Época e psicanálise. Um ponto de partida

Época e psicanálise. Um ponto de partida

Mónica Biaggio - Vazio mediador. Tinta sobre papel, Abril 2020.

Mónica Biaggio – Vazio mediador. Tinta sobre papel, Abril 2020.

Aníbal Leserre – EOL – AMP

Situamos o neoliberalismo como a força que se expande e determina as coordenadas da época. Um dos planos de fundo desta presença, ao nosso entender, é o debate sobre a aceitação ou rechaço a considerá-lo como o emergente do fim da história. É a “nova razão do mundo”, o único mundo possível? Um debate que não só se dá no plano das ideias, mas que se dá nas ruas e se expande em conflitos de intensas densidades.

Uma pergunta muito atual de Lacan

Em seu texto “Do Trieb de Freud e do desejo do psicanalista”, sustenta que o conceito de Trieb se opõe a qualquer tipo de exploração tecnocrática, quer seja como recurso técnico ou pela categoria que formam os técnicos neoliberais. Dita exploração implica em um exercício de poder a partir de uma posição de mestre (S1). Em torno desta questão, sustenta uma questão absolutamente vigente no contemporâneo, à época: “…ela ruma para uma socialização que não poderá evitar nem a eugenia nem a segregação política da anomalia.” A figura do analista tende a ser arrastada pelo discurso da ciência rumo à eugenismo, quer dizer, ao serviço de melhorar a espécie humana, por um lado e, por outro, é chamado a ser agente de um discurso segregativo, política da anomalia derivada da generalização do discurso neoliberal. A psicanálise não poderá evitar estes fatos, mas, seguramente, não deve converter-se nem em seu agente, nem em seu porta-voz.

O analista cidadão

A posição que nos ensina Lacan, pode se localizar no que sustenta Eric Laurent, quando apresenta o analista cidadão, para nos situar no campo do social. Trata-se de fazer existir a psicanálise com responsabilidade, já que hoje, o lugar do comunitário tende a desaparecer à luz do discurso neoliberal e de suas estruturas disciplinárias. A fórmula de Eric Laurent do “Analista cidadão” marca-se na teoria moderna da democracia:

“Os analistas hão de entender que há uma comunidade de interesses entre o discurso analítico e a democracia, mas, entendê-lo de verdade! É preciso passar do analista encerrado em sua reserva, crítico, a um analista que participa, um analista sensível às formas de segregação, um analista capaz de entender qual foi sua função e qual lhe corresponde agora”.

É enfático e claro e agrega em seu texto que o analista não tem que ser, de maneira alguma, um analista neutro. Que deve participar com seu “dizer silencioso” que é distinto do silêncio, diria da neutralidade, do resseguro do refúgio no consultório ou na instituição analítica. Totalmente o contrário, este “dizer silencioso” implica tomar partido de maneira ativa diante das paixões imaginárias, diante das identificações que permitem o desencadeamento das paixões narcisistas. Implica manter a articulação entre normas e particularidades, mais além destas paixões narcisistas das diferenças, sem pensar que é o único e atuar com outros para impedir que, em nome de uma universalidade, por exemplo, como o Neoliberalismo, se esqueça do particular, da particularidade de cada um; mas também recordar que não se trata, tampouco, de subtrair de alguém, sua particularidade não apenas por um universal, mas também por alguma razão humanista. Então, diria que o analista cidadão tem claro, o desejo do analista, fazendo existir a psicanálise no social, transmitindo o interesse que tem para todos, a particularidade de cada um. Cito: “Não se trata de limitar-se a cultivar, a recordar a particularidade, mas de transformá-la em algo útil, em um instrumento para todos”.  No meu entender, o analista cidadão articula a posição de Lacan frente aos acontecimentos da época, que foi a de não ceder frente aos embates que questionavam os princípios mesmos da psicanálise, participar ativamente nos debates contemporâneos, por exemplo, o debate democrático.

