HISTÓRIA DO PASSE NA NEL

HISTÓRIA DO PASSE NA NEL

Marcela Pimentel, “Tudo”. Fotografia. Série BCN. Rede da EOL.

Marcela Pimentel, “Tudo”. Fotografia. Série BCN. Rede da EOL.

María Cristina Giraldo – AE da NEL e da Escola Una – AME NEL-AMP

O comunicado do Secretariado do Passe da AMP – em 27 de abril de 2016 – sobre a minha nomeação pelo Cartel do Passe da EOL como AE da Escola Una na NEL, teve o estatuto de um acontecimento imprevisto. Uma surpresa que produziu uma descontinuidade no autômaton e que em parte fez uma questão, em relação a se seguíamos nos considerando uma Escola em formação, que foi como iniciou a NEL. Embora soubéssemos o que é a política do Passe, desde sua proposição até agora para a Escola Lacan, operava a ficção de que a mesma guiava as outras Escolas da AMP, mas não a NEL. Isso nos deixava em condição de não ser uma Escola sujeito de direito. Assistíamos as mesas do Passe dos Congressos da AMP e as das Jornadas de outras Escolas, com o testemunho de seus próprios AEs, como um acontecimento inexistente no horizonte da NEL.

A criação do Seminário de Textos Políticos (STP) como uma Comissão do Comitê Executivo da NEL na Presidência de Clara Maria Holguín foi a estratégia com que se respondeu a nomeação, de como a política da Escola se faz com outros. O estudo do ensino Passe em cada Sede foi orientado pelo Conselho por meio de seus representantes. As conversações políticas, transmitidas via Webex a todas as Sedes, delegações e grupos associados à Escola busca, através do trabalho de STP com os Diretores e representantes do Conselho, fazer uma leitura prévia do que faz sintoma em cada lugar, para que a eleição do tema da conversação aponte a singularidade de cada Sede e sua relação com a Escola. As conversações políticas são parte tanto das Jornadas das Sedes, como das da Escola e nelas a participação dos AEs da Escola Una que são convidados como membros locais, e os de outras Sedes que se incluem com o seu trabalho em cada Conversação.

A política do Passe se enoda na NEL, através do Seminário de Textos Políticos (STP), a formação epistêmica no Seminário de Formação Lacaniana (SFL) e o Seminário de Formação sobre a Prática Analítica (SIPA), articulados por cartéis clínicos entre os membros das diferentes Sedes. A conversação entre os integrantes da NEL alcançou o estatuto de fazer Uno o múltiplo da Escola, que tem uma estrutura federativa composta por dez Sedes (Bogotá, Cali, Caracas, Cidade do México, Guatemala, Guayaquil, Lima, Maracaibo, Medellín e Santiago), seis Delegações (Cochabamba, Havana, La Paz, Maracay, Tarija, Valência) e dois Grupos Associados (Arequipa e APEL-Santa Cruz).

Enquanto o trabalho de testemunho de cada AE põe em ato na Escola os arranjos com a singularidade de seu sinthome, o STP tem sido o parceiro na Escola do Ensino do AE e a posta em prova do seu ensino. É um dispositivo que permite ao AE psicanalisar a experiência da Escola sem tapar a solidão irredutível do Um e sem restringir a liberdade da invenção em cada contingência. Não desconhece que o ensino AE é orientado pela ignorância sobre o que é um analista, pela inconsistência do Outro e pelo não saber mais do que sobre as formas de arranjo sinthomático do Um com o seu próprio gozo. A STP faz um cálculo sobre o tempo lógico em que cada sede está em relação à política Passe, orienta aos diretórios e conselheiros sobre o Seminário ou Jornadas dos que fazem parte da mesa do Passe, e participa delas com alguns de seus integrantes. Dois AMEs do STP –  Clara Maria Holguin e Marcela Almanza –  têm dado o passo lógico de participar das mesas Passe com suas interlocuções aos testemunhos dos AEs. Nem sempre contamos na NEL com analistas que concluíram seu tempo como AE para isso, e esta é uma invenção que tira o Passe do lugar de ideal inalcançável que é como o tínhamos na NEL, e enoda a surpresa as ressonâncias na comunidade analítica.

