A especificidade do autismo – Observatório de Políticas do Autismo da EBP/FAPOL(1)

A especificidade do autismo – Observatório de Políticas do Autismo da EBP/FAPOL(1)

M.C.F. Desenho. “CORES”.

Elisa Alvarenga
EBP – AMP

Teoria da clínica

O Observatório de Políticas do Autismo da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) / Federação Americana de Psicanálise da Orientação Lacaniana (FAPOL) elabora este texto como teoria da clínica a partir do caso de um jovem autista de 20 anos, apresentado ao Observatório por Anamaria Vasconcelos. Ele demonstra como a psicanálise de orientação lacaniana recebe e trata uma criança autista, fazendo surgir seus interesses específicos a partir de uma oferta da analista que diz não à imersão no gozo estagnado. Marcos chega aos 3 anos e meio, com seu grande saco de brinquedos, do qual ele não podia se separar. Inicialmente foi preciso uma intervenção no Outro, orientando a mãe para que ele pudesse se alimentar, para além dos líquidos e da mamadeira. Um desejo não anônimo pôde assim surgir do lado da mãe, de tal maneira que Marcos pôde abrir mão do grande objeto que parecia fazer função para ele de borda para proteger seu corpo. Era como se ele fosse um objeto do seu saco de brinquedos, que carregava para todo lado.

Inicialmente havia a retenção dos objetos olhar e voz: ele não olhava para a analista e falava uma linguagem incompreensível, ou apenas compreensível pela mãe. Jean-Claude Maleval fala da entrada na linguagem, no autismo, pela via do signo, que esclarece em sua Conferência de 12 de agosto de 2017 em Bogotá. Ele propõe a tese de que o autista entraria na linguagem pela via do signo e não pelo significante incorporado.

Freud chama de signos os primeiros traços de percepção dos objetos, antes que eles se associem no inconsciente por simultaneidade ou por relações causais. No autismo, diferentemente da psicose, esses signos não parecem constituir um Outro incorporado pelo sujeito, por isso dizemos que no autismo, inicialmente, não há Outro, como tampouco há corpo.

No Seminário 9 (2), Lacan diz que o que há de real na origem é o signo e que o significante já seria o apagamento da Coisa. Por isso, Jean-Claude Maleval sustenta as sérias dificuldades do autista com relação à alienação significante. O sujeito autista, agarrado ao signo sem a interpretação que viria do Outro, teria sua orientação para o real. Isso permite entender o funcionamento de alguns autistas que pensam através de imagens, com um recurso precaríssimo ao registro simbólico. Isto se apresenta na forma como estabelecem sua relação com as imagens e coisas, sem substituição metafórica e sem enlaçamento com o sentido.

A recusa da linguagem para a comunicação pelo viés da fala e, por outro lado, a vontade de poderem ser entendidos em seu modo de funcionamento faz com que alguns autistas de alto rendimento, em nome dos demais autistas, escrevam suas autobiografias, referências fundamentais para prosseguirmos com nossas investigações (3).

O primeiro passo do tratamento de Marcos é encontrar para ele um lugar no desejo do Outro, para que ele possa se separar desse grande saco que fazia para ele função de borda corporal. Marcos demonstra então um interesse por formas, cores e contos, livros e filmes. Seu caso é diferente daquele de Owen Suskind, filho do jornalista norte-americano Ron Suskind, que deu origem ao método de tratamento e ao Colóquio realizado em Rennes, publicado no livro, Affinity Therapy (4). No caso de Owen, retratado no livro e no filme recentemente publicados em português Vida animada, os pais escutaram seu filho que, obcecado pelos filmes da Disney, tinha um interesse particular por uma cena do filme “A pequena sereia”, na qual a feiticeira diz a Ariel, a sereia, que só quer a sua voz. É assim que o menino rebobinava a cena inúmeras vezes e repetia “sussuvuz”, “juicervoice”, que finalmente foi escutado pelos pais como “just your voice” (5). O pai de Owen, e o resto da família em seguida, passaram a conversar com ele com as vozes e a pantomima dos personagens dos filmes da Disney, de tal forma que ele, que não falava havia anos, começou a falar. Inicialmente, a fala pronta dos personagens dos filmes. Aos poucos, ele passou a se relacionar com outras crianças e mais tarde encontrou uma namorada. Hoje ele tem um clube Disney onde assiste, com vários adolescentes autistas ou deficientes, os filmes da Disney, e convida atores que fazem as vozes dos personagens para virem se apresentar.  Esses jovens, antes isolados em seu mutismo, hoje se divertem e conversam a partir dos filmes. Não se trata propriamente de um tratamento analítico, mas de transformar uma afinidade em solução sintomática que faça laço.

