Da obscenidade da época ao ver o impossível e a indignação singular

Da obscenidade da época ao ver o impossível e a indignação singular

Eduardo Médici.  ´Sonho´. Acrílico sobre tela. 2011

Eduardo Médici. ´Sonho´. Acrílico sobre tela. 2011

Jessica Jara de Aguirre – NEL-AMP

Uma versão do declínio do Outro é o eclipse do olhar do Outro da vergonha. Assim, em tempos de fraternidade e do empuxe superegóico contemporâneo a gozar dando a ver tudo, as barragens freudianas para a pulsão – o asco, a vergonha, a moralidade – tem sido solapados. Diante da falta de barragens, erigem-se novas moralidades do politicamente correto que reinam de modo inflexível na horizontalidade, como regimes de ferro. Neste panorama, surge uma fascinação massiva pelo sem-vergonha e a exacerbação do ódio e da indiferença. A ética psicanalítica se fundaria na negativa ser impudico, elegendo ser incauto do saber inconsciente e do amor (Lacan, Seminário 21, classe de 06/11/73).

Sobre uma absurda “decisão” do Facebook e a “diversão” familiar exposta

Yahoo notícias traz como título: “Facebook censura a bela imagem de uma mulher dando à luz em casa”.1 Trata-se da foto de uma mulher de joelhos em uma cama, segurando em suas mãos, sua filha: uma recém nascida chorando, que ainda tem em cima, restos e líquidos próprios do parto. É possível vê-las ainda ligadas pelo cordão umbilical. Tudo à vista. A foto foi tirada pelo pai da criatura e o Facebook – “ainda que pareça mentira” – a catalogou como pornográfica; cabe destacar que frente à falta de um Outro válido que diga “não” a tal exposição, o Facebook tenta censurar. Então, muitas “usuárias”, como protesto, colocaram esta bela imagem como sua foto de perfil. A notícia apresenta a decisão do Facebook como “claramente absurda” e lista uma série de “conteúdos” que também foram censurados por tal rede social, como o peito de uma mulher mastectomizada. A notícia tem uma nota de pé de página que diz: “O nome Francie é falso”. A mãe solicitou isso para proteger a intimidade da sua família.

Outro título: “Agora muitos pais compartilham a foto do pai nu com suafilha”.2  Esta é a segunda parte de: “Foi acusado de pedofilia por esta fotografia e olha o que respondeu!”.3 A notícia diz que as redes sociais ardem por esta “estampa familiar”: um pai e sua filha de dois anos brincando na banheira sem roupa. O homem, um comediante, disse que queria enternecer seus seguidores do Facebook, compartilhando esse momento da sua rotina familiar, e respondeu:

Escutem! Crianças e adultos podem estar nus juntos sem nenhum problema. Não há nada de mal em que um pai lave a… da sua filha quando é uma cria. Pelo contrário, é totalmente asqueroso se ninguém a lava e descaradamente injusto se somente sua mãe pode fazê-lo… O nu junto a sua filha não é obsceno, é natural. Um pai com sua filha no chuveiro não é pedofilia, é diversão. 3    

Estas imagens e opiniões têm sido amplamente validadas nas redes sociais, redes que são plataformas do olhar global, do regozijo e da falsa indignação. Ainda que a primeira imagem não dê conta de um laço amoroso mãe-filha subjetivado, mas mostre, literalmente, o cordão (umbilical) que une a mãe e sua cria. Dizem que essa mãe protege sua filha como uma leoa. Mas, quem a protegerá destas fauces, sendo que o pai está tirando a foto?

Na segunda imagem, uma perversão paterna, literal, vem acompanhada de uma afirmativa sem rodeios de um pseudo-saber sobre o gozo, enquanto este ex-comediante busca fazer surgir o objeto olhar para, assim, poder cumprir seu ato exibicionista. São muitos os que participam destas cenas sem temor nem tremor; outros têm reservas ou estão constrangidos, mas se reduzem a um silêncio culposo, perante a impunidade e o anonimato das massas cúmplices da… diversão. Sobre a “diversão”, recordemos que em 2014, Jacques-Alain Miller4 apontou que algumas mulheres e amantes, quando descobrem que seus parceiros observam ou armazenam pornografia, consideram isso uma “diversão sem consequências”. Aqui se trata do mesmo… ou pior?

Médi(c)o paralisado pelo retorno da mãe e uma criança mobilizada pela indignação

Se a “cultura” atual, perante a queda dos ideais, oferece a todos um saber gozar exposto, a psicanálise aposta no um por um, em um saber suposto, por um saber-ler de outro modo e no uso de semblantes e artifícios, como o sonho, para aproximarmos do real do gozo.

