O sonho: um despertar possível

O sonho: um despertar possível

Gabriela Melluso. Sin titulo. Fotografía. Psicoanalista. Argentina

Gabriela Melluso. “Sem título”. Fotografia. Psicanalista. Argentina

Andrea B. Perazzo – EOL-AMP

Apresentação

Estamos a menos de oito meses do acontecimento tão esperado por toda a AMP. Na semana de 13 a 17 de abril de 2020, no Hotel Hilton de Porto Madero da cidade de Buenos Aires, terá lugar nosso XII Congresso da Associação Mundial de Psicanálise, sob a direção de Silvia Baudini e Fabián Naparstek, acompanhados por uma Comissão Organizadora, que trabalha incessantemente e da qual tenho o prazer de fazer parte.

Um Congresso é um Acontecimento, clínico, político e epistêmico, que se realiza a cada dois anos, entre a Europa e a América, reunindo os membros das sete Escolas da AMP, em torno de um tema a trabalhar.

Desta vez, O sonho. Sua interpretação e seu uso no tratamento lacaniano, tema que despertou e foi recebido com muito entusiasmo, já que nos diz respeito como analisantes, sonhamos e queremos contar os sonhos, e como analistas, ao estar presente em nossa prática diária.

O leit motiv neste Congresso é “expor nossa prática a céu aberto”. Que lugar damos ao sonho, ao seu uso? O que nos ensina cada caso? O ato do analista e o controle implicado ali, não faltarão nas apresentações.

Congresso, com uma particularidade, gesta-se em um novo momento, no contexto o qual Jacques-Alain Miller (2017) denominou Campo freudiano Ano Zero. “Tudo recomeça, sem ser destruído, para ser levado a um nível superior”. Angelina Harari sublinhava na primeira noite preparatória, Noite do Argumento; queo tema do Congresso implica um retorno a Freud, às origens da Psicanálise, para nos orientarmos melhor, a partir da Orientação Lacaniana”.

Para introduzi-los no tema, como ponto de partida,  recomendo-lhes visitar a página web do Congresso https://congresoamp2020.com. Uma vez ali, podem mergulhar na leitura do precioso e trabalhado Argumento, junto aos Textos de Orientação, a aula de Jacques-Alain Miller de 11 de maio de 2011 e os textos das leituras singulares do Argumento que apresentaram na Primeira Noite preparatória do Congresso, Angelina Harari, Presidente da AMP, Jesus Santiago, Secretário AMP, Ram Mandil, Silvia Salman e Manuel Zlotnik. Vocês podem continuar pelos trabalhados Papers e não deixarem de incursionar nas novidades das seções de Lecturas, Oniria, Vigilia, que sem dúvida os manterão despertos e no tema.

Vozes, faíscas de despertar

Da leitura do Argumento e da primeira Noite Preparatória, permaneceram ressonâncias de algumas vozes que produziram interrogantes “faíscas de despertar”, sobre as quais, decidi não ser indiferente. Colocar a trabalho o que não se sabe e quando se acompanha de entusiasmo, o que não se reduz somente a ter vontade e, sim, ao afeto adequado para um bom acesso ao saber. Disso, surge um Cartel, que resulta num bom encontro que vivifica a experiência de Escola. Nesta oportunidade, desejo de saber e transferência de trabalho se enodaram em um cartel interEscolas, com membros de diferentes países.

Algumas das Ressonâncias

Na epígrafe do Argumento, encontramos que os sonhos de Freud estão inspirados no desejo de dormir e os sonhos de Lacan, no desejo de despertar[1], que diferencia a prática lacaniana da freudiana?

A última tese de Lacan sobre o despertar refere que só despertarmos para seguir sonhando, não há despertar absoluto. Que para nossa prática? Como fazer do sonho um instrumento de despertar?

O uso do sonho em um tratamento que começa, em um que dura e outro que se conclui é o mesmo, ou se altera desde o lugar de onde se lê?

