AS INFÂNCIAS TRANS E A PSICANÁLISE

AS INFÂNCIAS TRANS E A PSICANÁLISE

Mario Martínez. “Esperando a água no planalto”. Acrílico. 1,40x1,40 - Pintor correntino. Nqn.

Mario Martínez. “Esperando a água no planalto”. Acrílico. 1,40×1,40 – Pintor correntino. Nqn.

Patricio Álvarez Bayón – EOL-AMP

A psicanálise e o gênero

Historicamente, a psicanálise tem apoiado e compartilhado seu caminho com o movimento LGBT e o feminismo. Freud foi o primeiro a fazer a distinção entre o sexo anatômico e o psíquico, e foi um inspirador fundamental daquilo que mais tarde seriam os estudos de gênero. O livro Sexo e gênero, de Robert Stoller, de 1968, é considerado o iniciador desses estudos. Esse autor construía sua teorização a partir das ideias de Freud. Leo Bersani, um importante autor do movimento queer, de fato diz: “A primeira grande tentativa teórica de dessexualizar o prazer não foi a História da sexualidade de Foucault, mas Três ensaios sobre a teoria da sexualidade de Freud, uns setenta anos antes, onde se propôs pela primeira vez a possibilidade de dissolver toda a noção de sexo em uma reorganização dos prazeres corporais. (…) a originalidade de seu pensamento está centrada na apropriação da noção de sexualidade para certos fenômenos os quais foi o primeiro a descrever e que tinham pouco a ver com aquilo que até então se havia entendido como especificamente sexual”.   

As conquistas dos movimentos LGBT e do feminismo no mundo, o alcance da Lei de identidade de gênero argentina, única no mundo por seus direitos adquiridos, tiveram grandes consequências para a vida de pessoas trans, mas, além disso, modificaram culturalmente a percepção do gênero e tocaram, em todos os setores, as formas patriarcais e misóginas de configuração da sociedade. Já não passam despercebidos os comentários machistas na mídia, nem os diversos modos sutis de segregação que eram normais até poucos anos atrás.

A psicanálise está atenta a essas modificações produzidas no Outro social, ocupando-se desde o princípio em colaborar com os movimentos feministas – nos anos 40 as psicanalistas inglesas e americanas estavam implicadas na luta do feminismo – e com os movimentos de gênero e transgênero depois. Nos anos 70, Lacan comentava o livro de Stoller pouco tempo depois de sua publicação, e sua conceitualização sobre a sexuação está influenciada por esse debate.

Na AMP, à qual pertencemos, há seis anos criou-se o Observatório de Gênero, biopolítica e psicanálise, que funciona no marco da FAPOL em três Escolas: a EOL, a EBP e a NEL. As equipes que as configuram nas três Escolas trabalham em conexão e trabalham em nível político, de investigação e clínico.

Suas áreas de trabalho estão resumidas em três objetivos:

– Seus objetivos políticos são os de inserir a psicanálise no debate com os movimentos de gênero – especificamente os movimentos LGBTIQ – que estão acontecendo nos diversos países da América.

  – Seus objetivos epistêmicos são os de uma investigação psicanalítica na relação com o gênero, a sexuação e as transformações de discurso, isto é, a pergunta por como ler esses movimentos a partir da psicanálise e como, por sua vez, esses movimentos interpelam o progresso dos conceitos psicanalíticos.

– Seus objetivos clínicos estão orientados a situar e extrair as variáveis específicas na direção da cura naqueles sujeitos que consultam posicionando-se em relação à questão do gênero.

A psicanálise e a infância trans

No caso específico da infância, também se está investigando nas três Escolas e trabalhando com os pais e as crianças que apresentam problemas com seu gênero autopercebido. A infância é o momento fundamental onde se produzem todas as escolhas no nível do inconsciente que determinarão o gênero tanto na adolescência quanto na idade adulta. Lacan situou três dimensões nas quais o gênero se configura:

– Identificatória, a partir das identificações edípicas e do Ideal do eu, que dão a identidade autopercebida,

– Eletiva, no nível do objeto de atração, que gera a escolha homo ou hetero.

– Sexuada, em função da inscrição nos lados da sexuação, que gera o modo de satisfação de cada um, que é singular.

