, Contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, p. 245-327.
3 Além das considerações sobre esse acolhimento norte-americano feitas pelo próprio Freud em “Contribuição à história do movimento psicanalítico”, já citado acima na nota 1, ver: PROCHNICK, George (2006). Putnam Camp: Sigmund Freud, James Jackson Putnam and the purpose of american psychology. New York, Other Press.
4 Ver: https://www.youtube.com/watch?v=jIdXLRLGMGQ(Acesso em 2 de fevereiro de 2017).
5 Cf. página de RUA, site da FAPOL: http://www.fapol.org/pt/RUA#hidemenu(Acesso em 2 de fevereiro de 2017).
6 Cf. página de RUA, site da FAPOL: http://www.fapol.org/pt/RUA#hidemenu (Acesso em 2 de fevereiro de 2017).
7 Cf. página de RUA, site da FAPOL: http://www.fapol.org/es/RUA(Acesso em 2 de fevereiro de 2017).
8 Ver: http://www.fapol.org/pt/notas/114(Acesso em 2 de fevereiro de 2017).
9 Resenhas da primeira e da segunda Conversação de RUA podem ser lidas entre os  “Artigos” já publicados em : http://www.fapol.org/pt/RUA (Acesso em 2 de fevereiro de 2017).
10 LACAN, Jacques (1967a/2003). Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista na Escola. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p. 261.

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