O sonho do Mont-Blanc*

O sonho do Mont-Blanc*

Mónica Biaggio. “Nu”. Pastel sobre papel 1,20 por 0,80 2019. EOL AMP.

Mónica Biaggio. “Nu”. Pastel sobre papel 1,20 por 0,80 2019. EOL AMP.

Ludmila Malischevski – EOL-AMP

Em 1975, por ocasião de uma supervisão pública em Genebra, Lacan supervisiona um caso em que ensina a ler um sonho. Trata-se de uma paciente feminista de 31 anos, que está há dois anos em análise, e seu analista. Nicos Nicolaidis se pergunta especialmente pelo que ocorre no décimo oitavo mês. A paciente sofre de insônia, “passa as noites em branco” e quer responsabilizar alguém por isso. Mostra-se agressiva com seu analista, com seu marido e com seu amante. Desde as primeiras entrevistas, informa a Nicos, que ela tem um segredo, uma “fantasia privada”, que nunca lhe contará…

Dezessete meses mais tarde e, como resposta a uma interpretação do analista, chegará à revelação. O analista lhe havia comunicado que ela padecia de insônia por temor a ter sonhos desagradáveis, excitantes ou agressivos. Ao contrário, seu segredo secreto consiste em uma insônia que a excita, uma fantasia sexual que ela reproduzia em sua cabeça ao modo de um sonífero: “Quando tenho insônia, para conseguir dormir, imagino o seguinte: pertenço a um clube de mulheres e para ser membro desse clube, é preciso ser jovem e bela. Sou admitida (…) estou aí, sobretudo, como espectador. As mulheres circulam nuas ou seminuas de maneira provocativa, (…) tenho a necessidade de dinheiro para comprar um objeto que não necessito ou vestidos de luxo. Faço amor com uma mulher mais velha que eu, (…) habitualmente, durmo antes de fazer amor com essa mulher mais velha”. [1]

Lacan escuta o relato da insônia, porém não se deixa levar por ele; seu ronroneio adormece. E formula então, uma pergunta que orienta o praticante: que sonhos ela produz, uma vez adormecida?

Com efeito, a paciente traz um sonho que lhe desperta nojo: “Olho a paisagem de Genebra (…), está claro como em um cliché, como em um slide, porém falta algo, o Mont-Blanc e, de repente, no lugar do Mont-Blanc há um enorme falo[2]. Zangada, exclama que esse sonho grotesco não lhe pertence, que é parte dos clichés psicanalíticos de seu analista e que, de nenhuma maneira, crê nele. O sonho lhe resulta estranho e a provoca.

Frente ao desdém que a sonhadora imprime ao sonho, Lacan se pergunta sobre um modo possível de intervenção. E diz: “há um reconhecimento evidente do que as pessoas do Movimento de Liberação das Mulheres (MLF: Mouvement de libération des femmes) chamam “falocracia”, que é difícil de desconhecer. É totalmente inútil lhe sublinhar o sentido tão evidente de seu sonho; “por que diabos você conta esse sonho, se você mesma disse que não é seu”?”. Você poderia ter tentado aproximar-se da questão e a expressão “não é seu” é exatamente o que ela disse, posto que, no sonho, ela sabe que sonha… e é o inconsciente que fala. É quiçá pela direção do Mont-Blanc, por onde você poderia haver conseguido algo… há ali um branco”.[3] Deste modo, põe em relevo um significante fundamental, “branco”, capaz de fazer “clic” e despertar o sujeito. E agrega que o que ela designa como falo, é um enorme órgão que tampona o horizonte. Quanto ao “falo é sua acolhida, sua abertura, sua capacidade de admitir outra coisa, é a autonomia à qual se a ferra e não precisamente o órgão macho!” [4]

Lacan interpreta

Pois bem, a que aponta essa interpretação? A decifrar a mensagem cifrada no sonho? Quer dizer, a ler a partitura subjetiva, cujo correlato é o inconsciente entendido como o capítulo censurado da história do sujeito, aquele marcado por um branco ou ocupado por um embuste? Nesse sentido, a interpretação é então, a ponte que conecta esse capítulo com os que o marcam, restabelecendo a exegese do sujeito e desvelando uma verdade escrita no sintoma: a insônia e suas noites em branco.

Ou melhor, como assinala Miller em “A interpretação ao avesso”, trata-se de ir contra a interpretação que o sonho veicula?

Esta interpretação se fundamenta na via da perplexidade, enquanto seu deciframento não dá sentido e põe de manifesto, a presença do significante sozinho, cifra separada dos efeitos de significação, enigmática, e que supõe “um verdadeiro despertar para o sujeito”.[5] É solidária do inconsciente que implica “(…) um saber, uma habilidade, um savoir-faire com a língua”.[6] Inconsciente que se caracteriza por saber fazer metáforas: cifras equívocas, as quais cifram seu gozo. Em consequência, um sonho é uma interpretação que está montada sobre um tropeço. O guardião de dormir, a serviço do princípio do prazer, agrega um sentido a este tropeço, ao encontro falido com o real que está em sua causa. Portanto, se o sonho agrega um S2 a um S1, a interpretação que se impõe é o seu avesso, já que separa o sentido, desarmando o que o sonho pretende integrar.

Para concluir, se uma interpretação se mede por seus efeitos, ao se tratar de uma supervisão, nesse caso não o saberemos, é possível elucidar seus movimentos analíticos. Nessa perspectiva, considero que se Lacan propõe intervir sobre o Blanc, isolar esse significante, é porque seu efeito de enigma fugaz poderia haver despejado o horizonte do falo. E, inclusive, despregar sua virtude alusiva apontando, ao modo do dedo levantado do São João de Leonardo, ao horizonte desabitado do ser.

“É uma intervenção mínima, sem alardes, decididamente anti-espetacular: como as jogadas mais elegantes do xadrez, mobiliza um mínimo de forças para obter um máximo de efeitos e, nesse sentido poderia ser o paradigma absoluto de estilo: mudar o mundo, tocando-lhe apenas uma vírgula. E é uma interpretação ligeiramente criminosa…”[7]

Tradução: Cassandra Dias Farias 
*Lacan, J., Documento sobre el control. Ginebra. (1975). Existe uma versão em francês publicada no livro : “Alphabet et psychanalyse suivi de : Une séance de supervision avec 2. Jacques Lacan” de Nicos Nicolaidis.

1 .Lacan, J., O Seminário, Livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964), Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1988
[2] Lacan, J. “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”. In Escritos , Jorge Zahar Editor , Rio de Janeiro, 1998
[3] Lacan, J. “A direção do tratamento e os princípios do seu poder”. In Escritos. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1998.
[4] Lacan, J., O Seminário, livro 20, mais, ainda. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1982.
[5] Miller, J.-A. “La interpretación al revés”. Entonces Shhh. Eolia, Buenos Aires, 1996.
[6] Aramburu, J., “El deseo del analista”. Tres Haches, Buenos Aires, 2000.
[7] Pauls, A. “El factor Borges”. Anagrama, Barcelona, 2004.

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