A Revista da NEL, Bítacora Lacaniana, acompanha este acontecimento – com o propósito de servir ao ensino do Passe na Escola – com a publicação dos testemunhos dos AEs da Escola Una na NEL e em outras Escolas, de algumas das interlocuções aos testemunhos e as Conversações políticas sobre o Passe.

Nem todos as sedes estão no mesmo tempo lógico em relação à política do Passe na NEL, de um lado porque a escola é não-toda e inconsistente; de outro, pela singularidade irredutível de cada Sede. Como bem disse Miller, introduzir o Passe implica “escolher entre a instituição e o Passe. Obter uma instituição com o Passe é morar com uma bomba explosiva adentro. Isto é o que o torna interessante” . O que Passe faz, revela que não há experiência de Escola sem experiência analisante, o que nos leva ao conceito de Escola sujeito de Jacques-Alain Miller. Diferente da Escola, que reenvia cada um para a solidão do seu próprio sintoma com a causa analítica, o grupo é uma forma de defesa fantasmática frente à inconsistência que produz o um por um no Outro da Escola. O funcionamento grupal dá consistência as três P de que falava Lacan: poder, posse e prestígio. A política do sintoma introduz a diferença de cada um, o que pode ser uma fonte de rivalidades, desloca a relação entre o poder e o saber, e explode as relações identitárias. Essa política pode ser apagada para preservar a homogeneidade do grupo.

A experiência da Escola com o Passe e a da própria análise tornam inconsistente a lógica do grupo, que não se enoda ao discurso analítico, uma vez que este não serve para o domínio. Da mesma forma que alguns não querem saber sobre seu próprio inconsciente, também não querem saber do Passe, da política da Escola nem do trabalho de testemunho que um AE faz com essa experiência inédita que foi a sua análise. Essa é uma das maneiras, embora não a única, de defender-se da explosão agalmática daquela “refinada bomba-relógio” que é o Passe e o ensino dos AEs na Escola Una, porque tira a consistência de grupo. É preciso a cada vez calcular o que está em jogo: se um tempo lógico, ou a restituição de um funcionamento que não é de Escola.

O comunicado do Secretariado do Passe da AMP sobre uma nova AE da Escola Una na NEL – Raquel Cors Ulloa – nomeada pela Comissão do Passe da ELP, em primeiro de Junho de 2018, dá a NEL a garantia que tem as conseqüências de um ato analítico, que marca um antes e um depois para o Passe, agora no coração da Escola e não em um horizonte distante. Apresentei meu primeiro testemunho na IX Jornadas da NEL em Guayaquil, em outubro de 2016. Raquel Cors Ulloa apresentará o seu primeiro testemunho na X Jornadas da NEL, que se realizará em outubro 2018 na Cidade do México. As Jornadas da Escola têm agora a novidade de analistas formados em sua própria escola, testemunhando com outros analistas da Escola Una a partir da experiência inédita e singular de sua própria análise, que ensina como se tornaram analistas de sua própria experiência e da experiência da Escola. Uma série inédita se abre na NEL: a série dos AEs, dos Um sozinhos que fazem marca viva da política do sintoma na Escola de Lacan.

Este texto é publicado com a gentil permissão do STP, que possibilitou o inicio e continuidade da política do Passe na NEL.

Tradução: Jussara Jovita Souza da Rosa

Notas:
  1. Psicanalista em Medellín, Colômbia. Analista da Escola (AE 2016-2019) da Escola Una na NEL. Analista Membro da Escola (AME) da Nova Escola Lacaniana (NEL-Medellín) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP).
  2. Composto por: Clara María Holguín -Presidenta da NEL-, Marcela Almanza –Vice-presidenta da NEL-, Piedad Ortega de Spurrier -Representante do Conselho da AMP por la NEL-, Raquel Cors Ulloa y María Cristina Giraldo -AEs da Escola Una na  NEL-.
  3. Miller, J-A. “El concepto de Escuela” en Cuadernillos del Pasador http://www.wapol.org/es/las_escuelas/ (10 de setembro, 2009).
  4. Acrescento a afirmação  de Esthela Solano-Suárez na NEL-Cidade do México com a  Escola Sujeito de Miller, J.-A., Teoria de Torino acerca do sujeito da Escola, Intervenção no Primeiro Congresso Científico da Escola Lacaniana de Psicanálise (em formação), 21 de maio 2000. Tema do Congresso: “As patologias da lei. Clínica psicanalítica da lei e a norma”.

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