Psicanálise e ciência: o desejo do analista

Psicanálise e ciência: o desejo do analista

Marcelo Veras - EBP/AMP - Fotografia. Série Tempo em preto e branco.

Marcelo Veras – EBP/AMP – Fotografia. Série Tempo em preto e branco.

Maria Cecília Galletti Ferretti – EBP – AMP

Para Lacan, a psicanálise está em clara relação com sua época e isto, desde o seu surgimento: só poderia ter nascido após o aparecimento da ciência e da instauração do cogito por Descartes. No texto dos Escritos, “A ciência e a verdade”, ao circunscrever como tema, o objeto da psicanálise, Lacan retorna a pontos fundamentais do conhecimento científico: para o nascimento de uma ciência, é preciso a localização de seu objeto; a Física funda a ciência no sentido moderno; seu surgimento modifica nossa posição de sujeito; ainda não está esgotado, aquilo que concerne à vocação de ciência da psicanálise. Note-se que Lacan, ao falar do nascimento da ciência, refere-se a “um momento historicamente definido”, o século XVII.

O sujeito do cogito será subvertido, embora seja esse a ser chamado para a análise: o sujeito resultante da instauração da consciência e aquele produzido pela ciência; observemos que a problemática da consciência não havia ainda sido instaurada enquanto tal, na história da filosofia, até Descartes. Este tema será retomado por Lacan, várias vezes até, pelo menos, o Seminário 17, no qual aborda a produção dos quatro discursos, salientando o momento histórico do surgimento do discurso analítico.

A psicanálise, sendo historicamente datada, leva em conta seu tempo, fazendo com que os analistas se perguntem sobre a história do movimento analítico, as relações com os temas de sua época e, também, sobre o seu futuro: haverá, amanhã, a psicanálise? Hoje, perguntamos pelos sintomas contemporâneos e continuamos a nos perguntar pelo posicionamento da psicanálise frente à ciência; ao analista, caberá sustentar os princípios da psicanálise em seus dias.

A cientificidade da psicanálise e a subjetividade

A preocupação de Lacan com a cientificidade da psicanálise – tema que percorre seu ensino – permanece na medida em que ela é, muitas vezes, acusada de não científica. Lacan dirá, por exemplo, que não basta colocar em fórmulas uma ciência, para que o problema seja resolvido, pois, “uma falsa ciência, assim como uma verdadeira, pode ser posta em fórmulas. A questão, portanto, não é simples, uma vez que a psicanálise, como suposta ciência, aparece com características que podemos dizer problemáticas”.

A trama dos conceitos, o apelo às ciências da época, visando à transmissão e à formalização, à operatividade da psicanálise que se mostra através dos casos clínicos e do ensino do passe, a articulação entre teoria e prática, são exigências de Lacan. O século XVIII, o Século das Luzes, como ficou conhecido, caracteriza-se por uma crença na razão. Sobre isto, podemos ler na contracapa dos Escritos: “É preciso haver lido esta compilação, para constatar que aí se segue um só debate, sempre o mesmo, já que, como se faz evidente, reconhece-se por ser o debate das luzes”. Embora no século XXI, a crença na razão tenha tomado outras roupagens e seguido diferentes caminhos daqueles presentes no século XVIII, as perguntas sobre a operatividade e a ética da psicanálise permanecem.

Lacan, ao propor para a formalização da psicanálise, os matemas, embora reconhecendo que após sua escrita, as palavras que os explicarão certamente irão esbarrar nos problemas próprios da linguagem, refere-se à transmissão integral de que é capaz o matema. Leva também a cabo, importante crítica ao pensamento científico, pois indaga como deve ser o desejo do analista, para que opere no tratamento, fazendo notar que as ciências não levam em conta, o desejo. O desejo do cientista, do físico, por exemplo, só é questionado em momentos de crise. Oppheimer é lembrado, para mostrar que somente os efeitos da bomba atômica fizeram perguntar pelo desejo da física moderna. Se o filósofo também reflete eticamente sobre os resultados da ciência, o psicanalista junta à ética, a questão do desejo. Lacan nos fala “desses dramas que às vezes chegam à loucura” , de sábios que vivem o impossível das crises da ciência.

