O impossível do sonho: resposta de Lacan a M. Ritter

O impossível do sonho: resposta de Lacan a M. Ritter

Thereza Salazar. “Gesto II”, 2012. Recorte en madera, tinta industrial. São Paulo.

Thereza Salazar. “Gesto II”, 2012, recorte em madeira, tinta industrial. São Paulo.

Alma Pérez Abella –  EOL-AMP

Perspectiva em Freud

Sonhamos, queiramos ou não. Sonhamos para nos explicarmos o horror, para tecer sobre o indizível; por isso todas as culturas, em todos os tempos, deram um lugar aos sonhos. A novidade de Freud é que, desde o começo de suas investigações, utiliza os sonhos como via de acesso ao inconsciente. Nesse caminho, rapidamente tropeça com certo limite, limite a partir do qual, não se pode avançar mais, ponto no qual a interpretação se detém. O nome que ele deu a esse lugar inacessível foi o “umbigo do sonho”.

Em seus textos, podemos encontrar duas menções ao umbigo do sonho. A primeira, em uma nota de rodapé no sonho “A injeção de Irma”;[1] a segunda referência, a encontramos no apêndice “O esquecimento dos sonhos”, onde diz que o umbigo do sonho “é o lugar no qual ele se assenta no não conhecido”.[2] A partir do que menciona nesses textos, é possível recortar três questões: o umbigo do sonho se trata de um ponto insondável, um lugar onde se detém o sentido ou, mais especificamente, toda possibilidade de dar sentido, e é o ponto onde o sonho está mais perto do Unerkannte, do não-reconhecido.

Pergunta de Marcel Ritter 

Marcel Ritter integrava um cartel dedicado à leitura e investigação do texto “A interpretação dos sonhos”, de Freud. Em janeiro de 1975, realiza-se en Estrasburgo, uma jornada de trabalhos de cartéis. É no marco desta atividade, que Ritter intervém em relação ao termo freudiano “Das Unerkannte”, o qual é possível traduzir como “o não-reconhecido”, e que se articula ao que aparece em Freud, como o “umbigo do sonho”. A pergunta que M. Ritter realiza à J. Lacan é extensa e complexa. Trata-se de uma pergunta que é possível dividir em três partes, as quais, certamente, relacionam-se entre si:

1 – Neste não-reconhecido, podemos ver o real não simbolizado?

2 – De que real se trata? É o real pulsional?

3 – Que relações há entre este real e o desejo, já que Freud articula o umbigo do sonho com o desejo?

Resposta de Lacan

Lacan, fiel a seu estilo, dá uma resposta a partir da qual se podem extrair múltiplas questões a investigar e resulta duplamente complexa, se não é lida à luz desse momento preciso de seu ensino. Na continuação, tentarei extrair da resposta geral que dá Lacan, aqueles fios que nos permitam armar respostas para cada uma das perguntas enunciadas. Também recorro a outros textos – de Freud e Lacan – que me permitem elucidar algumas questões sobre o tema.

1 – Neste não-reconhecido, podemos ver o real não simbolizado?

O impossível do sonho em Freud é equivalente ao que, desde a perspectiva de Lacan, pode se situar como o impossível de todo discurso, quer dizer, o que não se pode dizer de nenhuma maneira. Isso é o que corresponde ao real não simbolizado. É preciso ter presente que nessa mesma época, Lacan estava ditando seu Seminário RSI (1974-75), momento em que define o real – servindo-se das categorias modais – e o real fica do lado do impossível.

Se fizermos uma leitura do umbigo do sonho como limite do dizível, tal como desenvolve Freud em seus textos, e seguindo a leitura de Lacan, quer dizer, como encontro com um impossível, podemos afirmar que isto supõe, necessariamente, consequências clínicas, especialmente no que se refere à direção da cura. E Lacan explicita claramente ao afirmar que “é um furo, é algo que é o limite da análise. Isto tem, evidentemente, algo a ver com o real”.[3] O que encontra um limite é a análise via a interpretação, a análise freudiana que se baseia na associação de sentidos, o que não equivale a chegar ao final da análise. A partir do encontro com o impossível de dizer, abre-se outra perspectiva da análise, onde o real estará em primeiro plano.

2 – De que real se trata? É o real pulsional?

“Há um real pulsional. Mas, há um real pulsional unicamente enquanto o real é o que, na pulsão, reduzo à função de furo”.[4] É possível elucidar que, por um lado, refere-se ao furo no simbólico, mas, por sua vez, há outro ponto de impossibilidade ligado ao pulsional, a essas marcas que aparecem no corpo. Este seria um real que não cessa de não se escrever. Aí não há nada mais para extrair e é o que Freud designa quando fala do umbigo do sonho.