No caso de Marcos é um pouco diferente, porque seu interesse específico surgiu sob transferência. A partir do seu interesse por formas, cores e contos, Anamaria introduz na sessão o computador. Eric Laurent diz que é importante deixar o autista ter acesso ao computador, já que ele não dispõe do aparato do espelho para fazer-se um corpo. A tela dos aparelhos e os instrumentos da tecnologia moderna oferecem a possibilidade de separar o registro da letra daquele do significante. Alguns autistas se interessam pelos youtubers e locutores numa tentativa de fazer uso da voz e há também aqueles que podem falar desde que usem marionetes para representá-los. São artifícios para separar ou extrair a voz do corpo (6). Pela grande dificuldade de enunciação, de apropriar-se da palavra e modular sua voz, o autista pode repetir frases feitas ou escrever. Assim podemos entender o que diz Anamaria sobre Marcos: ele fala como um estrangeiro, e quando não consegue se expressar por meio de palavras, ele desenha para se fazer compreender.

Vemos, então, o procedimento inventado por ele a partir das ofertas da analista: ele faz formas geométricas no computador, que ela preenche com cores, depois enche a tela de cor e desenha contornos pretos. O aparecer e desaparecer das formas vai constituindo um esboço de fort-da, até esvaziar-se de libido. Ela retira então o computador e aparece a geleca, com a qual ele cobre objetos e realiza o gruda e desgruda, um novo par de significantes. Quando a geleca, suja, é colocada no lixo, ele se angustia, e ela hesita em fazer valer esse corte. Mas ele mesmo dá um passo adiante, fazendo da pia do banheiro o novo instrumento de realização do encher e esvaziar. A analista o acompanha atentamente por meses nesse movimento, até que nota um esvaziamento, libidinal, desse neo fort-da (7). Ela introduz então a tinta, colorindo a água e permitindo a ele transformar uma cor em outra e descobrir novas cores, mostrá-las e nomeá-las. O olhar do Outro e sua aprovação já são importantes para ele.

Um novo corte se faz necessário, com a redução da água e a introdução do pincel no papel. Ela desenha para ele, que começa então a fazer seus próprios desenhos, com personagens e releituras dos filmes que assistia. Ele retoma, em casa, o computador extraído das sessões. Encher e esvaziar, colorir e nomear deu ao desenho um novo estatuto para Marcos, criando bordas e portanto lhe dando um corpo. A constituição de um furo a partir dessa construção simbólica mínima, com a criação das imagens, é atestada quando ele demanda ao pai levar seu tablet à escola, e mostrar seus desenhos aos colegas. Onde faltava o circuito pulsional, constrói-se um novo circuito, que inclui o Outro materno, o Outro da transferência e depois o Outro social, inicialmente na escola e depois ampliado com o lançamento de um livro, autógrafos e entrevista. Assim podemos entender porque Marcos abre mão de suas sessões com a analista: ele construiu uma borda com o Outro social, um espaço para trocas e contatos que, pelo deslocamento metonímico, vai se ampliando. Com a possibilidade de voltar a recorrer à analista, se preciso for.

Anamaria mostra alguns conceitos difíceis de apreender, como a forclusão do furo, proposta por Eric Laurent (8), a partir de Miller. Trata-se da imersão dos autistas no real, seu doloroso acesso a uma dimensão em que nada falta. Se não há furo, nada pode ser extraído. É o que provoca nos autistas incríveis crises de angústia, quando estão diante de uma porta, ou quando, no banheiro, não conseguem se separar de suas fezes. A automutilação pode surgir aí como forma de criar um furo e extrair um gozo que invade seu corpo de maneira insuportável.

