Transexualismo e travestismo a partir da perspectiva da psicanálise (1)

Transexualismo e travestismo a partir da perspectiva da psicanálise (1)

Alejandra Koreck. “Para Elena”. Colagem feito à mão. Papel. EOL- AMP

Autores: Patricio Álvarez, Alejandra Antuña, Paula Husni, Esteban Klainer, Viviana Mozzi, Débora Nitzcaner
EOL-AMP

Observatório de Género e Biopolítica da Escola Una

Responsáveis: Patricio Álvarez, Alejandra Antuña, Paula Husni, Esteban Klainer, Viviana Mozzi, Débora Nitzcaner
EOL-AMP

História do gênero e do transgênero

O termo gender (gênero) surge em 1955 graças a John Money, psicólogo e médico neozelandês, emigrado dos EUA, especialista em sexologia e pesquisador da identidade sexual. Para ele, o termo “gênero” define o masculino e o feminino a partir do cultural, mais além das diferenças biológicas. Sua definição do rol de gênero é fenomenológica: é o que uma pessoa diz ou faz o que revela seu status como menina ou menino, mulher ou homem, e isso inclui os estereótipos de masculinidade e feminidade.

Posteriormente, Robert Stoller introduz a distinção sexo/gênero (sex/gender) buscando uma palavra que pudesse diagnosticar pessoas as quais, tendo um corpo de homem, sentiam-se mulher, introduzindo o conceito de “identidade de gênero”. Em seu livro Sexo e gênero, de 1968, ele apresenta observações sobre casos de transexualismo, ou seja, sujeitos que, nascendo com os caracteres anatômicos de um sexo, manifestam o pertencimento ao sexo contrário. Daí a distinção entre “sexo”, ligado a critérios biológicos, e “gênero”, à convicção subjetiva de pertencimento. O gênero, então, pode ou não coincidir com o sexo biológico, como demonstram esses casos.

Nos anos 70, o termo gender se estende nos textos do feminismo acadêmico anglo-saxão. Alcançada, nas sociedades ocidentais, a igualdade de homens e mulheres de jure (pela lei), a pesquisa feminista se adentra na análise das estruturas sociais. Como as desigualdades entre homens e mulheres não se podem explicar por uma mera diferença biológica, a pesquisa feminista recorre à oposição sex/gender como um instrumento de análise das relações entre os sexos, a fim de distinguir entre a biologia e o social. De uma maneira geral, pode-se dizer que esse termo, gender, será utilizado para tornar patente que os comportamentos, as atividades, os papéis e, em geral, o feminino e o masculino, são construções sociais/culturais (2).

A partir disso, podemos encontrar três posições: a primeira, sustenta que o gênero não pode ser pensado prescindindo da diferença sexual. A segunda, contrária à anterior, propõe o gênero como uma construção sociocultural independente da diferença sexual. O que ocorre é que, para o Ocidente judeu-cristão, a heterossexualidade é o princípio regulador da sexualidade, e isso conduz a pensar o gênero sobre uma base biológica. Os estudos etnográficos mostram uma multiplicidade de gêneros que não podem ser explicados por um modelo dualista. Esta multiplicidade e diversidade de gêneros leva a questionar a categoria mesma de gênero e abre a via da terceira posição. Trata-se da perspectiva desconstrutivista de Judith Butler, uma das referências teóricas do movimento queer.

Filósofa pós-estruturalista, Judith Butler dá um passo além na dicotomia que ainda se encontra nas origens das teorias de gênero. Uma de suas contribuições mais destacadas no campo do feminismo é sua teoria performativa do sexo e da sexualidade. O construcionismo social já situava o gênero como uma construção, i. e., os papéis de gênero ou as categorias feminino e masculino não são papéis naturais, mas sim construções sociais. Butler ultrapassa o gênero e afirma que o sexo e a sexualidade, longe de serem algo natural, são, como o gênero, algo construído. Chega a esta conclusão baseando-se nas teorias de Foucault, Freud e, sobretudo, de Lacan.

Critica o feminismo por naturalizar o sexo, por supô-lo como categoria biológica originária, pré-discursiva, quando ele também é produto de um dispositivo  histórico-          -cultural. O termo “dispositivo” é tomado de Michel Foucault em sua História da sexualidade (3) . Ali, ele afirma:

O sexo, sem dúvida, não é senão um ponto ideal tornado necessário pelo dispositivo da sexualidade e seu funcionamento. [Para terminar concluindo uma política a respeito]: contra o dispositivo da sexualidade, o ponto de apoio do contra-ataque não deve ser o sexo-desejo, mas os corpos e os prazeres (4).

Então, para Butler, o sexo não pode ser pensado antes do gênero, mas é a partir do gênero que se pensa o sexo como natural. A identidade de gênero não é uma descrição da experiência,mas é um ideal regulatório e normativo, consiste em um conjunto de atos, gestos e desejos que dão a ideia de um núcleo interno, mas não é mais que um artifício e não tem estatuto ontológico, é somente uma ilusão discursiva para regular a sexualidade dentro do marco da heterossexualidade reprodutiva. O sujeito de Butler não é um indivíduo, mas uma estrutura linguística em formação.

Dado que a subjetividade não é um fato e já que o sujeito está sempre em um processo interminável de “devir”, é possível repetir a sujeição em diferentes formas. Butler crê que a subjetividade é uma construção, e o fato de apegar-se a uma só identidade pode chegar a oprimir a identidade mesma, pelo que afirma sobre não ter necessidade de fixar uma identidade de uma vez por todas. A identidade de gênero se converte, assim, em um processo que nunca se resolve de maneira definitiva mais além de qualquer binarismo.

A perspectiva de Butler dá lugar a uma política que se desprende da Teoria Queer, a qual consiste em desnaturalizar os corpos e os sexos, e promover a paródia em relação às identidades de gênero, homem e mulher, para revelar o caráter artificial delas.

A Teoria Queer, movimento nascido nos EUA nos anos 60, parte do rechaço ao pensamento binário homem-mulher e questiona a identidade de gênero, propondo em seu lugar a ideia de transgênero, termo que acolhe uma multiplicidade de traços e modalidades as quais significam um rechaço ao ordenamento sexual estabelecido. Este último aponta a concepção de uma sociedade na qual seus membros se construam sem a dicotomia feminino-masculino. Acolhe gays, lésbicas, transexuais, travestis, andróginos, intersexo…, tudo aquilo que significa um rechaço aos ordenamentos sexuais estabelecidos.

