Sonho, um toque de despertar

Sonho, um toque de despertar

Alejandra Koreck. Instalação em papel. Mostra “O estrangeiro”. EOL-AMP

Alejandra Koreck. Instalação em papel. Mostra “O estrangeiro”. EOL-AMP

Cleide Pereira Monteiro – EBP-AMP

O Prefácio à edição dos Escritos em livro de bolso (1969), Lacan dedica “para alguém graças a quem isto mais é signo…”[1], remetendo à onda de redemoinhos que seus Escritos tinham produzido. Inicia com uma referência ao conto de Poe, em alusão ao texto que abre seus Escritos, a saber, O Seminário sobre “A carta roubada”. Neste último, ele se utiliza do equívoco joyciano – a letter (carta/letra), a litter (dejeto) – para distinguir na carta/letra, sua dimensão de mensagem e outra, a de objeto. O “nosso Dupin” se apossa da missiva na medida em que se orientou pelo “mais inquebrantável dos esconderijos”[2]: a dimensão de objeto da carta, a litter, sua materialidade. Em o Prefácio de 69, acrescenta que a carta que Dupin soube localizar “o feminiza como que por um sonho”.

A inspiração do conto de Poe oportuniza pensar sobre duas vertentes: o sonho como um saber a decifrar, podendo ser o analista um intérprete; e o sonho em seu mergulho no não reconhecido –  o que Freud nomeou de “umbigo do sonho”[3] – que, conectado ao pulsional, decorre “da carta/letra, sempre roubada”[4], como lembra Brousse.

“O sonho não pensa”

Desde o Prefácio de 69, Lacan adverte que, se o sonho requer um suporte textual – “o que chamo propriamente de instância da letra, anterior a qualquer gramatologia” – isso não destitui a tese de que o sonho não pensa. Muito pelo contrário, Lacan traz que o inconsciente – o sonho o demonstra – é “um saber que não pensa, não calcula e não julga”[5]; o estatuto desse saber não o impede de trabalhar. Como um trabalhador ideal – crème de la crème da economia capitalista, como o concebeu Marx –, o inconsciente é um saber que trabalha sem o mestre. O fruto deste trabalho está aí: “um saber que se trata apenas de decifrar, já que consiste num ciframento”[6].

Freud inova, não ao introduzir o sujeito, pois é Descartes quem o faz. Inédito é o modo freudiano de se dirigir ao sujeito, como aponta Lacan: “Aqui, no campo do sonho, estás em casa”[7].  Seguindo esta via régia freudiana, indica ainda: “Para o sujeito, o inconsciente é aquilo que reúne nele, suas condições: ou ele não é, ou ele não pensa. Se no sonho ele não pensa, é por ali ser no estado de poder-ser [peut-être]”[8].

Subverter o cogito cartesiano, fazendo reverberar, a partir de seu retorno a Freud, que o sujeito comparece onde não pensa, é a aposta de Lacan na estrutura da linguagem, tecida de mal-entendidos desvelados na experiência analítica. É com este espírito, que ele retoma a tese de Freud de que o sonho é um rébus, pois suas imagens, “representações de palavras”, tomando uma expressão freudiana, permitem soletrar o significante que nelas está disfarçado. Mesmo destacando, já no Seminário 18, que “o fato de o sonho ser um rébus, diz Freud, não é o que me fará abandonar nem por um instante a afirmação de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, acrescenta algo fundamental: “só que é uma linguagem em meio à qual apareceu sua escrita”[9].

O sonho é assunto de escritura

Em A Instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud, Lacan já deixa a porta aberta para que concebamos o sonho a partir da materialidade significante e, como tal, deve ser tomado ao pé da letra.

Freud exemplifica de todas as maneiras que esse valor de significante da imagem nada tem a ver com sua significação, e recorre aos hieróglifos do Egito […]. Freud encontra um meio de se orientar, nessa escrita, por certos empregos do significante que se apagaram na nossa, […], mas para melhor nos remeter ao fato de que estamos numa escrita em que até o pretenso “ideograma” é uma letra[10].