Maleval diz que a borda capta o gozo e o dirige ao objeto, limitando o gozo, mas é necessário esvaziar a borda, o que permitiria reduzi-la ao interesse específico (9). Em um caso bem-sucedido como o de Temple Grandin, vemos que, além do interesse específico, que a leva a criar a máquina do abraço, Temple tem uma abertura ao furo que constituem para ela as portas: inicialmente fonte de grande angústia, elas se tornam para ela abertura, possibilidade. Marcos também se angustia quando há cortes e ele tem que lidar com a falta do objeto que cobria tudo, a geleca. Mas a presença da analista permite que ele aceite o encontro com um novo objeto que vai se deslocando e transformando até a demanda de mostrar seu trabalho aos colegas.

Autismo e psicose ordinária

No livro A Psicose Ordinária, o autismo ocupa uma pequena parte no relatório sobre “ligamentos, desligamentos, religamentos”. Não há uma verdadeira separação entre o autismo e a psicose, sendo o autismo considerado uma “escolha da psicose em seu polo extremo, o autismo” (10). No entanto, já se postula “uma falta radical de qualquer processo primário de simbolização. É a falha de Bejahung primordial que poderia corresponder ao desencadeamento” (11).

Isso já nos permite fazer uma primeira diferenciação entre o tratamento do autismo e o da psicose, a partir do caso apresentado por Anamaria. No autismo, trata-se de construir uma borda a partir de um furo, introduzindo metonimicamente outros objetos, interesses específicos. Trata-se portanto de “elevar um interesse específico à categoria de sinthoma” (12).

Se até alguns anos atrás não distinguíamos o autismo da psicose esquizofrênica, isso se deve a que o próprio conceito de autismo, inventado por Eugen Bleuler, em 1911, fazia parte dos sintomas primários da esquizofrenia descritos pelo psiquiatra suíço que, juntamente com Karl Jung, se dedicava ao tratamento desses pacientes no início do século XX. Bleuler, cuja rica correspondência com Freud foi recentemente publicada em português, renomeou a “demência precoce” descrita por Kraepelin de esquizofrenia, e descreveu o autismo como um afastamento da realidade que, juntamente com o afrouxamento das associações e a ambivalência, constituiriam os 3 A de Bleuler. Este tentou aproximar o funcionamento autista do funcionamento do inconsciente, amputando-o, no entanto, do eros contido no conceito freudiano de autoerotismo, tão útil na abordagem da esquizofrenia.

Nosso intuito é então, a partir dessa referência histórica e da evolução, considerável, porque tem passado, no último século, o conceito de autismo, estabelecer sua especificidade, ou seja, sua diferença em relação à psicose, e ainda, em relação à debilidade mental, com a qual o autismo é muitas vezes confundido.

Nos anos 80 o autismo é incluído, no DSM-III, nos Transtornos Globais do Desenvolvimento e no DSM-III-R, nos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento. A medicalização é promovida, juntamente com os tratamentos cognitivo-comportamentais. Os métodos ABA (Applied Behavior analysis), criado por Lovaas, e o método TEACCH (Treatment and Education of Autistic and related Communication Handicaped Children) foram e são largamente utilizados, mas são métodos de treinamento que produzem adaptações artificiais e pouco eficazes do ponto de vista da autonomia (13).

As experiências de inclusão dos autistas em escolas, muitas vezes baseadas no método TEACCH, frequentemente se deparam com o despreparo dos profissionais ali operantes, que se obstinam em privilegiar o desenvolvimento cognitivo por meio de atividades previamente estabelecidas, e a eliminação de condutas consideradas inadequadas, desconhecendo as particularidades e passos possíveis para cada criança (14). O encontro com mediadores sensíveis e não intrusivos pode propiciar a função do duplo (15) e ajudar uma criança autista a dar passos importantes.

