POR UM NOVO TEMPO DE INTERPRETAR …

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Difusão Jornada da Escola Psicanálise Seção Bahia

Difusão Jornada da Escola Psicanálise Seção Bahia

Analícea Calmon – EBP – AMP

Nos primórdios da psicanálise, a interpretação ocupou um lugar de destaque, ao modo de decifração, tendo como referenciais princeps, os sintomas e os sonhos.  Atravessando uma linha de tempo, configurada por 12 anos de experiência, os praticantes da psicanálise – seguindo a orientação de Freud – passaram a fazer uso do manejo da transferência, como modo clínico de produzir efeitos de interpretação.

Pouco tempo depois, Freud já dava mostras de entender o inconsciente como o lugar privilegiado de um saber a ser construído na experiência. E foi com a prática de analisar sonhos, que ele chegou a tal conclusão, enunciando, em 1915, na conferência “Premissas e técnicas de interpretação”, que “o sonhador sabe, sim, o que o seu sonho significa; apenas não sabe que sabe e, por esse motivo, pensa que não sabe”. Começamos a ver aí, uma abordagem da interpretação pelo avesso, ou seja, considerada a partir de sua ausência e posta em questão no ponto em que falta.

Continuando a percorrer a linha do tempo, chega-se aos anos 50, com as primeiras considerações de Lacan sobre a interpretação, cujo ponto de partida foi situar sua fonte na linguagem. Esta pontuação é, sobretudo, endereçada aos analistas pós-freudianos, cuja imprecisão sobre o lugar da interpretação se fazia notar, quando se propunham, por exemplo, a lhe atribuir regras.

Em lugar de procurar regras, Lacan propôs modificações na teoria da interpretação. Para tanto, começou por enunciar – ao visitar a interpretação dos sonhos, em Freud – que o deciframento significante do sonho deixa um resto que não se presta à interpretação, o que Freud, na ocasião, apontou, chamando de umbigo.

Assim, a concepção de Lacan vai se sustentando sob a égide dos poderes da palavra e dos limites do sentido. Não se trata, portanto, de um jogo de palavras sem consequências. Inclusive, à medida em que Lacan vai sedimentando sua construção teórico-clínica, vai conjugando a interpretação ao tempo, numa perspectiva lógica. Nesta vertente, a fala e a escrita se estabelecem em tempos diversos. Exemplo, entre o registro de um significante e um significado, há um tempo a ser considerado. E a perspectiva lógica se prende ao fato de que, tomando-a como referência, não se pode dizer qualquer coisa. Caso contrário, o tratamento analítico correria o risco de se ver reduzido à sugestão.

O propósito de Lacan, seguindo Freud, é manter a psicanálise distanciada de procedimentos estandardizados e aberta à contingência. Diante deste propósito, perguntamos: o que fazem da interpretação aqueles que praticam a psicanálise?

Fica claro que, ao contrário de decifrar, o analista de hoje se cala, faz silêncio, não interpreta. Nesse mesmo ponto de origem histórica, está o começo da guinada teórica de Lacan que, partindo dos poderes da palavra, tenta mostrar como delas se servir para obter efeitos de interpretação, isto é, como pela via dos significantes, atingir a pulsão, ou ainda, como a partir do simbólico, atingir o real.

Para Lacan, no Seminário RSI, onde ele trabalha os três registros – Real, Simbólico e Imaginário – sob a ótica da topologia, o efeito exigível do discurso analítico não é imaginário, nem tampouco simbólico: é preciso que seja real. É nesta linha de avanço que Lacan vai retomar as formações do inconsciente na perspectiva da alíngua, considerando a homofonia significante l’une bévue (um equívoco) / UNBEWUST (inconsciente). É este o lastro de uma nova doutrina do inconsciente que garante a subsistência da psicanálise no momento atual. O que vai interessar ao psicanalista não é a representação, mas a diferença entre os significantes que se articulam para representar o sujeito. E é justamente a introdução da diferença enquanto tal, que permite extrair da alíngua o que é do significante. Consequentemente, o significante se torna signo.

Em nada do que inscrevemos de nós mesmos no campo do Outro, podemos nos reconhecer, o que faz Lacan dizer, no Seminário 20, que o sujeito, como signo de um significante, é pontual e evanescente. E o saber que se revela vem do significante Um que, contingencialmente, destaca-se de outros, introduzindo a diferença enquanto tal. Esta perspectiva faz pensar que a intervenção do analista diz respeito a uma contingência que se refere ao Um. É assim que a função da verdade muda de valor e o todo passa a ser concebido como um deslocamento da parte. Isto é, o Significante Um (S1) instaura a ordem e a subsistência de uma cadeia significante, o que garante a articulação do sujeito com o saber. Desta forma, na dimensão do impossível, torna a verdade, um produto do “saber-fazer”, encarnando-se num significante de índice 1, enquanto meio-dizer ou semi-dizer.

