Antes que eu não me desperte

Antes que eu não me desperte

“Circulo - llamas” . Fotografía. Img. free.

“Círculo – chamas” . Fotografia. Img. free.

Frederico Zeymer Feu de Carvalho – EBP-AMP

“A vida é uma coisa completamente impossível que pode sonhar com o despertar absoluto”. Esse pensamento, extraído do diálogo de Lacan com Catherine Millot,[1] explicita o que Lacan chamou de “sonho de despertar” (rêve de réveil). “Esse desejo de despertar não é outra coisa senão o sonho de se afogar no saber absoluto, do qual não há vestígio”, teria dito Lacan.

Se o sonho é a realização de desejo, como sustenta Freud, é preciso, então, ver no sonho que abre o capítulo VII da Traumdeutung – “Pai, não vês que estou queimando?” – mais que “uma fantasia preenchendo uma aspiração”.[2] Se fosse assim, o sonho apenas prolongaria o sono do pai. O que é que se realiza, portanto, nesse sonho tomado por Freud como “sonho modelo”? O que desperta o sonhador de seu desejo de prolongar o sono? O que faz desse sonho um “sonho de despertar”?

Conforme a interpretação lacaniana, o que se realiza nesse sonho não é a realidade do corpo em chamas do filho morto no quarto ao lado, não é isso que desperta o sonhador; tampouco é o desejo do pai de prolongar a vida do filho, como parece apontar Freud; o que se realiza é a “outra realidade escondida por trás da falta do que tem lugar de representação”.[3]

Entre o dormir e o retorno à consciência que se reconstitui em torno de suas representações da realidade, o real que desperta se manifesta no lapso entre a consciência das chamas e a percepção do que ocorrera – o sono do velho encarregado de velar o corpo do filho –, antes que eu não me desperte. Nesse espaço de um lapso, em que o sono é perturbado pela intromissão do real – que tanto pode ser provocado por uma batida na porta, aludida por Lacan um pouco antes de comentar esse sonho no Seminário, livro 11, quanto por um clarão que atravessa nossas pálpebras –, “temos a certeza de estar no inconsciente”.[4] O lapso do despertar se dá, portanto, nesse instante em que o sujeito habita o inconsciente sem o apoio de qualquer representação e tateia no escuro.

A princípio, nada parece apontar para a realização de desejo nesse sonho, como reconhece Freud. Por que, então, abrir o capítulo VII da Traumdeutung justamente com esse sonho? O que faz desse sonho um sonho paradigmático também para Lacan? Gostaria de responder a essas indagações, propondo tomar esse sonho como uma alegoria, mais precisamente como uma redução metapsicológica aos elementos fundamentais que se articulam em torno do trabalho do sonho e da dinâmica onírica: o pai e o desejo de dormir; o filho e o desejo inconsciente que desperta; e, na fronteira entre os dois, o velho vigia e a censura psíquica que condiciona o trabalho do sonho.

É possível sobrepor essa alegoria a uma analogia utilizada por Freud: o desejo inconsciente submetido ao recalque é como o penetra de uma festa de salão (onde se festeja o espetáculo do sono e o desejo de dormir é soberano) que, devendo passar por um porteiro, recorre a disfarces para não se fazer reconhecer. Se obtiver sucesso em não se fazer reconhecer, ele poderá ser admitido no salão; caso contrário, será expulso pelo porteiro que opera ali como censor.[5]

Segundo essa analogia, o responsável por esse disfarce é o próprio trabalho do sonho (Traumarbeitung). O desejo inconsciente do sonho somente se realiza sob essa condição. O porteiro-vigia seria, nesse sentido, uma espécie de extensão do Eu e de seu desejo de dormir, operando no limiar entre o salão de festas e a sua antessala. Cabe ao porteiro, averiguar se o desejo inconsciente se utiliza de um bom disfarce para não perturbar aquele que dorme. A função do vigia do sonho consiste, portanto, em “checar” o trabalho do sonho, de forma a garantir que a sua estrutura de ficção seja mantida.

No sonho relatado por Freud na Traumdeutung, no entanto, o desejo se realiza, podemos dizer, sem disfarces, de forma crua, como uma “visão atroz”, aquela do filho que, à cabeceira do pai, faz-se reconhecer por sua voz: “pai, não vês que estou queimando?” Uma pergunta se impõe: o que leva a esse “mais-além do sonho”, a esse rompimento do acordo de fronteira que preserva o sono e cuja condição é que o desejo inconsciente, estrangeiro ao Eu, conserve os seus disfarces?