O conceito de espectro autista nasce nos anos 70, sustentado por estudos genéticos. A passagem de uma concepção do autismo como retraimento social e afetivo a um transtorno do desenvolvimento com déficits cognitivos, devidos as diversas formas de disfuncionamento cerebral, contribui a uma extensão cada vez maior da clínica do autismo, assim como à sua confusão com a deficiência mental.  Finalmente, no DSM-V, temos o Transtorno do Espectro Autista (TEA), com sua gradação: leve, moderado e grave.

No entanto, a publicação dos testemunhos dos autistas, tais como Temple Grandin, Donna Williams e Daniel Tammet, logo mostra que, no autismo, não se trata de um déficit, e tampouco de uma psicose esquizofrênica. Vejamos como a psicanálise lacaniana nos permite entender isso.

A orientação lacaniana

Nos anos 50, Rosine Lefort, analisante de Lacan, recebe uma criança autista de 30 meses, cujo tratamento é relatado no livro O Nascimento do Outro (16), publicado junto com Robert Lefort. Desde essa época os Lefort descrevem o autismo como dominado por uma relação destrutiva ao Outro, um Outro real, sem furo, sem objeto separável, ao qual a relação transferencial parecia impossível (17). Uma primeira distinção é feita em relação à psicose: ela ataca Rosine com bofetadas, visando a divisão do Outro, e não sua completude, como na psicose. No autismo não haveria S1, nem objeto a. Não haveria balbucio, nem gozo do balbucio. Sem alienação significante nem objeto pulsional separável, a questão do duplo parece fundamental na estrutura autística, sustentada pelos Lefort em 1996 no texto “O autismo, especificidade (18). Além disso, eles consideram que há graus no autismo, levantando essa hipótese diagnóstica em relação a várias personalidades célebres, em seu livro A distinção do autismo (19), recém publicado em português.

Apoiando-se nos Lefort, mas também sobre testemunhos de autistas de alto nível, Maleval propõe uma outra abordagem psicanalítica da estrutura do autismo, próxima da clínica espectral, publicando em 1998 “Do autismo de Kanner à síndrome de Asperger”. Ele tenta apreender a especificidade do autismo a partir de duas características maiores: por um lado, um transtorno da enunciação, dependente de uma carência da identificação primordial, por outro, uma defesa específica, que se apoia sobre um objeto fora do corpo, própria para constituir a matriz de um Outro de signos.

Maleval (20) considera que a transferência pode se estabelecer a longo termo sem tornar-se destrutiva, tomando como exemplos Dick, de Melanie Klein, Dibs, uma criança autista tratada por Virginia Axline (21) e Donna Williams (22), que relata sua análise freudiana com uma psiquiatra. Ele considera também que a evolução do autismo se faz essencialmente em direção ao próprio autismo, dentro de um espectro bastante amplo, onde o essencial permanece invariável. Um mesmo funcionamento subjetivo pode se manifestar como grande variedade de quadros clínicos. Na infância predominam os problemas de aprendizagem e de comportamento, na adolescência as dificuldades relativas ao trabalho e aos relacionamentos e na idade adulta, os conflitos sociais e conjugais.

O interessante na psicanálise é que o saber vai se construindo a partir da experiência. No que concerne ao autismo, podemos acompanhar, ao longo dos anos, como os psicanalistas lacanianos vão separando o autismo da psicose esquizofrênica precoce. Éric Laurent propõe diferenciar o autismo como um retorno do gozo sobre uma borda do corpo, uma neoborda, que se apoia sobre o encapsulamento autista, diferente do gozo que retorna no corpo fragmentado na esquizofrenia, ou no Outro do delírio na paranoia (23).

Silvia Tendlarz (24) mostra que, embora não haja uma teorização sistemática do autismo em Lacan, seu ensino nos permite deduzir uma teoria. Assim, nos anos 50, no Seminário 1, Lacan indica que, no autismo, não há chamado ao Outro, comentando os casos tratados por Melanie Klein e Rosine Lefort, que se aproximam do autismo: Dick e o pequeno Roberto, que faz um contraponto ao caso de Marie-Françoise, também tratada por Rosine Lefort (25).

