O trans não é um dizer

O trans não é um dizer

Rosa Basz. “Quadro x por Quadro 3”. Acrílico sobre tela. EOL-AMP

Rosa Basz. “Quadro x por Quadro 3”. Acrílico sobre tela. EOL-AMP

Eliana Amor – (Observatório Gênero, Biopolítica e Transexualidade – EOL)

Ao ter um corpo temos um mundo, o mundo que acompanha; ao ter um corpo estamos aqui não em outra parte.

(Miller, O lugar e o laço.)

Proliferação de nominações

Dizer homem ou mulher não basta para nomear o real do sexo, já que se trata de semblantes. Dizer que são dois sexos e os supor a partir dos órgãos genitais produz uma confusão de que a anatomia é o destino. Nos anos 70, com as fórmulas da sexuação, Lacan formaliza a função fálica em duas lógicas diferentes: “existe ao menos um que se excetua da função da castração” e “para não-todo x rege a função fálica da castração”. A sexuação determinada pela função fálica nos conduz a distinguir binariamente a repartição dos gozos: macho e fêmea. E vai mais além do binarismo de gênero ao organizar a diferença sexual em torno dos gozos, e nos brinda categorias que conduzem a pensar em uma clínica binária: neurose e psicose.\

Sabemos que nem todos os sujeitos se atribuem uma denominação binária. Na atualidade, de modo massivo, se reivindicam a ambiguidade e as posições intermediárias, o que multiplica a nominação das identidades que, por sua vez, se caracterizam por não serem fixas; o que vem a ser chamado gênero fluido.  Habitamos uma época que denuncia o gênero como semblante, onde o ideal aponta à “auto-nominação” pela prática de gozo atual, e a busca é desidentificar-se, no sentido de “desmarcar-se” dos históricos significantes do Outro.

Miller tomou o conceito de feminização do mundo para definir certos traços do contemporâneo sinalizados pelo declive do regime paterno, e, com ele, o declive do viril e o empuxo ao feminino entendido como não regulação do gozo a partir do semblante fálico, liberado do S(A) sem o recurso do falo. Não é o mesmo que o não-todo fálico, que implica que uma parte do gozo não se inscreve na lei, mas não é sem ela, e neste ponto se trataria da posição feminina. Declinada a função simbólica, se sustentam o gozo todo e não-todo? Que efeitos tem a declinação do NP- sua função de exceção, que compunha o conjunto e seu mais além -, com a consequente implicação no simbólico e na função fálica como tal, sobre os modos de inscrever a sexuação?

Onde o fantasma perde a estabilidade que aferra o sujeito a uma modalidade de gozo – o estilo fetichista – surgem “sintomas que sublinham a fragilidade do pai enquanto existência particular”. A época introduz o “TRANS” como uma tendência conceitual que funciona generalizadamente, e nos fornece uma via para elucidar a subjetividade atual, a inconsistência dos semblantes que por não estarem sustentados desde um ideal podem ser  transmutáveis, e sustentarem-se em identificações imaginárias frágeis.

Os poderes da palavra declinam e a imagem domina sobre o simbólico. Os semblantes não chegam a fazer borda a um real que se rechaça… Se o parlêtre está capturado pela imagem, a falta se experimenta como falha? A relação dos sujeitos com seus corpos mudou; a declinação do pudor dá conta disso. Frente ao vazio da relação sexual, se pode fazer um sintoma – com sua exigência de satisfação- que procura dirigir-se ao Outro (SsS) para lhe demandar encontrar a verdade oculta que escapa ou se pode buscar atalhos oferecidos pelo capitalismo através de tecnociências, produzindo arranjos fugazes que não implicam necessariamente em cautela. Há menos proibição, mais mandato de gozo a um corpo idealmente não esburacado por um simbólico que sempre produz desarranjos no gozo. No afã de tapar o vazio estrutural a partir de artifícios, os corpos contemporâneos, reduzidos à mercadoria, podem ser moldados em prol de conseguir a imagem “sem buracos” das publicidades. Diante desta perda de potência da metáfora no discurso, intervir no corpo é um modo de tentar arranjar-se sem o simbólico? Que corpo necessita ser tocado cirurgicamente para confirmar a escolha do sexo?

