QUATRO PONTUAÇÕES PARA UM DEBATE COM O MOVIMENTO FEMINISTA UNIVERSITÁRIO NO CHILE

QUATRO PONTUAÇÕES PARA UM DEBATE COM O MOVIMENTO FEMINISTA UNIVERSITÁRIO NO CHILE

Susana Carbone. “Bailarinas”. Acrílico. 0,40x0,30

Susana Carbone. “Bailarinas”. Acrílico. 0,40×0,30

José Luís Obaid Pizarro – NEL-Santiago-AMP

Prelúdio

A conjuntura nacional instala no seio do debate público um significante que irrompe como novidade, apesar de ter uma longa trajetória dentro dos movimentos sociais, culturais e artísticos em todo o mundo: o feminismo.

Embora as manifestações feministas estejam enquadradas como um fenômeno global – o que tem sido chamado de a quarta onda feminista –, no Chile as universidades assumem a aposta com uma série de ocupações e greves em distintas e variadas faculdades, que denunciam não só o abuso de poder e tratamento discriminatório e desigual, mas também o excesso manifesto tanto no abuso sexual e estupros quanto na ocultação sistemática dos mesmos. Por outro lado, para a psicanálise, o feminino, em si um impossível, tem sido uma fonte de pesquisa permanente com efeitos práticos e clínicos. Para Freud, “o que quer a mulher?”, E para Lacan, “A mulher não existe”, dão conta disso.

Então, que pontuações a psicanálise de orientação lacaniana pode introduzir no debate nacional, desviando o perigo da discussão doutrinária que reduziria o apelo feminista ao lema de alguns protocolos que tratam das más práticas de certos homens?

Feminização do mundo

É o mesmo, feminização do mundo e feminismo?

José Fernando Velásquez recorda que a “feminização do mundo” é uma modificação na lógica do Outro social, que passa da lógica do “para todos” e a exceção, a lógica do não-todo, na qual não há Ideal e também garantia da lei: “a busca de satisfação já não se orienta pelos ideais e os limites desses ideais, ma sim por formas singulares de gozo, abertas, inéditas, ilimitadas e aditivas”.

Será enfático em assinalar que a “feminização”, que põe em evidência a relevância do gozo não regulado pelo falo, não é o mesmo que o feminismo.

Distinção que estabelece diferenças fundamentais no diagnóstico da época atual. Se para algumas vozes feministas no Chile é o Patriarcado, para nós o Pai se apresenta completamente desvalorizado, já que as apresentações sintomáticas revelam sua deflação, principalmente a partir da incidência do discurso da ciência.

Tratar-se-ia em nossa época, mais de uma lógica neoliberal que apaga toda a diferença sexual em favor de consumidores e o retorno de sua face mais crua, todos consumidos.

Torna-se possível, então, pensar que os abusos e violações denunciados carregam a marca de um excesso de gozo, mais próprio ao ilimitado da época atual do que do patriarcado agonizante. Cabe recordar que o pai da exceção, aquele que poderia ter todas as mulheres, seria uma das formas desse gozo ilimitado, ao ser esse ao menos um que não passa pela castração.

Feminismos

Falar de feminismo é inadequado. Desde a primeira onda do Iluminismo, dos séculos XVII e XVIII, ao que hoje é conhecido como a quarta onda, passando pela terceira onda, a partir do início do ano de 1900, vemos uma pluralidade de discursos, com suas lutas e causas, que convida a falar de os feminismos.

Ninguém pode aprovar o tratamento discriminatório e humilhante contra as mulheres. Ninguém pode ser contra a igualdade de direitos.

No entanto, a Lei, sendo o Pai uma de suas figuras icônicas, não resolve a questão do feminino. Como toda lei, como todo mandato paterno, ela homogeneíza e descarta padrões universais e modos de gozo nos quais o feminino perde sua força de novidade. Concentrar o debate em torno da igualdade de direitos assume a consequência de restituir só direitos – sem dúvida necessário – uma vez que a Lei Paterna continua sendo sustentada como um ordenador das modalidades de gozo igual para todos. Sem abordar as diferenças para um e outro sexo.

