Uma interpretação em forma de sonata*

Uma interpretação em forma de sonata*

Amanda Dupont. “Sinfonia em Sol Maior.”. Acrílico 100 x 120 cm – 2012.

Susana Strozzi
NEL-AMP

Advertência

A forma escolhida para esse texto insistiu, desde o começo, na referência musical – aquela em que, precisamente, não tenho nenhuma formação. Mesmo assim, a escritura se organiza com a insistência e algo se adianta a sua própria formulação. Será a Sonata do desejo, das vias insondáveis, daquilo que não se deixa capturar e que tampouco se pode trair… Considerando os quatro movimentos clássicos, percebo que, ao fim e ao cabo, é o primeiro que se constrói: o Allegro. É dele que saem a parte 1 da exposição (com os temas), a parte 2 do desenvolvimento e a parte 3 da recapitulação ou reexposição.

Então, abre-se, para o futuro, o Andante.

Allegro

Parte 1: os temas

1975. Lacan. “Talvez em Vincennes”… Algo poderia acontecer… e reunir a possibilidade de que apoiasse aqueles ensinamentos caros a Freud para a formulação de um analista. Um ponto de apoio para esclarecer não tanto para que [sua análise] serviu, mas de que se serviu (1).

1979. “Lacan pour Vincennes”. Há quatro discursos. Os quadrípodes que evocava em sua “Alocução sobre o ensino”, estranhando (incomodado?) porque ninguém os retomou em um evento consagrado ao ensino (2). Servir-se deles, jogar com eles… e, sobretudo, escrevê-los no quadro… pondo o corpo.

A antipatia dos discursos, o universitário e o analítico… não pode ser superada, apenas explorada…talvez. Antipatia cuja definição convencional alude a uma variedade de sentimentos que inclui ódio, rancor, aborrecimento, repugnância, aversão, hostilidade, inimizade, má vontade, inveja e ressentimento. Não é pouco…

Parte 2: o desenvolvimento

2005 – 2010. Escrevo três textos cuja sucessão no tempo apresenta uma insistência: a intenção de elucidar uma experiência singular no âmbito universitário do país em que resido, meu país de adoção.

O primeiro expunha – descrevendo – o caráter de uma iniciativa pessoal no Doutorado em Ciências Sociais da Universidade Central da Venezuela. Era uma manobra que tirava proveito da contingência da reformulação dos estudos de mestrado e doutorado sobre a base das chamadas “linhas de pesquisa” (3).

Em princípios de 2003, a reformulação aprovada foi colocada em prática, incluindo o programa de nome inquietante que havia sido proposto e diante do qual não haviam faltado reticências nem convites para modificações: uma linha de pesquisa chamada “Psicanálise e Ciências Sociais”.

Um espaço preexistente acaba, assim, acomodando uma fórmula na qual o impossível da relação sexual estava escrito no próprio nome através do uso da conjunção aditiva. Era um recurso do qual se haviam servido, pelo menos durante os últimos cinquenta anos, os subterfúgios acadêmicos conhecidos sob as rubricas interdisciplinar, multidisciplinar e transdisciplinar (4).

Era uma fórmula que, anos atrás, eu havia denominado de técnica do “e” (5), sem saber – sem querer saber – aquilo que, tempos depois, leria na primeira proposição de “Talvez em Vincennes”: não tanto para que sua análise serviu [a um analista], mas de que sua análise se serviu.

É necessário precisar que, de acordo com a modalidade predefinida academicamente, o ensino a ser ministrado nos seminários devia estar fundamentado na pesquisa. A proposta apresentada tinha como coluna vertebral um projeto – “Do mal-estar na cultura à cultura do mal-estar” – cujo objetivo era promover uma distinção entre as modalidades de laço social próprias da Modernidade e da Globalidade (6). Em conformidade com esse eixo é que se articulariam os anteprojetos individuais dos aspirantes, justamente quem deveria desenvolvê-lo durante vários semestres para, então, culminar no trabalho final (7).

O percurso cumprido até a época do primeiro texto dava conta do movimento de inserção institucional e dos dispositivos utilizados: o Seminário e os “tutorials”. Duas práticas da palavra que permitiram um ganho secundário de trabalho com o saber referencial e tanto uma elaboração quanto uma produção acadêmicas que serviram para sustentar, bem como para validar o espaço (8).

