OS IDEAIS DO SEXO

OS IDEAIS DO SEXO

Manolo Rodríguez. “Onde procurar”. Acrílico sobre tela

Manolo Rodríguez. “Onde procurar”. Acrílico sobre tela

Claudio Godoy – EOL-AMP

 

“Men just aren’t the same

today” I hear every mothesay

They just don’t appreciate that you get tired

They’re so hard to satisfy you

can tranquilize your mind

So go running for the shelter

of a mother’s little helper*

M. Jagger-K. Richard

A mulher é não toda porque seu gozo é dual

J. Lacan

Em seu escrito de 1964, Posição do inconsciente, Lacan reelaborava sua intervenção durante o colóquio de Bonneval dedicado ao inconsciente freudiano e realizava uma precisa crítica da psicologia. Desmontava, assim, a tentativa de muitos analistas da época de dotar de uma suposta cientificidade a psicanálise, sob os auspícios daquela e de insertar, assim, o inconsciente em seus conceitos. Advertia, por sua vez, que a psicologia era um dos meios privilegiados para a transmissão dos ideais de uma sociedade, estando estes determinados cada vez menos pela tradição como pela lógica do mercado. Assim, assinalava que: “… certo progresso da nossa o ilustra, enquanto a psicologia não apenas contribui para as vias como se submete aos anseios do estudo de mercado”. Com efeito, há consumo de massas sem que alguma forma de ideal se ponha em jogo, tal como a publicidade o revela.

O exemplo que propõe Lacan no dito texto é o seguinte:

Havendo um estudo deste gênero chegado a uma conclusão quanto os meios adequados para sustentar o consumo nos E.U.A., a psicologia se engajou e engajou Freud com ela, em lembrar à metade da população mais acessível para esse fim que a mulher só se realiza através dos ideais do sexo (cf. Betty Friedan sobre a onda de ‘mística feminina’ dirigida, numa certa década do pós-guerra).

Estas linhas encerram várias precisões que merecem ser retomadas para refletir sobre nossa atualidade.

O mal estar sem nome

Betty Friedan (1921-2006) é a autora de A mística feminina (1963), talvez uma das obras fundamentais do feminismo do século XX junto com O segundo sexo (1949), de Simone de Beauvoir. Em seu livro, destacava as mudanças suscitadas no pós-guerra e como estas afetaram a posição social das mulheres. Durante a contenda bélica, as mulheres haviam tido que adotar toda uma série de responsabilidades laborais, particularmente na indústria, enquanto os homens permaneciam na frente. Mas, ao regressar, uma vez finalizado o conflito, tentaram persuadi-las a abandonar seus trabalhos ou carreiras e retornar exclusivamente a sua posição de esposas e mães. A felicidade de uma mulher radicaria, portanto, em realizar sua essência em ditos papéis. A mística da  feminilidade é assim, uma falsa ontologia da plenitude feminina, uma celebração do regresso heroico a sua essência de sempre e aos logros da feliz dona de casa. Mas, como adverte com lucidez Friedan, nesta reconfiguração do papel tradicional se operava um sutil deslocamento, já que o centro de gravidade estava colocado em sua função chave na administração do consumo familiar:

Por que não se diz nunca que a verdadeira função crucial, o papel realmente importante que as mulheres desempenham como donas de casas é o de comprar mais coisas para a casa? Em todo o discurso da feminilidade e do papel feminino, nos esquecemos que o assunto que realmente interessa na América é o negócio.

Nos anos sessenta, toda uma nova indústria de eletrodomésticos se desenvolve e lhes proporcionava ser, ao mesmo tempo, a chefe de máquinas da nave caseira e a eficaz administradora dos consumos familiares. 