Nos anos 60, frente ao binômio alienação e separação do Seminário 11, Jacques-Alain Miller propõe que o autista escolhe o ser vazio do sujeito.

      S1        S2

ser do sujeito   sem sentido    sentido

“Lacan utiliza este esquema da união para tentar compreender que toda instauração do sujeito no sentido, mediante o significante, se paga com uma parte de repressão. Caem no recalque o sujeito, que passa a ser sujeito do inconsciente, e S1, que se converte em um significante recalcado”. … Na eleição forçada, “se elegem o sentido (produzido por S2), perdem o resto, quer dizer, a parte do sem sentido, a parte S1 do conjunto [S1,S2], e o sujeito do inconsciente, , lhes escapam. Se quiserem ao contrário eleger S1, o sem sentido, a petrificação, não lhes restaria nada mais que esse vazio do sujeito, , porque perderiam o segundo conjunto [S1,S2]. Podemos imaginar que certos sujeitos façam essa eleição. Por exemplo, podemos tentar representar o sujeito autista a partir de uma eleição que finalmente não deixa ao sujeito nada mais que seu próprio vazio entre as mãos” (26).

De fato, no Seminário 11 Lacan retoma a constituição do sujeito através das operações de alienação e separação. No autismo, a escolha do vazio do sujeito implica um não consentimento à alienação. A alienação própria ao autismo consiste na não articulação entre S1 e S2. Trata-se de um modo de funcionamento da holófrase diferente da psicose. No autismo, a inscrição fica detida, congelada, o sujeito se petrifica em relação ao S1. Maleval descreve o rechaço do S1 dizendo que o S1 se inscreve, separado do S2, e logo é rechaçado. O autista fica então petrificado nesse zero inicial, nesse vazio, não entra na série dos significados do Outro. Esse rechaço se verifica no mutismo, na perseveração, na repetição de rituais, na ecolalia, etc. Como se não houvesse marca do dito ou realizado. Por um lado escolhe o vazio, colocando-se como sujeito não dividido, por outro rechaça o enlaçamento entre S1 e S2. Fica do lado do sem sentido e rechaça a cadeia significante que constitui o Outro. Esse transtorno simbólico gera uma enunciação morta, defasada, frouxa, ou técnica. Se no autismo há um rechaço à alienação, temos o que Éric Laurent chama de foraclusão do furo (27), em oposição à foraclusão do Nome-do-Pai e da significação fálica, na psicose, relacionadas à não operação da separação.

Forclusão do furo

Forclusão do Nome-do-Pai

Alienação

Separação

S1

S2

$ <

> a

Há confusão frequente entre autismo, psicose e debilidade mental, porém para Lacan são diferentes. Ele mostra isso no Seminário 11 (28): na debilidade mental o sujeito se identifica absolutamente ao discurso do Outro: o não consentimento à separação se localiza pela identificação imaginária ao discurso materno. A criança se faz objeto imaginário do desejo da mãe. Na psicose, em vez de identificar-se ao discurso do Outro, o sujeito descrê totalmente dele, é o que Freud chama de Unglauben. O Outro não funciona como ponto de basta, a verdade está do lado do sujeito, constituindo sua certeza.

Finalmente, nos anos 70, Lacan introduz seu desenvolvimento relativo ao “Um”. No autismo põe-se em funcionamento a iteração do Um do gozo, assinalado por Miller em seu Curso “O ser e o Um”, em 2011. É também nos anos 70 que Lacan surpreende ao dizer que os autistas são verbosos e que há certamente algo a lhes dizer (29).

