Três perguntas aos sonhos do final. E mais uma.

Três perguntas aos sonhos do final. E mais uma.

Theresa Salazar. Serie Sortilegios 4. Impressao s/ Alucobond. 2012. São Paulo.

Theresa Salazar. “Série Sortilégios” 4. Impressão s/ Alucobond. 2012. São Paulo.

Dennis Ramírez Méndez – NEL-AMP
Dalia Virgilí Pino – Ex-aluna do ICdeBA

 

Esses sonhos que se obtêm particularmente no final de análise são sonhos que já não chamam ao deciframento nem esperam nada do Outro, mas que constatam: se desinvestiu, se soltou, se saiu…

Silvia Salman[1]

No dia 26 de março de 2019, Raquel Cors Ulloa testemunhou seu passe na EOL, Buenos Aires. Naquela noite, ressoou com força, seu sonho de final de análise:

Na noite prévia ao pedido para a Secretaria do Passe/AMP, um pesadelo: estamos na Mesa do passe; uma amiga carinhosa me diz para não chorar quando for minha vez de falar. Assim, decido sair para tomar um ar. Imediatamente me vejo perseguida por um homem feio, pálido e magro; é a morte. Corro e corro, ele está a ponto de me alcançar, há um muro, pulo o muro, mas ele agarra a minha perna. Nesse preciso momento, de cima, do nada, sai um braço robusto e firme – é de um analista. Sem pensar, ligo ambos os braços, o braço do analista que detém o braço da morte. Separo-me de ambos, salto-os e saio[2]

 Tal pesadelo indica com bastante clareza, o que acontece em um final. Não somente porque mostra a queda do analista e o que sai, tanto do mortífero quanto do dispositivo, mas sim porque o que está indicado é, precisamente, isso: a saída. É poético pensar que há sonhos que respondem à pergunta freudiana sobre o finito ou o infinito das análises.

No dia 7 de maio de 2019, Angélica Marchesini leu seu último testemunho no mesmo recinto, e Graciela Brodsky, encarregada de comentá-lo, sugeriu trabalhar três perguntas em direção ao próximo Congresso, sugerindo tomar como material clínico, os sonhos dos últimos passantes. As três perguntas foram:

Como o sonho é outra coisa senão realização de desejo? Como pode mostrar o que não muda em uma análise?

Como o sonho presentifica a extração do objeto e, portanto, a saída?

Como o sonho traz o neologismo?

É assim que elegemos nos orientar por essas perguntas, em seu entrecruzamento com ambos os testemunhos.

Partimos de algumas obviedades. O que se demonstra em um testemunho é o singular. Nessa transmissão, reside seu ensino. O que se ensina em um testemunho não o ensina outro, nem os dois hoje são similares aos de antes. Há algo do ensino dos testemunhos que também leva à marca da época e convoca a fazer avançar o campo de produção de saber da psicanálise.

Em relação à primeira pergunta proposta por Brodsky:

Há nela um mais além; e é o mais além o que distingue a psicanálise de orientação lacaniana. Trata-se de começar a pensar os sonhos, não apenas como instâncias de realização de desejo, que é o que prioritariamente aprendemos com Freud. Isso não nega o sonho como realização de desejo ou como formação psíquica que mostra os fiozinhos do desejo; assim como o segundo ensino de Lacan não nega o primeiro. Trata-se de exprimir os sonhos em um mais além, especialmente em seus usos.

E a proposta é: podem mostrar o que não muda. O que é que não muda? O gozo. Ele mesmo se torna mais visível e a posição subjetiva se modifica em uma espécie de amigar-se com isso, ou rir, ou habitar a vitalidade em não poucos casos.

No testemunho de Raquel Cors, nesse sonho do final, aparece a morte, ainda. Ela faz outra coisa com isso, mas a morte insiste ali como figura. Em outro momento também se lê que sua eleição de analistas se associa às suas cabeças inumanas.[3]

No testemunho de Marchesini, é o dar volta em um sonho o que ensina nessa direção. “O grito é uma afirmação desesperada da vida: Respira”.[4]

Agora, como se presentifica a extração do objeto? Diz Cors: “o real do objeto olhar e do objeto voz ficaram soltos”. E conta outro sonho: “Na noite anterior à Conversação sobre o passe em Roma, um divertido sonho com os passadores: chego em uma praia de areia branca como uma página em meio ao mar azul. Aproximo-me de dois jovens passadores vestidos de preto e os pergunto ‘onde é a Conversação sobre o passe? Eles nem me olham nem me escutam…”.[5]

O objeto pulsional cai, como também cai o analista objeto no primeiro sonho referido.

A queda do objeto torna-se condição do final.

No testemunho de Marchesini, ela o relata desse modo: “… o outro goza sem meu ar. Assim foi como se o pequeno golpe nas costas de minha mãe me tivesse permitido desalojar o objeto do lado do Outro e recuperá-lo para mim…[6]. Foi também um sonho o que lhe permitiu essa construção.

E por último … “ e o neologismo?”