O que rompe a estrutura que faz do sonho o guardião do sono é o sono daquele que não poderia ter dormido e que deveria velar o sono do pai, cuidando, ao mesmo tempo, para que o desejo inconsciente não se comporte como um penetra incendiário. Nesse sonho, o desejo inconsciente atravessa, como uma chama, a porta entreaberta entre os dois quartos, vindo se instalar à cabeceira do pai para interpelá-lo quando este nada mais pode fazer pelo filho, como observa Lacan. Esse desejo realiza sem censura, da forma mais substancial, o encontro faltoso com o objeto que a morte do filho presentifica. Na ausência de uma dimensão ficcional do sonho, o desejo se apresenta como Trieb, diz Lacan, pura pulsão invocante.

Na lição do dia 12 de fevereiro de 1964, da qual nos valemos aqui, Lacan lembra que a vida não é um sonho. Ele afirma: “Nenhuma práxis, mais do que a análise, é orientada para aquilo que, no coração da experiência, é o núcleo do real”.[6] Contudo, trata-se de um real que escapa, que não é apreensível senão como encontro faltoso, e que se produz como ao acaso. Normalmente, a realização do desejo no sonho não nos conduz a um real do desejo, mas apenas à fantasia que o recobre com suas roupagens.

Esse lapso do despertar – ao qual Lacan alude remetendo à presença do não expletivo na frase “antes que eu não me desperte”, antes que eu não me reorganize diante de minhas representações, no instante em que ainda estou sob o impacto da batida na porta ou das chamas que a atravessam – poderia ser tomado como um paradigma lacaniano do encontro com o real [reencontre du réel], conforme a tradução dada para a Tiquê de Aristóteles. Instante paradoxal em que se conjugam a certeza do ser inconsciente do sujeito e o ponto de sua evanescência significante.

O que faz a estranheza desse sonho relatado por Freud na abertura do capítulo VII da Traumdeutung é justamente a ruptura entre sonho e fantasia, entre sonho e ficção, entre sonho e disfarce. “O que é que desperta?” – pergunta Lacan. Terá sido a “realidade faltosa que causou a morte da criança”, esse real incontornável? Terá sido o remorso do pai por ter deixado o filho morto ser velado por um homem que não estava à altura de desempenhar tal tarefa?

O encontro faltoso que desperta, e que só pode se dar nessa hiância do sonho que designa o mais-além da realização disfarçada de desejo, é aquele no qual “o desejo se presentifica pela perda imajada no ponto mais cruel do objeto” [Le désir s’y présentifie de la perte imagée au point le plus cruel de l’objet].[7] Trata-se de um encontro para o qual não há representação e que nos faz ver esse sonho como o “avesso da representação”.[8] O prolongamento do sonho, para além desse ponto, só pode conduzir ao despertar, o que nos lembra que a condição de representabilidade que caracteriza o trabalho do sonho, tal como articulado por Freud, não esgota a natureza do inconsciente. “O sonho prosseguido, não é ele, essencialmente, se assim posso dizer, a homenagem à realidade faltosa – a realidade que não pode mais se dar, a não ser se repetindo infinitamente, num infinitamente jamais atingido despertar?”[9]

Retomando então a nossa alegoria, podemos dizer que, nesse sonho paradigmático, o desejo inconsciente se apresenta da forma mais viva, com suas mortalhas em fogo, em chamas, como desejo que desperta. É surpreendente que Lacan tome esse desejo a partir da pulsão, do Trieb, em sua pura dimensão de voz. A condição de sua emergência, como vimos, é o sono do porteiro-vigia que deveria garantir o uso de suas vestimentas, ou seja, de sua mortificação. Tal desejo é incompatível (Unverträglich, diria Freud) com o nosso ser de linguagem. É o puro capital do sonho que nenhum pai empresário poderia recobrir. Tudo isso nos faz concluir que nesse caso, o encontro faltoso só pôde ocorrer porque o vigia caiu no sono, rompendo, assim, o acordo de fronteira entre o desejo de dormir e o desejo que desperta. O desejo indestrutível e atemporal que remete ao nosso ser inconsciente e fora da linguagem irrompe, então, no salão de nosso sono soberano, interpelando-nos: “não vês que estou queimando?”


 

1 Millot, C., A Vida com Lacan. Zahar, Rio de Janeiro, 2017, p. 71-72.
[2] Lacan, J., O Seminário – Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2. ed., J. Zahar d., Rio de Janeiro, 1985, p. 60.
[3] Ibid., p. 61.
[4] Lacan. J., “Prefácio à Edição Inglesa do Seminário 11”, Outros escritos. J. Zahar ed., Rio de Janeiro, 2003, p. 567.
[5] Freud, S. “Conferências Introdutórias à Psicanálise, XIX”, Obras Completas de S. Freud. Imago, Rio de Janeiro, 1969, vol. XVI, p. 347-348. A analogia foi aqui adaptada para o nosso uso.
[6] Lacan, J. O Seminário – Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, op. cit., p. 55.
[7] Ibid., p. 60 [p. 69, Le Séminaire, livre 11 / Poche].
[8] Ibid., p. 61.
[9] Ibid., p. 60.

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