Para Freud, há algo de comum entre o hieróglifo e os sonhos, gancho que permite a Lacan, aproximar a materialidade onírica freudiana aos anagramas saussurianos: “Um sonho, (…) isso se lê do que dele se diz, e que se poderá ir mais longe ao tomar seus equívocos no sentido mais anagramático do termo”, como fez Saussure, em sua prática noturna, com os versos saturninos, “onde ele encontrava as mais estranhas pontuações de escrita”[11].

Miller observa que foi a partir do sonho, que Lacan demostrou o que se dá em termos de escritura, quando aponta que a imagem onírica é tomada por Freud para além da significação, que o sonho se lê como enigma, isto é, “a imagem não vale como figura, um signo figurado, nem como pantomima, mas sim como uma letra e que tudo aqui é assunto de escritura”[12].

Lacan neste momento, ainda está às voltas com a primazia do simbólico, recorrendo à letra para demarcar a materialidade do significante no sonho, dando a este, um estatuto de escritura. Porém, se tomarmos como referência o estatuto de letra, na reta final de seu ensino, onde há uma distinção mais explícita entre letra e significante – ou um novo estatuto do significante, que se torna signo –, podemos dizer que esta materialidade adquire toda a sua extensão por estar desconectada do sentido que precisa ser decifrado, apontando para a localização de uma dimensão de gozo advindo do troumatisme de lalíngua ou, seguindo com Freud, para o que ele nomeou de “umbigo do sonho”. Como lembra Jésus Santiago[13], o “umbigo” é a repercussão do traumatismo original no sonho, ponto ininterpretável que leva à impossibilidade do despertar pela via do inconsciente.

Um toque de despertar

Evoquemos Lacan, no Seminário 20: “os adultos não podem jamais chegar a se despertar – quando acontece no sonho deles alguma coisa que ameaçaria passar ao real, isto os enlouquece de tal maneira que imediatamente eles acordam, quer dizer, continuam a sonhar”[14].  Se despertamos para continuar a sonhar, não sendo possível um despertar absoluto, pois seria a morte, como conceber uma prática analítica fazendo do sonho um instrumento do despertar, como sugere Laurent?

Os testemunhos de passe nos ensinam sobre como o sonho, na contramão do desejo de dormir, desejo este que é o de nada querer saber sobre o gozo, pode atingir o exato momento em que o real mostra sua cara, despertando-se. Noutras palavras, para além da ficção, uma vez atravessadas “as orgias de interpretação de sentido”[15], um sonho – ao estilo da carta do conto de Poe, em sua dimensão de resíduo, o lixo (a litter) – é um instrumento que carrega os efeitos do gozo no real. Os sonhos de final de análise ensinam sobre esta passagem que se dá da ficção à escrita de gozo, possibilitando a sustentação de um outro uso do significante com estatuto de significante novo, não contaminado pelo sono, levando ao despertar, como demonstram esses dois fragmentos de testemunhos.

Ana Lucia Lutterbach Holck traz uma interpretação do analista a partir de um sonho, que traça a escrita da fantasia. O sonho é sem narrativa, “é uma cena: um cachorro defecando um patê é olhado por um jovem”[16]. A interpretação do analista que enuncia “esse patê é você”, seguida de corte da sessão, produz um efeito inesperado de sentido, com variação do sujeito gramatical, até surgir um significante novo, pastout, vindo do francês, e pela homofonia, transforma-se em patu. Este significante revela a inconsistência do Outro, S(Ⱥ), apontando para um novo modo de relação do sujeito com sua condição de mulher, nãotoda.

Bernard Seynhaeve traz dois sonhos que marcaram seu final de análise. Reportemo-nos ao segundo sonho, que comporta dois quadros, um sonho dentro de outro. O primeiro quadro se passa no consultório do analista, em que o analisante, após sair de um sono profundo, diz: “acabou, terminou”. O segundo quadro, que se passa em uma sala de espera, é descrito por ele como um rebuliço no corredor diante de uma autópsia do corpo, de alguém próximo ao analista. Há uma caixa craniana que está aberta; desta é retirada uma massa gelatinosa, colocada, sem cuidado, sobre uma cadeira. O sonhador, ao se aproximar, percebe um bloco de patê de cabeça[17].