Disse Cors: “Dirijo-me a uma porta, uma espécie de bilheteria, ali me entregam uma senha com um código intrasferível e me dizem ‘É para ti, é singular, só tu podes decifrar’, raspo com uma moeda e só há letras e números sem sentido algum.[7]

Esse sonho indica a escritura do indecifrável. Efetivamente, conduz ao neologismo. Já antes ela havia utilizado a expressão “duelé”*, termo com o qual condensa suas perdas, incluindo seu final de análise. Durante o último congresso em Barcelona, Éric Laurent intervém do auditório, propondo um sintagma que ressoa nessa relação do desejo e do gozo no final de uma análise: “do duro desejo de ferir[8], que é o que relança nesse final para chegar ao sinthome. Como nos esclarece Anna Aromí: “a vontade de não ceder em nossa orientação do real[9]. O sujeito analisante é quem escolhe não ceder.

Marchesini produz o neologismo também no sonho: “você padece de uma roncadera** histérica”. E resultou muito chistoso para o auditório escutar o contraste com a posição de seu marido. Enquanto ela crê em seu neologismo, elege seguir a via aberta por esse termo inexistente “roncadera”; seu marido diz: “deves ter escutado mal”.

Afirma Salman em seu texto preparatório do próximo Congresso: “os usos do sonho também terão que ser tomados no singular”.[10]

As três perguntas que seguimos orientam em relação aos usos possíveis do sonho: aparição de significantes novos, redução ou presentificação do vazio inevitável do final.

Angelina Harari, nessa mesma linha, convida a fazer, então, “um exame do sonho que não passe pelo decifrado, e que nos conduz ao furo que Lacan desaloja em seu último ensino.[11] O que habilita a seguir interrogando por aquele inatingível mas isolado na experiência analítica: o gozo especificamente feminino.

 

Uma pergunta mais a propósito do gozo feminino

Jacques-Alain Miller, em seu seminário inédito O ser e o Um, diz: “Lacan não desmentiu a incidência da interdição, mas localizou uma fração de gozo que não responde ao esquema suscetível de ser resumido em termos de rechaçar para alcançar, onde a interdição é uma etapa no caminho da permissão. Localizou, então, um gozo não simbolizável, indizível, que guarda afinidades com o infinito, que não foi triturado pela máquina não-sim que eu evocava. Em certas ocasiões, o encontramos nos sonhos.[12]

Essa última linha que destacamos propõe que a fração do gozo feminino pode emergir nos sonhos. Detalhe clínico de rigor. Adicionamos, então, uma pergunta.

De que forma pode se apresentar essa fração de gozo não simbolizável, indizível nos sonhos?

Retomando o testemunho de Raquel Cors: o sonho de saída orienta que não é mais pela via do sentido que se resolve o enigma do gozo. O que esse sonho procura, permite enunciar, é uma ausência de sentido, impossível de dizer: “É algo em mim que nunca deixou de capturar.[13] Esse algo que não se pode nomear, mas que experimenta em seu corpo: “um mais de vida[14] . Aquilo que haverá de desembrulhar, manipular no “que resta por fazer[15].

Tradução: Gustavo Ramos
*NR: termo mantido para não perder a originalidade (tem a ver com duelo=luto mas também com duele=dói)
**Roncadera, termo inexistente em espanhol.

 

 

1 Salman, Silvia. El escándalo del cuerpo hablante. Texto preparatório do XII Congresso da AMP. Disponível em: https://congresoamp2020.com/pt/articulos.php?sec=el-tema&sub=textos-de-orientacion&file=el-tema/textos-de-orientacion/el-escandalo-del-cuerpo-hablante.html
[2] Ulloa, Raquel Cors. 27-28-Uno. In: Bitácora lacaniana. Revista de Psicoanálisis de la Nueva Escuela Lacaniana (NEL). Número extraordinario, abr. 2019. Buenos Aires: Grama, 2019, p. 82.
[3] Ibid, p. 76.
[4] Marchesini, Angélica. La escritura del fantasma. In: Lacaniana. Revista de la Escuela de la Orientación Lacaniana. Ano XIII, n. 24. Buenos Aires: Grama, 2018, p. 118.
[5] Ulloa, op. cit., p. 81.
[6] Marchesini, op. cit., p. 118.
[7] Ulloa, op. cit., p. 80.
[8] Laurent, Éric. Intervenção do auditório, no “Encontro com o passe”. Barcelona, 1 de abr. de 2018.
[9] Aromí, Anna. Puntos vivos del Congresso. Mesa de Encerramento do XI Congresso da Associação Mundial de Psicanálise. Barcelona, 5 de abr. de 2018. Inédito.
[10] Salman, op. cit.
[11] Harari, Angelina. A diferença absoluta do sonho. Texto preparatório ao XII Congresso da AMP. Disponível em: https://congresoamp2020.com/pt/articulos.php?sec=el-tema&sub=textos-de-orientacion&file=el-tema/textos-de-orientacion/la-diferencia-absoluta-del-sueno.html
[12] Miller, Jacques-Alain. Curso da Orientação Lacaniana. O ser e o Um, 2011. Inédito.
[13] Ulloa, op. cit., p. 82.
[14] Ibid.
[15] Ibid.

Comentários estão fechados.