Se no autista não há chamado ao Outro, esse Outro não se constitui como instância simbólica incorporada pelo sujeito. Se o significante é o que representa o sujeito para outro significante, não há tampouco significante, mas apenas signos. Não há, portanto, constituição do Outro e do sujeito, nem passagem da linguagem à fala, nem enodamento do simbólico ao imaginário, constituindo o corpo. A linguagem desafetada ao corpo pode aparecer então como robotizada, como um gravador ou como um autômato, ou um papagaio. Não carrega o elemento que a vivifica e humaniza. Não adianta muito ensinar o sujeito a falar se ele não consegue conectar-se libidinalmente ao Outro. Na psicanálise é fundamental a relação ao Outro, o nascimento do Outro, e consequentemente, do sujeito. Senão, não há tampouco objeto e funcionamento pulsional. Se o Outro não existe, o semelhante está também desumanizado e a linguagem não se enlaça ao imaginário do corpo. Mas, como diz Lacan, não se pode introduzir o Outro de qualquer maneira, mas criar as condições para que haja um chamado ao Outro.

O autista se protege da presença angustiante da voz tornando-se verboso ou mudo. Protege-se do gozo vocal através da falta de enunciação, de sua fixidez e do esforço para manter uma ordem estática. Ele se defende através de um duplo, de um Outro de signos, que memoriza, e do uso de objetos. Vemos no caso trazido por Anamaria como esse uso do grande objeto foi aos poucos se tornando desnecessário com a introdução e invenção de outros objetos, dando lugar a uma relação, ainda que limitada, ao Outro.

As alucinações da psicose correspondem às alucinações verbais, nas quais o que é elidido no simbólico aparece no real. No momento em que a cadeia significante se rompe, a mensagem é interrompida e aparece a injúria alucinatória através da qual o sujeito psicótico procura localizar-se. No autismo o que está em primeiro plano é a iteração do S1 separado radicalmente do resto da cadeia significante: S1, S1, S1, ….  Se há alucinação no autismo, ela diz respeito à não separação do ruído da lalíngua. É o que vemos no filme Vida animada com Owen Suskind: quando ele para de falar, fica imerso no ruído de lalíngua, sem distinguir os significantes e sem conseguir dizer nada. A ausência de um espaço métrico inscrito simbolicamente produz a presença de um ruído insuportável porque impossível de significar (30). É a partir dos filmes da Disney e de sua eleição por determinados trechos e falas escolhidos, que ele reedita ao infinito – que dizem respeito, por exemplo, à recusa de crescer, no filme de Peter Pan, ou à feiticeira que quer a voz da pequena sereia – que ele começa a falar, inicialmente as frases aprendidas de cor.

No autismo há, portanto, um S1 sem S2, que funciona como iteração da letra sem corpo e sem laço com o Outro (31). Trata-se do gozo de lalíngua privada, sem significação, enquanto na psicose, no lugar da significação fálica, há a significação pessoal. Assim, “todo mundo delira, menos os autistas”. O acontecimento de corpo do autismo é o Um que se repete, de maneira estereotipada. Se na psicose há um corpo, um imaginário e a possibilidade da construção de um delírio, no autismo não há corpo porque tampouco há imaginário, há um S1 sozinho, sem corpo e sem delírio. Toda frase emitida pelo sujeito autista em situação de tensão é experimentada como um pedaço de si mesmo e, portanto, como automutilação. Sua estratégia consiste em armar um encapsulamento, uma borda que funcione como corpo, para defender-se da ameaça que encarna o Outro. É o que propicia inicialmente o grande saco de Marcos.

O tratamento se orienta então pelo deslocamento dessa neoborda e pela criação de ilhas de competência, indicadas pelo próprio sujeito. Para Éric Laurent (32), entrar em relação com o sujeito autista, confrontar-se com esse real, de uma perspectiva psicanalítica, implica a invenção sob medida: ela deve incluir o que permanece no limite de sua relação com o Outro: seus objetos autistas e seus duplos, que funcionam como bordas. Não se trata de um duplo virtual, especular, tal como no estádio do espelho, mas de um duplo real: o duplo funciona como uma borda do corpo do sujeito autista, que não tem corpo. A função desse duplo seria portanto a de fazer suplência a essa ausência de borda. “A inexistência da borda do furo é apenas o redobramento da inexistência do próprio corpo, pois um corpo só existe se um objeto pode separar-se dele – o que supõe a sustentação do olhar do Outro que outorga um corpo e lhe dá uma consistência” (33).

