Despertar do pesadelo

Despertar do pesadelo

Thereza Salazar. Aventura de los cuerpos” Proyecto Vitrina. Recorte en fieltro y adhesivo.São Paulo.

Thereza Salazar. “Aventura dos Corpos”. Projeto Vitrine. Recorte em feltro e vinil adesivo. São Paulo.

Joaquín Carrasco – Associado da NEL
Integrante do Observatório #2 – Legislação, Direitos, Subjetividades Contemporâneas e Psicanálise

A inserção de analistas em instituições de saúde pública implica o desafio de constituir um lugar para o discurso analítico, ali onde imperam outros discursos. Trata-se de uma aposta constante para sustentar uma prática orientada pelos princípios e pela ética da psicanálise. Exemplo disso são os espaços institucionais criados para tratar os efeitos de acontecimentos que adquirem um caráter traumático. Estes dispositivos geralmente acolhem sujeitos que padecem da impossibilidade de esquecer uma situação traumática que, em alguns casos, retorna por meio de pesadelos repetitivos.

Desde a origem da psicanálise, os sonhos foram uma via de investigação e material fecundo para os tratamentos. Um capítulo especial merece o sonho traumático, enquanto nos ensina sobre a neurose traumática e, mais além das estruturas, sobre o fenômeno do despertar. O que podemos extrair como ensino acerca do sonho traumático que se torna pesadelo, com relação ao despertar? Qual orientação nos oferece para a prática com sujeitos que padecem com a insistência do trauma?

Ao indagar aquelas tendências que contradizem o princípio do prazer, Freud recorre aos sonhos traumáticos para se perguntar se seria possível tratar-se de uma realização de desejo. É interessante o lugar que outorga ao sonho e ao sonho traumático em particular: “O estudo dos sonhos pode ser considerado o método mais digno de confiança na investigação de procesos mentais profundos. Ora, os sonhos que ocorrem nas neuroses traumáticas possuem a característica de, repetidamente, trazer o paciente de volta à situação de seu acidente, numa situação da qual acorda em outro susto.”[1] Destacaria que esta fixação, que aparece no sonho traumático, ao reconduzir o sujeito ao momento do trauma, não vai na linha do desejo. O reencontro com o traumático pode se tornar um pesadelo que perturba o dormir, podendo levar, em alguns casos, a uma insônia severa. Este é um dos fenômenos mais claros e insistentes entre aqueles que consultam por não encontrar um modo de lidar com o retorno do traumático.

Para situar o despertar, Lacan retoma o efeito de perturbação que o real produz no princípio do prazer. Para isso, faz referência à noção de tyché: “Nós a traduzimos como o encontro com o real. O real está para além do automaton, do retorno, da volta, da insistência dos signos, aos quais nos vemos comandados pelo princípio do prazer. O real é o que vige sempre por trás do automaton.”[2] Cabe recordar que, para Lacan, a função da tyché como encontro com o real, apresentou-se pela primeira vez para a psicanálise, sob a forma do trauma. Então, por trás do automaton, por trás do princípio do prazer, encontramos esse real inassimilável do trauma.

Se consideramos que “a função do sonho é prolongar o sono”[3], o pesadelo vem justamente perturbar o véu que recobre o real, o qual se apresenta provocando o despertar. Consequentemente, estão relacionados o sonho com o dormir e o real com o despertar. O que desperta no pesadelo é o encontro com o real, um despertar que permite, no melhor dos casos, voltar a sonhar.

Sobre as possíveis orientações para o tratamento do traumático, podemos situar um trânsito que vai desde o despertar persistente até um restabelecimento do sonho que permite sustentar o dormir. Encontramos esta direção no caso “O fio da vida”[4], apresentado por Araceli Fuentes, em uma Conversação Clínica em Barcelona. Trata-se de uma mulher que a consulta logo após os atentados de 11 de março, em Madrid. Na perspectiva da psicanálise, sabemos da importância da distinção entre um evento dramático e um acontecimento traumático. Não basta assinalar um fato socialmente terrível, como é um atentado, mas é necessário precisar o que do fato chega a produzir um traumatismo para um corpo falante, no singular.

O analista localiza com precisão, o momento em que se produz o trauma: ocorrido o atentado, a mulher saiu correndo e cruzou com um homem que, estando no chão, olhou-a “como um Cristo estendido”. Não ter estado à altura do ideal transmitido pelo pai (ajudar os feridos), faz com que este evento implique em um encontro com o real. Além da angústia e do sentimento de culpa, começou a ter sonhos em que se encontrava, uma e outra vez, com o olhar do “Cristo estendido”. Neste contexto, chega ao analista.

Com o transcurso das sessões, se instala a transferência, o que levará à produção de outro tipo de sonho. Este ponto é fundamental para pensar o sonho como indicador da posta em marcha do inconsciente transferencial, ponto de abertura para a produção e possível leitura de um sujeito. O real começa a velar-se por meio dos sonhos que convidam a um deciframento. Retomando as palavras do analista: “A restituição da trama do sentido e da inscrição do trauma na particularidade inconsciente do sujeito é curativa”.[5] O sonho que reconduz à situação traumática cessa. A construção do caso nos ensina sobre a clínica do trauma e as mudanças que têm um correlato nos sonhos.

O despertar do pesadelo mostra o insuportável do encontro com o real. Se temos o real que desperta, por outro lado temos o sonho comum – ou seja, esta formação do inconsciente que permite continuar dormindo – e aquilo que denominamos realidade. Em ambos os casos, trata-se de construções simbólico-imaginárias que se constituem como uma defesa contra o real. Portanto, a realidade só pode ser realidade fantasmática. Podemos pensar o despertar como um esforço para voltar a dormir na realidade, como outra maneira de defesa contra o real. Outro problema se produz quando dita realidade também é perturbada pelo retorno constante do real.

A aposta do analista está em um tratamento do trauma por meio da instalação do inconsciente transferencial, um tratamento do real através do restabelecimento da homeostase subjetivante que proporciona o inconsciente. Em outras palavras, construir um tecido simbólico-imaginário que permita bordear, velar esse real e, com isso, voltar a dormir, tanto no sonho comum como na realidade fantasmática de cada um.

Agora, se uma análise orientada pelo real inspira o “forte desejo de despertar”[6], como fazer para que o voltar a dormir não derive em um adormecimento perpétuo?

Tradução: Fred Stapazzoli

 

1 Freud, S., “Além do principio de prazer” (1920), Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. V. XVIII, Imago, Rio de Janeiro:  1996, p. 24.
[2] Lacan, J., O seminário, livro 11, Os quatro conceitos  fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.  p. 56.
[3] Ibid., p. 59.
[4] Fuentes, A., “El hilo de la vida”. En Miller, J.-A. y otros, Efectos terapéuticos rápidos (2009), Paidós, Buenos Aires, 2009.
[5] Ibid., p. 21.
[6] Miller, J.-A., “Despertar”. En Matemas I. (1987). Manantial, Buenos Aires, 1987, p. 117.

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