O ódio, o ser e o saber

O ódio, o ser e o saber

Eduardo Médici. ´Entrereflexos´.Fotografia com intervenção. 2005

Eduardo Médici. ´Entrereflexos´.Fotografia com intervenção. 2005

Alejandro Olivos – NEL-Santiago-AMP

O ódio é a mais intensa das paixões, afirma Jacques-Alain Miller, “o amor concerne às aparências, enquanto o ódio é mais radical: aponta ao ser”1. É, com efeito, somente na dimensão do ser que se podem inscrever as três paixões fundamentais que são o amor, o ódio e a ignorância. No Seminário I, Lacan retoma essa antiga noção filosófica da paixão, substituindo o clássico binário amor-ódio pelo ternário amor-ódio-ignorância. Distingue o amor enquanto paixão, fascinação imaginária – Verliebtheit -, e o amor enquanto dom ativo, relativo ao simbólico, ao sujeito quando se realiza simbolicamente na palavra. Mais adiante, precisa com respeito ao ódio:

E bem, com o ódio, é a mesma coisa. Há uma dimensão imaginária do ódio, já que a destruição do outro é um polo da estrutura mesma da relação intersubjetiva. […] A dimensão imaginária está marcada pela relação simbólica e é por isso que o ódio não se satisfaz com o desaparecimento do adversário. Se o amor aspira ao desenvolvimento do ser do outro, o ódio busca o contrário: sua degradação, seu desvio, seu delírio, sua negação detalhada, sua subversão.2

A dimensão imaginária do ódio corresponde à luta até a morte pelo puro prestígio, o qual deriva do impasse da coexistência das consciências na dialética do senhor e do escravo de Hegel. No plano simbólico, o ódio aponta ao ser do outro: busca o que Freud chamou de Erniedrigung do outro, isto é, sua degradação, seu rebaixamento. Este termo é empregado por Freud em seu texto de 1912 sobre a degradação – Erniedrigung – da vida amorosa, em particular no lado do homem. No número 93 da revista La Cause du Désir, Gil Caroz nos aporta uma precisão que permite distinguir melhor entre o registro simbólico do ódio e sua dimensão imaginária:

Há um outro ódio, um ódio que rechaça. Este não concerne ao Édipo. É necessário para a constituição do eu. O gozo é evacuado, enquanto mal, para ser situado no exterior. É o ódio que Lacan nos descreve como fundamento do racismo. O profundo desconhecimento do eu implica que este ódio não considera os detalhes. Localiza de boa maneira seu kakon em outro coletivo.3

Lacan concede uma particular importância à ignorância na série das três paixões do ser, enquanto estando na origem do amor e do ódio: “estas duas possibilidades do amor e do ódio não vão sem a terceira, que normalmente passa batida – a ignorância enquanto paixão”4.

No Seminário XX, Lacan aborda a questão do ódio a partir do que chama a discordância entre o saber e o ser. Com respeito ao ser, traz à tona o equívoco produzido na língua francesa entre Il hait / Il estEle odeia / Ele é -, com o fim de mostrar o fato de que “o ser, como tal, provoque o ódio, não está excluído. […] Um ódio, um ódio sólido, isso se dirige ao ser”5.

Por outro lado, refere-se ao ódio colocando, desta vez, o acento na relação ao saber, ao saber do Outro. Nesse seminário, o Outro, enquanto tesouro do significante, a ordem simbólica, passa a ser o Outro sexo, A mulher, com A barrado: “o Outro, em minha linguagem, não pode ser senão o Outro sexo”6. A tese avançada aqui por Lacan é que “há algo, o gozo, acerca do qual não é possível dizer se a mulher pode falar algo a respeito – se ela pode dizer o que sabe a respeito”7. Já que, como precisa Pierre Naveau em um seminário ditado na ECF, a mulher é Outra para ela mesma:

A questão é, portanto, se o Outro sabe: a mulher, enquanto é Outra para ela mesma, sabe algo acerca do gozo do qual somente ela pode experimentar? Seria então esse furo no saber o que aponta, quando se manifesta, o ódio contra este Outro que é a mulher. Assim, o ódio, desde esse ponto de vista, se relacionaria com o fato de que este saber, justamente, faz falta.8

No seu Editorial para o décimo primeiro volume da revista Le diable probablement, Anaëlle Lebovits-Quenehen aborda a questão do ódio a partir da Alteridade que habita em cada um de nós: “esta Alteridade, tão definitiva quanto interior, a escrevemos aqui com um A maiúsculo, já que é ainda mais estrangeira para o homem, do que são estrangeiros os demais homens”9. Dita Alteridade radical não pode ser subjetivada: ao sujeito, lhe é impossível reconhecer esse Outro para si mesmo como sendo seu. É preciso assinalar que esta expressão é utilizada por Lacan quando escreve acerca da mulher para um congresso sobre a sexualidade feminina: “O homem serve aqui de relevo para que a mulher se converta nesse Outro para ela mesma – Autre pour elle même – , tal como é para ele”10. Há, então, por um lado, o outro com minúscula – a – que está fora do um e, por outro lado, o Outro com maiúscula – A – o Outro para si mesmo, o Outro sexo, o qual está no um:

a    Fora de si

A →  Outro para si mesmo

O Outro para si mesmo é mais estrangeiro que o outro, com minúscula, já que é impossível ao sujeito reconhecê-lo como sendo seu, enquanto essa Alteridade radical não puder ser subjetivada. Duas opções se apresentam, então, cuja eleição se reveste de um caráter ético: ou o sujeito opta por ignorar esta íntima Alteridade que está nele ou opta por administrar – faire avec – com ela.

