EDITORIAL – Cristina González de Garroni  – NEL-AMP

EDITORIAL – Cristina González de Garroni  – NEL-AMP

Nicolás Bertora. “Par-i-a”. Desenho Digital. Mestrado ICdeBA – UNSAM

Nicolás Bertora. “Par-i-a”. Desenho Digital. Mestrado ICdeBA – UNSAM

O nascimento da Psicanálise precipitou-se graças ao interesse que suscitou em Freud, o encontro com as histéricas, que denunciavam, com seus sintomas, um mal estar inerente ao seu lugar como mulheres na sociedade vitoriana, mas, muito especialmente pondo no olho do furacão, a sexualidade como ponto de origem das neuroses, quer dizer, dando à sexualidade, um caráter traumático.

Em 1905, com seus “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud revolucionava o mundo propondo uma perspectiva da sexualidade humana que traspassava os limites do biológico, separando a determinação cromossômica da assunção da identidade sexual e da escolha de objeto de satisfação, como também marcando a existência de uma sexualidade infantil perverso-polimorfa. A sexualidade, então, se desvelava com Freud, como algo deslocalizado e não universalizável.

Se Freud avançou surpreendentemente no estudo da sexualidade, encontrou um limite ao tentar dar uma explicação à sexualidade feminina que não respondia do todo à lógica fálica nem às formulações do Édipo que tanto lhe haviam servido para entender a sexualidade masculina. A feminilidade como continente obscuro abria um campo enigmático para os psicanalistas que, sabendo o importância do lugar do sexual na vida psíquica do sujeito, encontravam ali algo do impossível.

Lacan, orientado pela proposta freudiana da sexualidade como deslocalizada, foi mais além, fazendo a diferença entre sexualidade e sexuação, delimitação que afina muito mais o revelado por Freud em 1905. Com Lacan e sua proposição das fórmulas da sexuação, podemos dizer que os seres falantes se repartem a partir de sua relação com o gozo fálico e que essa repartição nada tem a ver com o biológico. O gozo feminino continua sendo obscuro, enquanto se trata de um gozo opaco, fora de sentido e que se situa mais além do Édipo, fora da lógica fálica.

O traumático da sexualidade se refere ao impossível da harmonia e da complementariedade sexual tão ansiada, o que levou Lacan a sua famosa formulação “Não há relação sexual”. A relação entre os seres falantes não é nem será de complementariedade; é uma relação de desencontro porque da satisfação que se trata é da satisfação do Um, do modo de gozo de cada um e cada um se arranja com ele, a seu modo.

As consequências deste impossível empurram a formas de tratamento que em cada época têm encontrado tentativas de respostas e coordenadas das quais cada parlêtre tem se servido para construir sua própria invenção. No século XXI, já não é tema de debate candente que a sexualidade é um fato subjetivo que ultrapassa o biológico. A revelação de Freud já não é motivo de surpresa, ainda que se mantenham alguns pequenos grupos que tentam reivindicar o biológico sobre o subjetivo, o natural versus o antinatural. O fato é que hoje em dia, a repartição sexual não se situa apenas do lado homem ou mulher, homossexualidade ou heterossexualidade, mas tem proliferado um sem número de formas de identificar-se, nomear-se e de situar o modo de gozar dos falasseres. Apenas passeando pelo Facebook, encontramos que há, pelo menos, 58 possibilidades de gênero, possibilidades que seguirão aumentando cada vez que um pequeno grupo se organize e queira ser reconhecido a partir de sua identificação e/ou forma de gozar.

As teorias de gênero que surgiram nos anos 50 para reivindicar a sexualidade como uma construção social que devia ser respeitada e integrada na sociedade sem importar a determinação biológica, avançaram tomando força desde o feminismo que defende, a todo custo, a igualdade homem mulher até o movimento queer que convida a sair do espartilho homem/mulher que não passa pela escolha, para assumir o gênero tal como se tem construído e assumido. Isto desembocou em uma proliferação de nomeações e de identidades, tal como o Facebook o evidencia.

Para a psicanálise, é um desafio situar-se frente a estas manifestações da contemporaneidade, em primeiro lugar, porque a sexualidade continua sendo assunto dos psicanalistas e, em segundo lugar, porque estamos chamados a estar à altura da época, tentando acolher e cernir o que é que está em jogo nestas novas formas de apresentação da sexualidade.

Sexo??? Sexuação, Identificações e Gênero, é o nome que leva este novo número da revista da FAPOL, Lacan XXI. Sexo com três pontos de interrogação!!!

Pois continua sendo um enigma, um continente obscuro, algo que se apresenta mais como uma pergunta do que como resposta; o sexo não está pré-determinado. Sexo, acompanhado de três possíveis formas ou maneiras de abordá-lo desde a sexuação, as identificações e/ou o gênero, três termos que podem estar relacionados e que, ao mesmo tempo, não têm uma relação ou combinatória específica. Nossa revista é um convite a situar, a partir da orientação lacaniana, o que os psicanalistas têm a dizer a respeito.  A resposta dos colegas das três Escolas da América tem sido impressionante: contamos neste número, com 28 textos de colegas da EBP, da EOL e da NEL.

