O ensino da Psicanálise na universidade

O ensino da Psicanálise na universidade

Xóchitl Enríquez. “Sem titulo”. Óleo sobre tela. Analista associada à NEL – Cidade do México.

Nieves Soria
EOL-AMP    

“Como fazer para ensinar aquilo que não se ensina? Eis ai por onde Freud caminhou” (1)

O ensino da Psicanálise na Universidade é polêmico em vários aspectos. Em primeiro lugar é posto em questão por vários discursos, particularmente a psicologia cognitiva, que em nome de sua suposta cientificidade questiona a presença de um discurso pretensamente anacrônico – e inclusive, segundo afirmam, demonstrado errôneo – no claustro universitário.

Em segundo lugar é posto em questão por alguns colegas em nome da autonomia da formação analítica no que diz respeito a qualquer trajetória universitária, assim como da degradação do discurso analítico que viria como resultado de sua passagem pelo discurso universitário. Trata-se neste caso de uma posição antiuniversitária que nem Freud nem Lacan- ambos tendo relações tanto com o discurso universitário em seu método de investigação como com a instituição universitária de distintas maneiras – sustentaram.

Em terceiro lugar é posto em questão pelos analistas que não só temos que lidar com os riscos que implica o ensino na Universidade, mas que encontramos em nossa prática ensinante ocasião de reinterrogar permanentemente os fundamentos de nossa prática analítica, de realizar investigações que pretendam aportar alguma luz em certos pontos de obscuridade de nossa doutrina, assim como de encarnar de vez em quando uma enunciação que desperta um desejo em algum daqueles sujeitos divididos pelo discurso universitário que se encontram conosco nas aulas.

Quais são os efeitos desta pratica ensinante em nossa própria formação, em nossa prática analítica, na relação entre a Escola e a Universidade, na formação analítica de jovens colegas, na relação com outros discursos? Abre-se assim um leque que justifica a utilização do plural naquilo que nos interroga os ensinamentos da Psicanálise na Universidade, ensinamentos que ocorrem numa dialética entre encontro e método cujo ponto de partida é uma impossibilidade que habita o discurso enquanto tal por estrutura – um dos três impossíveis freudianos – assim como a Psicanálise na singularidade de um discurso que, enquanto tal, como assinalava Lacan, “não ensina nada”. (2)

Com efeito, Lacan indicava em “Lacan por Vincennes” que um primeiro passo ao ensino da Psicanálise é a demonstração de sua impossibilidade, assinalando neste ponto a importância da matemização da Psicanálise um dos nós de articulação entre o discurso analítico e o discurso universitário.

Meu encontro com a Psicanálise ocorreu através de um colega ensinante na universidade, a qual cheguei levada por uma pergunta que logo se desdobrou em minha primeira análise. E foi mais tarde a transferência de trabalho com alguns colegas o que me levou novamente a Universidade desta vez em posição ensinante. Este movimento foi crucial em minha formação, particularmente quanto à abertura do horizonte de elucidação tanto de minha experiência de analisante como de minha pratica analítica, ali onde se tratava de “reassegurar o que sustenta sua própria analise -quer dizer- a saber: não tanto para o que sua análise serviu, mas de que sua análise se serviu”. (3)

Com efeito, a impossível tarefa de tornar ensinável este discurso tão singular que me habita, me confrontou inumeráveis vezes com aquilo que não se sustenta nas tentativas de transmissão, ensinando-me a circunscrever a cada vez o que não sei sobre a experiência que me causa.

Considero que é este ponto de impossível mesmo o que obriga o analista em posição de ensinante a retornar uma vez ou outra aos textos, tentar novas linhas de leitura para elucidar os fundamentos da prática, bordejando sempre o furo do impossível de ensinar.

