A subversão da barbárie possível

A subversão da barbárie possível

Dolores Amden. ´Torii´. ´Fushimi Ku´. Templo em Kyoto. Fotografia. Pausa.

Dolores Amden. ´Torii´. ´Fushimi Ku´. Templo em Kyoto. Fotografia. Pausa.

Fernanda Otoni Brisset – EBP-AMP

Enquanto a máxima “ama teu próximo como a ti mesmo” guarda seu impossível, a expressão “homem lobo do homem” não se engana.

Diante da consequência do mandamento de amar ao próximo, o que surge é a presença dessa malvadeza fundamental que habita nesse próximo. Mas desde então, ela habita também em mim. E o que me é mais próximo do que esse âmago em mim mesmo que é o de meu gozo, do qual não ouso me aproximar? Pois assim que me aproximo – é esse o sentido do mal-estar na civilização – surge essa insondável agressividade diante da qual eu recuo, que retorno contra mim.1

A leitura de Lacan corrobora a constatação freudiana de que não encontraremos nos homens, a disposição “natural” de amar o próximo; ao contrário, frequentemente, tomam o próximo como um objeto, “alguém que os tenta a satisfazer sobre ele sua agressividade”2. A separação entre “nós”/“eles” se autoriza dessa tentação. Com Freud, sabemos que “é sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor, enquanto sobrarem outras para receberem as manifestações de nossa agressividade”3, ideia que participa do que ele nomeou como narcisismo das pequenas diferenças. Ou seja, se por um lado o amor enlaça, a pulsão odienta cobra a sua parte em outro lugar!

Podemos dizer que a lógica coletiva e a da segregação guardam como mesma causa, “uma rejeição primordial, uma forma de racismo”4, tal como Éric Laurent pode ler em Lacan. O que nos permite depreender que tal rejeição de um gozo se faz recuperar no “domínio de uma barbárie possível”5, por um esforço contínuo e antecipado de defesa de uma ameaça presumida no próximo como a mim mesmo, “na medida em que há nesse horizonte, algo que participa de não sei que intolerável crueldade”6.

Domínio de uma barbárie possível

Laurent indica que a lógica pela qual Lacan pensa o laço social “não avança a partir da identificação ao líder, mas de uma primeira rejeição pulsional.7  É uma questão de gozo que aí recupera seu fôlego e joga sua partida. Nessa lógica, continua Laurent, “se os homens não sabem qual é a natureza do gozo deles, os homens sabem o que é a barbárie”, por reconhecerem a existência de um outro gozo, mais além do enquadre do seu. A barbárie possível pode ser lida como essa presunção, insondável e ativa, de que um gozo inassimilável, esse mal rejeitado, brilha no horizonte ilimitado! Neste horizonte, está o próximo, sob suspeita, tal como um objeto xenofóbico. A partir daí, esforços são feitos para dominar tal ameaça, o que corresponde na economia psíquica, a uma paradoxal recuperação de gozo. Romildo do Rêgo Barros, nessa direção, esclarece que “o próximo aparece como a Coisa diante da qual se perde sentido perguntar se é de mim ou do Outro que se trata8”.  Afinal, sabemos, de Freud a Lacan, que “o gozo é um mal porque comporta um mal ao próximo. Isto tem um nome – é o que se chama além do princípio do prazer9.”

Não seria, então, por meio desse gozo outro, suspeito, além do princípio do prazer, ilimitado e determinado a se satisfazer, que a guerra, mas também a aliança, acontecem? Não seria esse outro gozo que, no jogo das paixões, perfila sob o horizonte ilimitado de uma barbárie possível, cujo destino pode se resolver em ruptura ou laço? Vimos que a segregação e a lógica coletiva se engrenam desde a força desse gozo estrangeiro. Não seria essa a força material que corta e costura, segrega e enlaça, conforme os circuitos das paixões que brotam, contingentes, desde a greta da junção mais íntima do ser? Laurent sublinha que há “um mesmo princípio de ilimitação10”, sempre presente no laço social. Um excedente que cai fora da ideia e persiste como resíduo de um incabível ilimitado a devolver ao falasser, a sua falta a ser.

Freud afirmava que “existem dificuldades, ligadas à natureza da civilização, que não se submeterão a qualquer tentativa de reforma11”. Um mal que não se deixa reformar. Lacan precisa que isso que não se reforma é o irredutível objeto a. “Eu te amo, mas, porque inexplicavelmente amo em ti algo mais do que tu – o objeto a minúsculo, eu te mutilo.12” A dimensão do racismo destacada por Lacan vem “sublinhar que todo conjunto humano comporta em seu fundo, um gozo deslocado, um não saber fundamental sobre o gozo13”.

