IDENTIDADE E SEXUAÇÃO NA ATUALIDADE

IDENTIDADE E SEXUAÇÃO NA ATUALIDADE

Irene Accarini. Colagem. Série “Corpos dobráveis”. Img. C. Gardos. EOL-AMP

Irene Accarini. Colagem. Série “Corpos dobráveis”. Img. C. Gardos. EOL-AMP

Paula Husni – EOL-AMP

 

Não há gozo último que nos alivie definitivamente da angústia. Esse é o impossível com que o discurso do gozo se vê confrontado.

Éric Laurent

A era das águias

Gérard Wajcman afirma que a hipermodernidade é a instauração de uma civilização do olhar, na qual se reúnem a sociedade da vigilância e a sociedade do espetáculo: “Entramos na era das águias. É característico das águias ter olhos maiores que o cérebro. Isso não significa que elas sejam idiotas, mas que pensam com os olhos”.

Trata-se de uma viralização das intimidades, de tal sorte que o modo de gozar de cada um pode ser visualizado e se faz público. Assim, a intimidade se confunde sem trégua com uma exterioridade sem véus, passível de ser normatizada e legislada.

Se seguimos na declinação dessa lógica até as subjetividades, podemos vislumbrar o horizonte de um percurso especular em que o par ser visto/fazer-se ver retorna como modo quase imperativo de se fazer um corpo, de se fazer existir.

Éric Laurent, no livro O avesso da biopolítica, ressalta dois aspectos do fenômeno contemporâneo:

De uma parte, o corpo se faz máquina plural, divisível em unidades sempre mais numerosas e complexas (fisiologia, genética, epigenética…). De outra, ele se faz  imagem unificada, difratando sua falsa unidade nas mais variadas telas.

Disso resulta, acrescenta ele, a identificação do ser falante com seu organismo, aquilo que ele chama de “falsa identificação”.

Poderíamos dizer que é essa “falsa identificação” que dirime a orientação da psicanálise em relação a outras práticas e estabelece uma direção para poder pensar o sujeito da época, as identificações e a formulação de leis como as da identidade de gênero. (Na Argentina, essa lei está sustentada, em seus fundamentos, nas teorias de gênero).

O atual destaque do termo “transgênero”, ao abolir a dicotomia homem-mulher tal qual preconizam as teorias de gênero, poderia ser pensado como um significante que funciona como uma placa giratória capaz de possibilitar uma desidentificação constante.

“É no hiato da identidade consigo mesmo que se concebe que o sujeito se identifique”.

Partindo dessa perspectiva, as identificações – múltiplas ou indeterminadas – emergem e proliferam no lugar de uma resposta possível ao hiato da identidade.

V, uma mulher trans, diz o seguinte: “Aos três anos já sabia que queria ser uma menina. Comecei a fazer boxe. Minha mãe queria ter um filho boxeador e me dava brinquedos de meninos. Minha irmã, que é mulher, passava os dias brincando com esses brinquedos de meninos. Brincava de ser menino. Eu não brincava disso. Queria ser uma menina. Se os brinquedos fizessem a gente homem ou mulher, eu seria muito masculino e ela lésbica”.

L, também mulher trans, sofre reações violentas por parte dos pais quando, já desde menina, lhes disse que gostava de meninos. Diante dessa reação, procura de todo jeito gostar de meninas. Diz, então: “Vou fazer a possibilidade de gostar de meninas”.

Esses testemunhos, condensados sobretudo na última frase, dão conta de que isso que irrompe não é da ordem de uma eleição voluntária. Trata-se, antes, de um fato. Para contrariá-lo, seria preciso, efetivamente, “fazer” um gosto, algo que, como se pode ouvir bem, devém um paradoxo impossível.

Águia não-toda ou elogio à opacidade

Se a psicanálise parte de uma falta de identidade estrutural do sujeito, isso se dá na medida em que o próprio gozo implica uma fissura insubsumível, que não pode ser saldada com a permissão ao gozo.

