Editorial

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Thereza Salazar. “Cartas Celestes (invierno)”. São Paulo.

Thereza Salazar. “Cartas Celestes (inverno)”. São Paulo.

Raquel Cors Ulloa – NEL-AMP
Membro da Nueva Escuela Lacaniana (NEL) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP). Analista da Escola (AE) da Escola Una (2018-2021). Vice-presidente da NEL. Secretária do Bureau da FAPOL. 

Este oitavo número de Lacan XXI chega como um sonho feito de palavras que, como tal, se lê. O leitor encontrará em cada um destes textos, uma similicadência de expressões que se aproximam do tema do XII Congresso da AMP: “O sonho. Sua interpretação e seu uso no tratamento lacaniano”.

Trata-se de um retorno a Freud? Sim! Afirma contundentemente Angelina Harari,  não sem se referir à diferença absoluta do sonho, por sua especificidade na direção do tratamento  hoje; uma diferença absoluta do Um como horizonte, que se demonstra especialmente na prática e no final da análise. Por sua parte, Silvia Baudini e Fabián Naparstek compartilham – parafraseando Lacan – o direito de compartilhar sonhos, já não mais inspirado pelo desejo de dormir, mas pelo desejo de despertar. Uso que ainda nos interpreta, 120 anos após  “A interpretação dos sonhos”. Um despertar que Sérgio de Castro propõe ler com suas ambiguidades, para assinalar “[…] o que para nós explica, ao mesmo tempo, a ambiguidade da função do despertar, […] pois  o que nos desperta é a outra realidade escondida por trás da falta do que ocorre na representação – é o Trieb, diz Freud.”

”Sonho e despertar: fronteira ou vizinhança ? Pergunta Manuel Zlotnik, para nos propor – mais do que uma fronteira – uma espécie de litoral entre o sonho e o despertar. Sonho e despertar, como o sonho da injeção de Irma, podem se misturar, mas sem chegar ao extremo de estar sempre despertos, como permaneceram os habitantes de Macondo, em “Cem anos de solidão”. Em seguida, Clara Holguín manifesta um desejo de despertar que, longe de ser um imperativo ou um ideal, aponta despertar para causar, causar um desejo de saber sobre o real, onde “ se imagina o real”. Sobre esse fio, Frederico Zeymer Feu de Carvalho recorda que, na lição de 12 de fevereiro de 1964, Lacan assinala que “a vida não é um sonho”; portanto, podemos dizer que o desejo inconsciente se apresenta de forma viva, com  suas mortalhas em fogo, em chamas, como desejo que desperta, pois o real desperta. Desperta como um desafio para dar lugar ao discurso analítico nas instituições de saúde pública, proposta de Joaquín Carrasco sobre uma leitura, ali onde costumam comparecer sujeitos que padecem da impossibilidade de esquecer uma situação traumática e que, em alguns casos, retorna em pesadelos repetitivos. Diante disso, o texto de Carrasco sugere um tecido simbólico-imaginário que permita bordear-velar esse real, para voltar a dormir no sono comum, bem como na realidade fantasmática, sem que tornar a dormir  derive em um perpétuo adormecimento.

Ludmila Malischevski nos traz um texto de 1975, por ocasião de uma supervisão pública em Genebra, na qual Lacan ensina a ler um sonho: trata-se de uma paciente feminista de 31 anos que se analisa há dois anos, e seu analista, Nicos Nicolaidis, se pergunta especialmente  pelo que acontece no décimo oitavo mês. A paciente sofre de insônia, “passa as noites em branco” e quer responsabilizar alguém por isso; mostra-se agressiva com seu analista, seu marido e seu amante. Desde as primeiras entrevistas, ela informa a Nicos que tem um segredo, uma “fantasia privada”, que nunca lhe contará … Dezessete meses mais tarde e em resposta a uma interpretação do analista, a revelação chegará.

