Etiquetas vazias e infâncias transtornadas*

Etiquetas vazias e infâncias transtornadas*

 Lisa Erbin - EOL -AMP - “Sem titulo”. Colagem em papel.

Lisa Erbin – EOL -AMP – “Sem titulo”. Colagem em papel.

Marcela Piaggi – EOL – AMP

A multiplicação de diagnósticos que na atualidade atravessam a infância foi consolidando tratamentos generalizados, endossados pela grande influência do discurso científico-tecnológico e baseados em protocolos e estatísticas e, inclusive, com frequentes indicações de psicofármacos. Vivemos uma época em que, por um lado, classifica-se com siglas que pretendem etiquetar qualquer mal-estar que subjaz na infância e, por outro, procura-se responder com a igualdade de direitos com aparentes inclusões sociais e escolares.

Como influi este novo discurso cientificista, a biopolítica, os estandartes jurídico- sociais no decorrer da infância? Como estas novas variáveis ressoam no corpo?  Pois os corpos que chegam para nos consultar estão afetados por estas coordenadas que os atravessam: “o homem pensa com ajuda das palavras. E é no encontro entre essas palavras e seu corpo, onde algo se esboça” e onde tem a oportunidade de ser escutado por um analista; ponto de partida para obter o consentimento de quem porta uma desordem a desembaraçar, e não um transtorno nem um déficit que o etiqueta.

O atual/* do discurso psicanalítico formula que não se trata só do corpo como superfície de inscrição, mas do corpo como lugar de gozo. Tentaremos sustentar por quê a psicanálise continua sendo uma resposta necessária e eficaz, mais ainda…  nesta época!

O atual: a clínica psicanalítica

É a clínica que nos devolve, a cada vez, ao nosso ofício, o de escutar aquilo que aparece como atual. Cada época porta palavras novas que marcam de modos dissimiles, os corpos, e produzem diversas formas de gozar. Embora os sintomas se sustentem nos discursos de cada época, acima de tudo dão conta da forma na qual “lhe foi instilado um modo de falar, não pode senão levar a marca do modo sob o qual lhe aceitaram”.

Em consequência, é necessário diferenciar a atualidade ou a época, do atual. A época transfere os revestimentos que se produzem de acordo com os ideais e valores que cada momento sócio-histórico põe em jogo. O atual, ao contrário, é o invariável, a fração de real como eterno retorno. A época fornece os revestimentos simbólico-imaginários ao núcleo atual, tal como referido na metáfora freudiana do molusco, que forma a pérola ao redor do grão de areia.

O fundamento atual da psicanálise, assim como do sintoma desde Freud, reside no núcleo real – atual, inassimilável por estrutura, que não se deixa prender por etiquetas. Afirma Lacan: “O sentido do sentido, em minha prática se capta por escapar: a ser entendido como de um tonel, e não por uma debandada. (…) É por escapar (no sentido do tonel) que um discurso adquire seu sentido, ou seja, pelo fato de seus efeitos serem impossíveis de calcular.”

A época privilegia a dimensão imaginária e estimula a ilusão de que a completude ou a satisfação total são possíveis. Assim, as mudanças científico-tecnológicas inauguram novos modos de viver, instalam discursos vazios de sentido que, paradoxalmente, se apresentam como imperativos ou verdades gerais.

Freud advertiu sobre o irredutível de cada época e o atual em todo ser falante no “Mal-estar na civilização”. Opõe aos calmantes que a civilização propõe para adormecer o real do sintoma, a psicanálise. Sem lugar para as dúvidas, a época freudiana e a nossa não são iguais. O mal-estar – sempre irredutível – caracterizado pela renúncia pulsional e marcado pela ação paterna, faz parecer que esta época o promove como um empuxe baseado nas leis de mercado que tentam negar a impossibilidade.

Corpos transtornados e etiquetas vazias

O conceito de biopolítica é apresentado por Foucault nos anos ‘70. Alude à influência exercida pela política nos processos de subjetivação: “trata-se de algo que atua sobre o corpo ou sobre as coisas, força-os, abate-os, quebra-os […] o poder […] incita, induz, seduz, facilita”. Este conceito, tal como o retoma Laurent: “submete os corpos a golpes de imagens e de slogans, mas o corpo sempre escapa às identificações prontas para seu uso. O gozo o transborda, o surpreende, o traumatiza. A psicanálise acolhe este corpo, enquanto fala deste trauma”.  Devemos estar advertidos de que os que nos consultam dão a ver e  a ouvir as marcas do que ainda resiste em ser capturado por um protocolo ou  uma etiqueta.

