A violência e as as mulheres na América Latina

A violência e as as mulheres na América Latina

Mónica Biaggio. “Descansando na praia”. EOL- AMP

Observatório 1 da FAPOL:

Integrantes: Beatriz García-Moreno NEL-Bogotá, María Cristina Giraldo NEL- Medellín, Susana Dicker NEL-Guatemala y Jimena Contreras NEL-Cochabamba.

A violência na atualidade tem uma inegável presença no cotidiano, e a praticada contra a mulher é talvez a que concentra maior atenção social. Provavelmente por isso se constituiu um Observatório para refletir e investigar o tema a partir de um olhar e uma escuta diferenciada, como nos possibilita a psicanálise lacaniana.

De início concebemos como necessário começar o trabalho sem ter uma posição construída sobre a violência. Assim ao longo de dois anos de existência do Observatório temos entrado em contato com mulheres que sofreram algum tipo de violência –  especialmente violência no contexto do conflito armado na Colômbia e Guatemala. A violência na vida íntima do casal – bem como com pessoas e instituições que trabalham com esta problemática. Temos nos aproximado para escutá-las, em alguns casos sobre suas vivências em outros sobre a experiência laboral.

A perspectiva social vitimiza as mulheres que passaram por experiências de violência, poderíamos inclusive dizer que na Colômbia se faz necessário adotar esta posição para poder receber o benefício que se oferece atualmente as vítimas do conflito armado. Da mesma maneira, as instituições que lutam contra a violência de gênero, partem da concepção de que a mulher que atendem é de fato uma vítima. Escutar as mulheres que passaram por experiências de violência nos permitiu ver que algumas delas não têm uma posição de vítima ainda que às vezes joguem com esse semblante para obter o benefício social que requerem.

Nas IX Jornadas da NEL em outubro de 2016, no espaço Conversações: Violência, um nome para o mal estar atual, foram apresentados textos produtos de trabalho realizado em cartéis, constituídos por membros da NEL, da EBP e outros interessados no tema. Os eixos temáticos que guiaram a investigação epistêmica se estamparam em quatro trabalhos:

– Trauma e pulsão na violência e as mulheres, María Cristina Giraldo;

– Beleza, violências e paixões. O caso dos rostos profanados, Beatriz García-Moreno;

– Violência e mulher: como se articulam as paixões do Outro e as do parlêtre?, Susana Dicker;

– Violências e paixões nas relações de casal, Jimena Contreras.

Como consequência deste trabalho, retomando as palavras de María Cristina Giraldo, podemos indicar que as perguntas sobre a mulher se reordenaram em relação ao núcleo epistêmico trauma e pulsão que atravessa toda a problemática da violência: vítima de fatos traumatizantes ou vítima do inconsciente? A pergunta foi mais além da vertente da mulher e o conflito armado na Colômbia, e o que se obtém com respeito à conexão com as organizações de vítimas, buscando saber sobre as invenções e a construção de soluções das mulheres em meio ao conflito e a experiência de violência sofrida. Beatriz García-Moreno põe ênfase na solidariedade e na capacidade destas mulheres para criar redes de apoio.

Por outro lado, a aproximação com as instituições deixou como saldo a abertura de espaços de trabalho com juízes de família, advogados, assistentes sociais, psicólogos que demandam nossa participação em conversações coma equipe profissional. A experiência de María Cristina Giraldo em um centro de reclusão e tratamento para menores infratores situa esta prática como a possibilidade de orientar, a partir da psicanálise, processos que até agora só estavam inscritos nas formas protocolares da legislação colombiana, como também a de estudar casos extremos de violência contra a mulher. Em Cochabamba, em um espaço de discussão clínica com psicólogas que atendem às mulheres que sofrem violência vão se introduzindo elementos que permitem uma escuta sobre a violência diferente da perspectiva de gênero. Evidencia-se a frustração dos profissionais no trabalho que realizam, de um lado os ideais sociais se configuram em uma exigência institucional para o alcance de êxitos que se traduzam na diminuição da violência, de outro os profissionais em sua prática diária se encontram com aquilo que escapa a lógica do sentido comum e dos ideais sociais. E a experiência de Beatriz García-Moreno em uma instituição de promoção social na qual desenvolveu oficinas sobre temáticas de interesse das mulheres, lhe oportunizou a escuta e recebimento de pedido de atendimento em consultório.

Com base nestas experiências e percurso na investigação, se elegeu o gozo como tema central deste ano que começa, e que orientará a investigação epistêmica no Observatório. Estão se abrindo espaços de investigação, sobre o tema vinculado ao Observatório, em algumas sedes da NEL como Medellín, Bogotá, Guatemala e Cidade de México.

Tradução: Jussara Jovita Souza da Rosa

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