De repente, em Lacan XXI, estamos frente “A porta para um breve despertar”, com um texto de Mª de los Ángeles Morana, que nos apresenta um percurso borgiano para sustentar que nos relatos de Ryûnosuke Akutagawa, é difícil “discernir com rigor, os elementos orientais e ocidentais”. Akutagawa (1892-1927) apreciava o valor artístico da tradição literária japonesa, sendo, ao mesmo tempo, permeável à escrita do Ocidente. Isso o tornou impopular em sua terra natal até que Akira Kurosawa, após a Segunda Guerra Mundial, em um Japão destruído, onde a questão da verdade e da culpa estava em alta, combinou duas histórias, “Rashômon” e “Na floresta”, no filme intitulado com o nome dado à porta de entrada para Kyoto. Um argumento que apresenta a suposição de um crime e as diferentes versões das testemunhas e dos protagonistas sobre uma situação que sublinha o deslizamento que se faz com o significante, uma vez que “determina o ser de quem fala”. Mas a autora lembra o que Lacan assinala: “não é meditando sobre o ser que se dará o menor passo que seja”, abre a porta para o ser em cujos “domínios” há uma fenda …

Com efeito, “O impossível do sonho: a resposta de Lacan a M. Ritter” é o texto a seguir, da mão de Alma Pérez Abella, para nos trazer a extensa e complexa pergunta que M. Ritter faz a Lacan. Nesse não-reconhecido, podemos ver o real não simbolizado? De que real se trata? É o real pulsional? Que relações há entre esse real e o desejo? – já que Freud articula o umbigo do sonho com desejo -. Da resposta de Lacan, pode-se extrair múltiplas questões  a investigar e, precisamente, algumas delas se articularão ao texto e  precisamente algumas se articularão ao texto de Alejandro Olivos, que relembra título “O umbigo do sonho é um furo”, título com o qual a revista La Cause du Désir reeditou a famosa resposta que Lacan deu, em 1975, a Marcel Ritter. A pergunta de Ritter era sobre a noção freudiana do umbigo do sonho, especialmente no ponto em que o sonho é insondável, onde o sentido se detém, onde o sonho está mais próximo de das Unerkannte, ou seja, do ponto do não- reconhecido.

Para seguir bordeando os sonhos, avançamos  com o título: “Três perguntas aos  sonhos do final. E uma mais”, título do trabalho sustentado por Dennis Ramírez Méndez e Dalia Virgilí Pino, que fazem um percurso por dois testemunhos de AE, escutados na EOL, entre março e maio de 2019 (um testemunho de Raquel Cors Ulloa e um testemunho de Angelina Marchesini). Ramírez e Virgilí trabalham com os sonhos que se obtém ao final de análise; são sonhos que – como nos diz Salman em seu texto preparatório para o XII Congresso da AMP, “O escândalo do corpo falante” – já não pedem mais decifração nem esperam nada do Outro, mas constatam: que se desinvestiu, se soltou, se saiu…

Marta Goldenberg, por sua vez, apresenta o recorte de uma sessão, uma pontuação para pensar – a partir da prática – as diferenças do sonho e do pesadelo, especialmente quando o real não responde a nenhum querer dizer, ou seja, quando o fantasmático não engorda mais o peixinho do sentido e então surge um significante – talvez não novo – surge para dar outro uso ao que, na vida diurna lhe foi dado.

O texto de Flory Kruger, em cujo título já encontramos uma pérola que afirma: “Pede-se uma análise para continuar sonhando”, realiza um trabalho que começa extraindo uma frase do Curso de Miller Los signos del goce,  diz assim: “[…] às vezes, o que desperta no sonho, a angústia, justifica que seja situada como aparente, como um pseudodespertar, que só está ali para permitir continuar sonhando”. A autora fecha seu texto, expressando o seguinte: “Comecei com uma citação de Miller e terminarei com outra de suas reflexões: Miller se pergunta se abordar a psicanálise pela via do sonho, como se fez historicamente, é o melhor. Sua resposta é muito clara: ‘Lacan assinalou outra via para a psicanálise – não sei se é régia, mas não me incomodaria que fosse proletária: o sintoma, que coloca a questão de saber de que modo o sujeito pode advir ao saber sem sujeito, quer dizer que condiciona a forma mesma na qual adquire sentido e gozo, o saber sem sujeito.’ ”

