Falar do inconsciente, ainda…?

Falar do inconsciente, ainda…?

Marcelo Veras - EBP-AMP - Série Tempo em preto e branco. Fotografia.

Marcelo Veras – EBP-AMP – Série Tempo em preto e branco. Fotografia.

Mónica Gurevicz – EOL – AMP

Ainda, falar do inconsciente? Pode surpreender alguns nessa época marcada pela “pressa”, “o novo do novo”, “a neurociência”, “a evidência”. Como difundir nossas Jornadas nos meios de comunicação se nos apresentou como um desafio. Como seguir falando do inconsciente, ainda…

Freud descobre o inconsciente ao escutar pacientes cujos corpos não respondiam à anatomia tal como os estuda a medicina. Eram corpos afetados por palavras, ou restos de palavras escutadas, que produziam efeitos, e esses efeitos são os afetos.

Quando Jacques Lacan dirige-se aos médicos em sua Conferência “Psicanálise e Medicina”, lhes expõe que a psicanálise se ocupa do desejo e do gozo do corpo, que é justamente o que não aparece nas imagens, nesse aparato cada vez mais desenvolvido. Mas também é interessante acrescentar que os médicos que o convidaram – era um Serviço de Nefrologia Infantil –, se haviam compreendido, era que, de acordo como os pais escutavam o diagnóstico da enfermidade de seus filhos e o que este significava para a subjetividade de cada um desses pais, mudava a relação das crianças com o tratamento e seus efeitos.

Daí que, vários anos depois, J. Lacan pôde dizer que o “mistério do corpo falante é o mistério do inconsciente”. Isso não implica em nenhum esoterismo, nenhuma experiência mística inefável. Não podemos introduzir o inconsciente em um tubo de ensaio, mas isso não implica que não tenha sua materialidade, “as provas de sua existência” se encontram nos lapsos, sonhos, sintomas. Aqueles “eventos não aparentes que as outras ciências deixam de lado por demasiadamente ínfimos, por assim dizer, a escória do mundo dos fenômenos”. Disso, seguimos nos ocupando, quando desejamos escutá-los.

Em 1908, Freud escrevia em uma carta a Jung, a partir do que fora apresentado em uma publicação científica: “esperam o bacilo ou o protozoário como se fosse o Messias que há de vir para os crentes”, esperando, assim, que o diagnóstico lhes seja mais fácil porque o obteriam de modo diferente.

Hoje, já não se fala do bacilo, mas, sim, aparecem diariamente “descobertas” do gene que daria conta dos diversos tipos de transtornos. Então, ciência ou crença no Messias?

É certo que não estamos na época de Freud, nem sequer, inclusive, na época de Lacan. Cada época gera seu mal-estar e as diversas maneiras de sua apresentação nas consultas. Também é certo que os psicanalistas na atualidade não somente estão nos consultórios; estão também nas instituições, nos hospitais – os psicanalistas argentinos são pioneiros nisso – recebendo demandas de distintos âmbitos, como as escolas, os juizados, por exemplo. Somos desafiados a estar à altura da subjetividade da época, sem prescindir de nossos conceitos fundamentais: inconsciente, transferência, pulsão e repetição. O que nos permitirá dar uma resposta singular em cada caso, que sempre é um novo caso.

Para finalizar, alguns breves parágrafos do dramaturgo argentino Mauricio Kartun, alguém que sabe fazer com as palavras e os corpos.

Errar/Erro: “Como essas coisas que estão na frente dos olhos e não vemos, tendemos ignorar que a origem da palavra erro está em errar. Esse ato inefável e delicioso de vagar. Talvez, por isso, porque vagamos, porque erramos, porque transitamos diariamente o caminho da incerteza nós, artistas, nos damos tão bem com essa palavra”.

O grão de areia: “O perfeito sistema de limpeza interna das ostras tem de vez em quando um erro e uma partícula estranha presa em seu corpo mole. Com paciência criativa reage cobrindo lentamente o grão com sua pérola. Efetivamente, uma pérola não é outra coisa que um erro transformado em preciosidade. Frente ao mesmo erro nós, homens, passaríamos anos inteiros nos queixando da má sorte e nos justificando do fracasso”.

“Todo acerto é inevitavelmente rotineiro porque somente confirma o cumprimento da norma. O erro é o único caminho para rompê-la e criar uma nova. Qualquer verdadeira novidade é, em sua primeira aparição, um erro. Errar, então, não só é humano; há que se entender. Também é divino”.

Tradução: Fred Stapazzoli


NOTAS:
1.Freud, S. “Conferencia 2 “Los actos fallidos”, en Obras Completas T.XV, Amorrortu Editores, Buenos Aires, 1978.
2.Kartun M., “Errar” en Escritos-1975-2015, Ed. Colihue-Teatro, Buenos Aires, 2015, pp. 206-207.

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