O impossível de ensinar

Em “Lacan por Vincennes!” este indica que o discurso analítico “exclui a dominação, dito de outro modo, não ensina nada. Não tem nada de universal, dito o qual, não é matéria de ensino”. Sem dúvida, sua posição diante desta impossibilidade está longe de implicar um retrocesso já que não lhe impede de avançar: “é o que se demonstra no primeiro passo até o ensino”. Em um movimento dialético que o caracteriza, Lacan passa da impossibilidade do ensino ao ensino da impossibilidade. É neste ponto que a referência ao matema se torna crucial: “Fica demonstrado (…)de onde minha redução da psicanálise a teoria dos conjuntos”.

Sem dúvida o movimento dialético não se detém ali, já que Lacan propõe que este confronto com sua impossibilidade dará lugar a uma renovação de seu ensino: “se constata que ao confrontar-se com sua impossibilidade o ensino se renova”. Trata-se então de uma localização do furo do impossível que dará lugar a uma tarefa de articulação ou trançado do possível em torno esse furo. O ensino fundamental da impossibilidade que habita o discurso analítico estará então no centro do que a psicanálise pode ensinar na Universidade.

Esta impossibilidade se encontra ligada ao mais singular da experiência, ali onde a mesma se orienta pelo real. Em torno deste ponto de impossível se tecerão distintas tramas de saber, saber ensinável matemizavel e, portanto transmissível, articulado com as categorias logicas do universal e do particular que fazem o marco de saber no qual se ordena o não sabido, instância de enodamento entre Psicanálise e ciência razão pelo que a experiência analítica não soçobra na obscuridade absoluta de uma experiência inefável, ao recortar um lugar que faça “sombra ao aprisionamento do sentido”, (4) sombra que não se produz senão como efeito de alguma luz.

Discursos

Lacan concebe seus discursos como rotações de quartos de volta a partir do discurso do mestre, discurso no qual se desdobra a estrutura da linguagem com seus efeitos de divisão e condensação de gozo em um objeto a. Em O avesso da psicanálise Lacan homologa o inconsciente como saber com o discurso do mestre, propondo o discurso analítico como seu avesso, indicando desse modo a intima articulação entre discursos que em algum sentido se opõem.

Mesmo assim, como Schejtman e outros colegas assinalam em, “Psicanálise e Universidade”, cabe destacar um ponto de confluência singular entre discurso analítico e discurso universitário, enquanto este último produz justamente um sujeito dividido, partenaire do psicanalista. Por outro lado, neste texto se enfatiza também a concepção lacaniana do discurso analítico mais do que como um discurso estável, como um princípio de rotação fazendo referência a proposta lacaniana de Mais ainda: “Há emergência do discurso analítico cada vez que se franqueia a passagem de um discurso a outro”. (5)

Em 1978, ao referir-se presença da psicanálise na universidade, Lacan partia da existência dos quatro discursos, definindo o ensino com relação ao domínio e a referência ao universal, propondo o discurso analítico como uma exceção, enquanto não ensina nada, situando assim uma antipatia entre o discurso analítico e o universitário. Esta antipatia não é, sem dúvida, para ele, uma razão de retirar a Psicanálise da Universidade, trata-se mais de explorá-la como renovadora do ensino.

Lacan liga intimamente o discurso universitário ao discurso da ciência já que nele o saber está em posição de domínio. E é justamente a referência ao discurso da ciência, particularmente o matema, que Lacan privilegiará na hora de fazer um balanço da experiência da Psicanálise em Vincennes. Ali propõe que as matemáticas servem para regularizar o objeto “regularizar o que se lhe propõe como afim” (6). Anos antes em “Talvez em Vincennes…,” Lacan esperava da presença na Universidade não “somente de ajudar o analista com ciências difundidas sobre o modo universitário, mas também que estas ciências encontrem em sua experiência a ocasião de renovar-se”. Tratava-se ali de uma aposta na interação entre discursos, que se renovariam mutuamente uns aos outros”.

Com efeito, a conceitualização lacaniana da teoria analítica se nutre constantemente de ciências difundidas sob o modo universitário; tais como a linguística, a matemática, a antropologia estrutural, a filosofia, etc., sendo inabordável sem o estudo das mesmas. A ambição lacaniana consistia em propor também um aporte da Psicanálise a estas ciências.