Desse modo, se inicialmente a diferença sexo/gênero das teorias de gênero revolucionou as teorias biologistas, mesmo continuando com um binarismo, a teoria do transgênero multiplica a nomeação das identidades e as situa como não fixas.

Em relação a isso, Jacques-Alain Miller e Éric Laurent (5) tomam em consideração os postulados de Butler e as consequências de que ali se extraem. Mostram como esta crítica radical à noção de identidade reduz o processo de sexuação ao de identificação e como o que propõe Butler é ir mais além dela.

Por um lado, ao denunciar o caráter de artifício e de semblante de gênero, esta proposta é solidária com a afirmação lacaniana de que A mulher não existe, e isso conduz à lógica do um por um. Mas, por outro lado, a desconstrução dos semblantes supõe – diz Miller – uma versão do real, encontrado aqui no corpo e no gozo. Em última instância, o ideal proposto é o de um sujeito desidentificado, definido unicamente pela sua prática de gozo, e como tal, a única nomeação válida será a proveniente do próprio sujeito e não a do campo do Outro (6).

O gênero e o transexualismo a partir da psicanálise.

A formalização do transexualismo como entidade própria surge em 1950 com o Dr. Harry Benjamin, quem estabeleceu a diferença do transexual em relação ao travesti e ao homossexual. O transexual não obtém uma satisfação erótica do fato de se travestir e sempre se sente como alguém pertencente ao outro sexo. Rechaça seus órgãos genitais sem encontrar prazer neles, à diferença do travesti e do homossexual.

A partir da psicanálise, a conceitualização do gênero e, em particular, do transexualismo, pode se localizar a partir de três momentos: na obra de Freud, no primeiro ensino de Lacan, e em seu último ensino. Em Freud, a partir da lógica falo-castração. No primeiro Lacan, a partir do significante fálico e das identificações sexuais. No último Lacan, a partir da teoria da sexuação e dos nós.

Em 1916 (7), Freud insiste em recortar a noção “do sexual”. A noção de sexualidade da época estava sujeita à genitalidade e à reprodução e Freud sustentava, já fazia uns quatro anos, que o sexual é um termo muito mais amplo. Colocar como sinônimos sexualidade e reprodução fecha o caminho para compreender a sexualidade em seus diversos modos de expressão. Em “A organização genital infantil” e “A dissolução do Complexo de Édipo” se lê o giro dado por Freud com relação à sexualidade, produzindo uma interpolação à teoria da sexualidade desenvolvida nos “Três ensaios…” e trabalhada em 1916.

A partir dos complexos de Édipo e de castração freudianos, não se vai tratar do primado genital como ficou proposto em 1916, mas sim o primado fálico permitirá fazer a equação simbólica menino = pênis = falo, para a mãe, sublinhando nessa equação que a mulher aparece em falta com relação ao homem, a partir do conceito de Penisneid, a inveja do pênis.

Aqui se propõe a lógica do ser e do ter e as complexidades das saídas femininas aos avatares dos complexos. Complexidades enquanto toda organização fica sob o primado do falo e da pregnância do órgão masculino.

Desse modo, a partir de 1923, Freud introduz, nos “Três ensaios”, a sexualidade dos homens e das mulheres organizada ao redor do falo e da castração.

Há de se ter em conta que o falo – proposto nesses termos – não é o pênis na obra freudiana, senão a imagem pregnante da forma fálica, situado por Freud como símbolo da sociedade patriarcal, e presente em todas as culturas da antiguidade.

É assim que agrega aos desenvolvimentos libidinais o estado pré-genital no que não se pode falar ainda de masculino e feminino, mas de ativo-passivo; no estádio que segue, será genital masculino-castrado; e, por último, masculino-feminino, na eleição de objeto (8)..

Os dois complexos, Édipo e castração, têm um conceito que os articula: o falo. A diferença sexual não se orienta pelo primado genital, mas pelo primado do falo, o qual remete à castração: uns têm, outros, não. O falo será o operador lógico da estrutura, deixando por fora a lógica do “desenvolvimento”.

Um ano mais tarde, em “A dissolução do complexo de Édipo”, Freud trabalha a articulação do complexo de castração e do complexo de Édipo em um menino e introduz algumas diferenças com relação às meninas.

Pode-se definir três grandes momentos na obra freudiana. Os desenvolvimentos em relação ao complexo de Édipo; o falo como operador estrutural que ordena as posições sexuadas e indicará, mais tarde, a dissimetria entre a posição masculina e a feminina; e, um terceiro momento, em que essa dissimetria se articula com o primeiro objeto de amor: a mãe.

Já nas teorias sexuais infantis, de 1905, Freud assinala o reconhecimento de um só órgão: desenvolvido no menino, e por se desenvolver, na menina. Teorias sexuais infantis que contrariam a percepção mesma e se colocam sobre um desconhecimento.

Depois, em “A organização genital infantil”, retoma essa ignorância fundamental sobre o sexo feminino, já com o primado do falo, que articulará o complexo de Édipo com o de castração.

É no ano seguinte (9) quando as resoluções se apresentarão de modo diverso para os dois sexos: a ameaça de castração empurra o menino à saída do complexo de Édipo e permite à menina sua chegada. Na teorização que segue, cobra importância fundamental a fase pré-edípica da mulher com relação à mãe, a qual faz do complexo de Édipo uma formação secundária com relação a essa ligação pré-histórica. De fato, até sustenta que, nesse caso, já não será o Édipo o núcleo das neuroses, mas é essa fase que deixa espaço para todas as fixações e pré-disposições posteriores.

Desse modo, nesses três momentos, Freud se detém na lógica do falo e da castração, e localiza distintos modos de passagem pelo Édipo e pela castração para o menino e para a menina.

Com relação ao transexualismo, se bem que Freud não o chamou assim por ser um termo posterior, já se ocupou do primeiro caso de transexualismo delirante que conhecemos, o do Presidente Schreber. De fato, a hipótese central da leitura do caso Schreber é a de sustentar a defesa contra a homossexualidade como a causa de sua psicose. Freud expõe que a fixação homossexual pertence ao estádio do narcisismo e, nessa medida, quando explode o conflito adulto, a libido faz uma regressão ao ponto de fixação narcisista, que é a pré-disposição patológica da paranoia, e, por essa razão, desencadeia-se a psicose. Desse modo, Freud propõe que o “fio vermelho”, o qual atravessa os três tempos da psicose, é o do fracasso da defesa contra o desejo homossexual: o período prévio ao desencadeamento com a fantasia de que seria “bom ser uma mulher durante o coito”; logo após, no período psicótico, com o delírio de ser “uma puta” que os homens usariam e deixariam jogada; e o período de estabilização, com o delírio de ser “a mulher de Deus”. Essa “mudança de mulher” que atravessa todo o delírio é a figuração do transexualismo delirante de Schreber.

