Identidade e Interpretação das modalidades de gozo da época

Identidade e Interpretação das modalidades de gozo da época

G.A. “Ausência”. Fotografia. Série Vegas

G.A. “Ausência”. Fotografia. Série Vegas

Mirta Zbrun – EBP-EOL-AMP

 

Quando eles (os meus pais) diziam o nome de um objeto e, em seguida, se moviam em sua direção, eu observava-os e compreendia que o objeto era designado pelo som que eles faziam, quando o queriam mostrar ostensivamente. A sua intenção era revelada pelos movimentos do corpo, como si estes fossem a linguagem natural de todos os povos: a expressão facial, o olhar, os movimentos das outras partes do corpo e o tom de voz, que exprime o estado de espírito ao desejar, ter, rejeitar ou evitar uma coisa qualquer.

(L. Wittgenstein)

A identificação é conhecida na psicanálise como a manifestação mais temprana do enlace afetivo a outra pessoa e desempenha um importante papel na pré-história do Édipo.

(Freud)

Freud, Lacan e a época atual

A partir da pergunta sobre o modo como um grupo se forma e sua capacidade de exercer influência na vida dos sujeitos, Freud em “Psicologia das Massas e a Análise do Eu” (1921) pensa que a pulsão, através do amor ao seu semelhante, engendra laços que se vivificam pela identificação, seja ela imaginária, narcisista ou histérica. O fenômeno da globalização tem gerado a crise das identidades nacionais, crise da identidade dos sujeitos, eles são interpelados nas diversas sociedades e enfrentam a questão por vezes traumática de: quem somos nós? A resposta, qualquer que seja, pode ser interpretada como manifestação da divisão (Spaltung) do Sujeito tal como formulada por Freud em seu escrito “A divisão do Eu” (Ich spaltung), nos remetendo ao esforço teórico – clínico empreendido por ele para conhecer o Homem e a Sociedade de massa de sua época.

Tal esforço produziu conceitos na Psicanálise que podem orientar-nos na tentativa de diagnosticar os sintomas que dominam a Sociedade na nossa época. Conflitos de identidades, novas categorias identitárias, identidades partidas, todas vias de acesso às identificações próprias da época. Observam-se, também, fenômenos produzidos pela descontração das identificações, tal como se manifestam na prática clínica de hoje.

Para isso, a conceitualização freudiana do “traço unário”, ein einziger Zug auxilia na compressão destes fenômenos, pois o traço ele contém o que é da ordem do significante, assim como o que é da ordem do objeto. E ambos, significantes e objeto, são constitutivos da noção de sujeito. Então, que alterações constitutivas se produzem para que tal ‘traço unário’ seja o ponto de ancoragem em nossa época, da multiplicidade de identificações possíveis?  Haveria alguma modificação a ser pensada na concepção freudiana dele para pensar ele como origem destas novas identidades e suas consequências na sexualidade humana? Lacan avança e auxilia na compreensão destes fenômenos, quando avança em seu último ensino, do Sujeito da determinação Significante – o traço unário para o sujeito da indeterminação. Por esse caminho possibilita pensar que o falasser (parlêtre), última concepção do sujeito lacaniano deve ser considerado com a noção de “Identificação ao seu ser de Gozo”.  Esta auxilia a interpretação dos sintomas e das identificações na prática clínica da nossa época.

A Identificação, como identificação ao significante é postulada por Lacan em O Seminário, livro 9 “A Identificação” (1961-1962).  A identificação histérica, por exemplo ela vai ao lugar onde o traço assinala-se como ‘insígnia’ de um desejo, porém um desejo não realizado, onde a identificação se apresenta por um instante o mesmo problema, a pergunta referente ao desejo. (Lacan, J. 1957-1978, p. 447). Nesse seminário, Lacan trata a identificação freudiana de forma diferente da identificação mítica, pré-simbólica, ao afirmar que o sujeito do inconsciente encontra-se ancorado na Identificação inaugural ao traço unário, totalmente despersonalizado, e o que resta de tal operação é um objeto, o objeto a, diferente a todo significante. Esse objeto suporta qualquer identificação e ao mesmo tempo ele é como o resto, aquilo que somos nós.  E esse traço como significante, traço único, cria a função do Um lacaniano, afirmando sua ex-istencia: Y’há de l’ um. O Um da unicidade que virá constituir o sujeito em sua relação com o Outro. Esse Um se fará representar por um significante extraído como um ‘traço unário’, desse Outro. E carrega em si o suposto encontro com o objeto, surge do encontro com esse objeto, pois é do objeto que ele retém na sua unicidade.