Para convencer as mulheres de sua missão, já não se trataria de recorrer aos ofícios da religião e seus imperativos morais, mas que esta nova cruzada encontraria um fundamento “científico” na psicologia, temperada como aval dos descobrimentos freudianos: a inveja do pênis assinalaria, assim, o caminho da menina que se concluiria na solução fálica da maternidade pela mediação do homem. Lacan advertia sobre o modo como a psicologia arrastou os psicanalistas em sua empresa e assinalou a pertinência da observação de Friedan sobre a pendente em que caiu o freudismo nos Estados Unidos: “Converteu-se –sustentava enfaticamente– em uma ideologia norte-americana na qual cabia tudo em uma nova religião”.O que ditos analistas e psicólogos esqueciam é que Freud deixava uma margem de mistério sobre o feminino, pois sua pergunta sobre o que quer uma mulher sempre ficou em aberto e nunca se fechou na exclusividade da resposta fálica. Esta feminista norte-americana soube interpretar o profundo mal estar que gerava nas mulheres, esta felicidade ideal que pretendiam lhes impor e que se revelava em suas conversas mais secretas ou na busca de uma solução nos tranquilizantes oferecidos para sua angústia pela indústria farmacêutica, o florescente mother´s little helper da década de sessenta. Esse “malestar que não tem nome” – como denomina esta autora– era um sintoma do que não podia se subsumir no ideal, marcava uma discordância irremediável entre este e o feminino: “Por que estou mal se fiz tudo bem?”. Um malestar que remetia ao sem-nome, quer dizer, ao que não pode se reduzir no universal do conceito. Esta referência de Lacan dos anos sessenta nos assinala, então, claramente que na época da evaporação do Nome-do- Pai, já não é a tradição o que regula os ideais do sexo, mas é o Mercado – com letra maiúscula– o que lhe imprime suas torsões, deformações e reinvenções; e que ainda que possa aparecer sob suas figuras clássicas está a serviço da nova funcionalidade que este determina. Podemos nos perguntar, então, em que ponto estamos hoje a respeito disso.

Os novos ideais femininos, de acordo com a lógica do capitalismo individualista, radicariam – tal como destacaram alguns autores – nas mulheres que encarnam o poder e a legalidade. Damas frias e calculistas, ainda que se revistam de um semblante mais humanizado, seria o novo rosto do poder no mercado globalizado. Mulheres sérias, duras e responsáveis ocupadas em regular o gozo desencaminhado dos homens transformados, depois do ocaso do patriarcado, em sujeitos irresponsáveis e lúdicos. Identificados a uma eterna juventude adolescente, só se dedicariam a cultivar um gozo sem medida senão fosse o saudável cuidado delas. Crianças a serem cuidadas por estas mães sedutoras e severas que seriam o relevo que supre o Nome-do-pai esvanecido.

De todo modo, ainda que possa se reconhecer dito empuxe em nossa época, a lógica do não-todo e a alteridade feminina resistem a qualquer redução simplificadora à lógica do Um. Talvez aí radique a autêntica angústia dos homens, quando a emancipação das mulheres lhes revela não tanto a cara de uma nova ordem, mas a dimensão do hétero, porém já sem os véus que o recobriam.

Não há segundo sexo: há o hétero.

Em três de março de 1972, Lacan comenta em seu Seminário, o encontro fracassado que teve com Simone de Beauvoir em1949, pouco antes de ela publicar seu célebre livro O segundo sexo, quando o chamou para solicitar sua colaboração em torno do aporte da psicanálise sobre o tema: “… lhe assinalei que seriam necessários, pelo menos uns bons cinco ou seis meses para que eu elucidasse a questão –isso é o mínimo, pois estou falando há vinte anos e não é por acaso…”, proposta finalmente denegada por ela.

Se Lacan levou vinte anos para desenvolver suas fórmulas da sexuação, é porque estas comportam uma abordagem da alteridade feminina muito diferente à da autora em questão. Para ela, o modo como se desdobra a relação entre o Um e o Outro, entre o Mesmo e o Outro, implicava uma afirmação do primeiro em detrimento do segundo, que resulta por isso, dominado. Redobrava-se, assim, a distinção clássica entre sujeito e objeto,onde a afirmação do primeiro constrói o segundo por oposição. Devido a isto, ao não poder ler em outros termos o par homem-mulher, anseia uma paridade que instaure uma equivalência. Em seu horizonte, esta faria existir a relação entre ambos sob a forma de uma reciprocidade necessária entre dois universais.

O que lhe levaria não menos de seis meses para transmitir a Simone de Beauvoir é que não há segundo, que não há uma vez que entre em função, a linguagem. A sexuação dos seres falantes não distingue identidades a não ser dos modos de gozo incomensuráveis, que não se complementam nem estabelecem nenhuma simetria. O gozo fálico e o gozo feminino não se distribuem uniformemente: o primeiro não é patrimônio de um só lado, mas é inerente ao falante e o outro não implica apenas uma alteridade para os homens, mas, fundamentalmente, para as mulheres mesmas.