No entanto, o relato era interpelado, no fim, com uma pergunta: uma prática analítica? O inconsciente intérprete introduzia com ela uma instância do tempo, escavando o intervalo onde se produz a mudança própria do instante do olhar (9). Porque a intuição através da qual o sujeito objetiva algo mais do que os dados factuais, tempo objetivado em seu sentido, pode se reduzir ao instante do olhar. “Mas esse olhar, em seu instante, pode incluir todo o tempo necessário para compreender” (10).

Foram quatro os anos requeridos, aqueles que transcorreram até a escritura do segundo texto, destinado ao Encontro Americano de 2009. Modulação do tempo que introduz “a forma que, no segundo momento, cristaliza-se como hipótese autêntica, pois vem a visar à verdadeira incógnita do problema, qual seja, o atributo ignorado pelo próprio sujeito” (11). De fato, o segundo texto retoma certa referência à experiência e, mesmo que faça isso, no começo, em relação a uma elaboração sobre o Discurso Universitário e sua articulação com o Discurso do Mestre contemporâneo, inexoravelmente, nele, retorna a pergunta pela prática sustentada. A resposta já se encontrava, porém, no título, escolhido de antemão pelo retorno do momento de compreender: “O recurso do enclave”.

Foi então que se abriu, definitivamente, a via que levou o sujeito à urgência por concluir. Dizendo com Lacan:

O próprio retorno do movimento de compreender […] prossegue no sujeito como uma reflexão, na qual essa instância ressurge para ele sob o modo subjetivo de um tempo de demora em relação aos outros nesse mesmo movimento, e se apresenta logicamente como a urgência do momento de concluir (12).

Assim, aquilo que estava respondido pelo título precipitou em cascata uma escritura que alinhavava a evidência do que realmente se tratou no movimento inicial e no esforço relançado durante esses anos, em cada semestre e com cada novo Seminário: a construção de um enclave para trabalhar como analisante, tal como Lacan marcou ao fazer a distinção entre ensino e saber, quando sublinha que, havendo um que ensine, ele sempre estará no matema $ (13).

Mas por que um enclave – que era aquilo que, em seu momento, Lacan chamou de “Escola” – em sua dimensão de refúgio diante do mal-estar na cultura (14)?

Porque foi a maneira inventada pelo sujeito para construir (-se) um refúgio a fim de preservar precisamente a possibilidade de continuar seu trabalho como analisante nas difíceis condições institucionais que se configuraram, local e regionalmente, depois da dissolução da ECFC e durante a década que viu nascer a NEL. Trata-se de uma invenção que permitiu ao sujeito tornar a conjugar os tempos do exílio e da migração, optando por uma reamarração de sua análise fora do marco do local e do regional, bem como pela consequente participação nas iniciativas e atividades tanto da AMP quanto da NEL. Congressos, Encontros Americanos e Jornadas cujos temas contribuíram para modular a proposição dos seminários e pontuar percursos na pesquisa.

Abriu-se, assim, um novo tempo no trabalho de transferência e na transferência de trabalho, articulados a partir e através do enclave. Um novo tempo que possibilitou que algo pudesse ser colhido um ano depois.

O terceiro texto (15) comporta, efetivamente, algo de um nascimento que se intuía próximo – aquele das primeiras teses doutorais, os primeiros “doutores” produzidos – e que traria, juntamente com o deslocamento da angústia e do questionamento íntimo, a surpresa por advertir que, no longo percurso, o nome escolhido para a linha de pesquisa tinha mudado de sentido. Ele tinha deixado de ser um enigma, “mesmo que demonstre que o depois se fazia de antecâmara para que o antes pudesse tomar seu lugar [mêmes’il demontre que l’après fais ait anti chambre, pour que l’avant pût prendre rang]” (16).

Como Borges, “depois refleti que todas as coisas nos acontecem precisamente, precisamente agora” (17). Porque algo mais se amarrou na relação com a questão do enclave. Algo que dizia respeito à Escola e que mostraria – por retroação – a lógica dos passos que tinham me levado até aquele ponto: uma intervenção e divulgação decididas pela unificação da Sede, que me introduziram, a partir de 2008, em todos os esforços de recomposição e de construção institucional então iniciados. Era um caminho que, em 2014, em Paris, teve um marco importante com a decisão que sancionou a transformação da Comissão dos Seis, da qual participava, em Conselho Associativo da Sede.