Com respeito à interação entre Psicanálise e linguística partia de lalangue como suporte do inconsciente, propondo a partir da Psicanálise considerar a ligação entre a linguagem e a vida na articulação do simbólico com os outros registros, situando a convergência entre a disciplina linguística da gramática e o uso analítico do equívoco na redução do sintoma, aspirando a uma linguística mais verdadeira. Enquanto tomaria lalangue mais seriamente.

Em relação à matemática sublinhava, por um lado, a importância da logica como ciência do real que permite o acesso ao modo do impossível, fundamental no discurso analítico; por outro, o recurso da topologia (“todas as formas onde o espaço faz falta ou acúmulo”) para abastecer o analista de um apoio que não seja metafórico para sustentar a metonímia, indicando ali a possibilidade de uma orientação para o analista que só se autoriza de seu extravio.

Finalmente proporá como resultado da interação entre Psicanálise e filosofia o que passa a chamar de “antifilosofia”, indicando um caminho de investigação do que o discurso universitário deve a sua suposição educativa, pondo em questão a realização de uma história das ideias apontando a dar-lhe mais valor em sua raiz indestrutível, que define como seu sonho eterno, chegando ao ponto no qual a psicanálise propõe um despertar particular, não subsumível na lógica universitária.

Universidade e Escola

Freud não opunha a Psicanálise a Universidade, a ponto de propor a existência de associações psicanalíticas como uma consequência da exclusão da Psicanálise da Universidade:

É indubitável que a incorporação da Psicanálise ao ensino universitário significaria uma satisfação moral para todo psicanalista, porém, não é menos evidente que este possa de sua parte, prescindir da universidade sem menosprezo algum para a sua formação. Com efeito, a orientação teórica que lhe é imprescindível ele a obtém mediante o estudo da bibliografia respectiva e, mais concretamente nas sessões cientificas das associações psicanalíticas, assim como o contato pessoa com os membros mais antigos e experimentados destas. Quanto a sua experiência pratica, além de adquiri-la em sua própria analise, poderá alcança-la mediante tratamentos efetuados sob a supervisão e orientação de analistas mais reconhecidos. Ditas associações devem a sua existência, precisamente, a exclusão da qual a psicanálise foi objeto pela universidade. É evidente, pois, que continuarão cumprindo uma função útil enquanto se mantenha dita exclusão (7).

Lacan, logo após a sua exclusão da IPA, recorre ao antigo conceito de Escola para propor um modo inédito de laço entre analistas, centrado na relação com o saber, como assinala Miller (8). A particularidade desta relação com o saber consiste em que se sustente da transferência, uma vez que na antiguidade grega e romana as escolas se constituíam em torno do ensino de um mestre, particular relação com o saber que já estava presente na leitura lacaniana de Freud. É o ensino do mestre que se autoriza de si mesmo e da transferência que desperta nos outros que faz Escola, e encontramos esta transferência central no ensino de Miller nas Escolas de orientação lacaniana. Nesta perspectiva, a renovação do ensino provém fundamentalmente do mestre, encontrando-se o peso do magister dixit nas produções as quais dá lugar.

Por outro lado, com sua proposta do dispositivo do Passe Lacan propunha avançar o saber da Psicanálise através do ensino dos AEs e da elaboração da doutrina por parte dos cartéis do Passe, que se deixariam ensinar pelos mesmos. Assim, o dispositivo daria lugar a uma renovação do ensino que abriria outras vias de produção do saber mais além do mainstream. Se isso ocorre efetivamente é um ponto a interrogar acerca do ensino nas Escolas.

A Universidade é uma instituição que surge na idade média, dando lugar a um modo específico de laço com o saber que desemboca na obtenção de um título. Como assinala Miller, seu surgimento é muito anterior ao da ciência moderna, e inclusive a instituição universitária se opôs durante muito tempo ao saber que produziam os fundadores da mesma, tais como Descartes e Galilleu.  A burocracia universitária baseada na repetição incorre assim numa demora na incorporação de saberes que renovariam o ensino.