Toma relevo, a pergunta leninista: o que fazer? Por um lado, o apoio pleno ao sistema democrático enquanto sustenta direitos e a liberdade da palavra. E, por outro, mas, em íntima conexão, não nos refugiarmos nos argumentos de neutralidade, questão que não nos obriga a tomar uma posição partidária, mas a sustentar o desejo do analista. O desejo do analista, enquanto conceito, excede seu domínio de função no marco da cura e se situa plenamente em relação aos discursos que pluralizam o social como marco simbólico. Trata-se de nos situar sob as relações de domínio que implicam a treliça do social. Hoje podemos pensar o neoliberalismo no lugar do discurso do mestre (S1), sustentando “Sou o único”, com seus efeitos de dominação ou captura dos sujeitos que, ao mesmo tempo, ordena o conjunto dos significantes (S2). Uma razão mais para apoiar a democracia enquanto, “o discurso da democracia difunde S(Ⱥ). Não há significante último, só há um lugar no qual vem se inscrever os significantes que nos permitem nos orientarmos e os valores que ocultam o buraco consistente em que não há valor final.”.

Sob que termos pensar a época

A diversidade que nos atravessa, é difícil agrupá-la sob um só termo.  Por exemplo, encontramos análises que põem seu peso na velocidade, na fugacidade acompanhada da fragmentação e do isolamento correlativo da depressão que, segundo a OMS, em breve será a causa principal da incapacidade no mundo. Outros põem a ênfase no valor da imagem, no instantâneo. Ou se destaca o empresário de si, auto referencial, o empreendedor, o cidadão consumidor. Ou, em termos mais gerais, como a globalização, a flexibilidade, a desregulação, a sociedade do espetáculo, etc. Mas também, nas mudanças que apontam ao marco simbólico. Para dar um exemplo: passar da palavra povo para gente; isto tem a dimensão política de gerar o “esquecimento” de categorias políticas e ideológicas, sob a ideia de que são antigas.  No entanto, o que se esconde por trás é o processo de apagar a memória. 

A generalização nos faz perder de vista o próximo; me explico: é simplesmente pensar que quando caracterizamos a época com um termo ou um conceito, tem que logo situá-lo nas coordenadas de uma região, de um país, de uma cidade e, assim, seguimos reduzindo o entorno no qual temos nossa prática e sobre o qual, tratamos de incidir com nossa ação.

Pensemos algumas coordenadas nomeadas a partir da matriz do mercado, onde os objetos e os indivíduos não são considerados desde o ponto de vista de sua utilidade concreta, mas pelo seu valor de intercâmbio. Isto traz junto, uma subordinação à abstração e a suas consequências destrutivas, já que o sujeito cai ou está impulsado por signos vazios e abstratos que impactam na dimensão de vida, no afetivo, no sensível, nas escolhas, etc. É o que vários autores situam sob a ideia de servidão voluntária, não apenas no imaginário, mas também no simbólico, já que penetra na linguagem e alcança o núcleo do indivíduo. O indivíduo é falado pelas configurações neoliberais e isto nos possibilita situar um ponto fundamental através da seguinte pergunta: alcança o núcleo do sujeito, tal como o conceitualizamos a partir da psicanálise? Esta me parece uma das perguntas fundamentais para situar nossa interpretação sobre a época, sobre o mal estar.

Época que acrescenta a relação entre o objeto nada e a mercadoria, já que a busca por alcançar a satisfação através do consumo, através de objetos que aparecem como a panaceia da felicidade, adia uma vez e outra, a satisfação. É o cidadão consumidor-consumido, o indivíduo que caracteriza a época, que dá o clima da época.

Tradução: Mª Cristina Maia Fernandes

NOTAS:
1.Laurent, E., Psicoanálisis y salud mental, Ed. Tres Haches, Buenos Aires, 2000, p.115.
2.Ibid.
3.Miller, J-A., Un esfuerzo de poesía, Paidós, Buenos Aires, 2016, p.52.

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