EDITORIAL – Rômulo Ferreira da Silva – EBP-AMP

EDITORIAL – Rômulo Ferreira da Silva – EBP-AMP

Marcelo Veras. “Sem título”. Fotografia. EBP-AMP

Marcelo Veras. “Sem título”. Fotografia. EBP-AMP

Caros leitores

Chegamos ao quinto número da Revista LACAN XXI.

Nossos últimos encontros foram pautados pela queda da primazia do simbólico, pelo avanço do imaginário e pela abordagem propriamente psicanalítica do real.

Escrevo esse Editorial no momento que estamos nos preparando para o Congresso da AMP, em Barcelona. Nele, as novas articulações dos três registros estarão em pauta no que diz respeito à prática lacaniana das psicoses, ordinárias ou não. Certamente, o que lá será tratado nos levará às consequências importantes sobre a clínica em geral.

Esse foi um ano repleto de acontecimentos políticos que mobilizaram a psicanálise da Orientação Lacaniana.

Desde a conferência de Jacques-Alain Miller, em Madrid, temos nos envolvido nas discussões sobre os rumos que o mundo toma no sentido de ameaçar o estado de direito, colocando em risco a própria psicanálise.

Dessa forma, a LACAN XXI avaliou que, ao retomarmos os primeiros Seminários de Lacan a partir de seu último ensino, que uma sequência lógica poderia ser retornar ao Seminário, Livro 7, A ética da Psicanálise.

A pronta resposta dos colegas a essa convocatória nos indica que esse foi um bom caminho.

Bernardino Horne, Marcela Almanza e Oscar Zack, enviaram os textos que abrem a revista.

Bernardino aborda esse Seminário à luz do último ensino de Lacan e as valiosas contribuições de Miller, concluindo que “O século XXI reserva grandes desafios éticos na medida em que os avanços genéticos, a manipulação do DNA, a procriação artificial, o melhoramento dos dados genéticos, a substituição de órgãos, a capacidade de produzir alimentos para grandes populações… O mal-estar que a civilização produz não será menor nem a felicidade maior apesar de tanta evolução”.

Marcela, a partir do “Teste do Polígrafo” questiona o lugar do “avaliador” e do “avaliado”, convocando para “Um esforço ético no qual estamos comprometidos constantemente, como analistas-analisantes, para assegurar a existência da psicanálise neste século para além das coordenadas da época numa aposta pela causa”.

Oscar evoca o Seminário 7, no qual, “se capta o inseparável da ética com ideologia, e como concerne aos analistas, o sentido político da mesma”. Aponta para a posição do analista lacaniano que evita se sugestionar pelos cantos das sereias, variações do discurso do mestre, buscando “uma prática subversiva, mas não revolucionária” contra as identificações e “ilusões de homogeneizar os seres falantes”. Encerra seu texto com uma frase de Fernando Pessoa: “Não há normas. Todos os homens são exceções a uma regra que não existe”.

Em seguida, vocês poderão apreciar seis textos que nos chegaram a partir do convite feito aos membros das três Escolas da FAPOL.

Gerardo Arenas parte da abordagem da ética na experiência analítica mesma, retomando e reinterpretando Freud e Lacan. Termina por evocar o “nosso real” como o que possibilita o laço com outros discursos, pois a função da ética é proporcionar o laço.

Gerardo Arenas aborda a ética na experiência analítica em si mesma retomando e reinterpretando Freud e Lacan. Conclui distinguindo o “nosso real” como o que não se compartilha com as outras disciplinas, pois “se a ética se refere ao laço, e toda singularidade é laço, uma ética do singular não o somente é desejável  e  possível, mas  também muito viável”.

Cristina Martínez de Bocca recupera o termo pudor no texto de Lacan para abordar a ética de forma atual.

Maria Bernadette Pitteri fala dos mitos do “brasileiro bonzinho”, lembrando os índios e negros escravizados, dizimados e segregados que continuam sofrendo preconceitos. Recorre à filosofia para desenvolver a ideia que “Só o sujeito responsável é livre e, portanto, ético”.

O texto de Verónica Carbone aparece em estreita consonância com o texto de Bernadette. Ela propõe que a posição do analista não é heroica. É uma decisão que não pretende uma neutralidade científica. Conclui dizendo que “Nossa Escola Una é uma Escola Sujeito” composta por subjetividades que não compartilham uma ética universal.