As modalidades do gozo e a lógica da sexuação

Tratar do aforismo Há-um é formular que entre o gozo do Um e o Outro, há uma oposição, fundada sempre no autismo do gozo. E afirmar que o gozo, mais além do desejo, se transforma em modelo, numa forma capaz de fazer girar a teoria em volta desse conceito do gozo do Um. Estamos diante da nova forma introduzida por Lacan, da existência do Um e de seu Gozo. Para pensar a identificação mais além das relações entre o sujeito e seu objeto, devemos esclarecer a função conceitual do Gozo na teoria lacaniana, quando introduz a problemática da não representação no Outro do ‘ser sexuado’. O seu matema do Significante da falta no Outro, – S(/A) inscreve uma carência do Outro como ser sexuado, ainda que o gozo responda à estrutura da cadeia significante, entanto que o objeto se furta nas profundezas do Gozo.

Para resolver a representação sexuada do ser do sujeito, Lacan pensa o Gozo a partir do Outro, e essa perspectiva do conceito do Gozo se inverte no Seminário 20 Mais ainda após as elaborações do Seminário 19ou pior, quando enfim ele partirá do Gozo do Um e depois situará o Outro. O aforismo Há-Um vai conduzir definitivamente a um “outro Lacan”, ao ultimíssimo Lacan e, em consequência, uma clínica do Gozo do Um. Uma identificação com o lugar do puro Gozo, um lugar sem palavras, lugar de pura Nada, onde não haverá lugar para a Identificação necessária para o advém do sujeito, e sem o lugar onde reside o “Ser do Sujeito e o seu nome articulado ao Gozo”, tratar-se-á será um ser de Gozo.

A identificação ao traço unário como identificação ao Gozo. 

Na clínica atual são mais facilmente encontradas as identificações a este Gozo do Um e às identificações ao Ideal do Eu aparecem mais frágeis. Lacan formula a pergunta: Que sou Eu, no sentido de que sou como Sujeito? A reposta está na memorável frase do próprio Lacan: Sou no lugar de onde se vocifera que o universo é uma falha’ na pureza de Não-Ser. Essa bússola do ultimíssimo ensino de Lacan possibilita perguntar-se de onde provém esta frase que não admite em si mesma uma orientação? É no próprio Lacan que encontramos a resposta, vem de um lugar, de uma ausência, lugar de Mais – Ninguém. Lugar do Gozo, escrito com maiúscula, do Gozo como conceito.

 


Notas:
  1. Wittgenstein, L., Tratado Lógico – Filosófico e Investigações Filosóficas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987, p.172.
  2. Freud S., “Psicología de las masas y análisis del yo”. In: Obras Completas de Sigmund Freud. Madrid: Lopez Ballesteros, 1966. p.145.
  3. Huntington, S. P., Qui sommes-nous?. Identité nacional w Choc dês Cultures. Paris: Odile Jacob, 2014.
  4. Lacan, J., O seminário livro 9: Identificação, lição de 22 de novembro de 1972. Inédito.
  5. Lacan, J., O seminário livro 19: ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2012, pp. 94-95.
  6. Zbrun, M., “Do Gozo do Um e do Outro. In: Leitura do Seminário 19 …Ou pior de Jacques Lacan. Org.: Gorsky. G. G. e Sota Fuentes, M. J. Salvador: Editora Escola Brasileira de Psicanálise, 2015, p.99.
  7. Miller, J.-A., [2007-2008] Todo el mundo es loco. Cursos psicoanalíticos. Buenos Aires: Paidós, 2010, p.318.

Comentários estão fechados.