Lacan retoma a conceitualização freudiana a partir do significante fálico e, mais adiante, da função fálica.

O primeiro ensino de Lacan dá ao gênero um lugar central a partir da localização de como se normatizam as identificações viris e femininas a partir da passagem pelo complexo de Édipo.

E dá também um lugar importante ao transexualismo, justamente porque dá conta do que falha quando o Édipo e suas consequências não se inscrevem no sujeito.

Lacan fala pela primeira vez sobre o transexualismo em 1957 no Seminário 4:

Quem assiste a minha apresentação de pacientes poderá comprovar em um de nossos pacientes transexuais, que nos descreve o caráter verdadeiramente doloroso da difícil surpresa experimentada no dia que, pela primeira vez, viu sua irmã desnuda (10).

Como vemos, desde o início o transexualismo e a psicose têm alguma relação. Logo, em “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”, define o chamado “gozo transexualista” do presidente Schreber, o qual consiste na prática de cultivar em seu corpo a voluptuosidade feminina:

[…] Deus mesmo demanda encontrar a voluptuosidade com ele, e ameaça com a retirada de seus raios se ele se mostrar negligente no cultivo da voluptuosidade e não poder oferecer a Deus o demandado […] (11).

Desde então, escrevi em minha bandeira, com plena consciência, o cultivo da feminidade (12).

Esse gozo transexualista é a solução encontrada por Schreber em relação a sua posição sexuada, a de não dispor do significante fálico.

O conceito “significante falo”, ou falo simbólico, é definido por Lacan como o significante do desejo, e condensa sua leitura sobre toda a teorização de Freud acerca da dialética falo-castração, como ponto de ancoragem do modo de identificação, o qual permite a um homem, ou a uma mulher, considerarem-se como tais. Este significante fundamental é produto da efetividade da metáfora paterna, a qual, por sua vez, é o resultado da efetuação dos três tempos de Édipo, ao cabo dos quais, o neurótico resolve o enigma, o “x” do desejo da mãe, com a solução do significante falo, significante que permite uma identificação simbólica diferente para o menino – ter o falo – e a menina – ser o falo –, saindo do Édipo com “os títulos no bolso”.

Todavia, esta metáfora paterna e sua solução nos três tempos são possíveis sob a condição de que haja um tempo zero, o da Bejahung do Nome-do-Pai. Se não há inscrição do Nome-do-Pai, tampouco haverá possibilidade de inscrição do significante falo, pois este se inscreve se se inscrever o outro.

Lacan descreverá as funções do falo em seu texto “A significação do falo”. O significante falo tem cinco funções que permitem a um sujeito instalar-se em uma posição inconsciente:

– dar uma significação da posição sexual como homem ou mulher;

– dar uma significação do que se é enquanto pai ou mãe;

– dar uma significação da função a cumprir frente ao partenaire sexual;

– dar uma significação do que se é enquanto vivo ou morto; e

– organizar as significações com uma referência sexual, significar o gozo falicamente.

Tanto a neurose como a psicose se confrontam, em certo momento da conjuntura dramática, com os significantes freudianos não inscritos na estrutura: feminidade, morte e procriação. Essa confrontação é o que inicia o desencadeamento neurótico ou psicótico: Lacan compara em As psicoses como Schreber se confronta com o significante não inscrito na procriação, enquanto Dora se confronta com o da feminidade, e nos outros casos se produz o desencadeamento antes dessa confrontação. A diferença é que, primeiro, essa confrontação inicial ao chamado vão feito ao Nome-do-Pai e a resposta antecipada do delírio, enquanto, na segunda maneira, dado que está inscrito o Nome-do-Pai, a identificação viril – i. e., a significação fálica – permite-lhe uma mediação para se formular a pergunta da estrutura da neurose.

Contudo, na psicose, essas cinco funções dão as significações fundamentais ao nível do ser: homem ou mulher etc., não se cumprem. Enquanto não houver inscrição do Nome-do-Pai, tampouco se inscreverá o significante fálico: há em seu lugar dois buracos foraclusivos, aos quais Lacan atribui os matemas de P0 e Φ0: um zero, um buraco, no lugar onde deveriam ter se inscrito esses significantes. O significante do Nome-do-Pai organiza as inscrições significantes, e o significante falo organiza as significações imaginárias, então a confrontação com os buracos P0 e Φ0 produz a catástrofe simbólica e imaginária do desencadeamento.

Nesse tempo de seu ensino, Lacan coloca o acento no simbólico e no imaginário, mas também a catástrofe se produz no real: o efeito de P0 e Φ0 é que o gozo fica deslocalizado, ao não contar nem com o Nome-do-Pai – o qual não somente organiza as inscrições significantes, mas também tem a função de assegurar uma perda de gozo estrutural – nem com o significante falo – o qual não somente organiza as significações, mas também o gozo no corpo. Não há perda de gozo nem deslocalização do gozo no corpo, com o qual se trata de um gozo a mais, um gozo que irrompe sem localização possível. A forma tomada por esse gozo que irrompe são os fenômenos elementares, e, por essa razão, Lacan deu a esses fenômenos o nome de significantes no real, os quais, quando irrompem, desarmam as construções simbólico-imaginárias.

Em conclusão: em seu primeiro ensino, o significante fálico é o articulador central da conceitualização da posição sexual para Lacan, e permite localizar a posição da psicanálise com relação às teorias de gênero. O significante fálico localiza a posição viril e feminina como resultado da saída dos tempos de Édipo, e também seus outros modos possíveis de saída. Mas também se localiza em relação a sua inscrição ou sua foraclusão, do lado da neurose ou da psicose.

