“…Que o real esteja ancorado”!

“…Que o real esteja ancorado”!

Marcela Pimentel. “Ponto infinito”. Fotografia. Série CLF. Rede da EOL

Marcela Pimentel. “Ponto infinito”. Fotografia. Série CLF. Rede da EOL

Carmen Silvia Cervelatti – EBP – AMP

Eis um apelo em relação ao real! Solto, ele acarreta estragos. No Seminário 19, Lacan fez esta afirmação relacionada às relações entre os sexos e suas diferenças.  A função Φ x é um modelo que permite fundamentar algo diferente do semblante, pois o gozo sexual não é semblante do sexual. Um discurso que não fosse semblante acabaria mal, não seria laço social. Fora do semblante estaríamos, então, num campo em que o Outro não existe, não que não possa vir a consistir de alguma maneira. Artifícios podem ser inventados para fazer suplência à não relação sexual, inclusive o amor.

Sabemos que o gozo sexual é uma diferenciação do gozo constitutivo do ser falante, este muito mais dado ao real, primário na constituição subjetiva. O gozo sexual fracassa sempre na busca de fazer Um com o parceiro sexual. Lacan, inclusive, chegou a compará-lo ao jogo do passa-anel: é este objeto que corre, mas que ninguém consegue enunciá-lo. Isso o levou a afirmar que “é na própria prática da relação sexual que se afirma o vínculo do impossível e do real que promovemos, nós, como seres falantes, em toda parte. O real não tem outra atestação”. Ou seja, se trata de uma impossibilidade que demonstra o real formulado como “não há relação sexual”.

No falasser não há o saber a priori sobre o parceiro sexual, a devida proporção entre os sexos. Como seres de desejo somos traumatizados pela intrusão da linguagem no organismo; no falasser uma parte fica fora da possibilidade de ganhar sentido, fora do simbólico, instalando em seu cerne um fracasso, algo que rateia, por mais explicações, fantasias e ficções que se possa erigir para tentar remediá-lo, para encontrar a justa medida que responderia à eterna pergunta: o que o Outro quer de mim?

Na época de falta de consistência do Outro, de desconexão, o recalque não faz mais sucesso, como o Édipo, porque os ideais já não servem mais de sustentáculo para a identificação.

Mesmo que as recordações da repressão familiar não fossem verdadeiras, seria preciso inventá-las, e não se deixa de fazê-lo. O mito é isso, a tentativa de dar forma épica ao que se opera da estrutura.

[…] O impasse sexual secreta as ficções que racionalizam o impossível de onde ele provém. Não digo que sejam imaginadas, leio aí, como Freud, o convite ao real que responde por isso.   

Também em “Televisão”, Lacan falou que Freud em seu “Mal-estar” evoca uma “maldição sobre o sexo”, atestada pelo discurso analítico, e que de maneira alguma seria possível suspendê-la. Por esta razão torna-se necessário inventar algo que se equipararia às recordações da repressão familiar. O impasse sexual vem do impossível da relação sexual, isso “é de estrutura”, esclareceu Miller.

As ficções são uma maneira de dar forma, mesmo que mítica, ao furo do real, da não-relação sexual. O mito de Édipo é uma das maneiras de simbolizar algo deste real. Isso orientava as famílias, tradicionalmente. Seria preciso inventar as recordações da repressão familiar, sempre se inventa, mesmo que elas não sejam verdadeiras, disse Lacan.  Ou seja, a repressão familiar é uma ficção construída, não imaginada, algo da ordem de uma necessidade lógica para que o sujeito possa se situar frente ao desejo do Outro – a contingência faz aí seus efeitos.

A função fálica organiza o caos da subjetividade, por isso é necessário inventar as recordações da repressão familiar, para colocar um limite, uma barreira ao gozo auto erótico. Freud disse, também em Mal-estar na civilização, que o Pai é uma proteção diante do desamparo. Na neurose a fantasia recobre e constitui o campo da realidade, lhe dá uma fixidez, e oferece material para as ficções. O psicótico faz ficções tecendo um delírio, porque o Nome-do-Pai não compareceu, quando se fez necessário. Para as psicoses ordinárias, Miller propôs o “fazer-crer compensatório”, uma invenção bem particular. O perverso, por desmentir a castração, cria um substituto para o pênis, o fetiche. Todas elas são invenções para tratar o real.

Ainda em Televisão, Lacan fala dos jovens que ao se entregarem a relações sem repressão são acometidos pelos sentimentos de tédio e morosidade. Falta lembrança da repressão sexual, falta ficção, porém é efeito de quê?