Se não há segundo sexo, tampouco há terceiro nem quarto nem quinto… As diversas identidades sexuais que hoje proliferam não objetam a sexuação lacaniana, mas indicam a multiplicidade de semblantes com que se cobre o impasse sexual. Caracterizam-se por colocar no lugar vacante dos significantes amo tradicionais, a pluralização dos S1 no mercado. É um tratamento novo onde as identidades proliferam, se multiplicam, fundando comunidades que reclamam seu direito à diferença. É a solução contemporânea pela via do “ser”, que busca ancorar a angústia e o extravio do sujeito contemporâneo. Recobre-se deste modo, na coletividade que instaura, a opacidade do gozo de cada um. A sexuação nos brinda, pelo contrário, com uma lógica que não se confunde com as identificações, as práticas e os parceiros eleitos. Estas, como a clínica o demonstra, podem adotar diversas configurações na vida de um sujeito, desdobrar-se de maneira divergente no plano do amor e do desejo, mas deverão sempre decifrar-se na singularidade de cada caso e não na coletividade identificatória.

Em O aturdido – escrito contemporâneo ao Seminário 19 – Lacan assinala que: “Aquilo que se chama sexo (ou até o segundo, quando é uma boba) é, propriamente, respaldando-se no nãotoda, oἕτερος que não pode ser estancado com universo”. Há sexo para os falantes este está esvaziado do universal que faria existir dois. A bobagem seria supor, além disso, que, ao ser dois, alcançariam uma harmônica relação.  Com efeito, hétero provém da palavra grega ἕτερος, que significa ‘outro’ e se diferencia de déuteros (“segundo”, “o que segue”). Indica-nos que o Outro sexo carece de existência e de identidade enquanto universal; não faz dois, não faz um conjunto, mas se conta uma a uma. Não tem ser nem permite fundar nenhuma ontologia. Essa,tampouco pode se reduzir ao Um, uma mulher nãotoda. Os ideais ficam do lado do Um, o hétero não tem com eles, medida comum.

Por isso, Lacan chama heterossexual a “… o que ama as mulheres, qualquer que seja seu próprio sexo”. Amar o feminino, o hétero, não é fazer existir a relação sexual nem destacar seu valor ético, pois se superpõe,necessariamente, com as características da escolha de objeto. Há homens “hétero” por demais “idiotas”, outros, “homo”, com uma sensibilidade particular a respeito do feminino. No extremo, encontramos diversas formas de rechaço, tanto em homens quanto em mulheres, à alteridade feminina, enquanto adota a forma do encontro angustiante com o S(A/)). Especialmente naqueles homens nos quais uma mulher toma o valor fantasmático de um supereu insaciável que lhes exige a castração que não podem dar. Eco de um supereu materno vociferante, ao que certos homens podem responder das formas mais brutais, em uma mostra da degradação atual da virilidade.

Para um analista, a posição sexuada de um sujeito não se lê, então, enquanto sua adequação aos ideais de uma época, sua identificação ou não às tradições, nem pela sustentação de certos semblantes, mas em como, mesmo habitando cada lado das fórmulas da sexuação, tenta se abrir ao Outro que há no sexo, ainda que a relação seja impossível. Aí no limite, não há ideais do sexo que valham a pena. Finalmente, cada um se encontra apenas com seu parceiro sintoma, com seu modo singular de falhar a relação sexual e com a arte do que é capaz.

Tradução: Mª Cristina Maia Fernandes

 


*NT: “Homens não são mais os mesmos hoje” eu escuto toda mãe dizer
Eles simplesmente não apreciam que você fique cansada
Eles são tão difíceis de satisfazer, você pode tranquilizar sua mente
Então vão correndo para o abrigo de uma ajudazinha da mãe

Notas:
  1. Lacan, J., Posição do inconsciente. Escritos. Coleção Campo Freudiano no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 846.
  2. Ibid.
  3. Friedan, B., La mística de la feminidad. Valencia. Cátedra, 2009, p. 261.
  4. Ibíd., p. 283.
  5. Cf. Badiou, A., La vida verdadera. Bs. As. Interzona, 2017; Zizek, S., “Etats-Unis: La chance d’une gauche plus radicale ?”, Disponível en :  Le Monde, https://www.lemonde.fr/idees/article/2016/11/12/une-chance-de-recreer-une-gauche-authentique_5029953_3232.html  y la respuesta a este último de Laurent, É.,La carta ganadora y lo Uno”, en Lacan cotidiano, nº 615, http://www.eol.org.ar/biblioteca/lacancotidiano/LC-cero-615.pdf
  6. Lacan, J., O Seminário, Livro 19: …ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 93.
  7. Lacan, J.,  O Aturdido. Outros escritos. Campo Freudiano do Brasil. Jorge Zahar Editor, 2003, p. 467.
  8. Ibid.

Comentários estão fechados.