De sonhos e despertares

De sonhos e despertares

Adolfo Ruiz Londoño. “Umbral”. Fotografía. NEL- AMP

Adolfo Ruiz Londoño. “Umbral”. Fotografía. NEL-AMP

Marina Recalde – EOL-AMP

Gosto muitos dos sonhos, talvez porque encontro neles, um ponto indomável que pode se esconder do outro. É como se algo da intimidade mais íntima estivesse fora do alcance. Inclusive do alcance de si mesmo.

São os sonhos que nos outorgam múltiplas possibilidades de ser um e vários ao mesmo tempo, e não ter a obrigação de ficar em qualquer lugar e em nenhum lugar. Isso é algo que se pode constatar no livro Alice nos País das Maravilhas, de Lewis Carroll, completamente onírico, o que há pouco escutei de Silvia Hopenhayn, escritora argentina, que é um livro-antídoto contra a angústia. Bela maneira, também, de definir um sonho: antídoto contra a angústia.

Ela comparou o buraco/cova sem fim onde cai Alice, enquanto vai sonhando e se transformando, com o buraco/cova de Montesinos, lugar onde Dom Quixote foi se refugiar, descendo com uma corda para viver “um dos encantamentos mais belos da história universal”. Ali, teria um belo sonho com a visão da pradaria, castelos de paredes transparentes e Montesinos em pessoa, quem o vai guiando e lhe fala do mago Merlin. Ao sair dali, conta a Sancho. Por isso, essa escritora diz que talvez dessa cova, onde ambos sonham, onde são possíveis essas várias e variadas possibilidades de ser um e muitos ao mesmo tempo, evitem o despertar a todo custo, ali onde alguém se encontra… com o que é. Ou com o que crê ser.

Para essa ocasião, eu gostaria de partir de uma citação preciosa:

Lacan definia a realidade como o fantasma, exceto pelos cinco sentidos. Sonhar com os olhos abertos adquire assim todo seu sentido: define a posição do sujeito na realidade, é a continuação do sonho por outros meios, de sorte tal que aqui a temática do despertar sobe um andar: o despertar cotidiano só se apresenta como a continuação do sonho pelos meios da realidade. O despertar psicanalítico é outra coisa, já que é o despertar do despertar. Isso é fundamental. É um despertar pelo lado do desejo e da satisfação e não pelo lado do horror.[1]

Temos, então, dois estatutos do despertar: o despertar do horror, podemos dizer, o despertar que sucede o pesadelo; e o despertar analítico, que permite um franqueamento tão vivo quanto necessário.

Tomando essa perspectiva, o pesadelo também é um sonho, e obedece “até certo ponto, às leis da produção onírica, mas, a partir desse ponto, os mecanismos do sonho que são, segundo Freud, determinados pelo desejo, se congelam em um impasse de angústia, frente ao qual só resta despertar.”[2] Quer dizer, o desejo deixa de proteger o sonhador e aparece o gozo em toda sua crueza.

Mas também temos outros despertares do sonho, não necessariamente de angústia, mas, muitas vezes, frente a um excesso de prazer, ou despertares justamente ali quando um enigma iria se resolver, ou justo quando uma fórmula iria se revelar… enfim, diferentes apresentações do real frente ao qual, o sujeito também desperta, desprotegido dos mecanismos do sonho. Podemos dizer que desperta frente a esse impasse, insuportável por outros motivos.

Nos testemunhos dos Analistas da Escola, sempre aparece algum sonho. Às vezes muitos, outras vezes poucos, ou quase nada. Mas são elevados a um lugar paradigmático. Esse sonho foi lido e usado de um modo determinado. Outros passam sem pena nem glória. Mas, se consequências são extraídas, é porque tiveram algum uso, alguma interpretação, que os diferenciou dos outros. Às vezes foram sonhos de uma enorme exibição. Quase cinematográficos. Às vezes, sonhos breves, em aparência, menores. Às vezes, sonhos repetidos. Mas, por alguma razão, tiveram um enorme valor que os diferenciou dos outros sonhos. E o sonhador crê neles, como no sintoma.

Aqui algo se constata: esses sonhos do final o permitem. Sonhos do final, sim. Mas isso não quer dizer que esses sonhos e essas leituras não se produzam ao longo da análise, no árduo caminho que leva – quando isso sucede – a concluir.

Momentos fugazes de despertar para continuar dormindo, mas sabendo que esses despertares existiram. Se o sujeito despertar, já não é possível retroceder. Ainda que a neurose, sempre a serviço do desejo de dormir, tente fazer o sujeito entrar na sonolência que o Édipo acarreta. A neurose adormece.

O sonho é, em todo caso, uma formação do inconsciente que também permite tramitar, ou ao menos tenta, o que fazer com esse ponto de indizível, ao qual nenhuma palavra alcança nomear.

Nova cara do sonho; já não aquela que está a serviço do dormir, isto é, a que segue chamando a um S2 para tentar encontrar um outro significante que nomearia o inominável, mas aquela cara que implica um certo despertar e com a qual o sujeito deverá se virar para não tornar a dormir.

É certo que o despertar total e contínuo é impossível. No entanto, essas faíscas fugazes de despertar, quando se alcançam, possibilitam o acesso a esses instantes onde nos livramos dos efeitos de sentido, esses nos quais (inclusive tendo concluído uma análise), continuamos às vezes dormindo, enredados na debilidade mental do sentido que inevitavelmente nos pega.

Tradução: Gustavo Ramos

 

1 Miller, J.-A., “Despertar”, em Matemas 1, Manantial, Buenos Aires, 1987, p. 120.
[2] Barros, Romildo do Rego, “O pesadelo, entre sonho e angústia”, Opção Lacaniana N° 11, EBP, 1994.

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