O insensato do sonho

O insensato do sonho

“Espejo” Img.free.

“Espelho” Img.free.

Diana Wolodarsky – EOL-AMP

 Aconteceu este ano, uma mostra muito atrativa e convocadora no MALBA (Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires), do artista plástico Leandro Erlich.

Poucas vezes um artista  pôde atravessar o interesse da diversidade de gerações: adultos, jovens e crianças faziam longas filas de espera para entrar. Ninguém deixava de lado seu interesse em aceder a essa magia.

O traço que o caracteriza em suas mostras é o de saber produzir um efeito de despertar, muito característico em sua obra. Vale-se, para isso, de estudos óticos, matemáticos e de perspectivas geométricas. Todos introduzem um elemento discordante que surpreende o espectador.

Poderia se considerar um trompe l’oeil, mas é muito mais que isso.

É um efeito de ilusão de ótica em objetos ou situações de uso cotidiano, que apontam para o insensato.

Nada é o que parece.

Obriga o olho que olha a ver além daquilo que se dá a ver.

Emblemáticos dessa obra são os jogos de espelhos e vazios postos em série.

Em consequência, quem passa, se depara com espelhos que refletem a própria imagem e com outros em que está um vazio.

O oco marcado surpreende quem se olha nos espelhos, já que ali onde se espera encontrar com sua imagem refletida, se apresenta subitamente um estranho, a quem, por sua vez, se encontra de visita do outro lado do marco vazio que simulava ser espelho. Ambos os olhares encontram-se com o estranho inesperado em seu passeio.

A surpresa do encontro com esse reverso do espelho é muito divertida.

O efeito é de sobressalto, de despertar. Entre o júbilo e um efeito um pouco sinistro.

O que do sonho desperta

Uma morte próxima confronta um sujeito com a dor da perda, mas fundamentalmente com o que essa morte indica do sujeito: o caráter aditivo de uma prática solitária, na qual a pulsão se desata, não afetando tanto o laço social nem o espaço familiar.

Tenta dominá-la, ao modo freudiano, mas torna-se uma tarefa impossível que é interpretada pelo sujeito como impotência.

Muito emocionado, relata seu sonho: estou parado em frente à cama. Vejo caminhando sobre a mesma, uma pequena aranha; à medida que me aproximo e penso o que fazer com ela, a aranha fica cada vez maior. Quando chego a agarrá-la, a aranha está enorme e me pica um dedo. A mão começa a escurecer e disolver-se. Desperta angustiado e agitado.

“Não sei como parar!

Se continuo assim, vou terminar como meu amigo, morto.

Não posso parar”.

O analista somente dirá (invocando um dito conhecido): Isso… Que bicho te picou!

O pesadelo e o corte abrem uma via pela qual, assentado sobre o inconsciente transferencial, o sujeito cede a consentir a dimensão da perda, abrindo algum caminho para o inconsciente real.

Que bicho te picou! permite tirar o sujeito de seu discurso moral e culpado para consentir ao analítico, no qual a implicação e a responsabilidade do sujeito tomam a dianteira em relação ao programa de gozo.

Como no jogo de espelhos, o sujeito já não se encontra especularizado na imagen de seu amigo, mas a aranha e a consequência da picada o alentam na dimensão de um desejo de saber.

O relato vazio e anedótico dá lugar a que, na proposição ‘Que bicho te picou!’, se vá marcando a pergunta sobre seu gozo.

Sustentado na transferência, o inconsciente se pôs em marcha e consente à interpretação, localizando que seguir a brincadeira com a pulsão não é divertido. Sua vida está em jogo.

Agora o marco vazio reflete um gozo sem Outro e ilumina sua vertente opaca.

Poderíamos dizer que o pesadelo e a interpretação não só movem o programa de gozo, como também permitem passar do decifrado ao cifrado do inconsciente. A uma contabilidade de gozo.

Quantas picadas mais terá a chance de contar, se não se intervem sobre o circuito pusional?

O analista fica à espera do dizer do analisante para localizar que não apenas no sonho está a aranha, mas também… uma cama.

Em Rebus#07, Éric Laurent e M.-H. Brousse apontam o que se acrescenta de novo à interpretação, o fato de considerar o inconsciente real.[1]

Laurent localiza a presença de gozo no que não pode se articular nos caminhos do desejo. “Tudo o que é franqueamento, alteração, perda de homeostase, é despertar. Um fora de sentido no sonho.”

Ou como entendo o colocado por M.-H. Brousse: sonho e interpretação são equivalentes.

1) O sonho é interpretável (deciframento)

2) O sonho interpreta: é seu lado de umbigo.

Interpreta o traumatismo inaugural.

Atualidade do uso dos sonhos

Não há dúvida de que o sonho segue sendo uma via régia para o inconsciente e que ainda hoje continua dando o que falar aos analisantes.

O inconsciente e a interpretação lacaniana, na medida em que apontam ao gozo, ao objeto e à pulsão,  dão acesso a esse outro lado do desejo.

Já não se trata da harmonia especular do desejo, senão, antes, da surpresa do que de real se intromete na homesotase do sonhar desperto.

Sonhar desperto o sonho do fantasma se diferencia do despertar do gozo no dormir.

Aí, uma pitada de real aparece.

Tradução: Ruskaya Maia

[1] Cfr. Rebus, El news de Congreso, #07, https://vo.mydplr.com/5b7595dbc203dc144234799431543c63-2bdbe47adee2b6d19b0741456b6d6b97

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