Nesses três níveis se configuram a sexualidade e o gênero a partir das marcas contingentes e determinações que se produzem na infância e também na puberdade.  Mas o que Lacan situa em relação ao gênero é que os três níveis não se articulam entre si de modo unívoco: é possível ter uma identificação masculina com um desejo homossexual, bem como se autoperceber uma identidade feminina em um corpo biológico masculino e sentir atração pelas mulheres, etc., o que quer dizer que os três níveis – identificatório, eletivo e de sexuação – podem ser paradoxais e contraditórios entre si, o que constitui todas as dificuldades que conhecemos na assunção de um gênero – o qual nunca, em nenhum caso, é assumido sem dificuldades. Mesmo em uma pessoa que será heteronormada ao modo clássico-patriarcal, a determinação da sexualidade e o gênero são difíceis e transcorrem por diversos caminhos até que se possa chegar à sua assunção e seu exercício.

Nesse ponto, é necessário esclarecer que falamos de uma escolha inconsciente, que se produz segundo o modo como se articulam esses três níveis, e que difere da escolha consciente, que será produto da primeira. Quando falamos nas leis de uma identidade autopercebida conscientemente, esta é o resultado de um processo, de uma escolha já feita no nível do inconsciente: a pessoa recebe essa escolha em algum momento de sua vida e pode assumi-la, reprimi-la, atuá-la ou não atuá-la, mas o momento da escolha consciente é diferente do momento em que se constituiu a escolha inconsciente a partir das marcas contingentes que a determinaram.

Nessa dificuldade se situa a psicanálise, a qual acompanha a cada sujeito que solicite uma ajuda a escutar as determinações inconscientes que marcaram sua identidade e a assumi-las do melhor modo possível. Como os três níveis não são unívocos, já que têm paradoxos e contradições, um analista tenta escutar o percurso do sujeito através desses paradoxos, ajudando a que possa encontrar suas soluções, que não necessariamente seguem o caminho heteronormativo próprio do discurso do mestre. E esse acompanhamento e esse respeito pelas soluções singulares fazem-se ainda mais necessários no momento da infância, quando essas marcas que determinam a escolha inconsciente estão em pleno processo de produção, o que faz com que um analista deva ter uma prudência e escuta muito maiores que em qualquer outro momento da vida. É o momento também em que o desejo do sujeito mais interage com o desejo dos pais, razão pela qual o analista também deve poder acompanhá-los para que se situem em uma boa posição de escuta e acompanhamento em relação ao desejo de seu filho, que ainda está se constituindo.

Na clínica da infância trans, ao longo de vários tratamentos que acompanhamos em hospitais, centros de saúde e consultórios, encontramos posições muito diferentes:

– crianças que desde uma idade muito precoce, às vezes dois ou três anos, se pronunciam com absoluta certeza sobre sua identidade autopercebida, que não coincide com o sexo biológico,

– crianças que passam um longo tempo em um estado de confusão e perplexidade em relação à assunção do gênero,

– crianças que modificam subitamente sua identidade em certo momento da infância ou da puberdade, surpreendendo inclusive a si mesmos.

– crianças que por efeito da dialética do desejo em relação ao Outro social ou familiar se pronunciam precocemente sobre sua identidade, mas que mais adiante, no tempo da puberdade ou da adolescência, se pronunciam contrariamente à identidade que tiveram,

– crianças que chegam a situar sua identidade ao longo do percurso do tratamento,

– pais que tentam reprimir e calar toda diferença por parte de seus filhos,

– pais que tomam literalmente os pedidos de seus filhos, com muita ansiedade por encontrar uma definição, sem tomar o tempo de escutar e acompanhar um processo que não é imediato e que tem diferentes etapas,

– pais que podem acompanhar a seus filhos com o devido respeito e escuta.

Toda essa variedade clínica, da qual somente podemos situar um esboço, se apresenta com grande sofrimento e consequências subjetivas que às vezes podem ser bem escutadas e tramitadas, ou às vezes têm efeitos catastróficos. É por isso que a posição do analista, de respeito e escuta, é fundamental para acompanhar um sujeito até a plena assunção e exercício de sua identidade de gênero.

Tradução: Giovanna Bittar
Revisão: Ruskaya Rodrigues Maia

 


Notas:
  1. Trabalho apresentado na Faculdade de Direito da Universidad de Buenos Aires, durante as 1as. Jornadas interdisciplinarias sobre infancia trans y derechos.
  2. Tradução da citação em espanhol: Bersani, L., Homos.Buenos Aires. Manantial, 1998, p. 177.

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