Nessa hora – a partir do hoje –, é que podem ser recolhidos os efeitos que validam a produção do significante enclave como uma interpretação. Assim, é a partir do hoje que podem ser localizados os momentos de mudança na posição do sujeito em sua prática docente, ressoando sobre aqueles que poderiam ser chamados de copartícipes da experiência: os estudantes, os orientandos…

É precisamente na dimensão dos “tutorials” – nome dado no começo, seguindo a forma naquilo que, em Oxford, serve para evocar o Discurso Universitário – em que se produziram os deslocamentos mais visíveis. Tratava-se de um uso da transferência lido nas retificações que levariam cada um, já nas formulações iniciais de seus anteprojetos (18), ao encontro com os vestígios de seu desejo na produção de um objeto – um tema próprio – para fazer uso dele ou para consentir com aquilo a que o trabalho lhes permitia ter acesso. Sigo aprendendo com esses movimentos e com suas modulações, aportados pelo trabalho de tutoria, que permite capturar, em cada caso, o deslocamento da posição de sujeito cartesiano ao $ (e as suas consequências).

Parte 3: reexposição

Trata-se, agora, de ir do movimento que faz percurso até que se detenha no detalhe, naquilo de que estão feitos os cortes, os pequenos pedaços de ensino(s) disponíveis tanto para o uso quanto para a conversação.

O talvez que assomou em Vincennes, na sobriedade da coreografia com que Lacan articula ensino, formação e análise, chega a mostrar – no um por um – que a antipatia dos discursos, o analítico e o universitário, pode ser, sem dúvida, explorada. Mas isso pela boa maneira, ou seja, resultando ser, para as próprias ciências envolvidas, oportunidade de renovação, mesmo que do modo modesto que essa experiência singular e seus produtos acadêmicos – teses, doutores, publicações – revelam. Outra maneira de conjugar o fazer    (-se) digno evocado por M. Bassols em sua conferência sobre a transferência hoje.

Os quatro discursos, porém, reaparecem em outra tonalidade: em um deslocamento de uso que acompanha, sem dúvida, aquele do sujeito. Ou seja, do uso temerário em sua própria tese de doutorado (1989), bem como do jogo com os quadrípodes em sua prematura abordagem dos populismos – com resultados aceitáveis, em todo caso – até o deslocamento atual em direção aos nós (19). Mesmo que o singular sempre tenha estado presente no jogo, com os quadrípodes escritos no quadro, seguindo as modulações de um estilo pessoal de pôr o corpo, uma maneira de ensinar aquilo que não se ensina (20).

Andante

Dizia, no começo, que esse texto poderia ser uma sonata do desejo. O incapturável adquire forma e, dela, emerge com seu nome: enclave.

Com sua interrogação, abre-se o segundo movimento ainda por escrever, o qual, para ser fiel à forma, deverá ser executado passo a passo. Porque ele aponta, mesmo assim, para a Escola. Para a Escola-Una ou simplesmente para a Escola, no sentido que M. Bassols nos fez recordar em sua videoconferência de 11 de março para a NEL. O quinto conceito que amarra de outra maneira o ternário clássico freudiano – teoria, análise e supervisão –, fazendo da formação uma amarração de suas três respectivas transmutações: o saber na episteme, o sintoma na clínica e o desejo na política (21). O quinto conceito que, enquanto permite sustentar o sintagma “Não há formação sem ensino”, implica que ele se faz através da Escola como experiência subjetiva (22). A interrogação é, então, um tema político. Ela concerne a um tempo político, aquele do Campo Freudiano, Ano Zero, anunciado por Miller no registro do engagement enraizado no sinthoma.

Outra vez como Borges, “deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de veredas que se bifurcam” (23).

* O texto foi lido na mesa redonda: Ensinamentos de  psicanálise na Universidade, no  Colóquio RUA da FAPOL, realizado no marco do VIII ENAPOL.