A primeira opção implica elucidar a Alteridade que está no um. Por conseguinte, o sujeito odeia a si mesmo, enquanto se recusa a confrontar-se com esta Alteridade que está nele. Assim, como sustenta Gil Caroz, “uma mulher pode odiar sua feminilidade sem que isso a converta em misógina”11. A solução encontrada pelo sujeito, então, é odiar o outro, com o fim de localizar do lado do outro, este ódio de si mesmo que rechaça e do qual nada quer saber. O ódio do outro seria a marca do rechaço do Outro para si mesmo que está no um e que, precisamente, o sujeito quer ignorar com todas as suas forças. Assim, vemos aqui como a paixão da ignorância vem se conjugar nesse ponto com a paixão do ódio “Paixão da ignorância, o ódio é um dos tratamentos possíveis desta íntima Alteridade”12.

Na segunda opção, o sujeito, se não pode reconhecer este Outro para si mesmo como sendo seu, toma-o em conta, consente em fazer com, administra-as com esta íntima Alteridade tal como as administra consigo mesmo e, deste modo, logra subtrair-se ao domínio que o ódio poderia ter sobre ele. Assim, “o homem poderá se curar deste espanto que o torna odioso, na condição de que reconheça não somente seu ódio, mas também sua própria feminilidade”13. Eis aqui a única via ética que se apresenta ao sujeito suscetível de odiar.

O fato de que haja, no mais íntimo de si mesmo, este Outro para si mesmo, está na origem do exílio de cada um com respeito aos demais. E isto concerne a todo sujeito: a cada um, seu modo de gozar, tal é a modalidade do exílio. Haveria então que assumir a responsabilidade de dito exílio. A posição adotada a respeito desta íntima Alteridade pode conduzir ao melhor, como também ao pior. Conduz ao melhor caso haja consentimento, inclusive sendo inacessível dita Alteridade, tornando-nos responsáveis por ela. Conduz ao pior, ao contrário, se a rechaça, já que rechaçá-la implica em colocar a responsabilidade no outro. Nessas condições, o rechaço desta íntima Alteridade desemboca no ódio. Desse ponto de vista, o ódio surge a partir de um rechaço, o rechaço do Outro para si mesmo, o qual está em cada um. É dessa forma que o ódio pode conduzir o sujeito ao pior, isto é, à violência contra o outro. Quando o ódio passa ao ato, sustenta Jacques-Alain Miller, “surge, então, ‘o terror, o horror, o calafrio sagrado’, já que cada um de nós, por mais compaixão que possa sentir, é também solicitado em sua parte irredutível de inumanidade, sem a qual não há humanidade que se sustente.”14

Tradução: Gustavo Ramos

Notas:
1 Miller, J.-A., « Le théâtre secret de la pulsion » (2012). Le Point, n° 2062, 22 de marzo del 2012, p. 46. Una versión en español, con traducción de Alejandro Olivos, ha sido publicada por el CEIP Lacaniano de Chile, disponible en: http://ceiplacan.blogspot.com/2015/12/el-teatro-secreto-de-la-pulsion-ja.html
2 Lacan, J., Le Séminaire, Livre I : Les écrits techniques de Freud (1953-1954). Paris. Éditions du Seuil, 1975, p. 305. [N.T.: LACAN, Jacques. O Seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud (1953-1954). 2. ed. Trad. de Betty Milan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009.] 3 Caroz, G., « Connaître sa haine » (2016). La Cause du désir, n° 93. Paris, École de la Cause freudienne, 2016/2, p. 36.
4 Lacan, J., Le Séminaire, Livre I : Les écrits techniques de Freud (1953-1954). op. cit., p. 298. [LACAN, Jacques. O Seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud (1953-1954). 2. ed. Trad. de Betty Milan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009.] 5 Lacan, J., Le Séminaire, Livre XX : Encore (1972-1973). Paris. Éditions du Seuil, 1975, p. 91. [N.T.: LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Trad. de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.] 6 Lacan, J., Le Séminaire, Livre XX : Encore (1972-1973). op. cit., p. 40. [N.T.: LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Trad. de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.] 7 Lacan, J., Le Séminaire, Livre XX : Encore (1972-1973). op. cit., p. 82. [N.T.: LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Trad. de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.] 8 Naveau, P., Inconscient et pulsion. Les résonances de la parole (2016-2017). Seminario dictado en la École de la Cause freudienne. Clase del 27 de abril del 2017.
9 Lebovits-Quenehen, A., Le diable probablement, n° 11. Dis-moi qui tu hais, à propos de quelques formes contemporaines de la haine (2014). Paris, Éditions Verdier, 2014, p. 5.
10 Lacan, J., « Propos directifs pour un Congrès sur la sexualité féminine » (Redactado en 1958 y publicado en 1962). Écrits. Paris. Éditions du Seuil, 1966, p. 732. [N.T.: LACAN, Jacques. Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina. In: Escritos. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998] 11 Caroz, G., « Connaître sa haine » (2016). op. cit., p. 38.
12 Lebovits-Quenehen, A., Le diable probablement, n° 11. Dis-moi qui tu hais, à propos de quelques formes contemporaines de la haine (2014). op. cit., p. 6.
13 Caroz, G., « Connaître sa haine » (2016). op. cit., p. 39.
14 Miller, J.-A., « Le théâtre secret de la pulsion » (2012). op. cit., p. 46.

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