O trabalho com o sonho, a partir da homofonia, transforma o Pai nosso (PATER) em um patê (PAT), demonstrando a travessia retratada pelo sonho final decisivo, em que “o analisante vê surgir do inconsciente esse real, seu ser reduzido a seu envelope carnal esvaziado de conteúdo: um resto imundo”[18]. O pai se reduz a uma massa gelatinosa; para além dele, o que resta do seu ser é o imundo, o patê de cabeça que, lido de outra forma, é elevado à dignidade de objeto precioso, Witz surgido do tecido do inconsciente.

O sonho, como demostram os testemunhos de passe, pode se coadunar com uma prática do despertar – da impotência da fantasia à impossibilidade lógica – que se sustente no real do Um que se repete, recôndito de um gozo singularíssimo, fora do sentido, onde se situa o resto incurável de cada um. Talvez, na via do sinthoma, seja possível dizer que a cada vez que o Um estiver em pauta, há, no sonho, um toque de despertar.


 

1 Lacan, J., “Prefácio à edição dos Escritos em livro de bolso” (1969), Outros Escritos, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 2003, p. 383.
[2] Lacan, J., “O Seminário sobre “A carta roubada” (1956), Escritos, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 1998, p. 28.
[3] Freud, S., “A interpretação dos sonhos” (1900), Obras Completas, v. 5. Imago, Rio de Janeiro, 1976, p. 560.
[4] Brousse, M-H., “O artifício, avesso da ficção. O que há de novo sobre o sonho120 anos depois?”, https://congresoamp2020.com/pt/articulos.php?sec=el-tema&sub=textos-de-orientacion&file=el-tema/textos-de-orientacion/19-09-11_el-artificio-reverso-de-la-ficcion.html
[5] Lacan. J., “Televisão” (1974), Outros Escritos, op. cit., p. 517.
[6] Lacan. J., “Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos” (1973), op. cit., p. 553.
[7] Lacan. J., O seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964), Jorge Zahar Editora, Rio de Janeiro, 1988, p. 47.
[8] Lacan, J., “Radiofonia” ((1970), Outros Escritos, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 2003, p. 416.
[9]  Lacan, J., O seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semblante (1971), J. Zahar, Rio de Janeiro, 2009, p. 83.
[10] Lacan, J., “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” (1957). Escritos, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 1998, pp. 513-514.
[11] Ibid., p. 129.
[12] Miller, J. “O escrito na fala”, Opção Lacaniana online, São Paulo, n. 8, http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_8/O_escrito_na_fala.pdf
[13] Santiago, J., “Clínica do despertar: eternidade, duração e tempo”, https://congresoamp2020.com/pt/articulos.php?sec=el-tema&sub=textos-de-orientacion&file=el-tema/textos-de-orientacion/clinica-del-despertar-imposible.html
[14] Lacan, J., O Seminário, Livro 20, Mais, Ainda (1972-1973), Jorge Zahar Editores, Rio de Janeiro, 2008, p. 76.
[15] Laurent, E., “O despertar do sonho ou o esp d’um des”, https://congresoamp2020.com/pt/articulos.php?sec=el-tema&sub=textos-de-orientacion&file=el-tema/textos-de-orientacion/19-09-11_el-despertar-del-sueno-o-el-esp-de-un-sue.html
[16] Holck, A.L.L., “Relato”, Opção lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 50, dez. 2007, p. 36.
[17] Seynhaeve, B., “Escrita de uma borda”, Opção lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 52, set. 2008, p. 111.
[18] Seynhaeve, B., “Depoimento de Passe”, Latusa. Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Rio, Rio de Janeiro, n. 14, nov. 2009, p. 183.

 

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