Nos últimos anos, as instituições escolares promovem a inclusão da diversidade que apresenta a infância. Por meio da Legislação, tem-se avançado em incluir todos no comum da experiência educativa. Ser diferente não deveria ser um problema, tal é o sentido que sustentam ideais sociais que repudiam a segregação e a exclusão. Entretanto, efeitos contrários são produzidos: crianças que são incluídos com sua diversidade, como condição para sua permanência, devem ser acomodados em siglas estigmatizantes e acompanhados por assistentes. Neste contexto de empuxe à inclusão, paradoxalmente, vemos proliferar a segregação, a circulação de etiquetas: ADD, TDHA, DISLEXIA, DEA, TOD, y TEA. Estas perspectivas reducionistas, sobre a base de supostos compromissos orgânicos, avançam, e a passo firme, na indicação de tratamentos à base de psicotrópicos e programas de adestramento, com o objetivo de normalizar rapidamente, a conduta infantil. A infância perde seu caráter de uma travessia e se converte em um tempo de definições do ser.

O ato de nomear e classificar traz consequências no processo de subjetivação. A sentença descritiva que costumam implicar estas siglas termina funcionando como performativa, provocando, de alguma maneira, que se realize o resultado codificado que se anuncia.

Resistência da Psicanálise

Os nomes conformam uma parte fundamental do sistema de linguagem: “o único critério pelo qual devemos julgar um sistema de nomeação é pelos efeitos que produz seu uso”. A psicanálise tem a função de interrogar as crenças classificatórias de uma época, de uma sociedade, e sabe reconhecer a pegada que vem marcar uma nova impossibilidade de tradução de gozo.

As etiquetas diagnósticas conquistaram lugares vazios que, no contexto de todas estas mudanças sociais, se converteram em uma resposta facilitada para as dificuldades que interpelam as instituições. Sua demanda de rápida eficiência esquece a complexidade humana e a singularidade de cada sujeito. Este modo de resposta supõe práticas que ignoram o sofrimento, assim como as invenções e as soluções singulares.

A psicanálise propõe não ficar absorvido pelas totalidades, advertir que o empuxe positivista da ciência tenta homogeneizar, segregando as heterogeneidades que se apresentam desde a infância. Nosso esforço será alojar cada sujeito, a cada vez, com seu modo singular de habitar o mundo, que enriqueçam o seu ser, mas invariavelmente a partir de seu traço próprio. A posição do analista deve traduzir-se em um modo de presença que possibilite transformar o mais íntimo do sujeito em um saber fazer com o atual em cada época, possibilitando uma passagem sempre sólida e singular pelos avatares de cada tempo.

Tradução: Jussara Jovita Souza da Rosa
* Texto visto e autorizado por Claudia Lijtinstens, responsável pelo Observatório sobre políticas do autismo EOL, FAPOL.

NOTAS:
1.Lacan, J., “Conferencia en Ginebra sobre el síntoma” (1975), Intervenciones y Textos 2, Manantial, Buenos Aires, 2001, p.125.
2.Laurent, É., O avesso da biopolítica. Uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016, p. 65.
3.Lacan, J. Op. cit., p.124.
4.Freud, S., “Fragmento de análisis de un caso de histeria” (1905) Obras completas, T. VII, Buenos Aires Amorrortu, 1989, p. 73.
5.Lacan, J., “Introdução à edição alemão de um primero volume dos Escritos”.  (1973). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2003. p. 550.
6.Freud, S., “El malestar en la cultura” (1930) Obras completas, T. XXI, Buenos Aires Amorrortu, 1986, cap.II.
7.Foucault, “El sujeto y el poder” (1982) www.omegalfa.es › downloadfile › el-sujeto-y-el-poder.
8.Laurent, É., El reverso de la biopolítica, Buenos Aires, Grama, 2016.
9.ADD (Desorden por Déficit Atencional), TDHA (Trastorno por Déficit de Atención e Hiperactividad), DISLEXIA, DEA (Dificultades Específicas del Aprendizaje), TOD (Trastorno Oposicionista Desafiante), TEA (Trastorno del Espectro Autista).
10Laurent, É., Síntoma y nominación, Buenos Aires, Colección Diva, 2002, p.13.

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