A Escola não é dessa época

A Escola não é dessa época

Graciela Allende - EOL AMP - ¨Sem título¨. Fotografia.

Graciela Allende – EOL AMP – ¨Sem título¨. Fotografia.

Marlon Cortés – Associado da NEL – Medellín

Para pensar a época a partir do campo lacaniano, há uma frase muito citada: “Que antes renuncie a isso, portanto, quem não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época. Pois, como poderia fazer de seu ser o eixo de tantas vidas quem nada soubesse da dialética que o compromete com essas vidas num movimento simbólico?”.

E, na mesma linha, uma frase menos conhecida: “Que ele conheça bem a espiral a que o arrasta sua época na obra contínua de Babel, e que conheça sua função de intérprete na discórdia das línguas”.

A primeira parte da citação interpreta-se dizendo que é necessário que o psicanalista conheça o momento histórico em que está. Lacan, nesse momento, está se referindo ao que dizem seus colegas em relação ao fato de ele estar desviando Freud de suas bases biológicas, estabelecendo a importância da linguagem (“o imperativo do verbo”). Recordemos que, a essa altura da obra lacaniana, estamos na primazia do registro simbólico. Lacan está se movendo para sublinhar em Freud a importância da linguagem. Faz um retorno a seu mestre, mas dando uma volta a mais na bobina psicanalítica.

A segunda parte da citação tem três elementos chaves: “espiral”, “Babel” e “discórdia das linguagens”.

Espiral é uma palavra importada de dois campos do saber: a física (mais exatamente no tema do magnetismo), e o mundo esotérico. A imagem que ajuda a entender a espiral é o bastão de Esculápio com a serpente enrolada em forma de espiral:

Na citação, então, o que se fala é de uma força “magnética” que arrasta o analista, “na obra contínua de Babel”. A referência a esse mito bíblico (descrito no livro do Gênesis) é a seguinte: Babel é um povoado que quis fazer uma torre para alcançar o céu, e então, com isso, tornar-se famoso. Quando Deus soube disso, conta o mito, tomou a decisão de puni-los criando diferentes idiomas para que não se entendessem entre si. A consequência disso é que a torre finalmente não prosperou, e então o povoado se dispersou por toda a face da Terra. Antes da torre, todos falavam a língua de Adão, a língua Adâmica, que é o hebreu; a língua primeira, única, original, sem mal-entendidos.

Voltemos a Lacan. Na citação, seu primeiro convite é a que o analista seja de seu tempo. É a ideia sobre a qual, de maneira repetida, voltamos a cada vez que trazemos a citação em questão. A segunda parte da citação acrescenta um matiz que ensina sobre a Escola.

A que se refere Lacan quando menciona a época?

Várias peças soltas da mesma citação nos ajudam a responder a essa pergunta (mesmo que parcialmente):

  • A época tem subjetividade.
  • A época arrasta-se em direção a uma espiral (para uma direção).
  • O contexto da época é “a obra contínua de Babel”.
  • A época tem uma dialética.

O psicanalista é arrastado por essa espiral que molda a subjetividade da época; mas então, para onde o arrasta? Para onde o lança? O arrasta em direção à obra contínua de Babel, cuja cidade construiu uma torre para alcançar o céu, lugar onde habita Deus.  Lacan está falando com os psicanalistas de seu tempo que lhe recriminam abandonar as bases biológicas de Freud para resgatar a ordem simbólica e, com ela, as referências culturais que percorrem sua obra. A época, então, é a ciência, que arrasta o psicanalista; e ao lado dessa ciência, pelo menos metaforicamente, também coloca Deus. Em princípio, o analista há de reconhecer essa força que o arrasta a ter uma relação com a verdade tendo como paradigma a ciência, a objetividade, a ausência de equívoco e, em termos bíblicos, a língua Adâmica, a de Adão, a língua sem mal entendidos. O mito da torre de Babel não é somente um mito judeu para falar de um castigo divino contra o ser humano que quer ser semelhante a Deus; também é um mito para falar sobre a origem das línguas. Dante fala dele no ensaio que chama De vulgari eloquentia. Lá ele afirma que, no princípio, o ser humano falava uma única língua; depois começa a construir a torre de Babel para alcançar o céu, e nessa tarefa aparecem as diferentes línguas como castigo divino, e com elas, “a discórdia das línguas”, o mal entendido, a desarmonia, o desacordo, etc. E, com a psicanálise, podemos dizer que, com as diferentes línguas, nasce também o sujeito.