Fica, então, bem marcada a distinção entre a clínica direcionada para o sentido, regida pelo significante na vertente da representação, e a clínica direcionada para o não sentido, para o gozo, regida pelo significante na vertente da diferença absoluta. O que marca a passagem de uma clínica para a outra é a introdução da categoria de semblante, anunciada no Seminário 17 e, essencialmente trabalhada no Seminário 18, quando Lacan postula que o analista deixa de operar na posição de semblante de objeto, mediante a suposição de saber, e passa a operar sem a suposição de saber. Para dizer o quê?  Segundo Miller, isto quer dizer que se atrelarmos a transferência unicamente ao SsS, veremos que diz respeito somente à face motor – de abertura do inconsciente – deixando de lado, a realidade do seu fechamento.

Podemos, então, entender que a suposição de saber pertence à categoria dos semblantes e se opõe a um objeto de gozo, que aparece em consequência do Real como impossível. Tais considerações constituem o caminho para o entendimento da transferência em conformidade com o que norteia o último ensino de Lacan, vale dizer, a inexistência da relação sexual, visto que, na perspectiva do significante, a transferência supõe uma relação. Isto significa uma reação teórico-clínica da orientação lacaniana, a tudo que se pode entender como interpretável ou articulável no inconsciente. Nesta linha, o atravessamento da fantasia promove uma revelação da fixação do sujeito a um encontro contingente com um objeto no campo do autoerotismo, o que se fundamenta no princípio de que ali, onde se esperaria algo, não há nada.

Podemos tomar como orientação ao analista, a seguinte frase: “Quando […] o espaço de um lapso já não tem nenhum impacto de sentido ou interpretação, só então temos certeza de estar no inconsciente”. Ela é vista no Prefácio à Edição Inglesa do Seminário 11, e Miller, dela se serve, para apontar a disjunção entre o inconsciente e a interpretação, o que marca o avesso do empreendimento freudiano de interpretar o inconsciente, e da tese lacaniana de 1958 sobre o desejo e sua interpretação – ambos baseados na interpretação dos sonhos. Logo, o significante do lapso é diferente do significante da interpretação e, portanto, não é um significante representativo, por estar fora de uma articulação.

Neste campo, surge o indecidível, pois o Um encarnado em alíngua é algo que resta indeciso entre o fonema, a palavra, a frase, enfim, o pensamento. O que abala as duas funções do significante – a de significar e a de representar – e nos faz entender que o que se tentou apreender no espaço de um lapso, já estava lá. Tais questões, que surgem da própria experiência analítica, colocam-nos na perspectiva do semblante, promovendo uma abertura para o Real. Para um Real sem lei – um Real disjunto do simbólico – o que vai evidenciar que a experiência analítica com base na perspectiva do Real sem lei, não se fundamenta na dimensão do todo, o que significa que, na medida em que um $ se produz, via transferência, como objeto, está se fazendo algo com nada.

Em tal estrutura, em que o limite só aparece de modo artificial, mediante um encontro contingente, é preciso levar em conta, o lugar de onde o analista intervém e os efeitos da intervenção. Vê-se, então, que, no lugar da impossibilidade de fazer existir a relação sexual, a relação transferencial se inscreve a partir de uma intervenção fundamentada numa clínica que não supõe a existência do Outro, mas considera o Um e em que a exclusão do sentido no Real é o que permite a in(ter)venção.


NOTAS:
1.Freud, S., “Premissas e técnicas de interpretação” (1915), Obras Completas, V. XV, Imago, Rio de Janeiro, 1980, p. 126.
2.Freud, S., O Seminário, Livro 22, R.S.I. (aulas de 10/12/1974 a 13/05/1975), inédito.
3.Lacan, J. O Seminário, Livro 20, Mais ainda (1972-1973), Zahar, Rio de Janeiro, 1985, p. 201.
4.Lacan, J. O Seminário, Livro 17, O avesso da psicanálise (1969-1970), Zahar, Rio de Janeiro, 1992, p. 209.
5.Lacan, J. O Seminário, Livro 18, De um discurso que não fosse semblante (1971), Zahar, Rio de Janeiro, 2009, p. 174.
6.Lacan, J. Prefácio à edição inglesa do Seminário 11 (1976), Outros Escritos, Zahar, Rio de Janeiro, 2003, p. 567-569
7.Miller, J.A., Perspectivas do Seminário 23 de Lacan, O Sinthoma (2006), Zahar, Rio de Janeiro, 2010, p. 199.

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