A porta para um breve despertar

A porta para um breve despertar

Dolores Amden. Fotografia. “Kinkaku-ji” ; nombre informal del Rokuon-ji.Templo del jardín de los ciervos. Psicoanalista. Argentina

Dolores Amden. Fotografia. “Kinkaku-ji” ; nome informal do Rokuon-ji.Templo do jardim dos cervos. Em Kioto, Japão. Argentina.

María de los Ángeles Morana – Associada da NEL

 Borges sustenta que, nas narrativas de Ryûnosuke Akutagawa (1892-1927), é difícil “discernir com rigor, os elementos orientais e ocidentais”[1]. Akutagawa era um apreciador do valor artístico da tradição literária japonesa, embora isso não impedisse que também fosse permeável à escritura do Ocidente. Por isso, ele foi impopular em sua pátria até que Akira Kurosawa, em um Japão destruído pela II Guerra Mundial e no qual as questões da verdade e da culpa estavam no auge, combinasse dois relatos – “Rashômon” e “No bosque” – em um filme cujo título vinha do nome dado à porta de entrada de Kyoto, Rashômon. Em 1950, esse filme ganhou o primeiro prêmio do festival de Veneza[2], despertando interesse, tanto pela obra do mestre ignorado do conto curto, quanto pela pergunta que a sensibilidade de Kurosawa retomava a partir da ética: é possível dizer a verdade toda sobre os fatos?

O roteiro apresenta a suposição de um crime e as mais diferentes versões dos testemunhos e dos protagonistas em torno da situação. Ao mesmo tempo, ele também aproxima o leitor ou o espectador dos testemunhos que, como qualquer um de nós, fabricam suas versões com os restos do visto ou do ouvido, procurando tapar com o sentido, o furo aberto pela intrusão do gozo no simbólico. Depois da guerra, Lacan se posicionou contra um pertencimento “confesso” ou “confessional” à IPA. Seu retorno a Freud abre a porta ao ser, em cujos “domínios” há uma fresta, na medida em que não deixa de sublinhar que o deslizamento feito com o significante “determina o ser de quem fala” e que “não é meditando sobre o ser, que se dará o menor passo que seja”[3], abre a porta ao ser em cujos “domínios” há uma fenda…

Em “No bosque”, um samurai e sua companheira vão atravessar um bosque no caminho de Wasaka[4]. O inesperado surge no encontro com um ladrão que incita a cobiça de Takejiro, ao lhe oferecer um tesouro enterrado com o propósito de enganá-lo e, então, tomar a jovem para si. Tajumaru assegura, diante do oficial do kebichi, que não procurava matar Takejiro. A contingência fez com que “uma leve brisa” levantasse o véu de seda que cobria o rosto da mulher e, desde esse momento, ela se torna causa de seu desejo, objeto que sempre escapa e que vai dividi-lo: “valente e impetuosa”, ela o enfrenta com seu punhal até que ele, finalmente, a submete e “a arrebata”. Um deles deve morrer, diz, ou ela morrerá “antes de ter que suportar a dor e a vergonha de saber que ainda vivem os dois homens que a possuíram”. Trata-se de um momento do discurso em que era possível morrer de vergonha e que, como tal, tende a desaparecer em nossa época de sonhos sonhados sem regulação no pornô, como diz Miller[5]. O que ela quer de mim? Quer gozar de mim? Fazer de mim um assassino, quando sou um grande lutador e ladrão? É o que Tajumaru parece se perguntar, mas “foi seu olhar ardente” que fez com que ele jurasse que a faria sua mulher e que se casaria com ela.

Nunca se sabe aonde o amor pode nos levar. Tajumaru desamarra Takejiro, que presenciou a cena amarrado e com a boca cheia de bambu, para que não gritasse. Há aí uma metáfora de Akutagawa em torno do silêncio da fantasia, quando não mente, com seus inventos, sobre a inexistência da relação sexual. O samurai enfurecido combate até que, não sem esforço, Tajumaru consiga derrotá-lo e atravessá-lo com sua katana. No entanto, Masago vai embora. Na versão do morto, narrada por uma médium, é ele quem se suicida depois da humilhação, já que seu rival é mais potente e o devolve a sua própria insuficiência, despertando a estranheza do Outro e o tropeço com aquilo que não se escreve, do encontro entre um homem e uma mulher. Na certeza delirante de que o ladrão, “hábil com as palavras de amor”, conquistou sua esposa, ele enlouquece no tormento dos ciúmes. Masago, por sua vez, coloca em ordem, sua posição em relação ao amor. Busca o signo de amor no olhar de seu esposo, mas encontra o desprezo estampado em seus olhos. É como ela interpreta. “Mais ferida por seus olhos do que pelo golpe do ladrão, deixei escapar um gemido e desmaiei”.