A clara relação entre a psicanálise e sua época mostra-se, ainda, nos Escritos, em seu famoso texto “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”: “Que antes renuncie a isso (ser analista), portanto, quem não conseguir alcançar, em seu horizonte, a subjetividade de sua época. Pois, como poderia fazer de seu ser, o eixo de tantas vidas, quem nada soubesse da dialética que o compromete com essas vidas, num movimento simbólico”. Podemos dizer que “a prática do analista o compromete em seu próprio ser, (…) a experiência analítica do analisando é uma experiência que não é apenas terapêutica e, sim, uma experiência ética, que coloca em questão, os fundamentos essenciais de seu destino”.

“Sua sociologia (a de Lacan), como eu (J.A-Miller) a chamei […] se deve à aprendizagem da língua. […] implica, explicitamente, que a linguagem já esteja lá. Não se enfatiza a aprendizagem. Aqui, pelo contrário, a ênfase é colocada na tecedura do aprendiz, se assim posso dizer. E deve ser entendido da maneira mais simples do mundo. Aprendemos a falar, diz Lacan, isso deixa marcas, tem consequências. Aliás, é a essas consequências que chamamos sinthoma. Aprendemos a falar e isso vem dos parentes próximos. Essa é a face do grande Outro na aprendizagem da língua, razão pela qual, há uma sociologia imediata do falasser. Por isso, o falasser é les trumains. É neles que se parafusa a sociologia de Lacan”. Por isso, diz Miller, a análise é um fato social e o ser humano é essencialmente social.

Jacques-Alain Miller se refere à publicação que fez nos Outros Escritos, do texto de Lacan, “Respostas a estudantes de filosofia”. Miller ressalta que refletiu sobre uma afirmação de Lacan e que não foi explicitada pelo próprio Lacan: haveria “um erro no começo da filosofia”. Miller afirma que este erro, provavelmente, diga respeito à autonomia do pensamento, isto é, a filosofia acredita que o pensamento é autônomo, mas “a psicanálise, por sua vez, conduz, ao contrário, a pôr o pensamento na dependência de uma perda, por ser, de algum modo, o que é representado na própria experiência” . Se a filosofia cometeu o erro de crer na autonomia do pensamento, não levando em conta a perda, a divisão do sujeito, o real, o mesmo podemos afirmar sobre a ciência, inserindo-a ao lado da filosofia.

A incidência da psicanálise sobre a sua época

A psicanálise, esta, por sua vez, incide sobre a sua época e o faz de diversas formas, dentre as quais destaco o desejo do analista; não precisa aguardar os grandes momentos de crise da ciência, como no caso de Oppheimer, para propor a questão sobre o desejo da ciência, sobre o desejo do cientista. A ciência ocupa, ela mesma, o lugar do desejo, mas “o desejo escapa como objeto da ciência, com o paradoxo de que a ciência se funda nesse objeto que a causa sem ela saber”.  “A pergunta pelo desejo do analista virá, então, identificar-se com a pergunta sobre qual é o estatuto próprio da psicanálise na ciência. Digamos que o desejo do analista é o responsável por presentificar a função do desejo inconsciente no campo da ciência e na própria atividade do cientista.”

Abordar o desejo do analista é trazer à tona, o dispositivo analítico: a análise de cada um e o “analista cidadão” produzirão efeitos em sua época. O individualismo de nossos dias, a queda dos semblantes, os efeitos da ciência na sociedade, a angústia e o sintoma do falasser encontram no dispositivo analítico, tratamento único. Dispositivo que, com suas tessituras conceituais que visam à prática e que dela também nascem, poderá fazer com que o falasser venha a “pelo menos, descobrir, admirado, como a fala afeta seu corpo e qual real intratável o agita” .

Para isto, a psicanálise conta com algo particularizado: o desejo do analista.


NOTAS:
1.Lacan, J., “A ciência e a verdade”. Escritos, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 1998, p. 870.
2.Lacan, J., O Seminário, Livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964), Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1979, p. 17.
3.Lacan, J. “A ciência e a verdade”. Escritos, op. cit., p. 884.
4.Lacan, J. “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”. Escritos, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 1998, p. 322.
5.Brousse, M.H. O inconsciente é a política, Escola Brasileira de psicanálise, São Paulo, 2003, p. 18.
6.Miller, J.A. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan. O Sinthoma, Zahar, Rio de Janeiro, 2009, p. 193.
7.Miller, J.A. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. Entre desejo e gozo, Zahar, Rio de Janeiro, 2011, p. 145.
8.Bassols, M. “Ciência e desejo”, Scilicet. Um real para o século XXI, Scriptum, Belo Horizonte, 2014, p. 62.
9.Idem.
10.Fari, P. “Lalíngua”. op. cit., p. 220.

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