Fazer-se Um corpo: do amor depois do amor

As fórmulas sustentadas desde a ordem simbólica fornecem passagem à clínica nodal na qual a neurose deixa de ser o parâmetro. O último ensino de Lacan torna-se orientação fundamental no que diz respeito ao que a sociedade atual nos apresenta de maneira cada vez mais contundente. Éric Laurent, em O avesso da biopolítica, refere que o fenômeno contemporâneo trata de querer reduzir o sujeito ao seu corpo, fato que participa da tentativa de identificar o “[…] ser falante com seu organismo.”. Isto passa a ideia de um corpo que pretende não ser alteridade.

No Seminário 21, Lacan localizava a função paterna no lugar do dizer. Um dizer-não, referindo:

…o que faço funcionar em meus esquemas,(…) sobre a identificação sexual, ou seja, que todo homem não pode se confessar em seu gozo, quer dizer em sua essência, fálica(…)senão, ao fundar-se sobre esta exceção, de algo, o pai, em tanto que proposicionalmente ele diz “não” a essa essência. O desfiladeiro do significante pelo qual passa ao exercício esse algo que é o amor, é muito precisamente esse Nome do Pai que só é “não” ao nível do dizer, e que se grava pela voz da mãe de certo número de proibições…(Lacan, 1973/4, p. 126)

A esse Nome do Pai que se sustenta desde a dimensão do amor, se substitui a função do nomear-para. Isto é o que, no ponto da história em que nos encontramos – parafraseio Lacan em 1974- se vê preferir.

Então, indicar que o amor do pai já não regula a estrutura implica que não se vai contar com ele para dizer a respeito do ser sexuado. Por sua vez, no El ultimísimo Lacan , Miller percorre a leitura que Lacan faz das três formas de identificação na teoria freudiana e logo trabalha nos Seminários 23 e 24, e refere que “… no lugar do Outro que está destituído, há um princípio de identidade totalmente distinto, o corpo. Não o corpo do Outro senão, como se diz, o corpo próprio. (…) É o Um-corpo”.

Lacan localiza aí o Ego, que não passa pela representação significante, não está dividido entre S1 e S2 nem está sujeito à identificação, senão que se relaciona com o Um-corpo. Dita relação entre o parlêtre e seu corpo é de “adoração”. Miller diz: “não há identificação aí, há pertinência, propriedade. (…) tem a ver com o amor, mas não o amor do pai senão o amor próprio, no sentido do amor de Um-corpo” ·. O corpo não se ajusta bem a cada um, é desarmônico, tanto que está marcado para cada ser falante por uma inconsistência fundamental. Habita este corpo com mais ou menos inconvenientes. No Seminário 23 localizamos que se procura a consistência corporal porque se acredita que se tem um corpo, mas tê-lo é poder fazer algo com esse real, sem lei nem sentido. Nesta passagem da crença no pai à crença de que se tem um corpo, o Um-corpo é a “única consistência” do parlêtre, mais imaginária do que simbólica. De tal modo que não se trata do sujeito que se faz representar por outro significante assujeitado a sua barradura, senão que a consistência mental é o que o mantém unido, a adoração de seu corpo pela via do amor próprio, sem necessidade de passar pelo Outro.

No lugar vazio da identificação, a história mostra uma passagem do Ideal à identidade pelo amor ao corpo próprio, e, neste ponto, há uma via para pensar a inscrição da sexuação mais aquém do significante fálico, a altura da lalangue, quer dizer, nas marcas de gozo indecifráveis do corpo e seus furos.

Tradução Maria Cristina Vignoli.

 


Bibliografía:
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Scilicet, Las psicosis ordinarias y las otras bajo transferencia. Buenos Aires.Grama, 2017

Notas:
  1. Laurent, É., “Los niños de hoy y la parentalidad contemporánea” Conferencia en la Universidad de Buenos Aires, maio 2018. Disponível em: http://www.radiolacan.com/es/topic/1175/3. Acesso em: 15/09/18
  2. Brousse, M. H., “Las identidades, una política, la identificación, un proceso y la identidad, un síntoma”. Disponível em: http://identidades.jornadaselp.com/textos-y-bibliografia/texto-de-orientacion/las-identidades-una-politica-la-identificacion-un-proceso-y-la-identidad-un-sintoma/. Acesso em: 15/09/18
  3. Laurent, É., O avesso da biopolítica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016
  4. Ibid.,p. 15
  5. Lacan, J., Seminario 21, Les non dupes errent,(1973-1974). Inédito
  6. Ibid.
  7. Miller, J.-A., El ultimísmo Lacan, Buenos Aires. Paidós, 2013
  8. Ibid., p. 107
  9. Ibid, p. 108
  10. Lacan, J.,

    O Seminário , libro 23: O sinthoma (1975-1976).Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p.64

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