Ódio, cólera, indignação em tempos de I.A.

Ódio, cólera, indignação em tempos de I.A.

Eduardo Médici. ´Sem título´. Fotografia com intervenção

Eduardo Médici. ´Sem título´. Fotografia com intervenção

Maria Bernadette Soares de Sant´AnaPitteri – EBP-AMP

Inteligência Artificial ocupa cada vez mais os humanos, tecnologia e ciência recebem somas vultosas para pesquisa e implementação. Há possibilidade de modelar uma paixão da alma como o ódio, ou afetos como cólera e indignação? China exporta softwares para espionar cidadãos, armas altamente destrutivas são programadas para longas distâncias, drones não foram criados para entrega de pizzas, afinal. O fascínio temeroso exercido pela I. A. pode ser demonstrado no furor com que foi recebido o primeiro filme da trilogia Matrix, no final do século passado. Na realidade virtual gerada pela Matrix (que desenvolve seus próprios algoritmos), humanos perambulam num mundo de sonhos e, acreditando na realidade do vivido, adormecidos, geram a energia necessária ao funcionamento da máquina.

A ficção pode ser assustadora, mas o que hoje chamamos “Inteligência Artificial” é um ramo recente da computação, nascida oficialmente em 1956, que propõe modelos e teorias para simular a capacidade cognitiva humana e criar sistemas computacionais baseados nestes modelos.

Partindo de uma definição simples, mas de implementação sofisticada, a I. A. exige o concurso de especialistas de diferentes áreas: engenheiros de computação e de software, cientistas da computação, programadores, engenheiros cibernéticos, psicólogos comportamentais, neurologistas, neurocientistas, matemáticos, filósofos…

Alain Turing (1912/1954), “brilhante matemático e decifrador de códigos”, formou-se aos 19 anos em Cambridge e aos 24, descreveu num ensaio um sistema lógico –formal destinado a realizar operações computacionais (1936). Em seu artigo, mostra a manipulação de símbolos num sistema com regras próprias, a “Máquina Universal de Turing”, máquina virtual, dispositivo teórico bastante simples e, na linguagem matemática, elegante. Trata-se do algoritmo descrito anos antes dos computadores digitais, modelo abstrato de computador que se restringe apenas aos aspectos lógicos do seu funcionamento (memórias estados e transições) e não à implementação física, questão para a tecnologia. Ou seja, é um software considerado universal para a programação dos computadores e que exige um hardware para ser implementado. Esta “máquina” tornou-se o protótipo para o desenvolvimento dos computadores atuais, usando o sistema matemático binário (0/1) além de conectivos lógicos, já indicando em seu nascimento, que sistemas poderosos poderiam ser construídos. No artigo citado o autor prevê esta possibilidade.

Em “Computação e Inteligência”, Turing coloca a questão: “podem as máquinas pensar?” Defende aí, a idéia de que sim, um computador pensa e é inteligente. E propõe para fundamentar sua asserção, o “Jogo da Imitação”, no qual os participantes não visualizam uns aos outros, comunicam-se apenas por escrito. A proposta é que um dos participantes seja um computador bem programado para conversar como se fosse um ser humano e caso consiga enganar os demais, conclui-se que pensa. Na realidade, o software espelha o fato de que o próprio Turing acredita que o a mente funciona exatamente como o algoritmo proposto por ele.

Se computadores são capazes de pensar, a máxima cartesiana “penso, logo sou” deve prestar-se também aos softwares e, se o pensamento se dá a partir da presença/ausência de significantes, não é absurdo postular que, como Turing queria, a mente humana funciona como uma máquina virtual de base binária.

As grandes montadoras de automóveis descobriram rapidamente o nicho e modelaram todo o processo de montagem que, na realidade, começou com Ford, antes da era digital. As máquinas são programadas para realizar o trabalho humano repetitivo, pesado ou perigoso. Nada mal. Mas os avanços algorítmicos permitem à I.A. crescer de forma assustadora, o que em si, não é problema, ao contrário: uma casa automatizada não é um sonho longínquo, e é atraente.

Mas a I.A. pode e vai muito mais além das viagens espaciais: pesquisadores desenvolvem softwares, como o da gigante chinesa ZTE, criada para controle social e exportação democrática. No caso, “regimes autoritários, principalmente na África e na Ásia, são os maiores clientes”, mas também a Venezuela. Por enquanto. Ao que parece, nossa civilização enfrenta uma crise reacionária perigosa.

No artigo de 1950, Turing tenta resolver diferentes questões colocadas por oponentes à idéia de que um computador seria inteligente. Uma das objeções se refere ao fato de que uma máquina, por não ter sensações, não manifestaria sentimentos. Para Turing a resposta é simples: basta que os sentimentos sejam modelados, ou programados convenientemente. Na atual I.A., as máquinas contam com sensores poderosos, capazes de enviar informações e auto-reprogramar-se.

A questão se desloca: qual a possibilidade de modelar uma paixão da alma como o ódio, ou afetos como cólera e indignação? Afetos, ao que parece, não ofereceriam grandes percalços aos pesquisadores, visto que enganam. Mas e quanto à angústia, único afeto que não engana e cujo objeto é o a? Seria possível modelar o a, objeto não mediado pelo simbólico? Haveria possibilidade de modelar uma paixão da alma como o ódio? Problema técnico, aparentemente. No texto, “Ódio Estruturante” , Rômulo Ferreira da Silva coloca o ódio como símbolo do real, mudo, que “exige a destruição do Outro em uma tentativa de fazer com que ele jamais tivesse existido”.

Softwares são criados e comercializados por humanos preocupados com o controle e o lucro. Seres humanos têm a paixão do ódio, bem como afetos de cólera e indignação, e, ao criarem algoritmos, transferem-nos para a máquina. A questão se torna ética e lembrando Lacan no Seminário 7, o desejo “adormecido pelos moralistas, domesticado por educadores, traído pelas academias, refugiou-se, recalcou-se na paixão mais sutil e também a mais cega … a paixão do saber” e para aqueles que estão mais avançados na ciência, “não deixa de vir com a viva consciência de que eles estão encostados na parede do ódio”.

Impasse na civilização.


Notas:
1 https://ix.enapol.org/
2 Estado de São Paulo, 10/2/2019: https://www.estadao.com.br/ultimas
3 Mais interessante em termos filosóficos e de I. A. do que sua continuidade, brilhante trabalho das atualmente irmãs Wachouski. Na época de Matrix (1999) eram IrmãosWachouski, sinais de uma civilização em constante mutação.
4 Bittencourt, Jultherme.,Inteligência Artificial – Ferramentas e Teorias, Campinas: Instituto de Computação, Unicamp, 1996, p.2.
5 Levin, Jana.,Um Louco Sonha a Máquina Universal, São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
6 “On Computable Numbers, with an Application to the Entscheidungsproblem”.
7 Turing, Alain., “Computação e Inteligência”(1936). In: Cérebros Máquinas e Consciência. Teixeira, Org. São Carlos: Ed. UFSCAR,1996.
8 Estado de São Paulo, 10/2/2019, Caderno Internacional A14: https://www.estadao.com.br/ultimas
9 https://ix.enapol.org/boletim-oci-1
10 Lacan, J., O Seminário, livro 7: A Ética da Psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora., 1997, p. 389.

Comentários estão fechados.