Aqui chegamos à última frase da citação: “e que conheça sua função de intérprete na discórdia das línguas”. Não diz: “Intérprete DA discórdia das línguas”, mas sim “intérprete NA discórdia das línguas.” É a função do psicanalista interpretar a discórdia das línguas? Pode ser, mas se estaria trocando a preposição utilizada por Lacan, que é “dans” (em francês).

Em quê pode implicar assumir a preposição “em”?

Que a interpretação acontece em meio à discórdia das línguas. E então, dois lugares me ocorrem para localizar esse contexto (meio) em que essa discórdia ocorre: um, o próprio analista; e dois, a Escola.

Que tipo de organização humana é essa que, de entrada, aceita a divisão subjetiva de seus membros, e ao mesmo tempo, se reconhece ela mesma como lugar da discórdia das línguas?

É a Escola de Lacan

Miller,  na Teoria de Turim sobre o sujeito na Escola, diz: “a Escola deve preservar sua inconsistência como seu bem mais precioso”. Da perspectiva bíblica, o aparecimento da confusão pela diversidade das línguas é assumida como um castigo. Dante, ao contrário, no ensaio citado, ressalta a importância das diversas línguas vulgares para a cultura, em oposição ao latim que era assumido como a língua oficial utilizada para a gestão do Estado e da Religião. Portanto, NA Escola, a inconsistência, a discórdia, a diferença, não são assumidos como algo de que é necessário se livrar, mas sim são um bem precioso. Digamos com um termo clínico: na Escola, a relação sexual não existe. De fato, essa não existência é a condição para que a Escola exista. Não nos reunimos em torno de nenhum mestre que nos revela a verdade, senão que nos reunimos em cartéis para que cada qual construa uma porção de saber sobre a experiência analítica. Cada Sede ou Seção tem sua disposição burocrática para responder ao Estado com certa consistência, frente a alguns requerimentos jurídicos e econômicos, mas isso está longe de ser a experiência da Escola. A Sede ou Seção é o suporte da Escola como experiência, mas a Sede ou Seção não são a Escola. Do lado da instituição, é necessário sustentar certa consistência, mas do lado da Escola como experiência, não.

Nessa época, obra contínua de Babel, validam-se somente os textos escritos com o jargão científico (Adâmico), que é o que pretende nomear a realidade tal qual é, sem intervenção alguma dos sujeitos, que são quem traz “a discórdia das línguas”.  Ao contrário, Na Escola falam-se distintas línguas. Nessa época, o psicanalista é arrastado na direção dessa espiral, obrigando-o a construir sua torre para alcançar ao deus que sabe tudo, sem fissura alguma. Na Escola, ao contrário, todo discurso é parcial, e fragmentado. Daí que podemos pensar a citação lacaniana com outros olhos, e então dizer que a Escola (e, por conseguinte, os analistas) não são desta época, pois se fundam (os dois) NA discórdia das linguagens.

Tradução: Ruskaya Maia

NOTAS:
1.Lacan, J.,“Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise” (1953). Escritos, Jorge Zahar  Editor, Rio de Janeiro, 1988, p. 322.
2.Miller, J.-A., Teoria de Turin sobre o sujeito na Escola,  http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_21/Teoria_de_Turim.pdf.  pág. 13. Data de consulta: 15 de março de 2020.

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