Abordando a gênese do sujeito neoliberal à luz da ética no século XXI, Claudia Henschel de Lima, se vale dos discursos propostos por Jacques Lacan. Conclui que “… ao localizar a pluralização do S1, correlata a ascensão do objeto a ao zênite da civilização, Lacan pôde junto com Guattari (1985) antecipar que, em se tratando de neoliberalismo e sujeito neoliberal, já não há ideia alguma, não há absolutamente nada…

Marcela Antelo nos diz em seu texto que o “mal-estar de estar na cultura persevera através das mutações que afetam os laços sociais”. Enfatiza o papel da Escola ao lembrar que os três últimos encontros da EBP “dão a régua e o compasso” para que acompanhemos “as mutações dos gostos, as sacudidas da cultura, as metamorfoses ambulantes, como modo de fazer existir o desejo do analista” e que, frente aos horizontes urbano, erótico e religioso que se apresentam, “há somente alguns analistas”.

A proposta de abordar a ética da psicanálise no século XXI não vai sem a articulação da Escola de Lacan com o social que a cerca. Desde o Ato de Fundação essa é a preocupação de Lacan. Ela se estabelece mais formalmente quando ele propõe em 1967 os gradus. O AE voltado para a intimidade da Escola, e o AME para sua relação com o externo, respondendo às regras do mercado, para o qual, a psicanálise viria a ser requisitada a prestar contas ao “serviço de proteção ao consumidor”.

A Comissão da Garantia surge como o dispositivo que responde às exigências através de seus AMEs.

Elisa Alvarenga, ex-presidente da FAPOL, nos apresenta um breve histórico dessa importante experiência do lado americano da AMP: “A Comissão da Garantia AMP-América segue concernida pela formação no interior da Escola, que indica aqueles que serão nomeados AME, mas considera a garantia que o AME deve representar na cidade, ao mesmo tempo submetendo-se e subvertendo o discurso do mestre. É a Escola, como propôs Miller, em seu ser ambíguo, com asas analíticas e patas sociais”.

A FAPOL avança. Os trabalhos, desde os Observatórios e Redes, tomam proporções que garantem uma verdadeira articulação entre as três Escolas da América.

A LACAN XXI recolheu as produções advindas dos vários dispositivos existentes nessa Federação, desde o último ENAPOL, ocorrido em Buenos Aires em 2017.

Não há pretensão de uniformização do funcionamento desses dispositivos. Cada um, a seu tempo e possibilidade de articulação, estabelece seu ritmo de trabalho e de produção. Optamos por publicar nesse número, os textos que transmitem a psicanálise da Orientação Lacaniana que enfatizam a lógica de estarmos propondo um trabalho que inclui EBP, EOL e NEL.

São quinze textos! Vale a pena conferir!!!!

Por último, mantemos a rubrica “Comentários dos Escritos e Outros escritos de Jacques Lacan”. Essa rubrica, que não coloca regra sobre qual tema seguir, tem gerado observações de vários colegas no sentido de se surpreenderem com detalhes apontados nos textos de Lacan, novas interpretações e reflexões, que contribuem para uma retomada dos textos já lidos e trabalhados anos atrás.

Nessa edição temos Marcelo Marotta que comenta um parágrafo do texto Observações sobre o informe de Daniel Lagache, que aborda o tema da ética. Trata-se de um comentário que nos convida a retomar os textos apresentados nesse número desde uma perspectiva instigante: “Recordemos também que Lacan começa a discutir seu Seminário ‘Mais ainda’ fazendo uma referência à “Ética da psicanálise”, de maneira tal que, quem sabe agora, possamos nos dedicar a este tema desde as distintas derivações que podem surgir ao considerarmos o gozo feminino”.

Gloria María González comenta uma citação da Proposição de 9 de outubro de 1967, que também contribui para a proposta temática desse número da LACAN XXI, ao pontuar que esse texto nos coloca “na via de pensar (os) momentos cruciais da análise e com isso nos convida a estarmos atentos à nossa formação e a participarmos ativamente em prol da existência da Escola…

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros, em seu texto Desejo e satisfação, comenta uma passagem do escrito de Lacan A Significação do Falo. Ela diz que o objeto é revelado, “não como aquele que o desejo busca, mas como aquele que aponta para uma satisfação de uma falta que não pode ser saturada”. Assim ficamos advertidos sobre os imperativos de gozo de nossa época “que tentam fazer um curto circuito na dimensão do desejo”.

A FAPOL avança, e com ela avança também nossa LACAN XXI. Agradeço ao Staf da revista que muito trabalhou para que tenhamos uma “revista para ser lida”!

Pretendemos que ela forneça um panorama de nossa comunidade analítica americana e que transmita a força da psicanálise nesse continente!

Até a próxima!

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