Sonho e despertar: fronteira ou vizinhança?

Sonho e despertar: fronteira ou vizinhança?

Graciela Allende. “Borde”. Fotografía. EOL-AMP

Graciela Allende. “Borda”. Fotografia. EOL AMP.

Manuel  Zlotnik – EOL-AMP

O tema para pensar é a relação entre sonho e despertar, uma relação que nem sempre é a mesma. Por um lado, indica uma oposição, quando Lacan sustenta que nos despertamos de um sonho para logo continuar dormindo, despertamo-nos para voltar a uma realidade na qual seguimos sonhando.[1]

Desde esta perspectiva, sonhar se opõe a despertar. O sonhar está mais ligado ao acalento do simbólico e seus sentidos, quer dizer, o inconsciente intérprete que, com seu ciframento, já realiza uma interpretação selvagem; ao contrário, o despertar está mais ligado ao real que não engana, umbigo do sonho impossível de interpretar. No fundo, estamos falando da conhecida oposição entre inconsciente transferencial e inconsciente real.

A pergunta que podemos formular é se esta oposição é excludente ou se, em algum ponto, pode haver uma conjunção. O tema, tal como se defende no argumento do Congresso, pode sugerir esta segunda opção: “O sonho e seu despertar”… nos dá a ideia de que, do mesmo sonho, surge um despertar. Seguindo esta orientação, então, necessariamente, não haveria fronteira entre sonho e despertar, mas sim, vizinhança; poderíamos pensar numa espécie de litoral entre o sonho e o despertar.

J.-A. Miller, ao comentar o testemunho de Bernardino Horne, relaciona o despertar com a noção de relâmpago.[2]

Heráclito é quem introduz a noção de relâmpago, mais precisamente no fragmento 64: “Mas o relâmpago governa a totalidade do mundo”. Segundo os filósofos, esta frase expressa uma relação de muitas coisas com o Um do relâmpago, no que a descarga do relâmpago resplandece o muito de “todos”[3], e propõem o relâmpago em sua momentaneidade e não como permanência, no simples resplendor que ilumina.

Então, é muito pertinente a relação que estabelece J.-A.Miller entre o relâmpago e o despertar, justamente porque a perspectiva do saber fazer ali com o sintoma indica a ideia de um despertar parcial, na medida em que não se pode estar no real de maneira permanente. A pulsão de morte sozinha nos mata, mas, ao ser parcial, combina-se com outra coisa; a partir daí, podemos pensar sonho e despertar em conjunção.

Miller também fala de dois despertares: o primeiro, que segue o modelo do pesadelo, no qual, sem dúvida, voltamos a dormir na vigília para recuperar a homeostase; porém, há um segundo despertar[4] que está mais ligado a este despertar parcial.

Como dizíamos antes, sonho e despertar podem se opor através da repressão ou a negação – isso em geral ocorre no início de uma neurose -, mas a ideia é que em uma análise, sonho e despertar possam se misturar e que, assim, o analisante possa encontrar a coragem, como Freud que avança no sonho da injeção de Irma [5] para o litoral do despertar, sempre parcial por suposto.

Assim, como o despertar é importante, também é importante o dormir. Lembrem do que acontecia aos Buendía na monumental obra de García Márquez, “Cem anos de Solidão”: diante do malefício de não poder dormir e ficarem sempre despertos, pouco a pouco iam perdendo a memória; de alguma maneira, os poetas nos iluminam o caminho, e o sonho, entre outras coisas, também é guardião da memória, lembra-nos o que queremos esquecer.

Então, o dormir sonhador do inconsciente transferencial não é uma etapa da análise e a etapa ulterior, o despertar, inconsciente real, etapas puras e separadas uma da outra na evolução de uma análise; ao contrário, nossa hipótese é que ambas, tanto o sonho do inconsciente transferencial quanto o despertar do inconsciente real coexistem na análise desde o início até o final e uma se sobrepõe sobre a outra, indistintamente, de acordo com cada momento.

Seguindo nosso percurso, me pergunto pelo uso do sonho, que não é o decifrado do sentido na interpretação do analista. É outro tipo de intervenção do analista que tenta destacar justamente o despertar e que aponta à ruptura na narrativa do sonho, extraindo justamente essa peça solta que detém a fuga do sentido decifrado, indicando um modo de gozo singular do sonhador. O analista, portanto, faz um uso do sonho diferente do decifrado, se serve de fragmento, “faz alavanca” a favor do despertar.

Ao uso do sonho, também podemos agregar os sonhos conclusivos que encontramos em muitos testemunhos de AE, que indicam que o final de análise chegou. Estes sonhos conclusivos poderiam, quem sabe, indicar um enlaçamento entre o inconsciente que cifra e o inconsciente que desperta, de maneira que o inconsciente que cifra indicando o final de uma análise, também está dando a entender o final da fuga de sentido. Estabeleço aqui uma diferença entre o inconsciente que cifra e o analista que decifra.

Talvez este modo novo de cifrar do inconsciente, sem a fuga de sentido ao final de uma análise, seja um mútuo pertencimento ou uma nova aliança entre sonho e despertar.

Este texto, como tantos outros, faz parte do grande trabalho coletivo que estamos fazendo, construindo hipóteses que poderemos verificar no próximo Congresso de 2020 em Buenos Aires.

 Tradução: Maria Cristina Vignoli

 

1 Lacan,J., O Seminário, Livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988, p.60
[2] Miller, J.-A., El Outro que no existe y sus comités de ética, Paidós, Buenos Aires, 2005, p.209.
[3] Heidegger,M.; Fink,E., Heráclito. Ariel filosofia, Barcelona, 1986, p.9
[4] Miller, J.-A., Piezas Sueltas, Paidós, Buenos Aires, 2013, p. 141.
[5] Lacan, J., O Seminário, Livro 2, O Eu na teoria de Freud e na técnica psicanalítica. Jorge Zahar Editor, 1987 , p.205.

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