Freud, quando alude ao recalque primordial, afirma que há certo grupo de representações às quais é denegada a admissão no consciente e se estabelece uma fixação da pulsão a esse núcleo.[5] Lacan afirma que “é aí que não se compreende nada. Não há nenhum meio de esticar mais a corda, a não ser para rompê-la. De modo que isto designa uma analogia, totalmente análoga ao que acabam de designar como o real pulsional. Ao nível do simbólico, está aí enodado, não mais sob a forma de um orifício, mas de um fechamento. (…) é isto que permite a analogia entre este nó (umbigo) e o orifício. É um orifício que se enodou (bouclé).[6] Isto supõe que o significante, a entrada no simbólico inaugura um corpo que, por estrutura, estará esburacado por esses “orifícios que se enodam”, apoiados sobre aquilo que será para sempre, inacessível. O resto deste enodamento é um corpo com seus orifícios e paixões que terão que se haver com o real que não cessa, o pulsional.

3 – Que relações há entre este real e o desejo, já que Freud articula o umbigo do sonho com o desejo?

Em função do mencionado anteriormente, podemos afirmar que será a partir daquilo que é inacessível e faz marca, que se produz a entrada em um corpo pulsional. Um corpo habitado pela linguagem e a pulsão. E com a entrada da linguagem, caminham os avatares do desejo.

Até o final de seu ensino, Lacan começa a falar de parlêtre. Em sua resposta à Ritter, diz que este parlêtre é “o que aparece como outra designação do inconsciente, é de haver nascido de um ser que o tenha ou não desejado, mas que por este único fato, o situa, de certa maneira, na linguagem, que um parlêtre se encontra excluído de sua própria origem. A audácia de Freud nesta ocasião é, simplesmente, dizer que se tem em algum lugar, a marca no sonho mesmo. A marca daquilo que foi excluído do recalque primordial, ponto de onde sai o fio, mas também é um ponto fechado, a que não se acede, que deixa marcas no corpo”.[7] Ele o nomeia de “cicatriz”. Lugar que para o campo da palavra é impossível. Impossível de reconhecer. Não se pode nem dizer nem escrever.

No Seminário RSI, afirma que “o inconsciente ex-siste ao corpo; se há uma coisa impressionante é que ex-siste na discórdia. O inconsciente é discordante.[8] A discordância, o desencontro, parecem estar dados entre a linguagem enodada ao desejo e o que sucede ao nível do corpo. Então, por um lado, está “o recalcado primordial”, que não tem existência enquanto fica como algo completamente inacessível, mas que cumpre a função de possibilitar, fundar, a entrada na linguagem, o desejo e o inconsciente. Mas também está o corpo, o lugar da “cicatriz”. Corpo que supõe um real pulsional que não é recalcado.

Aparece o umbigo do sonho como índice do limite da escritura e, ao mesmo tempo, como sua condição; limite em um ponto preciso no qual aparece articulado ao desejo, do qual Freud nos diz que opera como o micélio do cogumelo. Lacan articula o desejo ao objeto, tal como o define no Seminário 10, e afirma que o desejo de um ser falante – parlêtre  encontra sua razão e sua consistência na linguagem mesma. O desejo se enoda ao dizer, à incorporação da estrutura da linguagem, da qual surge o desejo, sempre inconsciente.

“Esta relação ao inconsciente, não há nenhuma razão para não concebê-la como o faz Freud: que tem um umbigo. Quer dizer que há coisas que estão para sempre fechadas em seu inconsciente”.[9][9] Isto o leva a formular que haveria um estatuto do inconsciente diferente ao inconsciente freudiano, esse que demanda ser decifrado, que é possível de reconhecer e pegar pelo simbólico e imaginário. Pelo contrário, aqui formula que se trataria de um inconsciente que cifra. Um inconsciente real.

Tradução: Mª Cristina Maia Fernandes

 

1 Freud, S., (1900) “El método de la interpretación de los sueños. Análisis de un sueño paradigmático”. Obras completas, V. IV, Amorrortu Editores, Buenos Aires, 1976-1988, p. 132.
[2] Freud, S., (1900-01) “El olvido de los sueños”, Obras completas, V.V, Amorrortu Editores, Buenos Aires, 1976-1988, p. 519.
[3] Lacan, J.; Ritter, M. (1975) Resposta de Lacan a uma pergunta de Marcel Ritter. 26 de janeiro de 1975, Strasbourg. Inédito.
[4] Ídem.
[5] Freud, S.,  (1915) La represión. Obras completas, V. XIV, Amorrortu Editores, Buenos Aires, 1976-1988, pp. 141-152.
[6] Lacan, J.; Ritter, M. (1975) Resposta de Lacan a uma pergunta de Marcel Ritter, op. cit.
[7] Ibíd
[8] Lacan, J., (1975-76) Seminário 22 “RSI”, aula de 21 de janeiro de 1975, Inédito.
[9] Lacan, J.; Ritter, M. (1975) Resposta de Lacan a uma pergunta de Marcel Ritter, op. cit.

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