No Seminário 18 (13), Lacan recomenda a leitura do livro Sexo e gênero, de Stoller, elogiando-o, por um lado, pelo boa observação clínica dos casos ali apresentados, incluindo neles as coordenadas familiares, e criticando, por outro lado, pela sua construção teórica inoperante ao não levar em consideração o conceito de “foraclusão lacaniana”. Desse modo, localiza a hipótese de uma relação entre o transexualismo e a foraclusão. Esta hipótese foi utilizada – em alguns casos de modo extremo, como se houvesse uma equivalência entre transexualismo e psicose – por diversos autores. Traz, ademais, para reafirmar que a sexualidade não tem correlato biológico e critica a noção de identidade de gênero, pois não há nada na experiência humana que permita definir o que é do homem e da mulher, a única coisa que demonstra essa noção é que os seres humanos se dividem em homens e mulheres. “A identificação sexual não consiste em se crer homem ou mulher, mas em levar em consideração que há mulheres, para o homem, e que há homens, para as mulheres” (14). Não se trata, então, de dois sexos como entidades isoladas. Não se devém sexuado pela identificação ao significante homem ou ao significante mulher, mas por levar em conta a diferença sexual. Esta diferença, a partir da teorização de Freud, dirime-se em termos da lógica fálica (falo-castração) já que não há inscrição do genital feminino no inconsciente.

No primeiro capítulo do seminário seguinte, …ou pior, Lacan retorna ao tema do transexualismo falando do “erro” de que padece o sujeito transexual: ter um corpo equivocado que não coincide com o sexo ao qual tem convicção de pertencer. Mas, qual é o erro? É o “erro comum”, dirá Lacan, que consiste em interpretar a pequena diferença anatômica com critérios fálicos. É assim como se distinguem os seres falantes a partir da mais tenra idade. Não são eles, os pequenos, quem se distinguem, mas “se” os distingue. Eles, por sua vez e princípio, rechaçam essa distinção no que se conheceu em certas psicanálises como as fases infantis, terá de ver logo se eles consentem ou não a se inscreverem na função fálica. O transexual rechaça os critérios fálicos a partir dos quais se o distinguiu na distribuição sexual e sua paixão é a loucura de querer se liberar desse erro comum, o qual faz com que a pequena diferença comande a diferença sexuada tornando-a “natural”. O problema é quando ele quer se fazer reconhecer como homem ou mulher, a única maneira que tem de fazê-lo é modificando sua anatomia. “Seu único erro – disse Lacan – é querer forçar, mediante a cirurgia, o discurso sexual que, enquanto impossível, é a passagem ao real” (15).

No mesmo ano de 1972, no escrito “O Aturdito”, Lacan coloca o conceito “empuxe à mulher” para localizar uma série de fenômenos muito frequentes na psicose que não se reduzem à clínica da alucinação e do delírio, nem foram descritos pela psiquiatria clássica. Remete-se, com esse conceito, a Schreber, remarcando aquilo que antes havia chamado “gozo transexual”, mas o localizando a partir das fórmulas da sexuação.

Este é o segundo passo importante de Lacan em referência às posições sexuadas: localizar a sexuação como uma eleição de gozo, e não como havia feito no primeiro ensino, como uma eleição significante. Desde as fórmulas da sexuação, a posição sexual do lado homem ou do lado mulher se elege no nível do gozo, em função de como se inscreve um ou outro com relação à função fálica.

As fórmulas da sexuação têm também uma raiz freudiana na medida em que Lacan propõe um só significante em relação ao qual se inscreve o falo, mas, nessa época, já não o chama significante, mas função fálica, e coloca que esta implica uma escritura. A função fálica implica uma escritura de gozo, e cada sexo se inscreve de modo distinto.

O lado homem se inscreve em função de duas fórmulas: do todo e da exceção. O lado feminino se inscreve em função de não fazer exceção ao falo e da lógica do não todo. Do lado feminino, Lacan situa na medida em que o gozo não pode se inscrever segundo um todo fálico como para o homem, não se pode situar um universal das mulheres. Por isso, cria sua conhecida fórmula: “A mulher não existe”, para localizar que não há um universal ao nível do gozo feminino.

Em relação a isso, o conceito de “empuxe À mulher” toma importância por contradizê-lo, e por se relacionar ao “erro” no qual cai o transexual.

Lacan apresenta, em “O Aturdito”, o conceito de empuxe À mulher no seguinte parágrafo:

Poderia aqui, ao desenvolver a inscrição que fiz, mediante uma função hiperbólica, da psicose de Schreber, demonstrar nele o que tem de sardônico o empuxe-À-mulher que se especifica com o primeiro quantificador: havendo precisado bem que é pela irrupção de Um pai como sem razão, precipita-se aqui o efeito experimentado como forçamento […] (16).

Quebremos esse difícil parágrafo: primeiro, Lacan nos reenvia a sua análise da psicose de Schreber no esquema I de “De uma questão preliminar…”, com sua função hiperbólica dupla, que situava em P0 e Φ0. O encontro com P0 produz a irrupção de Um pai real, i. e., introduz o desencadeamento, mas aqui o chama forçamento: é o forçamento, o empuxe, À mulher. O Pai, aqui, é o primeiro quantificador das fórmulas. Desse modo, a lógica de “O Aturdito” é análoga à da “De uma questão preliminar…”: como na psicose não há inscrição do Pai, i. e., não se inscreve a exceção, o sujeito não pode se posicionar em relação ao falo, como castrado. Quer dizer, seu gozo não é fálico porque não passa pela castração. E se seu gozo não é fálico, o gozo na psicose é um gozo sem regulação, deslocalizado.

A isso, Lacan denomina empuxe À mulher: sem o quantificador da castração, o gozo não está castrado, infinitiza-se.

Desse modo, sem exceção, não há possibilidade de se inscrever como homem fazendo do gozo um gozo fálico. Mas tampouco é possível se inscrever do lado de uma mulher, porque não se pode inscrever o gozo dentro de um não-todo gozo fálico porque não está inscrito.

Portanto, se não há medida do lado homem e não há castração do lado mulher, o empuxe é À mulher, sem barra. Lacan insiste várias vezes dizendo que A mulher não existe, mas nesse caso utiliza pela única vez o artigo “A”, para sublinhar que somente no caso da psicose A mulher existe, com suas consequências devastadoras.

Então, havendo a ausência desse primeiro quantificador, produzem-se dois efeitos:

– A infinitização do gozo: a ausência da exceção do pai implica uma não quantificação, uma não limitação do gozo, e, portanto, o gozo se torna infinito e deslocalizado.