Assim, sob essa perspectiva, não se pode pensar em uma identificação que se proponha restaurar o “hétero” imprimido pelo gozo. A falha se apresenta um por um:

“se algo falha na sexualidade, é para cada um, e ninguém sai bem dela, ou seja, um universal do fracasso”.

No entanto, há uma opacidade do gozo que resiste à mostração. Não-todo entra no panóptico do olho da águia nem é factível que seja exibido. Toda câmera tem seu ponto cego:

Tanto as tentativas do autorretrato do corpo pela ciência, quanto o  autorretrato democrático do selfie, o autorretrato do artista em todas as suas declinações vêm, em seus  limites e seus fracassos, encontrar a experiência psicanalítica do autorretrato impossível desse sujeito que Lacan acaba por  designar como falasser […] Por fim, sejam quais forem as tentativas de representar a inscrição do gozo nos corpos ou sobre os corpos, não se vê nada aí.

No desenvolvimento do conceito de intimidade, F. Jullien desenha as bordas do Outro:

O íntimo […] pretende ser aquilo que é mais interior e esse interior faz cair a fronteira na qual se encerrou uma interioridade. Ao mesmo tempo que se retira em si mesmo, apela para “o Outro” a fim de que penetre nesse dentro; assim, a delimitação dentro/fora chega a se apagar.

Bordas que se entrecruzam coma quilo que, a partir da psicanálise, conhecemos como “êxtimo”. Trata-se da extimidade que sanciona o disruptivo da presença do objeto no corpo como resultado deste choque fundante que “é para nós uma fratura constitutiva da intimidade”.

O paradoxo do gozo consiste no fato de que ele é, antes de tudo, trauma e, como tal, constitui um furo nas representações do sujeito. A experiência do gozo é vivida como Outra coisa. Isso não é propício a ser imaginarizado ou a ser exibido, porque resulta insuportável para o próprio sujeito.

O mal-entendido supõe que a identificação resolveria o hiato da identidade, confundindo o organismo com o corpo de gozo e reduzindo o problema da sexuação a uma questão de gênero.

De acordo com F. Ansermet,

Existe, portanto, um mal-entendido fundamental quando se pensa poder intervir sobre a identidade sexual mediante uma intervenção no órgão. Isso não é suficiente para que um corpo comece a falar outra língua.

Se é a linguagem que resulta mortificante para o sujeito, o gozo – com o disruptivo de sua apresentação – propicia uma função vital.

Ao passo que os modos de gozo resistem a serem inscritos em uma classificação universalizante que dilui seu tecido singular, faz-se necessário prestar atenção aos seus modos de retorno.

Tradução: Diego Cervelin

Notas:
  1. Laurent, É. “Um novo amor pelo pai”. A sociedade do síntoma – a psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contracapa, 2007, p. 85.
  2. Wajcman, G. El ojo absoluto. Buenos Aires: Manantial, s/d, p. 21.
  3. Laurent, É. O avesso da biopolítica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016, p. 15.
  4. Toda pessoa tem direito ao “reconhecimento de sua identidade de gênero, ao livre desenvolvimento de sua pessoa conforme sua identidade de gênero e ser tratada de acordo com sua identidade de gênero, bem como ser identificada desse modo nos instrumentos que atestam sua identidade em relação ao(s) nome(s) de batismo, imagem e sexo com que é registrada” (Cf. art. 1o da Lei 26.743).
  5. Miller, J.- A. Extimidad. Buenos Aires: Paidós, 2010, p. 33.
  6. Miller, J.-A. Un esfuerzo de poesía. Buenos Aires: Paidós, 2016. p. 290.
  7. Miller, J.-A. La experiencia de lo real en la cura psicoanalítica. Buenos Aires: Paidós, 2003. p. 31
  8. Laurent, É. O avesso da biopolítica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016, p. 23
  9. Jullien, F. Lo íntimo. Buenos Aires: El cuenco de plata, 2013, p. 23.
  10. Miller, J.- A. Extimidad. Buenos Aires: Paidós, 2010, p. 17.
  11. Ansermet, F. “Identidade sexual”. Scilicet – O corpo falante. Sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016, p. 146.

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