O objeto a funda o laço social, semblante parceiro da relação que não há, seja ao modo do amor e seus matizes enquanto suplência, seja como protesto à inexistência, índice do toque de real que alavanca as irrupções de ódio, cólera e indignação. Entre “o ser e o nada” passa Um gozo outro, impossível de dizer. As paixões, seja qual for seu destino, partem desse não todo significantizável, testemunho inefável da falta a ser! A paixão é justamente “essa articulação do inconsciente com o real do gozo14”.

Como a experiência analítica considera, recupera e subverte essa força?

No horizonte do Outro gozo… o que pode a transferência?

A irredutibilidade de um gozo que escapa e não se enquadra está sempre jogando sua partida no corpo político-social e, mais ainda, em nossa clínica. Em “Televisão”, Lacan diz que, em relação ao “desatino do nosso gozo, só há o Outro para situá-lo, na medida em que estamos separados dele.15” Miller nos convida a alçar o Outro como corpo vivo, um meio de gozo, pois o Outro “é tanto o corpo próprio como o corpo de outrem16” . Lacan, em 1967, a propósito da transferência, dirá que o objeto a, como agalma, é suposto no Outro para constituí-lo. E essa suposição do objeto que não há no Outro serve tanto para amá-lo como para odiá-lo.

“Há Um, mas não há aí nada de Outro17”. O Outro não existe. Não há nada de Outro como lugar do significante puro. Esse Outro “só se atinge agarrando-se ao a, (…) é também do mesmo modo à aparência de ser que ele se dirige. Esse ser aí não é um nada. Ele é suposto a esse objeto que é o a18”. Lacan realça a importância clínica dos conectores/grampos em reunir, topologicamente, o que há ao Outro – o Um e o a; a irrupção do Um revela/situa a relação com o Outro, parceiro do gozo. Aqui a responsabilidade de um analista se apresenta. O que pode a psicanálise? Sob transferência, o Outro se duplica, em furo e a… ora em sua inconsistência ou com o que nele se agalmatiza como uma aparência de ser.

Muito interessante onde Lacan nos leva: a isso que em cada ser falante se duplica, a “dar o suporte do ser19”, em termos de gozo. De um lado, um gozo agarrado ao a, este estrupício do falo; e do outro, um gozo que escapa pelo furo no Outro rompido e abre ao horizonte de um outro gozo, não todo fálico, sobre o qual nada se sabe, mas se experimenta e, desde então, o presume. Não todo enquadrável, esse Outro gozo, o que quer que seja, isto existe e afeta o corpo. Sem bordas que o limite, tal gozo flui de forma infinita… Esse pedaço de gozo e o furo que o contorna é também o que está em jogo na segregação, nos discursos que matam, nessa qualquer coisa de ilimitado, ao qual Laurent se referia e que é avistado como uma barbárie possível… Se o falo, ou algo que lhe sirva de remendo, não está lá para verificar, localizar e fixar tal gozo num quadro, isso se infinitiza, sem diques. É sabido que o gozo transborda quando o falo não está lá como referente, borda, litoral ao infinito. O ódio brota da desconexão entre esse gozo e o Outro, forjando sua passagem em ato!

A clínica do louco infrator ensina que o ato é uma resposta, um ponto de basta a esse transbordamento cuja potência empuxa a um gozo mais além do falo. O falo é um conector privilegiado, mas, em sua ausência, qualquer gambiarra opera como um grampo que localiza, fixa, ordena e amarra esse gozo junto a um corpo que tende a escapar. Comumente, se agarra ao semblante de objeto segundo a lógica fálica ou a um enquadre que lhe sirva de suplência; se isso falha, abandonar-se ao infinito pode ser um destino.

A subversão analítica

Laurent, em sua conferência no Rio (novembro/2018), distingue dois destinos para o ilimitado do gozo: por um lado, enquanto falo não negativizável, o Um que itera a brutalidade opaca da vida e, do outro, esse ilimitado, mais além do falo, se civiliza. Miller havia dito que “há um Um que se diversifica e um Um que se repete20”. A psicanálise, ao convidar cada um a falar do que não existe, dá passagem ao que existe e o força a se alojar numa forma que o acolha, o localize, o dirige e o sossegue. Ou seja, o laço transferencial, do início de uma análise, ao final, cederá ao sinthoma. Uma aposta de que esse grito que se perfila sob um fundo de silêncio pode vir a encontrar uma forma de o bem-dizer. Uma subversão possível. Um gozo ilimitado se civiliza, uma resposta ao Outro que não existe.

