Para uma ética. Observação sobre o informe de Daniel Lagache

Para uma ética. Observação sobre o informe de Daniel Lagache

Luis Darío Salamone.“Sem Título”. Fotografia. “EOL- AMP

Marcelo Marotta
EOL-AMP

Se anuncia uma ética, convertida ao silêncio, pela avenida não do espanto, senão do desejo: e a questão é saber como a via da conversa da psicanálise conduz a ela”.

O parágrafo pertence ao último ponto intitulado “Para uma ética” do escrito de Lacan “Observação sobre o informe de Daniel Lagache: Psicanálise e estrutura da personalidade”, editado na Páscoa de 1960.

Localizemos rapidamente o contexto do que Lacan vem defendendo e que o conduz a tratar o tema da ética. Ao alcançar sua apresentação do modelo ótico, critica o conceito que Michael Balint tem do final de análise onde o sujeito acredita intercambiar seu eu com o do analista. Opondo-se a essa ideia, Lacan volta a trazer a atenção sobre o desejo e especificamente sobre o objeto a.

Chegar ao que chama o “término verdadeiro da análise”, não só implica a redução dos ideais da pessoa senão que “é como objeto a do desejo, como o tenha sido para o Outro em sua construção do vivo, como o wanted ou o unwanted de sua vinda ao mundo, como o sujeito está convocado a renascer para saber se quer o que deseja” (1).

Deste modo o sujeito deve pagar com sua pessoa para poder resgatar seu desejo e é neste campo onde a análise requer uma revisão da ética.

Apenas uns meses antes, em julho de 1960, ditando seu Seminário “A Ética da Psicanálise” Lacan esclarece que essa revisão da ética, a que nos conduz a psicanálise, tem como padrão de medida “a relação da ação com o desejo que a habita”. (2)

Se a ética consiste em um juízo sobre nossa ação, a ética da psicanálise aporta essa relação com o desejo como medida de nossa ação.

Para uma ética

Para concluir seu escrito, Lacan se introduz no tema apelando à estrutura do Supereu.

Segundo Freud, essa instância moral implica uma economia que produz um desgarre no sujeito: quanto mais sacrifícios lhe fazem, mais exigente se torna. Não é percorrendo essa via que devemos traçar “as metas morais da psicanálise” (frase com que J.-A. Miller intitulou a aula XXIII do Seminário 7).

Em sua obra de 1924 “O problema econômico do masoquismo”, Freud sustenta que “o imperativo categórico de Kant é a herança direta do Complexo de Édipo”. Seguramente por esta razão, Lacan faz sua referência a Kant no item final do Escrito que citamos. Mas surpreendentemente não passa a desenvolver o tema do imperativo categórico que se encontra no primeiro capítulo de “A Crítica da razão prática” senão que, enfocando a encruzilhada da razão prática, se refere ao que propõe Kant na “Conclusão” de seu ensaio: “as duas instâncias nas quais o sujeito pode ver figurada a heteronomia de seu ser” que enchem seu ânimo de admiração e respeito: “a estrada estrelada sobre mim” e “a lei moral dentro de mim”.

Lacan ressalta a mudança das condições de possibilidade desta contemplação. Enquanto o “céu ou à estrada estrelada” nos faz pensar que o homem de hoje, puxado por seus progressos, pode fazer valer sua presença e seu saber sobre esses espaços infinitos que “empalideceram atrás das letras minúsculas” possibilitando, deste modo, que seu silêncio já não tenha nada de aterrador.

Ao mesmo tempo, e em um sentido irrisório, o homem de hoje também converte esses espaços em uma lixeira que recebe os restos do que ele mesmo produz.

Para abordar o parágrafo seguinte, no qual Lacan defende, que o mesmo que acontece com a lei moral, pode vir em nossa ajuda algumas das questões que esclarece J.-A. Miller em seu artigo “Sobre Kant com Sade”. (3)

A intenção kantiana é conceber um sistema de moralidade pura, sem referência à experiência relacionada aos objetos.

Como na própria experiência as coisas mudam, uma moralidade fundada sobre a relação do sujeito com os objetos do mundo, não poderia alcançar a universalidade. É por isso que para formular uma ética “a priori”, independente da experiência, devemos abandonar as relações com os objetos, apresentando-a sem referência aos bens e ao prazer.

A formulação do imperativo categórico kantiano implica um desaparecimento de toda referência a um objeto bem como faz surgir uma universalidade. Só devemos escutar “a voz da consciência” e logo atuar de maneira tal que a regra de sua ação possa ser tomada como máxima de cada um.

Lacan o diz assim: “Fixemos o paradoxo de que seja no momento em que esse sujeito não tem já frente a ele nenhum objeto quando encontra uma lei, a qual não tem outro fenômeno senão algo significante já que se obtém de uma voz na consciência”… (4)

Se a ética kantiana se apresentava sem objeto, desde Lacan há um objeto, o objeto a, a voz: “o Supereu em seu íntimo imperativo é efetivamente ‘a voz da consciência’, quer dizer, uma voz em primeiro lugar, e bem vocal…” (5), assim o apresenta em um parágrafo antes da citação que motiva nosso trabalho.

Chegamos assim ao parágrafo que anunciamos ao início, onde constatamos finalmente que a ética que se anuncia é a que pode sustentar a psicanálise na medida em que só com ele podemos reconhecer a natureza do desejo que se encontra no núcleo da experiência da ação humana.