Os textos abordam numerosas problemáticas e tópicos sumamente interessantes e o resultado da revista permite ir um pouco mais além do que até agora se havia dito a respeito.

Na primeira seção, O sexo em psicanálise, contamos com 9 textos que tomam as coordenadas teóricas de Freud e de Lacan que dão marco ao tema da revista, assim como algumas pontuações sobre as teorias de gênero e as manifestações culturais em torno das novas sexualidades postas em tensão com a psicanálise.

Na segunda seção da revista, Ressonâncias das Jornadas de nossas Escolas sobre o tema da revista, os colegas responsáveis pelas ditas Jornadas nos apresentam o que se extraiu do trabalho das mesmas em torno da temática que nos ocupa. As XXVII Jornadas da EOL, “A psicanálise e a discórdia das identificações. Vínculos, Crenças e Nomeações” tocam justamente no tema do discordante entre os sexos e as identificações sexuais, interrogando-se sobre a incidência de cada um deles na sexualidade e como a não relação sexual é a bússola orientadora da ética analítica.

Em relação ao trabalho das Jornadas da EBP, temos o texto “O lugar do falo na sexuação”, produto do XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, “A queda do falocentrismo: consequências para a psicanálise”. Nesta contribuição, encontramos uma revisão das teorias de gênero versus as propostas freudianas e lacaniana em torno do falo e suas consequências na relação do sujeito com o corpo sexuado, convidando os psicanalistas a intervirem no debate público com os discursos de gênero, para assim fazer valer o subversivo do desejo.

Finalmente, o texto da NEL, relacionado às próximas jornadas: “Que mãe sou hoje? Vicissitudes na experiência analítica”, toca um tema muito controverso que é a transmaternidade gay, que mais além das respostas legais que implica, coloca para a psicanálise, o questionamento da lógica do “para todos”, além de ser um fenômeno que aponta como a biologia não pode dar conta das singularidades do parlêtre em torno de suas identificações, sua sexualidade e a maternidade.

A terceira seção, Mais sobre o sexo em psicanálise, reúne os textos que os colegas das três Escolas da América enviaram a partir da convocatória para contribuir com este número da revista. A resposta dos colegas foi impressionante e contamos com 14 textos que abordam diferentes arestas da temática sugerida. Encontramos vários textos que tocam a temática de fenômenos sociais como o feminismo, as teorias de gênero e as novas identidades sexuais. Assim, várias das contribuições trabalham em torno da diferenciação entre sexo e sexuação e o caráter de impossível inerente à sexualidade humana, condensado na premissa “Não há relação sexual”.

A leitura destes textos em seu conjunto logra transmitir um panorama claro daquelas manifestações da época e das respostas desde outros campos e desde o social frente às novas sexualidades, assim como permitem situar os conceitos de Freud e Lacan que servem de bússola para pensar estes fenômenos.

Contamos com uma contribuição de especial interesse para a comunidade da FAPOL. Trata-se do texto de Maria Cristina Giraldo, primeira AE da Escola Una na NEL, “História do Passe na NEL”, onde interpreta o efeito de sua nomeação como AE, em abril de 2016, no trabalho de Escola, que tem desenvolvido a NEL depois deste ato. A experiência do Passe na NEL fura a lógica de grupo, que permite o trabalho de Escola que está acontecendo e que estará por ver-se no porvir. Anuncia a boa nova de uma nova AE na NEL, Raquel Cors Ulloa, nomeada em junho de 2018, abrindo-se, então, uma série: já dois AE  na NEL evidenciam a marca viva da Escola de Lacan.

Finalmente, a última seção da revista, dedicada a Comentários dos Escritos e Outros Escritos de Lacan, conta com três contribuições de colegas de cada uma das Escolas da FAPOL, que escolheram extratos de textos que possam contribuir com o debate deste número. Lucíola Freitas toma como ponto de partida “O aturdido”, fazendo-o dialogar com o Seminário 19 “… ou pior”, e o 20 “Mais ainda”, para falar do gozo feminino, a mulher e o amor.  Claudio Godoy, da EOL, trabalha o escrito de Lacan de 1964 “Posição do Inconsciente” e “O aturdido”, para abordar os ideais do sexo a partir do feminismo e diferenciá-lo da posição sexuada em Lacan.

Para terminar, Ricardo Aveggio, da NEL, toma un parágrafo da “Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos” para falar de sexuação e contingência, perguntando-se como pensar a sexuação na atualidade à luz das respostas das teorias de gênero e as novas sexualidades como representações do mal estar com o corpo e o gozo.

A leitura deste número de Lacan XXI se abre com uma pergunta e mesmo estando segura de que os textos serão orientadores e esclarecedores, também estou segura de que abrirão espaço a novos debates e  polêmicas que permitirão aos psicanalistas que continuam a obra de Freud e o ensino de Lacan, seguir perguntando-se como faz a psicanálise desde finais do século XIX até agora e Ainda mais além:  Sexo???

Boa leitura!

Tradução: Mª Cristina Maia Fernandes

Comentários estão fechados.