Amor, saber e ignorância na “Nota italiana”1

Amor, saber e ignorância na “Nota italiana”1

Nicolás Bertora. “Hueco”. Fotografía urbana. Maestría ICdeBA-Unsam

Nicolás Bertora. “Hueco”. Fotografía urbana. Maestría ICdeBA-Unsam

Alejandro Reinoso – NEL-AMP

“Só existe analista se esse desejo lhe advier,que já por isso ele seja rebotalho[rebut] da dita (humanidade).

Digo-o desde já: essaé a condição da qual, por alguma faceta de suas aventuras, o analista deve trazer a marca. Cabe aseus congêneres “saber” encontrá-la. Salta aos olhos que issosupõe um outro saber elaborado de antemão, do qualo saber científico forneceu o modeloe peloqual tem a responsabilidade. “É justamente aquela que lhe imputo, de haver transmitido unicamente aos rebotalhos da douta ignorância um desejo inédito”.

J. Lacan, “Nota Italiana”

Pode-se interrogar e investigar as paixões e afetos que convocam o próximo ENAPOL,“Ódio, cólera e indignação”, nos Escritos e Outros Escritos de Lacan de forma direta ou indireta, inclusive onde não há referência explícita a alguma delas. Tal é o caso da “Nota italiana”. Mas, por que ir a um texto como este,quando existem outros mais explícitos e ricos em referências? A “Nota” se encontra em uma serie de textos na seção V dos Outros Escritos que se dirigem à Escola. Isto localiza a pergunta afetivo-passional do ENAPOL em relação direta com o convite e proposição que Lacan faz a respeito da experiência de Escola: O que há das paixões e afetos nos textos de Escola? Que elementos localiza ou orienta Lacan a respeito das paixões em geral e, eventualmente de lado, [eventualmente de costado]  àquelas que nos convocam para o ENAPOL em São Paulo? Que pistas precisas encontramos acerca dessas paixões neste escrito de Lacan e nesse momento de seu ensino?

A“Nota italiana” e o convite à mudança de discurso: efeito amor

Na “Nota” Lacan aborda diversos tópicos: o analista, sua autorização, os títulos de AE e AME e a garantia; a relação da ciência e da psicanálise com o real como contraponto. Ponto alto e crucial é a relação do analista com o lugar de rebotalho e a lógica do passe.

A“Nota”é uma carta de abril de ’74 dirigida a três italianos que assistiam a Lacan, cada um com seu grupo, do qual eles eram cabeça de serie. É uma historia conhecida: um fracasso, pois continuou a lógica grupal e finalmente Lacan abandonou o empreendimento. Lacan convocava a utilizar o dispositivo do passe na entrada como eixo central de conformação da experiência de Escola. Convite que aposta em produzir uma mudança no discurso do amo, que regula o fenômeno de massa e a dinâmica dos grupos; “para assentar o discurso psicanalítico, é hora de colocá-lo à prova: o uso decidirá de seu equilíbrio”2. Neste sentido, esta carta orienta a que “uma Escola fundada no passe é a antítese de uma Escola fundada sobre grupos e correntes, e é antes a premissa daquilo que na AMP é a Escola-Una”3.

Sabemos que o amor é signo de uma mudança de discurso, então o convite a introduzir o discurso analítico na própria Escola é a produzir contingências,que eventualmente gerem um efeito amoroso: “é preciso prestar atenção à colocação em prova dessa verdade de que há emergência do discurso analítico a cada travessia de um discurso a outro. Não é outra coisa que eu digo quando digo que o amor é o signo de que trocamos de discurso”4.

Na “Nota”Lacan não convida a amar a Escola como complementariedade, tampouco aponta para a entrega de um dom simbólico.Destaca o fato de que é necessário que haja analista para que se produza a autorização, com um desejo que tem como consequência ocupar o lugar de rebotalho pela via da douta ignorância e que isso seja verificado através do passe. Articuladamente, se requer certa aposta para que se produza uma introdução do discurso analítico na Escola. A proposta é lógica e pragmática,porém requer se esteja disposto a apostar, “para isso é preciso que ele corra um risco”5.

A transferência à Escola: seguir a Lacan e a suposição de saber

Destaca o texto a reiteração do convite a segui-lo (a Lacan): “Isso terá outro alcance no grupo italiano, se ele me seguir nesse assunto”, “o que o grupo italiano ganharia ao me seguir seria um pouco mais de seriedade do que aquela a que chego com minha prudência”. No caso do trípode italiano: “as pessoas implicadas não deram continuidade às sugestões aqui expressas”6. O texto explicita em que consiste segui-lo; não é um “vem e segue-me” religioso. Significa, em termos práticos, aplicar os dispositivos de Escola, com o passe como vértice, pois esta via pode habilitar um passo na mudança de discurso para o discurso analítico na própria Escola.

