Desejo e satisfação

Desejo e satisfação

Adolfo Ruiz Londoño. “Rastros”. Fotografia. NEL-AMP

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros
EBP – AMP

Ao incondicionado da demanda, o desejo vem substituir a condição “absoluta”: condição que deslinda, com efeito, o que a prova de amor tem de rebelde à satisfação de uma necessidade. O desejo não é, portanto, nem o apetite de satisfação, nem a demanda de amor, mas a diferença que resulta da subtração do primeiro à segunda, o próprio fenômeno de sua fenda (spaltung)”. –  “A significação do falo” pg. 698.

Em 1958, em seu escrito “A significação do falo”, Lacan situa o desejo na fenda que se produz a partir da subtração do apetite de satisfação à demanda de amor. O apetite de satisfação está referido a um objeto específico, inscrito na ordem da necessidade. A demanda de amor é incondicional, pois ela anula a especificidade do objeto em jogo no registro da necessidade, dirigindo-se a presença-ausência do Outro. A demanda de amor exige uma submissão ao Outro, a seus significantes através dos quais ele pode dar o que não tem. Ela conduz ao processo de simbolização do objeto ao estabelecer um corte com o objeto da necessidade, presente na ordem do instinto. O desejo surge a partir dessa fenda; ele é essa fenda, mas não sem o retorno da particularidade do objeto abolida na demanda de amor. Nesse retorno, o objeto em jogo no desejo vai trazer a marca dessa fenda. Dessa forma, ele introduz no processo de simbolização, a falta no objeto. A particularidade anulada na demanda de amor reaparece pela via do desejo, como condição “absoluta.

Lacan insiste em que é necessário que a particularidade abolida reapareça para-além da demanda. E, com isso, ele indica a presença de um resíduo inevitável, que insiste e que tem a função de indicar não só a dimensão da “pura perda” presente nessa operação, mas de um gozo que não se pode anular. Não há simbolização absoluta e o desejo está em conexão com a presença desse resto, que é ao mesmo tempo resíduo e rebento. Em 1958, Lacan aponta para esse resíduo como o testemunho de que o significante produz não só uma perda, algo impossível de recuperar, mas também um gozo, que tem seus rebentos que vão aparecer tanto no circuito pulsional, como no desejo. Tanto em um como no outro está presente a fenda, a falha, a hiância, que nenhum objeto poderá saturar, que nenhuma satisfação poderá anular. Daí a indestrutibilidade do desejo e a impossibilidade de anular todo gozo, sem o qual a existência seria vã.

Será somente no final de seu ensino que Lacan irá esclarecer tratar-se do resíduo do gozo, produzido pelo impacto do significante sobre o corpo, marcas indeléveis, que a simbolização não pode eliminar.  O que o leva a afirmar que o prévio é o gozo e não o Outro, exigindo, portanto, uma releitura das suas elaborações prévias.

Ao pensar a dimensão do resíduo como o objeto em jogo no desejo, através do qual se insere a condição absoluta, Lacan nos leva a considerar o objeto não como aquele que o desejo busca sem nunca alcançar, mas aquele que oferece uma satisfação em conexão com uma falta que não pode ser saturada; isso vai constatar a dimensão de causa de desejo desse objeto. O desejo resulta da impossibilidade da demanda eliminar a particularidade, que vai retornar no objeto que não é complementar, mas suplementar à falta. A demanda anula, como diz Lacan, mas não elimina.

Interessou-me voltar a essas indicações de Lacan para pensa-las à luz do que ele desenvolveu ao longo de seu ensino e que nos permite resgatar a dimensão do desejo não só como obstáculo à satisfação (desejo insatisfeito, impossível e prevenido), que tem como ponto de apoio a fantasia, atrelada ao gozo que alimenta a impotência, mas como uma nova articulação do desejo à satisfação que é instrumentada pelo sinthoma, dando lugar assim a um desejo advertido, advertido da não relação sexual. Em seu Prefácio à edição inglesa do Seminário XI, Lacan indica um reviramento possível na relação de cada um com as marcas que alimentaram sua “verdade mentirosa”, que abre assim a uma nova satisfação.

Advertidos por essas orientações que podemos extrair do ensino de Lacan, podemos ficar atentos para não sucumbir aos imperativos de gozo de nossa época, que tentam fazer um curto circuito na dimensão do desejo, fazendo acreditar que tudo é possível e que o variável do objeto da pulsão pode alimentar sem limite a indiferença em relação ao objeto, eliminando as coordenadas inconscientes onde se apoia a escolha.

Nessa conjuntura tenta-se desconhecer que o variável do objeto da pulsão tem seu fundamento em uma perda inaugural em relação à qual os objetos substitutos trazem a marca do falo como significante da falta e se regem assim por coordenadas inconscientes que vão estar em jogo nas escolhas.

A tentativa de eliminar as coordenadas inconscientes implicadas na escolha, minimizando a dimensão do desejo, tem efeitos no fenômeno observado hoje como indiferença em relação ao objeto tanto na vida sexual como em outras situações nas quais esteja implicada uma escolha.

Será preciso considerar a diferença entre o variável e o indiferente do objeto para não cair nas armadilhas do mercado de consumo que visa tornar seus usuários dóceis às suas ofertas. E também não confundir a indiferença com a ambivalência, essa última podendo ser tratada pela via do sinthoma e da articulação que ele permite fazer entre semblante e real.

Quando Lacan introduz a escrita do Sinthoma ele acrescenta algo na relação sintoma e fantasia. Ao colocar o objeto no que faz o entrelaçamento dos três registros simbólico, imaginário e real ele nos oferece elementos novos para se pensar uma articulação entre gozo e desejo, que não fique escrava da impotência da fantasia. No lugar em que o objeto vem se situar, ele cumpre a função de manter aberto o furo presente em cada um dos registros simbólico, imaginário e real, por onde os diferentes elementos podem se articular e se vivificar em manejos sempre singulares.  Lacan abre assim um caminho para irmos da condição absoluta do desejo apoiada na fantasia à modalidade singular de uma escolha que se orienta pelo sinthoma.

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