Barcelona, agosto / setembro de 2017

Tradução: Diego Cervelin

Bibliografia:
(1) Lacan, J., “Talvez em Vincennes…”, Outros escritos, Rio de Janeiro,  Zahar, 2003, p. 316.
(2) Lacan, J., “Alocução sobre o ensino”, Op. cit., p. 303.
(3) O Doutorado em Ciências Sociais foi criado em 1978 na Universidade Central por iniciativa da famosa socióloga venezuelana Jeanette Abouhamad de Hobaica, discípula de P. H. Chombart de Lauwe e interessada por suas pesquisas em etnologia urbana. O projeto de reforma baseado nas “linhas de pesquisa” mais pretendia abrir os temas que propiciar uma discussão epistemológica e/ou metodológica, reduzida às alternativas “quantitativo/qualitativo”.
(4) A primeira é própria do complementarismo positivista; a segunda se localiza na perspectiva da dialética como lógica da superação; a terceira é característica da confusão de saberes que reinou no fim do século e de milênio.
(5)Strozzi, Susana. “Psicoanálisis y sexualidad. Reflexiones preliminares sobre una cuestión epistemológica”. In: Entredichos 6, Escuela del Campo Freudiano de Caracas, 1990, pp. 11-14.
(6) O significante “globalidade” foi tomado como uma apropriação para nomear o discurso que Lacan chamou de capitalista; como tal, ele foi consecutivamente utilizado e transmitido tanto em intervenções quanto em publicações. O nome do projeto “Do mal-estar na cultura à cultura do mal-estar” me ocorreu em 1991, durante uma breve temporada sabática em Paris. Uma tarde, em Saint Germain-en-Laye, eu falava de Freud, de Lacan, dos quatro discursos (com os quais havia começado a brincar em minha tese de doutorado)… e a fórmula apareceu. Contudo, eu pesquisava como professora e me localizava academicamente – não sem dificuldades, as quais já tinha aprendido a variar – no campo da História das ideias. Assim, quase no final da década, durante uma estadia na Duke University, comecei a escrever um texto com esse nome, enquanto me iniciava na confrontação com os acólitos da pós-modernidade e da globalização, os brilhantes – e arrogantes – autores da nova épica de fins do milênio, aquela dos estudos “pós”: M. Hardt, W. Mignolo… de quem aprendi, sem dúvida. Enquanto isso, remontava um caminho próprio, seguindo Freud… com Lacan e Miller.
(7) Com o nome “anteprojeto” (no qual não deixa de ressoar a lógica evolutiva e acumulativa que rege os procedimentos vigentes no âmbito universitário) se designa o tema – não a pergunta – sobre o qual o aspirante pensa trabalhar. Trata-se de um requisito de admissão.
(8) Em forma de publicações e de participação em congressos e jornadas tanto nacionais quanto internacionais.
(9)Cf. Lacan, J., “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada”, Escritos. Rio de Janeiro, Zahar, 1998, p. 205.
(10) Ibidem, p. 205.
(11) Ibidem, p. 205.
(12) Ibidem, p. 206.
(13) Lacan, J., “Alocução sobre o ensino”, Outros escritos, Rio de Janeiro, Zahar, 2003, p. 305.
(14) Lacan, J., “Ato de Fundação”, Op. cit., p. 244. MILLER, Jacques-Alain.Aula de 12 de novembro de 2008.
(15) Lacan, J., “A terceira”, Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise 62, São Paulo, Eolia, dez. 2011, pp. 11-36.
(16)Cf. Nota introdutória de Lacan, J., “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada”, Escritos.Rio de Janeiro, Zahar, 1998, p. 197.
(17) Borges, Jorge Luis. “O jardim de veredas que se bifurcam”, Ficções.3 ed. Trad. Carlos Nejar. São Paulo, Globo, 2001, p. 102.
(18) Elas constituíam, em sua maioria, uma subjetivação apenas esboçada conforme os enunciados do saber genérico das ciências sociais em sua versão contemporânea.
(19) O nome do novo projeto anuncia justamente isso: “Psicanálise e Ciências Sociais: continuidade e ruptura ou da interdisciplinar ao nó”. Em relação ao significante “prematuro”, ele remete à primeira metade do percurso e aos seus produtos, quando os populismos eram vistos apenas como um fenômeno latino-americano, enquanto que, na Europa, o discurso contemporâneo e sua denúncia apareciam somente sob o semblante da asfixia burocrática e da regulação. A crise de 2008 acabou com essa ilusão.
(20) Que aí se trata de uma maneira singular de pôr o corpo, pode-se verificar muito recentemente: durante o mês de junho, os acontecimentos em Caracas e no interior da Venezuela, que impediam meu deslocamento até a Universidade, fizeram com que eu utilizasse o recurso do Skype para dar meu seminário. Para além dos inconvenientes técnicos (próprios da situação do país), o resultado foi experimentado por mim como negativo. Negativo no sentido de que nada acontecia [pasaba].
(21) Bassols, Miquel. “Videoconferência realizada para a Nova Escola Lacaniana em 11 de março de 2017”.
(22) Tal qual M. Bassols recordou, na intervenção já citada, ao retomar O banquete dos analistas, de Jacques-Alain Miller.
(23) Borges, Jorge Luis. Op. cit., pp. 109-110.

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