Lacan já propunha, nas fórmulas da sexuação, o não-todo fálico para o lado feminino, como uma diferença com o todo fálico do lado macho.

Desencadeamento da verdade

Advertidos dos fenômenos de massa e seus efeitos, como pensar as denúncias coletivas do feminismo Universitário no Chile?

Clotilde Leguil indica que o desencadeamento da verdade se refere, em Lacan, a um modo no qual nada pode deter a verdade de se dizer. Loucura contemporânea, como diz, como efeito da relação nova com a verdade e a palavra que não encontra limite.

Como o texto aponta, embora a massificação de tomar a palavra faça com que a vergonha que impedia as mulheres de falar não opere mais, reenviando a dita vergonha ao destinatário, também há alguns riscos. Adverte-nos sobre a perda do valor íntimo da palavra, coletivizando o fenômeno para dar-lhe um sentido unívoco, isto é, apontando para uma assunção coletiva do trauma, ficando o sujeito excluído de sua própria palavra.

A verdade desencadeada recorda o artigo, gera segregação das mulheres em relação aos homens e também entre as próprias mulheres. Nem todas as mulheres encontram a sua verdade nessa libertação da palavra, nem todas as mulheres querem declarar guerra aos homens e nem todas as mulheres se sentem dominadas pelos homens, dirão claramente.

Histeria, feminilidade e feminismo

A partir das fórmulas da sexuação, sabemos que a histeria, como uma das formas em que se apresenta a neurose, responde além da anatomia de quem a comporta, a um modo de gozo fálico, isto é, do lado macho das fórmulas. Além disso, desde Dora sabemos dos intentos da histeria para sustentar o Pai.

Chama atenção que o discurso feminista da universidade no Chile centre seus fundamentos em uma luta irada contra o patriarcado. Por que sabem e só podem falar sobre o pai? Não se trata aí de uma mascarada feminista por trás da qual o que está em jogo é a operatividade do discurso histérico? Quais as consequências para o fato do feminismo universitário no Chile ficar vítima de um discurso histérico?

A distinção entre feminilidade e histeria é crucial. A histeria é uma resposta ao enigmático que se torna a feminilidade para algumas mulheres. Como assinala Marie-Hélène Brousse, para a histeria, seja ela heterossexual ou homo, se trata de uma “feminilidade idealizada: uma feminilidade da qual, segundo elas, lhes falta e as fascina, a forma de um enigma para elas mesmas; uma feminilidade na qual elas não se reconhecem e que não desejam para elas mesmas”. A histeria como uma tentativa de fazer existir A mulher.

Quando Lacan coloca que A mulher não existe, mostra que não há uma identidade feminina, que não há o ser da mulher, que não há universal para defini-la, nem qualquer significante que a possa representá-la. Há mulheres, uma a uma, sem que se forme uma categoria a partir de um gozo igual para todas. Aí reside a plasticidade, a ductilidade do gozo feminino sobre o gozo masculino.

Ao falar do Pai, isto é, testemunhar sobre a masculinidade, o movimento feminista da universidade no Chile, constata que sobre o feminino não se pode ser falar a não ser no uma a uma. Testemunhar a feminilidade implica, precisamente, ir além do Pai.

Como nos adverte Mónica Torres, os novos feminismos podem fazer das mulheres um conjunto fechado que as localizaria do lado masculino nas fórmulas da sexuação.

Tradução: Jussara Jovita Souza da Rosa

Notas:
  1. Velázquez, J. F., Lo femenino hoy: fenómenos de masa v/s autismo de goce.2014. Bitácora Lacaniana N° 3 El goce femenino. Buenos Aires. Grama, 2014,  p. 199.
  2. Leguil, C., Desencadenamiento de la verdad y universalización de la palabra femenina.www.eol.org.ar/biblioteca/lacancotidiano/LC-cero-768.pdf. 2018.
  3. Brousse. M.- H.,  La homosexualidad femenina en plural, o cuando las histéricas prescinden de sus hombres de paja.2014.Bitácora Lacaniana N° 3 El goce femenino. Buenos Aires. Grama, 2014, p. 19.
  4. Torres, M., Mee too, moi non plus: los nuevos feminismos. https://redzadigargentina.wordpress.com/actividades-2.

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