Para aprofundar o conteúdo do parágrafo podemos recordar que Lacan considera que essa ética se expressa na seguinte pergunta: “Você tem atuado em conformidade com o desejo que o habita? Esta é a pergunta que não é fácil sustentar. Pretendo – afirma Lacan – que nunca tenha sido formulada em outra parte com esta pureza e que só pode sê-lo no contexto analítico”. (6)

O desejo, que de algum modo se pode ligar ao silêncio por estar articulado, mas não ser articulável, é o que reivindica Lacan no nosso parágrafo de referência. Uns meses depois irá propor que “da única coisa da que se pode ser culpado, ao menos na perspectiva analítica, é de haver cedido em seu desejo”. (7)

Pode acontecer que o sujeito ceda em seu desejo traindo-se a si mesmo ou tolerando que alguém tenha traído sua expectativa, desse modo renuncia a sua perspectiva impulsionado pela ideia do bem, um dos segredos políticos do moralista.

Pelo contrário, Lacan propõe que o único bem é o que serve para pagar o preço do desejo. No Escrito, enquanto trabalha o modelo ótico em seu intento de responder ao artigo de Lagache, o pagamento era com a pessoa, uns meses depois, no caso do Seminário da Ética, onde trabalha o gozo ligado à Coisa, o pagamento é abordado de outro modo: “Sublimem tudo que quiserem, há que pagá-lo com algo. Esse algo se chama gozo. Essa operação mística paga com uma libra de carne. Isto é o objeto, o bem, que se paga pela satisfação do desejo”. (8)

Perspectiva do conceito

Ao seguirmos a perspectiva do conceito de ética no ensino de Lacan, constatamos que “o bem”, como termo, adquire outro sentido quando se vincula à ética do bem-dizer que é o que Lacan pode extrair de sua prática e com a qual responde à pergunta kantiana sobre: Que devo fazer? Trata-se de uma ética relativa ao discurso analítico. Assim quando Lacan em “Televisão”, se refere ao dever do bem dizer ou de orientar-se no inconsciente, na estrutura, J.-A.Miller acrescenta que “não há ética mais que do Bem-dizer”.

Ao final do item sete do primeiro capítulo da “Crítica da razão prática” Kant eleva o comentário da fórmula do imperativo categórico da seguinte maneira:

“No entanto, para considerar dada esta lei sem dar margem a más interpretações, é preciso observar sem dúvida que não é empírica, senão o único fato da razão pura, a qual desta sorte se anuncia como originariamente legislativa (sic volo, sic iubeo)” (9).

Estas últimas quatro palavras que aparecem entre parênteses, não tem nenhuma referência e sua tradução é “assim o quero, assim o ordeno”.

Jacques-Alain Miller nos adverte que provém do escritor satírico romano, Juvenal, quem em sua sátira VI dedica-se a demonstrar que não é conveniente que um homem se case com uma mulher. “É a sátira por excelência da ética do solteiro” (10), quer dizer do homem que não se vincula com o Outro, entendido como o Outro sexo.

As palavras “assim o quero, assim o ordeno”aparecem quando comenta os prejuízos que uma mulher casada pode ocasionar a um homem. Miller resume uma cena na qual uma esposa se dirige ao marido para que este ordene a crucificação de um escravo. O marido pede provas e apela à reflexão, sustenta seus argumentos como faria Kant; recordando que há que realizar um juízo razoável, tal como disse no texto antes de esses parênteses finais. Mas se considerarmos o que cita entre parênteses (assim o quero, assim o ordeno) é evidente que finalmente Kant se reconhece na palavra da mulher. “Reconhece a voz do dever tirânico na voz da mulher”.

Sem dúvida esta vinculação de Kant com Juvenal pode conduzir a questões ligadas ao Supereu feminino. Recordemos também que Lacan começa a ditar seu Seminário Mais, Ainda fazendo uma referência a “A Ética da psicanálise”, de maneira tal que quiçá agora possamos dedicar-nos a este tema a partir das distintas derivações que possam surgir ao considerar o gozo feminino.

Mas estas questões só ficarão sugeridas, já que pelas variedades que impõem seu desenvolvimento, merecem ser abordadas em outro trabalho.

Tradução: Maria Cristina Vignoli

Bibliografia:
(1) Lacan,J., Observación sobre el informe de Daniel Lagache: “Psicoanálisis y estructura de la personalidad” Escritos 2. Siglo XXI editores, Bs. As. 1987, p. 662.
(2) Lacan, J.: “Las paradojas de la ética”, capítulo XXIV, El Seminario, Libro 7, La ética del psicoanálisis, Paidós. Bs.As,1990, p.372
(3) Miller J.-A., “Sobre Kant con Sade”, Rio de Janeiro, 1985, Elucidación de Lacan, Charlas brasileñas, EOL, Paidós, 1998, pp. 233 a 235
(4) Lacan, J., “Kant con Sade”, setiembre 1962, Escritos 2, Siglo XXI, 1995, Bs.As.p.746
(5) Lacan,J., Idem nota 1, p.663
(6) Lacan, J., Ibíd., nota 1 p.373
(7) Lacan,J., Ibid., p.379
(8) Lacan,J., Ibid, p.383
(9) Kant,I., “Ley fundamental de la razón práctica pura. Apartado 7 del capitulo 1, Crítica de la razón práctica, Libera los libros (version virtual)
(10) Miller, J.-A.,  Increíble exaltación, Lakant, Escuela Lacaniana de Psicoanálisis del Campo Freudiano, Barcelona, 2000.

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