– A mulher: como produto da não inscrição da exceção paterna, o que funciona como empuxe é a inscrição da exceção pela via da realização de um absoluto: o efeito foraclusão psicótico é um empuxe a realizar a existência d’A mulher. É um empuxe, então, a inscrever que A mulher existe, no lado direito das fórmulas. Por isso Lacan o remete ao feminino, no ponto onde o gozo não é regulado pelo falo, e, enquanto tal, é ilimitado. Mas à diferença da posição feminina, a qual se localiza em um mais além do gozo fálico, o empuxe À mulher se localiza em uma ausência de gozo fálico. É um empuxe a inscrever uma outra exceção, que não é a paterna, mas sim a d’A mulher.

Em conclusão: no nível do último ensino de Lacan, a questão do gênero se inscreve em termos de gozo. E a questão do transexualismo se localiza em relação à foraclusão, por um lado, e ao empuxe À mulher, por outro.

Por último, no seu livro Extrasexo: ensaios sobre o transexualismo, Catherine Millot, psicanalista francesa contemporânea, define o transexual como:

[…] uma pessoa que solicita a modificação de seu corpo a fim de conformá-lo às aparências do sexo oposto, invocando a convicção de que sua verdadeira identidade sexual é contrária ao seu sexo biológico (17).

E acrescenta:

[…] O transexualismo é atualmente a conjunção de uma convicção que não deve nada a ninguém e é uma demanda que se dirige ao outro. Tal demanda é nova, já que supõe uma oferta que a suscita, o que faz a ciência, pois sem cirurgião nem endocrinologista, não há transexual (18).

Biopolítica e psicanálise: a feminização do mundo.

Levando em consideração esses desenvolvimentos, e na medida em que os distintos países avançam nas leis de identidade de gênero, podemos considerar o transexualismo como um sintoma da época, na medida em que interroga o gênero e também as estruturas subjetivas.

Em “O inconsciente é político”, Miller assentou as bases do que logo se chamou a feminização do mundo, assinalando uma modificação-chave na civilização. O sistema político clássico, sustentado a partir da exceção paterna, localizava o líder como o que funda um todos iguais. A queda desse sistema é correlativa ao declínio do Pai, que já não funciona como garantidor da exceção. Sua consequência é a tendência à lógica do não-todo, a qual tem as características do múltiplo, do ilimitado, do contingente e do deslocalizado. Conhecemos bem os efeitos da desregulação do gozo nos sintomas contemporâneos, seja sob as formas do consumo, da violência, das passagens ao ato etc.

Na medida em que a lógica falo-castração não distribui uma medida unívoca, observamos a multiplicação das formas de gênero. Como dissemos antes, nos anos 60, os estudos de gênero se rebelaram contra a norma heterossexual, mas essa lógica reafirmava a medida fálica ao negá-la. A partir dos anos 90, os estudos trans-gênero afirmavam a multiplicação – até agora em cinquenta e dois gêneros, em uma série que cada vez agrega novas nomes – e a não identidade – no sentido de que se pode ser, por um tempo, de um gênero e, depois, de outro.

Dissemos antes que Lacan se refere à identidade sexual em dois momentos de seu ensino: em relação à identidade sexual, e em relação à sexuação. Justamente, por efeito da época, observamos que a posição sexual é afetada em dois níveis: no das identificações sexuais dadas pela norma do Ideal do eu edípico, e no da escritura da sexuação. Ocorre assim que os sujeitos devem encontra como podem, e mediante soluções não estandardizadas, seus modos de inscrição e de regulação do gozo.

Este modelo, chamado por Miller de feminização do mundo, está tomado pela lógica de “O Aturdito” sobre o empuxe À mulher. Como vimos, na medida em que o quantificador da exceção paterna não se inscreve do lado do homem, produz-se um forçamento a inscrever do lado direito uma outra exceção, a exceção d’A mulher com maiúscula.

Embora Lacan o aplique somente aos fenômenos foraclusivos, esse empuxe À mulher conflui em nossa época com a feminização do mundo, como desenvolveu Laurent em Buenos Aires (19).

Nossa investigação, então, utiliza esses dois conceitos para pensar modos de efetuação da sexualidade não contemplados na lógica fálica. Podemos situar assim a problemática do gênero em um alcance que vai da feminização, em sentido amplo, ao empuxe À mulher, em sentido restrito. Isso também nos permite considerar o transexualismo não necessariamente do lado da psicose.

Casuística

A casuística com que concordamos é de vinte casos em distintos momentos da redesignação de sexo, mas nos centraremos nos catorze que receberam tratamento psicanalítico. (20)

Meninos

Dos três meninos observados, dois são meninos originalmente, e uma menina. Os três casos são diagnosticados como psicose. Uma delas começa o tratamento aos 3 anos, e os outros dois aos 8 anos. Dois dos casos apresentam o que François Ansermet chama uma “certeza precoce”, i. e., a certeza inicial de ser do outro sexo. Um deles não apresenta tal certeza, mas o fato de se apresentar como de outro sexo lhe permite, em uma solução instável, construir um corpo. Nos três casos se verifica que a redesignação do sexo simbólico os pacifica durante um tempo. Também se constata o decisivo papel do desejo materno, e se observa a posição localizada por Lacan como o “objeto condensador do gozo no fantasma materno”. Um deles, de fato, surpreende a convicção materna de defender sua posição como menina quando aparece com a nova certeza de ser “uma sereia”. Por último, verifica-se, durante o transcurso do tratamento, que o se apresentar como do outro sexo lhes permite armar um corpo.

Casos que implicam uma redesignação simbólica do sexo

Examinamos seis casos. Em todos eles, a redesignação do sexo é ou simbólica, pela via da troca de nome e de sexo no DNI (carteira de identidade), ou também implica a hormonização, mas sem recorrer, ainda, à via cirúrgica. Cinco são adolescentes ou jovens (14 a 25 anos), um é adulto. Verifica-se a psicose em cinco dos seis casos, e um deles, o qual apresenta também um hermafroditismo congênito, ainda está em discussão. Dos cinco casos de psicose, três deles são psicoses extraordinárias e dois são ordinárias. Em dois dos casos se constata uma insensibilização genital que evidencia a não fetichização do órgão, dizendo um deles: “é como se tocassem meu joelho”, o rechaço ao órgão está presente. Em todos eles o trabalho de análise produz uma pacificação, e agregar a redesignação simbólica de seu sexo colabora com tal pacificação, logrando uma certa estabilização em cinco dos seis casos: em um, trabalhar com o significante “ser uma mulher melhor” o pacifica, em outra, as vozes injuriantes cedem quando consegue escrever no documento seu novo nome, em outra, respeitar uma certeza que avança pela via do feminizar-se também o pacifica, em outra, conseguir  a posição de “uma mulher distinta” em sua relação com um homem produz uma localização. No quinto caso de psicose, o que não consegue se estabilizar, a proibição familiar a essa solução produz um surto esquizofrênico. Por último, no caso que ainda está em discussão o diagnóstico, o trabalho em relação a sua paternidade lhe permite inscrever-se como homem.