1)Um analisante exclama: “não vai dizer nada!”. Ao que respondo: “Ainda não”  e ele solta uma gargalhada. Esta resposta não responde sua demanda, mas indica que, a partir da posição analítica, se está em posição de responder. O mesmo sujeito, no início da sessão, relatou um sonho, “porque você gosta dos sonhos”. É este: uma paciente sua, uma mãe que tem paralisado, caído “todo” o lado esquerdo, mexe o braço esquerdo. Após um percurso só e acompanhado por um silêncio que cala o amor, a analista retoma o sonho do médico: Como seria que ela, que tem paralisado todo o lado esquerdo, pudesse mexer o braço esquerdo? Ao que responde: “Genial!” E, perante o silêncio, dirá: “Vejo como coisas impossíveis”.

A esse respeito, um analista faz valer outro pedido do sujeito: te peço que recuses o que te ofereço porque não é isso. “Não é isso” é um nome do objeto a. Aqui, para este sujeito, meio paralisado, o impossível de ver é que a mãe sinistra retornaria até do tumulo, por ele.

2)  A., uma criança de oito anos, foi abusada em duas ocasiões por seu irmão gêmeo, segundo seus pais. O certo é que ocorreu uma vez, enquanto ambos tomavam banho em casa. Os pais não sabem o que fazer diante deste sinistro familiar e passam do não fazer nada a uma violência louca, queimando as mãos do “mais velho”, dizendo-lhe antes que pode escolher entre a verdade ou a mentira. A mãe diz que agora somente dorme com A. e não com seu outro filho, como antes. O pai, expulso de casa por sua esposa há um ano, é quem deve levar A. à sessão.

A. é acusado de debilidade mental; contudo, faço notar que foi ele quem interrompeu o abuso. Pois, quando seu irmão o seguiu até o banheiro da escola para repetir o ato, A. conseguiu dizer-lhe que iria contar à reitora e às autoridades. Antes de dizer-lhe isso, fez o que o pai lhe indicara: bater. Mas, o irmão somente caçoou. Quando A. chega à sessão, diz que nem seus pais nem as autoridades do colégio fizeram algo. Nas sessões, indica que não é piada, que seus colegas o incomodem na sala. Outro dia, conta que fez um gol que tem uma namorada bonita. Para além disso, A. não é o reverso débil do gêmeo idealizado, como seus pais querem. Sabemos disso quando capta aquilo que se joga no witz. E pelo fato de estar indignado.

Para Lacan a única virtude, se não há relação sexual, não será o belo, o verdadeiro ou o bem, mas o pudor (Seminário 21, 12/03/1974). Nessa mesma classe do Seminário “Los incautos no yerran/Los nombres del padre, se toma nota do jogo anagramático entre “Les non pudes errent”*; este forçamento colocaria em série o viageiro errante desenganado do inconsciente e do amor; e, ao impudico que erra quando tudo-épossível, sem que se trate aqui do erro da equivocação. Neste ponto, quando o pudor não vela o horror diante da inexistência da relação sexual, a indignação é um afeto valioso que mobiliza  o pudor que se mobiliza diante do embaraço e do desamparo atual, quando o Outro não existe  e ninguém morre de vergonha.

A indignação como efeito/afeto do falasser diante do mal-estar na cultura, é o que, em uma análise, contingentemente, se converte na causa e anima a construção de um saber diante do impossível da relação  sexual. A prática do psicanalista, servindo-se  dos semblantes, permite o acesso a uma satisfação singular e a um amor mais digno que o amor do morto que vem por ele.

* Para conservar o jogo anagramático de Lacan foi  colocado o neologismo “pudes” no lugar de “pudiques”.
Tradução: Paola Salinas

Notas:
1 https://es-us.vida-estilo.yahoo.com/post/141483535608/facebook-censura-la-preciosa-imagen-de-una-mujer
2 https://es.newsner.com/familia/ahora-miles-de-padres-comparten-la-foto-del-el-padre-desnudo-con-su-hija/
3 https://tiempo.hn/le-acusaron-de-pedofilo-por-esta-fotografia-y-mira-que-contesto/
4 Miller, J.-A., “O inconsciente e o corpo falante” (2014).  In: SCILICET. O corpo falante: sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016.., 2015.
5 Lacan, J., “Televisão” (1973). In: Outros escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editores, 2003.
Bibliografia:
1 Miller, J.-A.  El desencanto del psicoanálisis.  (2001-2002). Inédito.
2 Lacan, J. O Seminário, Livro: 19… ou pior. Jorge Zahar Ed. Rio de Janeiro, 2012.
3 Lacan, J. Seminario 21. Los incautos no yerran.. Los nombres del padre.  (1973-1974). Inédito.

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