Em “O mal-estar na civilização” [1929], Freud postula a renúncia pulsional, que o desvio dos objetivos sexuais ou a inibição da finalidade sexual da pulsão constitui a base do processo civilizatório. Esta renúncia deve ser economicamente compensada para que não se traduza em distúrbios, pois a pulsão sempre busca a satisfação, é seu propósito e sua vocação. Uma das saídas se dá pela formação do sintoma, um modo de obter satisfação frente à defasagem instalada pela inserção do ser na linguagem, frente à castração.

A “maldição sobre o sexo” implica a impossibilidade de “bem-dizer” sobre o sexo. “Mal-dição” porque se renuncia à possibilidade de dois fazer um, renuncia-se a satisfação auto erótica, instalando uma impossibilidade lógica, de haver um saber fazer com o Outro sexo. A impossibilidade de um saber no real sobre a relação entre os sexos é a condição humana.

Como recuperar algo desta perda? Como bem-dizer o sexo? O gozo primordial perdido pode ser recuperado por uma operação simbólica, que localiza, orienta o gozo, antes caótico. O falo dá contorno ao caos inicial, trata-se de uma função, operada através da castração que permite organizar simbolicamente o gozo e encontrar satisfação a partir do Outro. O falo é o instrumento para lidar com a falta de um parceiro natural, e cada sexo sustenta e exerce sua função de formas diferentes.

O viril orienta o comportamento do falasser homem, sua subjetividade está praticamente recoberta pela função fálica, o que permite tomá-los num conjunto; o mesmo não é válido para a mulher, parte de sua subjetividade fica fora deste referente, conserva-se fora desta lógica, impedindo a universalização do feminino. Por esta razão, Lacan fala que a mulher, não-toda submetida à função fálica, somente pode possuir o homem, o seu falo. O homem, “aquele que se vê macho sem saber o que fazer disto” (Lacan, Seminário 20), aborda a mulher através do objeto causa do desejo; um pequeno detalhe no corpo da mulher pode funcionar como condição para se apaixonar. São maneiras do homem e da mulher buscarem recuperar a perda de gozo, porém não é isto que faz com que dois sujeitos se tornem parceiros. A busca não converge em encontro.

Quando há parceria, ela é sempre sintomática, pois o sintoma, além de obstáculo, é mediação, é o melhor a ser feito. Neste sentido, bem-dizer o sexo é estabelecer uma parceria com o Outro sexo, cada um pode seduzir o parceiro a partir da particularidade da posição feminina ou masculina e de sua posição de sujeito.

Em “Radiofonia” Lacan falou em “fórmulas que, durante um tempo, elas formam uma assembleia com o real”, ao se referir a Newton, hipothesis non fingo; são fórmulas que já estavam no real, escritas, prontas para serem descobertas. Para a psicanálise: “não é que no real esteja escrita uma fórmula, tal como Newton pôde fazê-lo. Devemos, pelo contrário, inferir que no real há uma fórmula não escrita: a da não relação sexual, […] visto haver uma fórmula que falta e que faz com que a linguagem continue a funcionar em chicanas infinitas”. O sentido não se deixa capturar como um todo, senão pararíamos de falar, e mesmo quando o sentido foi capturado num enunciado, sempre abre para a pergunta: mas, então, o que isso quer dizer? – demonstrando assim a existência de algo que não se escreve no real. O “não há” é uma fórmula que ancora o real a partir da função Φ x.

A angústia é uma indicação clínica quanto à ancoragem do real. Enquanto intrusão do Real no Imaginário, sem intermediação simbólica, ela é sinal do real e pode se apresentar sem nenhuma ancoragem, como o pânico exemplifica: é angústia pura e bruta, também brutal. É preciso fazer consistir o sintoma, sintomatizar a angústia. Frente ao real da pulsão há que se erigir alguma proteção.

Busca-se recuperar algo perdido, o objeto primordial – isto se dá através do Outro, fonte de eterna angústia. Este é o fundamento que, ao aliar as dimensões do gozo e do Outro da linguagem, faz do sintoma o sustentáculo do saber-fazer frente ao mal-estar da cultura e da existência de cada um no mundo. Ao final, perdura o sinthoma, aquilo que real-mente se é, afinal ele é o que há de real! Nosso parceiro de todos os dias!

 


Notas:
  1. Lacan, J., O Seminário livro 19: …ou pior (1971-1972). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2012, p.175.
  2. Loc. Cit., p. 175.
  3. Ibid, p. 167.
  4. Lacan, J., “Televisão”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2003, p.531.
  5. Ibid, p. 422.
  6. Miller, J.-A., Silet: os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2005, p.333.
  7. Lacan, J., Op. cit., 2012, p.175.

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