Diferenciar os sonhos de deciframento que chamam o Outro, dos sonhos conclusivos, que escrevem o modo próprio de concluir a análise, uma a uma, nos leva ao binário Inconsciente transferencial e Inconsciente real, adquirindo um lugar central, os testemunhos dos AE. Quanto aos sonhos conclusivos, seriam sonhos que despertam?

Umbigo do sonho, limite à interpretação e despertar com as interrupções, eixo fundamental para trabalhar sonho e Inconsciente real.

O uso que fazemos do sonho na prática, dependerá da hipótese que tenhamos do Inconsciente. Não é a mesma coisa se consideramos o Inconsciente do lado do significante, como ancoragem em outro significante, ponto de basta ou, por outro lado, se tomamos o Inconsciente em sua materialidade, como depósito de S1 soltos, enxame de S1, em seu valor de letra. Saber ler de outro modo.

Pergunta que orienta meu trabalho de cartel, faísca que se torna traço: em Freud, os sonhos com sua interpretação, uma via régia ao inconsciente; em Lacan, o sonho como via régia para acessar ao Inconsciente real? Ou o sonho como via régia para conhecer sua lei?4

Convite

Uma apresentação é ainda mais interessante se acompanhada de um convite, já que esta última sugere abrir a porta para alguém que faça algo. É a oportunidade para convidá-los para as noites preparatórias do Congresso, já que talvez ali e visitando a página web do Congresso, ressoe alguma voz, dessas que provocam uma ruptura no saber e, no lugar de se deixar levar pelo adormecimento, decidam tomar a ocasião pelos cabelos escolhendo fazer passar essa pergunta pela experiência de cartel, fazendo “uso” do que mais lhes convier: cartéis ampliados, fulgurantes, clínicos, cartéis interestaduais, interEscolas. Um bom lugar para o laço à Escola e, por que não, ao Congresso. Não é esta a posição analisante, necessária e conveniente à formação do analista?

Fica por ser feito o convite mais importante, a “fazer a experiência Congresso”. Em um Congresso acontecem coisas e, geralmente, com efeitos muito bons. Aconteça o que acontecer, há que estar ali em corpo presente e, para isso, é necessário inscrever-se! Esperamos vocês! As inscrições estão abertas e em breve estarão abertas para os não membros, data que será publicada.

Desejamos que este Congresso nos permita encontrar algumas respostas às perguntas suscitadas do trabalho que vimos realizando, extraindo os ensinamentos valiosos das exposições de nossa prática. Vamos da prática à teoria.  Fica muito por aprender sobre o sonho.

 

Quero compartilhar com vocês, uma voz, onde ressoa este par que faz o despertar com o dormir, nesta oportunidade pela mão de Roberto Juarroz5:

 

Não deveria ser possível

Dormir sem ter perto

Uma voz para poder

Despertar

 

Não deveria ser possível

Dormir sem ter perto

A própria voz para poder

Despertar

 

Não deveria ser possível

Dormir sem despertar

No momento justo em que o

Sonho encontra

com esses olhos abertos

Que já não necessitam mais dormir

Tradução: Ana Beatriz Zimmermann Guimarães

 

1 Miller, J-A, (2017) “Campo freudiano, Ano Zero”, Lacan Quotidien 718 (seleção de artigos), 2017.
2 Harari, Angelina “A diferença absoluta do sonho”, texto apresentado na primeira noite preparatória do XII Congresso de la AMP, Noite do Argumento. Publicado neste número.
3 Baudini, Silvia y Naparstek Fabián.  Argumento do XII Congresso da AMP “O Sonho.  Sua interpretação e seu uso no tratamento lacanianao” https://congresoamp2020.com
4 Lacan, Jacques.  Radiofonia. In:  Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,  2003. p.
5 Juarroz, Roberto. “Não é possível”, 46 de Poesia Vertical (1958) https://www.poesi.as

Comentários estão fechados.