Em seu texto, Marina Recalde formula que para se especificar o despertar, são necessários dois estatutos: o despertar do horror, despertar que sucede o pesadelo, e o despertar analítico, que permite um franqueamento tão vivo quanto necessário. Em seguida, outra especificidade, desta vez com texto de Gustavo Stiglitz, que propõe um despertar à opacidade própria de cada um. Stiglitz aborda o texto de Freud “A perda de realidade nas neuroses e nas psicoses”, para assinalar que nas duas, há uma perda de realidade. Em diferença ao que Freud escreveu pouco antes em “Neurose e psicose”, aqui todos estão em perda, mas cada um constrói sobre ela, uma solução, o que faz alguma equivalência entre o delírio do psicótico, o fantasma do neurótico e os sonhos. “Vestir de frase o que se articula” diz muito bem de uma função do sonho: evitar despertar para o real. Vestir de sentido o inarticulável, para que pareça articulado.

Patricia Tagle Barton inicia seu texto com a letra de uma conhecida e imortal valsa peruana, “La flor de la canela”, que, como a “velha ponte”, ainda se balança em um sonho que diz “deixa-me que te conte …”.  Certamente, desde o início dos tempos, os da humanidade que fala, sonha-se, e os sonhos são contados, “interpretados” e cantados também. No entanto, e para nós, a transferência inaugura esse cenário privilegiado no qual os sonhos e seu “relato” contam e são levados em conta de outra maneira. Algo se infiltra, filtra, se trama, gira, “trança” no fuso e no uso dos sonhos na análise, sob transferência. Marcela Almanza nos lembra em seu texto, o que as neurociências – em seu desconhecimento das propriedades do corpo do ser falante e da pulsão – tratam de capturar as imagens do cérebro. Estar atentos a estas coordenadas, implica que já não partimos da oposição freudiana entre sonho e despertar, mas que ambos os conceitos nos ponham a trabalho de outra perspectiva, pois, como Lacan coloca em O Seminário mais, ainda,  o sonho é um instrumento do despertar, que “permite articular de maneira nova o desejo e o que lhe é incompatível, o gozo.”

Andrea B. Perazzo, diante do adormecimento da época, propõe algumas “faíscas de despertar”, às quais ela decidiu não ser indiferente, compartilhando o desejo de saber que a transferência de trabalho enodou em um cartel inter Escolas, com membros de diferentes países, para nos convidar também, para o próximo Congresso que propõe um despertar  possível.  Diana Wolodarsky compartilha sua dupla experiência. Por um lado, diante de uma exposição artística: atraente e convocatória – cujo efeito da ilusão de ótica em objetos ou situações de uso cotidiano apontam para o insensato – assim como acontece com a insensatez do sono. E, por outro lado, diante da prática clínica que, mediante o corte da sessão, abre uma via para consentir ao analítico, no qual a implicação e a responsabilidade do sujeito levem a dianteira, o programa de gozo. Por fim, Cleide Pereira Monteiro, com um toque de despertar, evoca Lacan no Seminário 20, onde assinala que os adultos não conseguem despertar e, se despertamos para continuar sonhando, não se trata de um despertar absoluto, pois seria a morte. Pereira abre a questão sobre a prática analítica, desde que se faça uso do sonho enquanto instrumento de despertar.

É assim que, em pleno século XXI, o leitor de Lacan XXI irá dispor de 23 Traumdeutung que, graças a seus autores, nos permitem percorrer os sonhos que se escrevem e que saberemos usar, daqui até um novo Congresso da AMP, um congresso que talvez há 120 anos atrás, já propunha que o gozo não é a realização de desejo, mas um franqueamento da perda de homeostase para um novo e vital despertar!

Tradução: Jussara Jovita Souza da Rosa

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