Casos que implicam uma redesignação cirúrgica do sexo

Examinamos três casos que não somente fizeram a redesignação simbólica do sexo, mas que chegaram também à intervenção cirúrgica. Em todos diagnosticamos uma psicose, duas delas ordinárias, e uma extraordinária. Em um dos casos, quando se instala a certeza, tenta resistir indo à academia ou deixando a barba crescer, mas logo cede e começa a redesignação de sexo.

É interessante marcar que nos três casos se verifica uma descompensação posterior à intervenção cirúrgica, à diferença dos anteriores onde houve uma pacificação. Verifica-se também que, antes da intervenção, o rechaço ao órgão, apesar de ser sofrido e incômodo, produzia uma localização de gozo, o que, com a intervenção, deslocaliza-se. Dois deles conseguem, mediante a análise, um trabalho sobre o feminino que lhes permite uma pacificação: uma consegue a partir de um trabalho que consiste em transformar as mulheres, e outra mediante a diferenciação entre uma mulher e uma mulher trans, junto ao trabalho em relação ao semblante.

Travestismo

Examinamos dois casos de travestismo nos quais se constatam diferenças. Um deles mostra uma alucinação infantil que o localiza como psicótico e ele se verifica em análise, enquanto o outro pode se localizar como uma perversão. No caso da psicose, a intervenção do analista em seu trabalho sobre o feminino produz uma pacificação, a partir do trabalho de “vestir-se de mulher para ser uma mulher lésbica”. No caso da perversão, verifica-se uma diminuição libidinal no ponto onde o sujeito não pode se sustentar no olhar do Outro, o que a análise tenta pacificar. Verificamos a perversão em certas consequências da redesignação da castração: à diferença dos casos anteriores, o órgão está sumamente fetichizado como condição de gozo, e pode se situar o gozo que produz a perplexidade do Outro.

Conclusões gerais

Até aqui podemos concluir aquilo que o rastreamento clínico nos permitiu constatar uma vez mais, que, ao nos dirigir aos sintomas contemporâneos, encontramos ali tipos de sintomas sob um comum sinthomático: o determinante que supõe o encontro de um real com lalíngua, enquanto condição de gozo e modo de habitar de um sujeito e suas identificações.

A partir dessa perspectiva, enumerar os casos não significa armar um universal, mas se trata de poder situar um gozo particularizado a partir do discurso da psicanálise. É sob a experiência da transferência por onde podemos verificar que esse gozo toma corpo, singulariza-se.

Dos catorze casos, doze foram observados como  psicose, um como perversão e outro como um diagnóstico ainda em discussão.

– Dos catorze, os homens que se redesignaram como mulheres são dez, e as mulheres redesignadas como homens são quatro.

– Três são crianças, seis são adolescentes ou jovens e cinco adultos.

– Dos doze casos de psicose, seis podem ser considerados psicoses extraordinárias, e seis ordinárias.

– A redesignação do sexo simbólico teve uma função pacificadora para nove dos que não se operaram. Um deles, quando se proibiu essa solução, descompensou-se. Em oposição a isso, para os três que, sim, se operaram, a intervenção cirúrgica teve uma função descompensatória.

– Nos doze casos de psicose verificada, constata-se que a imagem do sexo funciona como um intento de solução, às vezes logrado, às vezes falho. Mas os doze casos apelam ao mesmo, seja como certeza, identificação ou assíntota: a imagem do sexo lhes permite fazer um corpo.

Na maioria dos casos, pode-se verificar a pregnância do discurso sobre o gênero, prévio ao encontro com um analista e, em particular – em quase todos eles – se apresenta a cirurgia como promessa de alívio ao sofrimento de quem diz pertencer a um sexo ao que seu corpo não corresponde. Mais além de se essa se realiza ou não, se no transcurso do tratamento ganha ou perde consistência, a “solução” cirúrgica, universal e prêt-à-porter, está ali presente.

Se a “feminização” do mundo implica a multiplicação das identificações sexuadas, o transexual como sintoma da época nos mostra como ela está fortemente marcada pelo discurso da ciência: rechaço do significante ao tratar o órgão como real, rechaço da dimensão subjetiva e do singular do processo de sexuação para cada um.

Chegar a essas conclusões nos permite interrogar sobre a partida que joga o analista de orientação lacaniana. Com esse ensinamento clínico, podemos afirmar que é tarefa de um psicanalista colocar em questão essas soluções prometidas pela civilização e acompanhar cada sujeito, faça uso ou não dessas técnicas, a encontrar um tratamento do gozo que lhe seja suportável a partir de suas marcas singulares, sustentado em um laço subjetivo possível, tal como fica demonstrado em vários dos casos aqui apresentados.

Buenos Aires, março de 2016

Agradecemos aos colegas: Patricio Álvarez, Clarisse Boechat, Silvina Bragagnolo, Alejandra Breglia, Paola Cornu, Andrea Cucagna, Victoria de la Fuente, Alejandra Guerra, Paula Husni, Mariana Santoni, Noelia Trivisonno e Néstor Yelatti, pelas suas colaborações clínicas.
Tradução: Gustavo Ramos.