Por isso, evidentemente não basta com o dizer que se segue a Lacan, dizer “sou lacaniano”, senão que “para tanto é preciso levar em conta o real.  Ou seja, aquilo que se destaca de nossa experiência de saber”7. Certamente o real na própria análise, mas em nível da Escola, considerando o real, na transferência com outros. Neste ponto Miller sublinha:

Desse modo, no sentido de Lacan, a transferência não éde modo algum, um fenômeno individual. Uma transferência de massa, como vemos todos os dias, é perfeitamente concebível: é uma transferência multiplicada, causada em um grande número de sujeitos pelo mesmo objeto, suportado pelo mesmo sujeito suposto saber, que se manifesta por sentimentos negativos tanto como positivos, e que é constitutivo de um grupo8.

A Escola sujeito, tal como coloca Miller, significa que esta “é uma experiência inaugural no sentido da experiência analítica. A Escola é inaugural na medida em que ela inaugura um novo sujeito suposto saber,e que sua história é uma série de fenômenos analisáveis”9.

Amor, saber, ignorância e resto

A“Nota” foi escrita enquanto ditava seu Seminário Os não tolos erram, onde especifica diversos e preciosos detalhes do amor, sublinhando uma articulação que localiza a relação entre a paixão amorosa e o saber em relação à psicanálise e, por tanto, à Escola:

o amor é a relação do real como saber. Quanto a psicanálise, é preciso que esta corrija esse deslocamento, deslocamento consistente que, depois de tudo, nãofez maisdo que seguir a viradacentrífuga do lugar dodesejo.É preciso que a psicanálise saiba que é um meio, e é no lugar do amor que ela se abanca.10

Na“Nota italiana” Lacan localiza que o saber em jogo é a inexistência da relação sexual, perante a qual “é a relação do real com certo saber.Eo amor sutura o buraco”11.

Lacan estabelece o nexo entre amor, saber e a paixão da ignorância: “é o amor que se dirige ao saber. Desejo, não: porque, quanto à Wisstrieb, ainda que tenha tido o carimbo de Freud, podemos retomá-la à vontade, ali não há nada dele. A tal ponto, inclusive, de nisso se fundar a grande paixão do ser falante: que não é o amor nem o ódio, mas a ignorância”12. É neste laço do real como amor transferencial que o discurso analítico pode entrar, pois opera por fora do sentido.Orienta-se como signo e aponta para a mudança de discurso que põe como agente o objeto a, o analista pode posicionar a ignorância douta sem dominar: “o que faz sua entrada na matriz do discurso não é o sentido,maso signo,eis o que dá a idéia que convém ter dessa paixão pela ignorância”13. Com efeito, na “Nota” Lacan indica que é ao analista a quem se lhe pede a responsabilidade  “de haver transmitido unicamente aos rebotalhos da douta ignorância um desejo inêdito”14.

Se a análise não leva à posição de rebotalho –destaca radicalmente Lacan– “é bem possível que tenha havido análise, mas analista, nenhuma chance”15, o qual tem a marca da ausência de entusiasmo que é próprio do analista e de sua posição de rebotalho. O analista ao não autorizar-se pode manter felicidade e boa fortuna, embora com um matiz de depressão.16 O lugar de rebotalho do analista permite “fazer o amor mais digno do que a profusão do palavrório”17. Tagarelice que com frequência também abunda nos afã de Escola, a qual, por estrutura, não se exime transferencialmente do amodio.

Tradução: Pablo Sauce

Notas:
1 Lacan, J., “Nota italiana” (1974),Outros Escritos, Jorge Zahar Ed, Rio de Janeiro:  2003, pp. 311-315
2 Lacan, J., Op. cit., p. 311.
3 Focchi, M., La carta a los italianos.https://www.marcofocchi.com/il-buon-uso-dellinconscio/la-carta-a-los-italianos
4 Lacan, J., O Seminário, Livro20, mais, ainda. (1972-1973), Rio de Janeiro: 2008, p. 23.
5 Lacan, J., “Nota italiana”,Op. cit., p. 314.
6 Referencias bibliográficas originales de los textos recopilados, Otros escritos, p. 600.
7 Lacan, J., “Nota italiana”, Op. cit., p. 312.
8 Miller, J.-A., Teoría de Turín acerca del sujeto Escuela (2000). https://www.wapol.org/es/las_escuelas/TemplateArticulo.asp?intTipoPagina=4&intEdicion=1&intIdiomaPublicacion=1&intArticulo=291&intIdiomaArticulo=1&intPublicacion=10
9 Ibid.
10 Lacan, J., Seminario 21 “Los no incautos yerran” (1973-1974), clase del 18 de diciembre de1973, inédito.
11 Ibid.
12 Lacan, J.,“Introdução à edição alemãde um primeiro volume dos Escritos”.Outros Escritos, Jorge Zahar Editor Ltda., RJ 2003, p. 555.
13 Ibid.
14 Lacan, J., “Nota italiana”, Op. cit., p. 313.
15 Ibid. 313.
16 Cfr. Lo anotado por Lacan sobre el entusiasmo y el tono depresivo,en la “Nota italiana”, p. 314.
17 Lacan, J., “Nota italiana”, Op. cit., p. 315.

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