Para a psicanálise, mais do que incluir o autista no Outro, trata-se de incluir o Outro nas iniciativas do autista, construindo circuitos que façam função de bordas e possam ser ampliados. O que se verifica é que a ampliação desses deslocamentos, segundo uma lógica metonímica da iteração significante, é acompanhada de uma redução do gozo que afeta o corpo com consequente apaziguamento do sofrimento autista.

Uma das condições fundamentais da construção dos circuitos autistas é o acolhimento do objeto de interesse do autista. Esse objeto, que implica o encontro traumático do autista com a língua do Outro, baliza minimamente o seu circuito. Circuito esse que não se define, portanto, a partir de uma aprendizagem, mas a partir da escolha ou, melhor ainda, da paixão de cada autista e que pode lhe dar acesso ao campo social. A repercussão obtida recentemente na Europa e nos Estados Unidos pelo método terapêutico denominado “affinity therapy”, particularmente, a partir do documentário “Vida animada”, confirma essa hipótese.

Mas, a despeito da importante discussão crítica introduzida por esse método quanto às TCCs, vale ressaltar que se basear nas afinidades do sujeito autista esteve no centro do trabalho psicanalítico com as crianças autistas. É o que chamamos de “invenções subjetivas”, que vão desde o apoio tomado sobre um objeto ou sobre uma nominação singular às construções mais elaboradas como as de Owen Suskind testemunhadas por seu pai. Conforme afirma Stevens (34), para o discurso psicanalítico, acolher o autista com seus objetos ou afinidades implica uma ética mais do que um método. O que está em jogo para a psicanálise é uma política do acolhimento das invenções sintomáticas do sujeito autista. Podemos reler textos de Alexandre Stevens, datados dos anos noventa, nos quais ele apresentava fragmentos clínicos que demonstravam os efeitos da inclusão do Outro nas iniciativas do autista sob transferência (35).

Através da apresentação de casos clínicos, buscamos verificar a maneira que os autistas encontram para tratar o impacto do significante sobre o corpo, que recursos cada autista inventa para tratar esses efeitos e como o psicanalista pode intervir na instituição de maneira que possa ser criado, para cada sujeito, um circuito próprio que sirva de apoio para sua construção. Através de uma equipe multidisciplinar, é possível encontrar parcerias entre profissionais, pais e a instituição para acolher esses sujeitos (36).

O desafio, então, consiste em inventar um procedimento singular, adaptado a cada caso, seja na prática institucional, seja na prática privada, de tal maneira que a presença do outro seja suportável, possa outorgar-lhe um corpo e produzir circuitos que possibilitem a separação da excitação que toma seu corpo, assim como o surgimento da voz e, eventualmente, de uma enunciação própria.