Notas:
(1)Segundo informe do Observatório de gênero e biopolítica da Escola Una – Responsáveis: Patricio Álvarez (EOL), Paola Cornu (NEL), Blanca Musachi (EBP)
(2)O que Simone de Beauvoir expressou em 1949 com a frase: “A mulher não nasce, se torna”.Disponível em: http://www.europarl.europa.eu/transl_es/plataforma/pagina/celter/art1gender.htm
(3)Foucault, M. Historia de la sexualidad.
(4)Ibidem, pp. 188-191.
(5)Miller, J.-A., Piezas sueltas.
(6)Éric Laurent adiciona que “[…] contrariamente aos outros militantes da reivindicação das comunidades de gozo, esta autora está a favor da psicanálise. Mas apela a uma psicanálise que apontaria a um ideal pré-edípico, perverso polimorfo nos termos de Freud.” Laurent, E., “Um nuevo amor por el padre”, Transformaciones. Ley, diversidad, sexuación, p. 189
(7)Freud, S., “Conferencias de introducción al psicoanálisis.”
(8)Freud, S., “La organización genital infantil.”
(9)Freud, S., “El sepultamento del complejo de Edipo.”
(10)Lacan, J., “El Seminario, libro 4. La relación de objeto”, p. 272.
(11)Freud, S., “Puntualizaciones psicoanalíticas sobre un caso de paranoia descrito autobiográficamente”, p. 29.
(12)Ibidem, p. 32.
(13)Lacan, J., El Seminario, libro 18. De un discurso que no fuera del semblante.
(14)Ibidem, p. 33.
(15)Lacan, J., El Seminario, libro 19. …o peor, p. 17.
(16)Lacan, J., “El atolondradicho”, p. 490.
(17)Millot, C., Ensexo. Ensayos sobre el transexualismo, p. 14.
(18)Ibidem.
(19)Laurent, E., “El orden simbólico em el siglo XXI. No es más lo que era. ¡Qué consecuencias para la cura?”, p. 6.
(20) A resenha dos casos está no apéndice, página 23. Se, por razões de publicação na internet, decidirem não publicar, podem consultar pedindo os casos via e-mail.
Bibliografia:
AA. VV., Colofón n. 22, Clínica de la sexuación y (no) clínica del género, Boletín de la Federación Internacional de Bibliotecas del Campo Freudiano, novembro de 2002.
AA. VV., Transformaciones. Ley, diversidad, sexuación, Torres, M., Schnitzer, G.,
Antuña, A., Peidro, S. (Comp.), Bs. As., Grama, 2013.
Álvarez Bayón, P., Antuña, A., Klainer,E., Husni, P., Mozzi, V., Nitzcaner, D., (2015)
Primer informe sobre la Ley de Identidad de Género en Argentina, AMP/WAP
Asociación Mundial de Psicoanálisis [On line], 2005. Disponível em: http://www.wapol.org/es/articulos/Template.asp?intTipoPagina=4&intPublicacion=13&intEdicon=9&intIdiomaPublicacion=1&intArticulo=2753&intIdiomaArticulo=
Allouch, J., La Sombra de tu perro. Discurso psicoanalítico. Discurso lesbiano, Bs. As., El cuenco del plata, 2004.
Barros, M. La condición femenina, Bs. As., Grama, 2011.
Ansermet, F., “Identidad sexual”, Scilicet: El cuerpo hablante. Sobre el inconsciente  en el siglo XXI, Bs. As., Grama, 2015.
Antuña, A., “Transformaciones en el Otro social. Sexuación y filiación”. In: Virtualia,
Revista digital de la EOL [On line], julio 2014. Disponível em: http://virtualia.eol.org.ar/028/template.asp?Sexo-y-epoca/Transformaciones-en-el-Otro-social.html
Brodsky, G., “La clínica femenina”,  Clínica de la sexuación, NEL-Bogotá, Bogotá, 2004.
Butler, J., Deshacer el género, Bs. As., Paidós, 2010.
Butler, J., El género en disputa, Bs. As., Paidós, 2010.
Butler, J., Cuerpos que importan. Sobre los límites materiales y discursivos del “sexo”, Bs. As., Paidós, 2005.
Butler, J., Lenguaje, poder e identidad, Madrid, Síntesis, 2004.
Fernández, J., Cuerpos desobedientes. Travestismo e identidad de género, Bs. As., Edhasa, 2004.
Freud, S., (1895). “Nuevas puntualizaciones sobre las neuropsicosis de defensa”.  Obras completas, tomo III, Buenos Aires, Amorrortu editores, 1986.
Freud, S., (1905). “Tres ensayos de teoría sexual”. Obras completas, Vol. n. VII, Bs. As. Amorrortu editores, 1990.
Freud, S., (1908). “La moral sexual «cultural» y la nerviosidad moderna”.  Obras  completas, Vol. n. IX, Bs. As., Amorrortu editores, 1989.
Freud, S., (1908). “Las fantasías histéricas y su relación con la bisexualidad”.  Obras  completas, Vol. n. IX, Bs. As., Amorrortu editores, 1989.
Freud, S., (1910). “Sobre un tipo particular de elección de objeto en el hombre”. Obras completas, Vol. n. XI, Buenos Aires: Amorrortu editores, 1988.
Freud, S., (1911 [1910]). “Puntualizaciones psicoanalíticas sobre un caso de paranoia descrito autobiográficamente”. Obras completas, Vol. n. XII, Bs. As., Amorrortu editores, 1986.
Freud, S., (1912). “Sobre la más generalizada degradación de la vida erótica”. Obras  completas, Vol. n. XI, Bs. As. Amorrortu editores, 1988.
Freud, S., (1918 [1917]). “El tabú de la virginidad”. Obras completas, Vol. n. XI, Bs. As., Amorrortu editores, 1988.
Freud, S., (1919). “«Pegan a un niño». Contribución al conocimiento de las génesis de Las perversiones sexuales”. Obras completas, Vol. n. XVII, Bs. As., Amorrortu editores, 1990.
Freud, S., (1920). “Sobre la psicogénesis de un caso de homosexualidad femenina”.
Obras completas, Vol. n. XVIII, Bs. As., Amorrortu editores, 1990.
Freud, S., (1923). “La organización genital infantil”. Obras completas, Vol. n. XIX, Bs. As. Amorrortu editores, 1990.
Freud, S., (1924). “El problema económico del masoquismo”. Obras completas, Vol. n. XIX, Bs. As., Amorrortu editores, 1990.
Freud, S., (1924). “El sepultamiento del complejo de Edipo”. Obras completas, Vol. n. XIX, Bs. As., Amorrortu editores, 1990.