Neste ponto me parece fundamental distinguir a universidade do discurso universitário – questão assinalada por Schejtman e outros -, uma vez que sua concepção do mesmo, tanto no seminário 17como em Radiofonia, Lacan o liga intimamente com o discurso científico, propondo certo diálogo entre o mesmo e o discurso analítico, questão que atravessa todos os últimos anos de seu ensino. Não é da Universidade, mas do discurso universitário enquanto inclui a referência à ciência – que pode produzir-se em outros lugares que a Universidade, por exemplo, na Escola – que pode esperar-se certa renovação do ensino, questão na qual se baseiam os textos de Lacan propostos para o trabalho de hoje.

Saberes

Lacan propunha que o analista seja ao menos dois, o que produz efeitos, e o que esses efeitos teoriza (9). Estas duas dimensões do analista estão em relação com duas dimensões do saber: a primeira com o saber suposto, a segunda com o saber exposto. O saber suposto é correlativo da definição lacaniana do inconsciente como sujeito suposto saber e se refere ao estatuto transferencial do saber que se joga na experiência analítica. Lacan o desdobra em seu algoritmo da transferência (10) que toma sua estrutura do discurso do mestre. É enquanto o psicanalista encarna o significante da transferência para um significante qualquer que sua intervenção tem efeitos. Com sua presença encarna o saber não sabido no que consiste o inconsciente e é neste campo opaco, singular, e não ensinável enquanto tal, que opera.

A teorização dos efeitos de tal operação se torna então indispensável para tornar transmissível a opacidade desta experiência, requerendo para isso um método. Ali é onde se torna necessário o discurso universitário e, sua aspiração de transmissão de uma argumentação fundamentada e sua referência à linguagem científica. No movimento até a Escola, por exemplo, temos assistido a conversações que, sob o título de “disciplina do comentário”, se estruturavam segundo o modelo universitário da disputatio que consistia em um certame dialético conduzido por um ou vários mestres onde se desdobrava uma questão – quaestio -em relação com a qual cada um dos participantes sustentava diversos argumentos. Este modelo também se utiliza atualmente em algumas atividades do Instituto Oscar Masotta.

É este o exercício que buscamos realizar de modo firme com os analistas na universidade. “Lugar de encontros, de disputas, de contradições, de consolidação e de revisão doutrinaria, de religião e de lógica, de pró e de antiaristotélicos, de saber e de verdade, etc., porém, sobre tudo, onde sempre reinou certa liberdade dialética na relação com o saber, e onde não só a lectio quase sempre foi possível, mas também a disputatio…” (11) buscando, guiados por Lacan, uma renovação de nosso ensino.

Tradução: Lenita Bentes

Bibliografia:
(1) Lacan, J. “Lacan por Vincennes!” Lacaniana, n 11 Grama, Buenos Aires, 2011
(2) Idem.
(3) Idem.
(4) Lacan, J. “Quizás en Vincennes …,” Otros escritos, Paidós, Buenos Aires, 2012
(5) Lacan, J, El seminário. Libro 20:”Aun”, Paidós, Barcelona, 1985. p.25.
(6) Idem
(7) Freud, S. “Debeen señarse el psicoanálisis em la universidad?” Obras Completas. Vol. XVI. Amorrortu. Buenos Aires, 1986.
(8) Miller, J, A. “El concepto de escuela”. Conferencia publicada enwww.wapol.org/es.
(9) Lacan, J. Seminario 22. RSI. Inédito. 10/12/1974.
(10) Lacan, J. “Proposición del 9 de octubre sobre el psicoanalista de la escuela”, en Otros escritos. Paidós, Buenos Aires, 2012.
(11)Schejman, F. et al, “Psicoanalisis y universidad”, El murciélago, nueva época, n 8, abril/julio 1998, Fundación Descartes, pp. 2-25.

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