Notas e Bibliografia:
(1) Participantes: Heloisa Prado Telles, Paula Pimenta, Ana Martha Maia, Tania Abreu, Anamaria Vasconcelos, Paula Borsoi, Maria do Rosário do Rêgo Barros, Cristina Drummond, Cristina Vidigal, Suzana Faleiro Barroso, Bartyra Ribeiro de Castro, Gleuza Salomon, Rachel Amin, Maria Rachel Botrel, Cristina Maia, Jeannine Narciso, Maria de Fátima Peret, Lúcia Mello, Valéria Ferranti, Elisa Alvarenga (coordenadora).
(2) Lacan, J., O Seminário, livro 9: A identificação, (1961-62).
(3) Castro, B. R. e Amin, R., Projeto PIPA (e Rabiola).
(4) Perrin, M., Affinity therapy – Nouvelles recherches sur l’autisme, Rennes, PUR, 2015.
(5) Mello, L., Comentário do filme Vida animada na PUC-Minas em 04.09.2017.
(6) Cf. o comentário de Cristina Drummond ao caso apresentado por Maria Rachel Botrel “Sou um locutor: ensaio de interlocução”, no livro O que é o autismo, hoje? EBP, 2018.
(7) Cf. Tendlarz, S. Clínica del autismo y de la psicosis en la infancia. Buenos Aires, Colección Diva, 2016, p. 131.
(8) Laurent, É., A batalha do autismo. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2014, p. 80.
(9)  “Três elementos frequentemente intrincados são constitutivos da borda: o objeto autístico, o duplo e o interesse específico”, como propõe Jean-Claude Maleval em sua Conferência “Da estrutura autística”, em Bogotá, em 12.08.2017.
(10) Cf. “Ligamentos, desligamentos, religamentos”, in Miller, J.-A. A psicose ordinária, Editora Scriptum, Belo Horizonte, 2012, p. 45.
(11) Ibidem, p. 43.
(12) Expressão utilizada por Marie-Hélène Brousse e comunicada pessoalmente por Ligia Gorini.
(13) Maleval, J.-C., Escuchen a los autistas! Grama, Buenos Aires, 2012, p. 33, e Sacks, O., “Um antropólogo em Marte, in Um antropólogo em Marte, Schwarcz, São Paulo, 2015, pp. 246-295.
(14) Cf. a esse respeito o testemunho de Emily Jardim, participante do ACPOL (Ateliê de Clínica Psicanalítica da Orientação Lacaniana), conduzido por Gleuza Salomon em Curitiba.
(15) Sobre a função do duplo, ver “O furo sem borda e a presença do duplo”, in Laurent, É., A batalha do autismo, op. cit. pp. 98-101 e “O duplo e a enunciação artificial”, in Maleval, J.-C., O autista e sua voz, Blucher, São Paulo, 2017, pp. 127-149.
(16) Lefort, R. e R., Nascimento do Outro, Fator, Salvador, 1984.
(17) Maleval, J.-C., L’autiste et sa voix, Seuil, Paris, 2009, p. 65.
(18) Lefort, R. e R., “O autismo, especificidade”, in O sintoma charlatão, Zahar, Rio de Janeiro, 1998, p. 224.
(19) Lefort, R. et R. A distinção do autism, Tradução de Ana Lydia Santiago e Cristina Vidigal, Relicário, Belo Horizonte, 2017.
(20) Maleval, J.-C., L’autiste et sa voix. Op. cit., pp. 70-71.
(21) Axline, V.,  Dibs: em busca de si mesmo, Agir, Rio de Janeiro, 1973.
(22) Williams, D., Meu mundo misterioso, Thesaurus, Brasilia, 2012.
(23) Laurent, É., A batalha do autismo. Op.cit., p. 79.
(24) Tendlarz, S. Qué es el autismo? Colección Diva, Buenos Aires, 2013, p. 20.
(25) Lacan, J., Os escritos técnicos de Freud, capítulo VIII, Zahar, Rio de Janeiro, 1983, pp. 83-86.
(26) Miller, J.-A., Donc (1993-94), Paidós, Buenos Aires, 2011, p. 345.
(27) Laurent, É. A batalha do autismo. Op. cit., p. 80.
(28) Lacan, J., Os quarto conceitos fundamentais da psicanálise, Zahar, Rio de Janeiro, 1985, p. 224.
(29) Lacan, J., Conferência em Genebra sobre o sintoma, in Opção Lacaniana 23, Eolia, São Paulo, 1998, p. 12.
(30) Mello, L., Comentário do filme Vida animada na PUC-Minas em 04.09.2017.
(31) Ver a esse respeito Maia, A. M. “As crianças do Um sozinho – a loucura na infância, in Latusa 22, EBP-RJ, Rio de Janeiro, 2017, p. 111, que cita também Solano-Suárez, E., “Los niños del uno solo”, El Analiticón n. 3, Barcelona, 1987, p. 46.
(32) Laurent, É., A batalha do autismo. Op. cit., pp. 78, 98 e 129.
(33) Ibidem, pp. 99-100.
(34) Stevens, A., “Affinités entre jouissance et invention symptomatique”, in Affinity therapy, Rennes, Presses Universitaires de Rennes, 2015, pp. 303-306.
(35) Barroso, S. F., A inclusão do Outro nas iniciativas do autista.
(36) Borsoi, P. e Barros, M. R. C. R. Encontro com a clínica do autismo.

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