Voltando a si, experimentou novamente seu desprezo e “também seu ódio”. “Vergonha, raiva, angústia… Não sei bem o que senti. Sem que pudesse me controlar, enlouquecida, cravei a adaga em seu peito”, para, logo em seguida, tentar se matar. Foge com sua dor, “suportando o peso agoniante da desonra”, faz da solidão sua parceira e ocupa o lugar de objeto de opróbio em um discurso em que não estaria à altura do ideal.

No filme, os testemunhos assombrados conversam sobre o crime, sob uma forte chuva, nas ruínas da porta de Rashômon. O monge budista tinha visto o casal passar e reflete sobre o destino do homem, “comparável ao orvalho da alvorada ou a uma faísca fugaz”. O lenhador foi o primeiro a encontrar, horrorizado, o cadáver no bosque. O bisbilhoteiro que capturou Tajumaru o acusa do assassinato de Takejiro e do desaparecimento da mulher. Tajumaru se responsabiliza apenas por matar Takejiro e interpela o comissário: “Eu mato com a katana, enquanto vocês matam com o dinheiro, com os favores e com o poder”. No fim, Kurosawa deixa em aberto a pergunta sobre como negar uma interpretação e, ao mesmo tempo, nos confronta com os limites dela.

Em 1971, Lacan, ao visitar Tóquio a convite da editora Kobundo, depois da publicação dos Escritos, no discurso diante de um auditório alheio ao seu ensino, explica que “a psicanálise não é uma ascese”[6], mas uma técnica precisa que convida o paciente a dizer aquilo que lhe vier à cabeça “para orientá-lo ‘um pouco’ a ir mais além do declarado”. Justamente ali onde “há uma maneira de entender que faz com que apenas entendamos aquilo que estamos habituados a entender”, é preciso um ouvido que se dê conta de que aquilo que o outro quer dizer “em geral, não é aquilo que está no texto”.

Levamos para a análise, relatos e sonhos sobre os quais nosso saber é ambíguo – desconhecemos como estamos implicados naquilo que dizemos e, no fim das contas, tampouco temos ideia daquilo que dizemos. Porque “a linguagem nunca é um decalque das coisas”[7]. Desse modo, Lacan assinalava que é possível, a partir da ética, fazer um bom uso do deciframento, a fim de comover a inclinação a dar as costas para aquilo que nos faz despertar aos sobressaltos e, então, continuar dormindo”[8]. Isso porque, conforme dizia no ano seguinte em Milão, o significante não implica uma significação assegurada, e acrescentava: “hoje, quando tudo está desvelado”. Depois, o “Há do Um” o conduz, como destaca Miller, ao sinthoma em sua singularidade indecifrável, ao próprio sonho como intérprete, para, por um lado, sublinhar que não sonhamos apenas quando dormimos e, por outro, dar lugar à pergunta formulada para A. Harari em torno daquilo que nos guia em relação a um bom uso dos sonhos na direção do tratamento[9].

Trata-se de explorar essa fresta, por vias inéditas, de aproveitar essa fresta que existe em cada coisa, como canta L. Cohen[10], “pois é por ali que, brevemente, entra uma luz”.

Tradução: Diego Cervelin

 

1 Akutagawa, R. Kappa, Los Engranajes, Prólogo de Jorge Luis Borges, Ed. Nuevo Mundo, Buenos Aires.
[2] Richie, D. The films of Akira Kurosawa. Disponível em: <https;//www.amazon.com/films-akira-kurosawa-Donald-Richie/dp/9380032471/>
[3] Lacan, J. “Du discours psychanalytique” (Universidade de Milão, 12.mai.1972). Disponível em: <www.el sigma.com/historia-viva/traducción-de-la-conferencia-de-lacan-en-milan>
[4] Akutagawa, R. “En el bosque”. Disponível em: <https://lecturia.org/cuentos-y-relatos/ryunosuke-akutagawa-bosque/760/>
[5] Cf. Miller, J.-A. “O inconsciente e o corpo falante”. Scilicet. O corpo falante – Sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016, pp. 20-22.
[6] Lacan, J., “Discurso de Tokio”, https://es.scribd.com/document/174318387/Jacques-Lacan-Discurso-de-Tokio-1971
[7] Ibid.
[8] Ibid.
[9] Harari, A. “El sueño, su interpretación y su uso en la cura lacaniana”. Disponível em: <www.eol.org.ar/biblioteca/lacancotidiano/LC-cero-847.pdf>
[10] Cohen, L. “Anthem”. Disponível em: <https://www.telegraph.co.uk/music/artists/the-best-leonard-cohen-lyrics/>

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