Freud, S., (1925). “Algunas consecuencias psíquicas de la diferencia anatómica entre los sexos”. Obras completas, Vol. n. XIX, Bs. As., Amorrortu editores, 1990.
Freud, S., (1927). “Fetichismo”. Obras completas, Vol. n. XXI, Bs. As., Amorrortu editores, 1990.
Freud, S., (1930 [1929]). “El malestar en la cultura”. Obras completas, Vol. n. XXI, Bs. As., Amorrortu editores, 1990.
Freud, S., (1933 [1932]). “Nuevas conferencias de introducción al psicoanálisis”. “33ª
conferencia. La feminidad”. Obras completas, Vol. n. XXII, Bs. As., Amorrortu editores, 1998.
Foucault, M., Historia de la sexualidad, Madrid, Siglo veintiuno, 1977.
Godoy, C., (2008). “Psicosis y sexuación”, Revista Ancla n. 2, Bs. As., Grama, 2008.
Godoy, C., “Bisexualidad”. En Scilicet: El orden simbólico en el siglo XXI, Bs. As., Grama, 2012.
Helien, A., Piotto, A., Cuerpos equivocados. Hacia la comprensión de la diversidad sexual, Bs. As., Paidós, 2012.
Kraepelin, E., “Paranoia” (Lección 15). En Introducción a la clínica psiquiátrica, Madrid: Sánchez Calleja, 1905.
Lacan, J., (1951). “Intervención sobre la transferencia”,  Escritos 1, Bs. As., Siglo veintiuno, 1985.
Lacan, J., (1953). “El mito individual del neurótico”,  Intervenciones y textos 1, Bs. As., Manantial, 1985.
Lacan, J., (1953). “Función y campo de la palabra y del lenguaje en psicoanálisis”, Escritos 1, Bs. As., Siglo veintiuno, 1977.
Lacan, J., (1958) “De una cuestión preliminar a todo tratamiento posible de la psicosis”,
Escritos 2, Bs. As., Siglo veintiuno, 1987.
Lacan, J., (1958) “La significación del falo”,  Escritos 2, Bs. As., Siglo veintiuno, 1987.
Lacan, J., (1958) “Los complejos familiares en la formación del individuo”, Otros escritos, Bs. As., Paidós, 2002.
Lacan, J., (1955-1956). El Seminario, libro 3. Las psicosis. Bs. As., Paidós, 1991.
Lacan, J., (1956-1957). El Seminario, libro 4. La relación de objeto. Bs. As., Paidós, 2002.
Lacan, J., (1957-1958). El Seminario, libro 5. Las formaciones del inconsciente, Paidós, Bs. As., 2005.
Lacan, J., (1958). “La significación del falo”. En Escritos s, México: Siglo veintiuno, 2008, 653-662.
Lacan, J., (1960). “Ideas directivas para un congreso sobre la sexualidad femenina”, Escritos 2, México: Siglo veintiuno, 2008, 689-702.
Lacan, J., (1971). El seminario, libro 18. De un discurso que no fuera del semblante, Bs. As., Paidós, 2009.
Lacan, J., (1971-1972) El Seminario, libro 19. …o peor, Bs. As., Paidós, 2012.
Lacan, J., (1972). “El atolondradicho”. En Otros escritos, Bs. As., Paidós, 2012.
Lacan, J., (1972-1973) El Seminario, libro 20. Aun, Bs. As., Paidós, 1982.
Lacan, J., (1974-1975). “El Seminario, libro 22. RSI”, inédito.
Lacan, J., (1975-1976). El Seminario, libro 23. El sinthome. Bs. As., Paidós, 2006.
Laurent, E., Posiciones femeninas del ser, Bs. As., Tres Haches, 1999.
Laurent, E., Síntoma y nominación, Bs. As., Colección Diva, 2002.
Laurent, E., El goce sin rostro, Bs. As.,Tres Haches, 2010.
Laurent, E. “El orden simbólico en el siglo XXI. No es más lo que era. ¡Qué consecuencias para la cura? En El Caldero de la Escuela, n. 17, Bs. As., Grama, 2012.
Laurent, E., “Un nuevo amor por el padre”, Transformaciones. Ley, diversidad, sexuación, Bs. As., Grama, 2013.
Leguil, C., “Transgénero en el siglo XXI ¿Un requerimiento de marca significante o una negación a ser marcado?”. En Revista Enlaces n. 20, Bs. As., Grama, outubro 2014.
Mauas, L., “Los hijos del mercado”, Revista Enlaces N° 20, Bs. As., Grama, outubro 2014.
Miller, J.-A., “H2O”. En Matemas 2, Bs. As.,  Manantial, 1988.
Miller, J.-A., Lógicas de la vida amorosa, Bs. As.,  Manantial, 1991.
Miller, J.-A., (1989). Los divinos detalles, Bs. As., Paidós, 2010.
Miller, J.-A., (1991-1992) De la naturaleza de los semblantes, Bs. As., Paidós, 2001.
Miller, J.-A., (1997-1998). El partenaire-síntoma, Bs. As., Paidós, 2008.
Miller, J.-A. y otros, (1998). Las psicosis ordinarias, Bs. As., Paidós, 2003.
Miller, J.-A., “El inconsciente es político”, RevistaLacaniana N° 1, Bs. As., Altamira, 2003.
Miller, J.-A., (1998-1999) La experiencia de lo real en la cura psicoanalítica, Bs. As. Paidós, 2003.
Miller, J.-A., (2004-2005). Piezas sueltas, Bs. As., Paidós, 2013.
Millot, C., Ensexo. Ensayo sobre el transexualismo, Bs. As., Catálogos Editora, 1984.
Morel, G., Ambigüedades sexuales. Sexuación y psicosis, Bs. As., Manantial, 2002.
Mozzi, V. La sospecha freudiana, Bs. As., Tres Haches, 2012.
Ons, S., Comunismo sexual, Bs. As., Paidós, 2012.
Pérez Jiménez, J. C., De lo trans. Identidades de género y psicoanálisis, Bs. As., Grama, 2013.
Pineda, A., “Lo raro y lo recto. Las clasificaciones”, Revista Enlaces n. 20, Bs. As., Grama, octubre 2014.
Schejtman, F., (2007). “Síntoma y sinthome”,  Revista Ancla n. 2, Bs. As., Grama, 2007.
Stoller, R., Sex and gender, New York: Science House, 1968.
Tendlarz, S., “Trans en Argentina. La ley de identidad de género”, Dossier sobre
Sexualidades trans. En Revista Enlaces N° 20 [On line], octubre 2014. Disponível em:
http://www.revistaenlaces.com.ar/2.0/archivos/lecturas/20/Silvia%20Tendlarz%20%20Trans%20en%20Argentina.%20La%20ley%20de%20identidad%20de%20genero.pdf
Tin, L.-G., La invención de la cultura heterosexual, Bs. As., El cuenco de plata, 2012.
Yelati, N., “Transexualismo”. En Un real para el siglo XXI, Bs. As., Grama, 2014.
Zupancic, A., Copec, J., Cevasco, R., Ser-para-el-sexo, Barcelona.

Comentários estão fechados.