Chego, então, ao que gostaria de lhes propor enquanto questão: o que está em jogo no nosso tempo não é tão mais a castração, mas a relação de cada um com esse Outro gozo, aquele sobre o qual não se solta uma palavra21 e se insinua nos confins do Outro como uma barbárie possível, mas que por um giro da chave, quiçá, possa se enredar em uma solução que o oriente. É a aposta analítica! Lacan confirma: “há um gozo do corpo que é (…) para além do falo22”, um gozo do corpo e que mais do que nunca, marca a subjetividade de nossa época, mais além. Uma época, onde mais ainda, a experiência analítica se oferta como um respiradouro, à espreita de um encontro contingente em condições de bem dizer a discórdia que habita o ser, advertidos, como bem disse Lacan, que desse “ser jamais temos nada23”.

Nos testemunhos do AEs, cada um, ao final, pode se servir do furo descortinado no Outro para inventar um saber fazer com o que por ali se passa irredutível. É quando o ilimitado do gozo se civiliza e uma subversão da barbárie possível se verifica em cada solução sinthomática.  É pelo “não há” que se passa o que “há”. Um gozo que aí resta porque não se pode apagá-lo24. Para Miller, “O sinthome é um conceito alargado do sintoma comportando um ‘ça’ que não desaparece e que é o resto sintomático.25” Ao final de uma análise, trata-se de recuperar esse çairredutível, resto de gozo.Se o recuperamos ao final, é para não mais o deixar de lado, ou seja, para não o jogar na rede alienatória onde sua força mortífera vocifera e, sim, fazer dele uma bússola permanente orientada ao real, advertido que isso tem por destino, jamais desaparecer.

Assim, por mais longe que a gente vá nas elucidações desse ponto na análise, qualquer coisa da ordem de um real que não se atravessa jamais e de uma contingência da vida pode vir a reativá-lo, sob as espécies de uma insistência do pathos, do afeto do sintoma. Isso requer coragem para se recolocar e elucidar esse bout de réel, sem que possamos dizer por instante que um dia isso será definitivamente terminado26.


Notas:
1 Lacan, J.,O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. (1959-1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. p. 228.
2 Freud, S.,O mal-estar na civilização. ([1929]1930). Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 21, p. 133.
3 Idem, p.136
4 Laurent, É., O racismo 2.0.  Disponível em: http://ampblog2006.blogspot.com/2014/02/lacan-cotidiano-n-371-portugues.html
5 Laurent, É., O racismo 2.0. Idem.
6 Lacan, J.,O seminário, livro 7: A ética da psicanálise, p. 237.
7 Laurent, É., O racismo 2.0. Idem.
8 Rêgo Barros, R., O paradoxo do amor ao próximo. In: Lutterbach, A. L., (Org.). As paixões do ser. Rio de Janeiro: Kalimeros, 1998. p. 72
9 Lacan, J., O seminário, livro 7:A ética da psicanálise, pp. 220-225.
10 Laurent, É., O gozo e o corpo social. Correio, Belo Horizonte: Editora EBP, n. 80, pp. 13-16, 2017.
11 Freud, S.,O mal-estar na civilização, p. 120.
12 Lacan, J.,O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1988. p. 254.
13 Laurent, É., O racismo 2.0. Idem.
14 Laurent, É.,Los objetos de lapasión. Buenos Aires: Três Haches, 2002. p. 74.
15 Lacan, J., Televisão. (1972) In: ___. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1993. p. 58.
16 Miller, J.-A.,O osso de uma análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora., 2015. p. 90.
17 Lacan, J,. L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre.10/05/1977. Ornicar?, Paris: Navarin, n. 17-18, p. 18, 1979.
18 Miller, J.-A., O osso de uma análise, Salvador, Biblioteca Agente, 1998, p. 99.
19 Lacan, J.,O seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2008. p. 101.
20 Miller, J.-A.,O ser e o Um, curso de 15 de junho 2011. (inédito)
21 Naveau, P.,O que do encontro se escreve. Belo Horizonte: Editora EBP, 2017. p. 208.
22 Lacan, J., O seminário, livro 20, op. cit., p. 80.
23 Lacan, J., O seminário, livro 20, op. cit., p. 50.
24 Brisset, F.O. Nos confins do pétit a. Correio. Belo Horizonte: Editora EBP, nº. 80, pp. 35-45, 2017.
25 Miller, J.-A.Conversation sur le passe. (Supplément de la LettreMensuelle), Paris, ECF, pp. 121-122, jan. 2010.
26 Miller, J.-A.; Solano-Suárez, S.,Conversation sur le passe. Paris: ECF, p. 117, jan. 2010.

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